terça-feira, 27 de setembro de 2022

A lenda do cão leão, de Capelins

 A lenda do cão leão, de Capelins 

No dia 3 de Maio de 1962, o pai do Chiquinho de Capelins entrou em casa e disse: 

Encontrei agora ali o ti Zé Maria (zuco) e trazia um cãozinho tão bonito, gostava muito de ficar com ele! Ainda lhe o pedi, mas disse-me logo que não o dava! 

O Chiquinho deu um salto na cadeira onde estava sentado e perguntou: 

Chiquinho: Oh pai, como é que é o cãozinho? 

Pai: Olha é de raça pequena, não deve crescer muito, é malhado, branco e preto e com uma estrela na testa, muito bonito! Mas o ti Zé Maria não o quer dar! 

Chiquinho: Eh pai! Com uma estrela na testa? Era mesmo um cãozinho assim como esse que eu queria!  

Pai: Sim, querias! Mas ele não o dá, disse-me que ele, as filhas e a mulher, também gostam muito dele, por isso, fica para eles! 

O Chiquinho, ficou muito pensativo, como seria a maneira de conseguir aquele cãozinho, com uma estrela na testa! Assim que teve oportunidade subiu a rua de Capelins de Cima a correr e foi direitinho à casa do ti Zé Maria, que era "regatão" (vendedor de frutas e hortaliças), entrou e meteu logo conversa:

Chiquinho: Eh ti Zé Maria! O que está fazendo? 

Ti Zé Maria: Adeus Chiquinho! Nada, porquê? Querias alguma coisa?

Chiquinho: Não queria nada, ia aqui a passar e vinha ver se precisava que eu lhe fizesse alguma coisa! 

Ti Zé Maria: Eh lá Chiquinho! Hoje estás de mão largas! Olha, quero! Traz além a caixa de fósforos, para acender o cigarro! 

Chiquinho: É p'ra já, ti Zé Maria, tome lá! Não quer que lhe faça mais nada? 

Ti Zé Maria: Hum...cheira-me a esturro, tanta oferta! Mas agora não quero mais nada! 

Chiquinho: Oh ti Zé Maria, eu só o queria ajudar, mas se não quer mais nada, vou-me embora! Ah, é verdade, então, tem cá um cãozinho novo? 

Ti Zé Maria: Tenho, tenho e é muito bonito, trouxe-o ontem de Reguengos! 

Chiquinho: Ah sim? E nem me dizia nada! Mas quando precisa de alguma coisa não se esquece de me chamar! Onde está o cão? 

Ti Zé Maria: Não está cá! A minha Maria foi ali à casa da mãe e levou-o! 

Chiquinho: Mau, mau, se é assim tão bonito já lá deve ficar!

Ti Zé Maria: Não fica nada, porque este cão não o dou a ninguém! Já nem sei quantas pessoas o pediram!

Chiquinho: Eh ti Zé Maria! Veja lá que primeiro estou eu! Quem é que lhe faz aqui tudo o que me pede?

Ti Zé Maria: Olha que tu, não és de certeza! É conforme te dá na cabeça! 

Chiquinho: Veja lá como fala ti Zé Maria! Olhe que está sujeito a eu não lhe fazer mais nada! 

Ti Zé Maria: Cala-te Chiquinho! Eu um dia arranjo-te um cãozinho parecido com este! 

Chiquinho: Não arranja nada! É este que eu quero e mais nenhum! 

Ti Zé Maria: Não, não, este não o apanhas! 

Chiquinho: Vamos ver, ti Zé Maria, vamos ver! Até logo, lembrei-me agora, que tenho muito que fazer lá em casa! 

Como a mãe da ti Maria morava ao fundo da rua de Capelins de Cima, ao pé da estrada nova, o Chiquinho começo a correr com a ideia de ir ver o cãozinho, mas ao chegar a meio da rua encontrou a ti Maria com ele dentro de um cesto! Nem ligou à ti Maria e começou logo a fazer festinhas ao cãozinho que correspondeu como se fossem conhecidos, gerou-se logo ali uma grande amizade e o Chiquinho perguntou:

Chiquinho: Onde está a estrela ti Maria? Ele já tem nome? 

Ti Maria: Qual estrela, nem estrela! Sim, já tem nome! Chama-se leão! 

Chiquinho: Leão? Mas leão num cão tão pequeno? Leão? Pronto, está bem, é leão! 

O Chiquinho virou costas e foi a caminho de casa pensando na forma de conseguir trazer o leão para casa! Quanto à estrela, só devia brilhar à noite! Passou o resto do dia a pensar no leão, tão bonito, era mesmo o que ele queria e, quando à noitinha o pai voltou a casa, reparou logo que ele não estava bem, muito triste e perguntou-lhe:

Pai: Então, Chiquinho, estás doente? 

Chiquinho: Eu desconfio que sim! 

Pai: Então, o que te dói? 

Chquinho: Oh pai, doer, doer, não me dói nada, mas desconfio que estou muito doente! 

Pai: Mau, mau, então estás muito doente e não te dói nada? Afinal o que é que tens? 

Chiquinho: É por causa do cãozinho do ti Zé Maria, já o vi, é tão bonito, era mesmo o que eu queria! Chama-se leão, mas se ele não o quer dar, como é que fazemos? 

Pai: Eu vou lá falar com ele, pode ser que, quem lhe o deu lá em Reguengos tenha mais e lhe arranje outro para ele e ficávamos a gente com este! 

Chiquinho: Que bom, que bom, que bom! O leão é tão bonito! 

O pai do Chiquinho depois de tratar do gado foi falar com o ti Zé Maria, esteve para lá quase uma hora, até que voltou com o leão ao colo, o Chiquinho foi a correr ao encontro do pai e perguntou: 

Chiquinho: Então pai, o leão já é nosso?  

Pai: É nosso é! Mas foi muito difícil convencer o ti Zé Maria! 

Chiquinho: Nunca pensei, como é que o convenceu a dar-mos o leão? 

Pai: Eu disse-lhe que tu gostavas muito dele, que estavas doente por causa do cão, que ele arranjava outro lá em Reguengos e mais isto e mais aquilo e acabámos por negociar! Disse-me que deu sete e quinhentos pelo cãozinho! Olha, acabou por me pedir dois litros de grãos, mas fechamos o negócio por um litro, mesmo agora lá os vou levar! 

Chiquinho: Vá, vá e leve-lhe muitos grãos, não nos tire ele o leão! 

Pai: Não tira, não! É um litro de grãos e mais nada! 

O pai do chiquinho foi entregar o litro de grãos ao ti Zé Maria por troca do leão que, passou a ser a paixão da casa, onde ficou durante muitos anos, até ao dia que desapareceu sem deixar rasto, deixando toda a família muito triste, terminando, assim, a lenda da troca do cão leão por um litro de grãos. 

Fim 

Texto: Correia Manuel 




 


Sem comentários:

Enviar um comentário

Vila de Monsaraz, 750 anos do seu Foral Afonsino

  Vila de Monsaraz, 750 anos do seu Foral Afonsino 1. Na pré história está registado, Que no topo de uma colina, Existia um povoado, Por cim...