quarta-feira, 7 de setembro de 2022

A lenda dos lobos de Capelins

 A lenda dos lobos de Capelins

Existiram sempre lobos em abundância nas terras de Capelins, coexistindo, sem grandes problemas, com a população de então, até que numa noite de lua cheia, acabou essa paz.
Conta-se que, à cerca de 300 anos, nas noites das fases da lua cheia surgia uma alcateia composta por 10/12 lobos, comandados à cabeça por um lobo chefe, muito diferente de todos os outros, mais encorpado, de pelo muito escuro e de grandes olhos que iluminavam a noite. Esta alcateia, nessas noites uivava e corria em grande velocidade, desde a Ribeira do Azevel, pelas margens do rio Guadiana e da Ribeira do Lucefécit, sempre dentro das terras de capelins. Não faziam mal a ninguém, mas assustavam toda a gente e principalmente os animais domésticos e não se encontrava maneira de acabar com aquele terror, até que uma noite a alcateia ao passar na herdade da Amadoreira tresmalhou um rebanho de ovelhas, obrigando o seu pastor chamado João Glize a andar dois dias para as juntar, ficando tão zangado que jurou matar aquele lobo chefe e acabar com aquelas correrias. O pastor João Glize era muito afamado no uso do arco e flecha, dizia-se que, conseguia matar qualquer ave em voo e nunca falhava um alvo, mas neste caso, era muito diferente, por ser de noite e porque os lobos passavam em grande velocidade, seria correr grande risco de vida, porque se lobo ficasse ferido, decerto que se tornaria muito perigoso. O pastor não contou a ninguém, mas estava decidido e começou por escolher o melhor lugar para enfrentar a alcateia, encontrou um bom lugar atrás de um rochedo perto do rio Guadiana, começando a treinar intensamente para estar seguro na próxima lua cheia, daí a um mês. 
Era Março e chegou a fase da lua cheia, o pastor durante os primeiros seis dias observou e simulou como devia travar o lobo chefe, verificou que, na sua passagem à frente da alcateia tinha de se concentrar no centro dos dois pontos luminosos, os olhos e apontar aí a flecha em pouco mais de um segundo. assim ao sétimo dia e ultimo da fase da lua cheia, um pouco antes da meia noite, o pastor meteu-se atrás da rocha com o arco armado com uma flecha e não esperou muito tempo, apareceu a alcateia e, como sempre o poderoso guia a ulolar, o pastor deu um salto muito rápido e ficou mesmo à sua frente, mal apontou e disparou a flecha para o lugar que ele até em sonhos já via e, o lobo chefe deu um estridente e assustador uivo e um salto de mais dois metros na sua direção, saltou por cima do rochedo e desapareceu pela ravina e os outros lobos sumiram-se! O pastor João Glize ficou sem certeza se tinha atingido o lobo em lugar mortal ou se apenas estaria ferido, podia tirar a dúvida na manhã seguinte, mas pensou em se aproximar da berma da rocha, com muita cautela, só para escutar algum sinal e como não ouvia nada foi-se chegando cada vez mais para a frente, acabando por escorregar e cair no fundo do rochedo. Na queda, bateu com a cabeça nas rochas e ficou desmaiado. Ao romper do dia, acordou, olhou em em volta e estava deitado ao lado do lobo chefe que tinha a flecha espetada entre os olhos. Ficou muito assustado e deu um salto para trás, porque reparou que o lobo tinha os olhos abertos e aqueles olhos não eram de lobo, mas de gente. Ficou a olhar e disse: Olha, ainda não está morto! E o lobo disse-lhe: - Ainda não estou morto, porque estava à espera que acordasses para te agradecer teres-me matado, já não suportava estas correrias! - Mas o lobo fala! Ou estarei morto e no outro mundo! Disse o pastor! E o lobo continuou: - Eu não sou lobo, sou o Manoel Roíze, o sétimo filho do Joaquim Roíze, e porque o meu pai não acreditava neste feitiço, não mandou um dos meus irmãos para ser meu padrinho de batismo, assim, nas fases da lua cheia transformava-me em lobisomem e andava nesse penar a noite toda. Agora, como foste tu que me mataste, vais ficar tu no meu lugar e a seguir morreu. O pastor João Glize ficou aterrado mas não acreditou. Logo na lua cheia seguinte, as correrias dos lobos continuaram guiados por um lindo lobo chefe e não pararam até à sua extinção nas terras de Capelins.

Fim 

Texto: Correia Manuel 



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