segunda-feira, 19 de setembro de 2022

Memórias do baile na herdade do Terraço, em Capelins

  Memórias do baile na herdade do Terraço, em Capelins

No início do mês de Outubro de 1940, realizou-se um baile internacional na herdade do Terraço, em Capelins,  junto ao cruzeiro que se encontra ao lado do caminho da Aldeia de Ferreira de Capelins para a Aldeia de Cabeça de Carneiro.
Num lindo dia de sol, daqueles que apetece andar pelo campo, veio a vizinha Domingas Carraço, filha da Ti Veleza, convidar as vizinhas, Jacinta e Mariana, irmãs, para irem ao feixe, (ir ao feixe, era ir à herdade das Areias, ou outro lugar de azinhal, apanhar um feixe de lenha de azinho e trazê-lo à cabeça para casa).
A Jacinta, irmã mais velha, não gostou da ideia, já era mocinha, não ficava bem sair por aí com as gaiatas, além de estarem proibidas pelo pai de ir ao feixe, mas a Mariana insistiu, dizendo que não havia mal nenhum e o pai nem chegava a saber, uma vez que andava a trabalhar e só voltava a casa à noite e mais isto e mais aquilo e lá foram as três a caminho da herdade das Areias apanhar um feixe de lenha, junto ao Ribeiro do Peral, pelo Pinheiro, Monte Novo e Terraço. 
Quando vinham de volta para a Aldeia de Ferreira de Capelins, antes da passagem do Ribeiro do Terraço, junto ao cruzeiro, ao lado de um pocinho pequeno, que nem estava empedrado e mais tarde foi entupido, ouviram vozes de mulheres a chamar por elas: - Meninas, meninas! Voltaram-se para o lado de onde ouviam as vozes e viram três mulheres que vinham num caminho que levava a Santiago Maior, não tiveram medo, porque andavam ali vários homens conhecidos a lavrar nas courelas do Terraço e pararam para saber o que lhe queriam pedir ou dizer.
As mulheres chegaram junto delas e foi quando se aperceberam que eram espanholas, falavam muito e contaram-lhe que eram da Vila de Cheles, em Espanha, para onde se dirigiam e andavam pela região para comprar algumas coisas que não existiam lá, devido aos efeitos da guerra civil de 1936 a 1939, já passado um ano, depois do fim da guerra, mas algumas pessoas continuavam a vir a Portugal a fazer à procura de produtos alimentares. 
As espanholas apresentaram-se e disseram que era a mãe e as duas filhas, não pediram nada, disseram os seus nomes e perguntaram como se chamavam e o que andavam a fazer ali. 
As raparigas pousaram os feixes de lenha e disseram os seus nomes e que tinham ido buscar lenha, a conversa continuou e as espanholas contaram várias situações da suas vidas durante a guerra civil e que tinham perdido muitos famíliares naquela guerra. 
As raparigas portuguesas não tinham nada para lhe oferecer, mas foram elas que lhe ofereceram e foi tanto que, as lembranças duraram toda a sua vida,  não foram tristezas, foi alegria.
Entre as espanholas e portuguesas, eram seis, pelo que, dividiram-se em 3 pares e armaram um baile ao ritmo do cante das espanholas que durou algumas horas, ao ponto dos trabalhadores que ali andavam a lavrar, o ti José Grilo e outros, pararam  a lavoura para assistir a tão grande festa naquele lugar. 
Depois do baile, as espanholas pegaram nos feixes de lenha à cabeça e levaram-nos até à Portela, perto do Monte Novo, mas não era esse o seu caminho, chegaram ali, pousaram os feixes de lenha, deram-lhe uns beijinhos e voltaram na direção de Montejuntos - Cheles, tudo isto, em troca de coisa nenhuma. 
Nunca mais as viram, anos mais tarde foram algumas vezes arranjar o cabelo (fazer permanente), a Cheles e tentaram encontrá-las, mas não as encontraram e disseram-lhe que há muitos anos que tinham saído para outra localidade, porque a sua família tinha morrido na guerra civil, as portuguesas, nunca mais as esqueceram. 

Fim 

Texto: Correia Manuel


Cruzeiro do Terraço


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