sábado, 12 de setembro de 2026

As lendárias Fontes de Água, da Freguesia de Capelins

 As lendárias Fontes de Água, da Freguesia de Capelins 

Antigamente, não existiam poços de água na Freguesia de Capelins, os gados bebiam nos pegos das Ribeiras de Lucefécit de Azevel ou no rio Guadiana, alguns tinham bons nascentes e, as pessoas bebiam água nos regatos e nas Fontes que existiam por toda a Freguesia, tendo estas estruturas grande importância etnográfica e histórica.

Estas Fontes, não tinham bicas nem ornamentos, algumas eram abertas junto a rochas de xisto que filtravam e deixavam escorrer a água para pequenas concavidades, outras eram abertas em lugares onde a água aflorava em abundância ao cimo da terra e, podiam ter pouco mais de meio metro de fundo, sendo quase todas construídas por ganadeiros, ou por pessoas que trabalhavam ou residiam na região e que precisavam da sua água para eles e famílias, mas também saciavam a sede aos que passavam e nelas bebiam e enchiam o barril ou outras vasilhas para levar nas viagens entre localidades, Montes, herdades e até nos percursos entre a Espanha. 

A maioria das Fontes da Freguesia de Capelins, situavam-se nos Vales da Ribeira de Lucefécit e do rio Guadiana, mas também existiam algumas, perto da Aldeia de Ferreira, e uma na serra ou planalto da Sina.

Algumas Fontes, eram bem construídas, com partes em alvenaria, faziam-lhes paredes em pedra de xisto e de quartzo leitoso, a que chamavam panedro ou penedo macho, era difícil de nivelar as paredes por serem blocos muito irregulares, mas não sofria alterações, mesmo estando dentro de água durante séculos, essas paredes vinham desde o fundo da Fonte até alguns centímetros acima do nível da terra, e eram, quase todas, encimadas por uma laje de xisto, ficando apenas uma abertura na sua frente para as pessoas poderem chegar à água, mas existiam outras muito simples, de pouca profundidade, feitas com laje de xisto em redor e uma por cima, com uma abertura em frente, e jorrava água em abundância.

As Fontes tinham todas alguma verdura em redor, como mentrastes e outras plantas verdes, que denunciava a sua existência, assim como as pedras que as protegiam, sendo lugares de convívio, entre as pessoas que ali paravam a beber e a comer alguma bucha, e ali trocavam notícias de todo o lado.

Na Freguesia de Capelins, desde tempos remotos, existiram mais de vinte Fontes de água, umas mais antigas, outras mais recentes, mas atualmente apenas existe a Fonte da Sina, das restantes ficou a memória e a história, que fazem parte da identidade da comunidade da Freguesia de Capelins.

A seguir descrevem-se os nomes, onde se situavam, como era o acesso, quando e quem as fez, a origem do nome, como eram em termos de dimensões, os materiais usados, a quantidade e qualidade da água, e alguma história de mais de vinte Fontes de água,  que há notícias na Freguesia de Capelins: 

1 - Fonte do Mau Passo:

Situada no Vale da Ribeira de Lucefécit, na herdade da Defesa de Ferreira de Cima, chamada herdade da Casa Rendeira, ao fundo do outeiro alto, junto ao ribeiro do castelo, do lado esquerdo da estrada no sentido de Capelins para a Aldeia do Rosário, o acesso era por uma vereda a partir do caminho que descia/subia paralelo ao dito ribeiro. 

Os ancestrais contavam que, esta Fonte existia desde a época romana, logo, teria sido feita pelos romanos, confirmado nas pedras que a circundavam, que eram iguais às usadas no Forte, tinha pequenas dimensões, era pouco profunda e, estava empedrada com pedras de xisto e de quartzo leitoso, encimadas com uma laje de xisto, para a proteger dos animais e da entrada de impurezas, com uma abertura para poderem chegar à sua água e, por onde ela corria para o ribeiro. 

A Fonte do "Mau Passo" constava nas antigas rotas de pastoreio e transumância, onde os pastores se abasteciam de água potável com qualidade e segurança, o nome peculiar "Mau Passo" pode estar associado a antigos acidentes geográficos, caminhos outrora difíceis de transitar ou a antigas lendas locais que marcam a identidade e a tradição oral, neste caso, das Gentes de Capelins.

Existem algumas lendas populares associadas a esta Fonte, diziam que, noutros tempos, durante algumas noites viam vultos de pessoas em seu redor, que se esfumavam e desapareciam quando alguém se aproximava. 

A Fonte do Mau Passo, tinha um bom nascente, produzia muito boa água e abastecia, ganadeiros, trabalhadores da região, caçadores, guardas republicanos, e todas as pessoas que por ali passavam. 

Lugar da Fonte do Mau Passo - Capelins





2 - Fonte do Castelo ou dos Castelinhos: 

Situada no Vale da Ribeira de Lucefécit, na herdade da Defesa de Ferreira de Cima, na margem direita do ribeiro do castelo, por baixo do Forte romano de Ferreira e da grande rocha ferrosa, o acesso não era fácil, as pessoas tinham de descer e subir a barreira da margem do ribeiro cerca de três metros, por uns socalcos improvisados de escadinhas, porque a Fonte situava-se no fundo do ribeiro. 

Os ancestrais diziam que, esta Fonte era da época romana, ou de antes, porque esta zona é amplamente reconhecida pela sua riqueza histórica e arqueológica, ligando-se a importantes vestígios do passado na região, sendo encontrados neste sítio, artefactos da Idade do Ferro, ou seja, dos Celtas e Celtiberos, a sua designação de Fonte do castelo ou dos castelinhos, era por estar junto do Forte a que chamavam castelo ou castelinhos, tinha pequenas dimensões, pouco profunda, com paredes de pedras iguais às usadas no Forte e parte em rocha ferrosa por onde escorria a água férrea, coberta por cima com uma laje de xisto, impregnada na barreira, ficando bem protegida dos animais e da queda de detritos para o seu interior.

Como a sua água, por vezes, tinha laivos ferrosos, que lhe dava sabor a ferro, era apreciada por algumas pessoas que achavam lhes fazia bem, mas não era por outras, tinha um bom nascente, estando a sua água sempre a correr para o ribeiro, abastecia, ganadeiros, trabalhadores da região, caçadores, e todas as pessoas que por ali passavam.

Também existem lendas populares associadas a esta Fonte do Castelo, diziam que, a sua água passava por um tesouro dos romanos e o segredo para lhe deitarem a mão estava dentro da Fonte e algumas pessoas tentaram tudo, até arrancar a dita rocha, para chegarem ao tesouro, mas as ferramentas partiam-se todas e nunca conseguiram, agora, a zona da Fonte está entulhada e no inverno fica submersa pelas águas da Albufeira de Alqueva e o tesouro lá está esquecido.


A Fonte do Castelo ou Castelinhos situava-se no Ribeiro, por baixo desta rocha ferrosa. 












3 - Fonte do Cascalheira: 

Situada no Vale da Ribeira de Lucefécit, na herdade da Defesa de Ferreira de Cima, no início do vale onde apartavam os caminhos para os Portos das Águas Frias de Cima e de Baixo, no lado direito no principio da encosta, o acesso era feito por uma vereda a partir do caminho do Porto da Águas Frias de Baixo.

Esta Fonte foi aberta pelo encarregado das minas existente nesta região na década de 1940, ficando o seu nome, "Fonte do Cascalheira" fortemente ligado à memória de quem a mandou construir, tinha pequenas dimensões, estava muito bem arranjada, com as paredes empedradas e alguns materiais de alvenaria, protegida contra os animais e entrada de impurezas. 

A Fonte do cascalheira tinha bom nascente, boa água e em abundância e destinava-se a fornecer água aos trabalhadores das minas, mas também aos ganadeiros, caçadores e a todas as pessoas que por ali passavam. 

Neste vale, passava uma via romana que servia, também a actividade mineira oriunda, pelo menos desde Capelins, que ia atravessar a Ribeira de Lucefecit junto do fortim romano do Outeiro dos Castelinhos, no Porto das Águas Frias de Baixo, seguindo por Rosário, Mina do Bugalho, S. Brás dos Matos e Juromenha onde atravessava o Guadiana e seguia para Mérida, que era a capital da província romana da Lusitânia, por isso, decerto existiram, por aqui, outras Fontes de Água, para abastecimento das caravanas que aqui passavam nessa época. 


Vale onde se situava a Fonte do Cascalheira, do lado direito, caminho do Porto das Águas Frias de Baixo




 









4 - Fonte do Ti Mutchaco: 

Situada no Vale da Ribeira de Lucefécit, na herdade da Defesa de Ferreira, ou herdade da Casa Dias, no vale de enxofre, junto ao caminho para o Moinho das Neves e outras direções, o acesso era feito por uma curta vereda a partir do dito caminho.

Esta Fonte foi construída pelo Ti Mutchaco, de nome Angelo, um espanhol que veio para Capelins com seis anos, fugido da guerra civil de Espanha de 1936/39 e ficou muitos anos a trabalhar na Casa Dias, por vezes, naquela região, por isso, a construiu, esta Fonte era pequenina e pouco profunda, muito simples, tinha duas lajes de xisto laterais, uma atrás e outras por cima, bem talhadas, para a protegerem dos animais e das impurezas, com abertura em frente para dar acesso à água e por onde ela corria para o Ribeiro das Neves.

Esta Fonte tinha boa e abundante água que saciava a sede aos ganadeiros,  moleiros, caçadores, trabalhadores da região e a todas as pessoas que ali passavam, para um e outro lado da Ribeira de Lucefécit, do Moinho das Neves ou da herdade de Santa Luzia e de outras que ficam naquela direção.


Ribeiro das Neves, vale de enxofre, onde se situava a Fonte do Ti Mutchaco, lá mais acima



 









5 - Fonte do Ti Xico do Sobral: 

Situada no Vale da Ribeira de Lucefécit, na herdade da Defesa de Ferreira, quase a meia distância, entre o caminho direto ao Monte de Ferreira e o Vale de enxofre, o seu acesso era por uma vereda ao lado esquerdo desse caminho antes do altinho de onde se avistava o Monte de Ferreira.

Esta Fonte foi construída pelo Ti Xico do Sobral, na década de 1960, por isso, ficou conhecida pelo seu nome, ele era o guarda campestre ou florestal da herdade da Casa Dias e zelava pela Fonte, tinha pequenas dimensões, estava escavada em terra, de pouca profundidade, muito bem arranjada e limpa, empedrada com pedras de xisto e de quartzo leitoso e uma laje por cima, para proteção da sua água contra animais e entrada de impurezas.

A Fonte do Ti Xico do Sobral era pouco conhecida, mas tinha água muito boa e dava de beber ao seu construtor, aos ganadeiros, aos trabalhadores da região e a quem por ali passava e sabia da sua existência.

A Fonte do Ti Xico do Sobral era antes de chegar ao Monte de Ferreira no sentido O-E. vindos do lado da Aldeia de Ferreira. 



 









6 - Fonte do Ti Zé Matuto: 

Situada no Vale da Ribeira de Lucefécit, na herdade da Defesa de Ferreira, a sul do Moinho das Neves, junto à Ribeira de Lucefécit, na direção da Ermida de Nossa Senhora das Neves, onde o Ti José Matuto residia com a sua Família, na casa anexa à Ermida, o seu acesso era por veredas, de várias direções.

Esta Fonte foi construída pelo Ti José Matuto, nos decénios de 1940/50, por isso, era conhecida pelo seu nome, tinha pequenas dimensões, escavada em terra e rocha, de pouca profundidade, empedrada com pedras de xisto e quartzo leitoso e com uma laje de xisto por cima, para proteção da sua água contra animais e impurezas.

A Fonte do ti José Matuto tinha água muito boa, e um bom nascente, cuja água corria para fora, abastecia a sua casa, e dava de beber aos ganadeiros, moleiros, caçadores, trabalhadores da região e a todas as pessoas que por ali passavam. 


A Fonte do Ti Zé Matuto era nesta região, abaixo do Moinho das Neves 





 








7 - Fonte do Ti Inácio da Junqueira:

Situada no Vale da Ribeira de Lucefécit, na herdade da Defesa de Ferreira, a sul do Monte de Ferreira, a caminho do Monte do Escrivão, do lado esquerdo para o lado da Ribeira de Lucefécit, no vale, antes da subida acentuada para este Monte, onde fazia a separação das folhas da terra a de alqueve e a de semeadura, o seu acesso era por uma vereda a partir do dito caminho entre o Monte de Ferreira e o Monte do Escrivão.

Esta Fonte foi construída pelo Ti Inácio da Junqueira, nos decénios de 1940/50, quando era Ganhão na Casa Dias, ou seja, responsável pelos bois de trabalho e mais tarde vaqueiro, por isso, era conhecida pelo seu nome, tinha pequenas dimensões, escavada em terra e rocha, de pouca profundidade, empedrada com pedras de xisto e de quartzo leitoso e com uma laje por cima, para proteção da sua água, contra animais e entrada de impurezas. 

A Fonte do ti Inácio da Junqueira, tinha água muito boa, e um bom nascente, cuja água corria para fora, abastecia, ganadeiros, trabalhadores da região, caçadores, e todas as pessoas que por ali passavam. 


A Fonte do Ti Inácio da Junqueira era perto deste lugar, antes de chegar ao Monte do Escrivão N-S à esquerda.

 









 




8 - Fonte da Torre: 

Situada no Vale da Ribeira de Lucefécit, na propriedade da Torre, perto do Moinho do Bufo, da Ribeira de Lucefécit e do caminho, muito movimentado, entre Capelins e a herdade e o Monte de Santa Luzia e de outros Montes e herdades naquela direçáo, o acesso era por veredas entre ela e os caminhos mais próximos.
Esta Fonte era muito antiga, não se sabe por quem foi construída, era conhecida pelo nome de Fonte da Torre, o mesmo da propriedade onde se situava, tinha dimensões regulares, escavada em terra e rocha, de pouca profundidade, com paredes laterais e atrás feitas em pedras de xisto e de quartzo leitoso e com uma laje por cima, para proteção da sua água contra animais e entrada de impurezas, com uma abertura virada para a Ribeira de Lucefécit por onde chegavam à sua água. 
A Fonte da Torre produzia água muito boa, tinha fama na Freguesia, e um bom nascente, abastecia os ganadeiros, moleiros, trabalhadores da região, caçadores, e toda a gente que por ali passava ou ali se dirigia propositadamente. 
A Fonte da Torre era um elemento patrimonial e etnográfico muito importante na Freguesia de Capelins, destacava-se, principalmente pela sua forte ligação à identidade comunitária local, sendo cenário de narrativas do imaginário popular, com lendas relacionadas com feiticeiras que, também recorriam aqui a saciar a sede.
Os ancestrais diziam que, a água desta Fonte era milagrosa, quando alguém perdia o apetite, se bebesse água da Fonte da Torre, depressa ficava cheio de fome, pelo que, a sua água curava o fastio.

A Fonte da Torre situava-se muito perto deste lugar, na propriedade da Torre 





















9 - Fonte da Lesma: 

Situada no Vale da Ribeira de Lucefécit, na herdade do Roncão Novo, perto da Ribeira de Lucefécit, ao fundo do vale que fica atrás do Monte desta herdade, o seu acesso era feito pelo caminho que descia do Monte do Roncão Velho para o Rio Guadiana, mas havia outro caminho e veredas noutras direções.
Esta Fonte era muito antiga, decerto da época romana, porque a sul, na parte mais alta existem ruínas dessa época, e fizeram muita exploração mineira nesta área, até à Amadoreira, não foi encontrada explicação para a sua designação, mas devia estar ligada à abundância de lesmas naquela área e visitavam a Fonte, tinha alguma dimensão, decerto foi aprofundada em alguma  altura para obtenção de mais água, porque mais acima existiu uma indústria de fabrico de tijolos, telhas e baldosas, com muitos trabalhadores, era escavada em terra, com as paredes laterais e atrás empedradas com pedras de xisto e quartzo leitoso, com uma laje de xisto por cima, para proteger a sua água contra animais e entrada impurezas.. 
A Fonte da Lesma tinha água muito boa, e um bom nascente, abastecia, ganadeiros, trabalhadores da região, contrabandistas, guardas fiscais, guardas republicanos, pescadores, caçadores, e todas as pessoas que por ali passavam, ou iam lá a propósito a beber e a encher os barris de barro, de água. 
A Fonte da Lesma era um lugar histórico e lendário e fazia parte do rico património imaterial e cultural da região, ligando-se à geografia local e ao imaginário popular da Freguesia de Capelins.

A Fonte da Lesma situava-se um pouco a Norte deste lugar na herdade do Roncão Novo



10 - Fonte das Azenhas D'El-Rei:

Situada no Vale do Ro Guadiana, nas Azenhas D' El-Rei, entre a casa do Ti José Rito e os Moinhos das Azenhas D'El-Rei, estava metida no desnível do terreno, tinha bom acesso, porque ficava junto à passagem das pessoas entre os Moinhos, o rio Guadiana e Espanha.
A Fonte das Azenhas D'El-Rei era muito antiga, porque neste lugar, existia um importante Porto de passagem do Rio Guadiana entre Espanha e Portugal desde sempre, tal como um Moinho desde o reinado de D. Dinis, cerca de 1320, logo os moleiros e quem por ali passava, tinham de ter água potável, tinha dimensão média, decerto recuperada ao longo dos séculos, com paredes de pedra de xisto, trabalhada em alvenaria e com grande abertura na frente para as pessoas chegarem à água.
Esta Fonte tinha bom nascente e, quando o rio Guadiana tomava grandes cheias ficava submersa, logo a sua água era misturada com a do rio durante muito tempo, mas abastecia, ganadeiros, moleiros, trabalhadores da região, pescadores, caçadores, guardas fiscais, guardas republicanos, contrabandistas, e toda a gente que por ali passava, ou quando iam lá mandar fazer farinha ou pescarias a que chamavam paródias.
A Fonte das Azenhas D'El-Rei era um ponto de interesse marcadamente local e comunitário, muito ligada à identidade e à memória etnográfica da população da Freguesia de Capelins e desta zona rural raiana. 

Azenhas D'El-Rei, a Fonte ficava quase em frente ao Moinho
 




 









11 - Fonte do Frade: 

Situada no Vale do Ro Guadiana, junto ao Ribeiro da Amadoreira, perto do Moinho do Bolas ou Raínho, debaixo de uma grande figueira, com acesso por veredas de várias direções. 
Conta-se que, a Fonte do Frade, foi aberta por um frade da pobre vida, dos que estiveram isolados na serra d'Ossa e que desceu até ao rio Guadiana, ficando por ali algum tempo, as suas paredes eram empedradas com pedra de xisto e de quartzo leitoso, e imitava uma casinha, com grande abertura pela frente para chegarem à água.
A lenda do frade da pobre vida que abriu esta Fonte, pode ter fundamento, uma vez que, existe outra lenda que atesta a sua existência, pelo menos, desde antes de 1500, porque, os ancestrais contavam que, no primeiro decénio de 1500 o rei D. Manuel I, andava a caçar nesta região, ali na herdade do Roncão, estava muito calor e já não tinham água e os couteiros levaram o rei a beber a esta Fonte, e como ele estava com muita sede, achou a água tão boa que ordenou logo que a Fonte fosse bem arranjada e que lhe fossem colocadas ombreiras em mármore e, de verdade, lá estavam as ditas ombreiras.
Esta Fonte tinha bom nascente, e a sua água tinha fama de ser muito boa e abastecia, ganadeiros, moleiros, trabalhadores da região, guardas fiscais, contrabandistas, pescadores, caçadores, e toda a gente que por ali passava, ou quando iam ali fazer pescarias a que chamavam paródias, no Moinho do Bolas. 

A fonte do Frade ficava perto deste lugar, no Bolas


















12 - Fonte do Ti Zé Milreu ou do Mirreu: 

Situada no Vale do Ro Guadiana, na herdade da Defesa de Bobadela de Cima, da Casa Dias, na direção do final da ilha da Cinza, com acesso por uma vereda junto ao rio Guadiana.
Esta Fonte foi aberta ou recuperada pelo Ti José Milreu, ao qual, chamavam Zé Mirreu, decerto, alcunha que ganhou  por alguma ligação ao Monte e herdade de Milreu, situada nesta mesma direção, lá mais para montante, também junto ao rio Guadiana, esta Fonte, fazia parte do património rural e etnográfico desta região e estava fortemente ligada à identidade comunitária e à história das herdades e caminhos de contrabando que cruzavam o rio Guadiana, tinha pequenas dimensões, estava escavada em terra, de pouca profundidade, bem arranjada e limpa, empedrada com pedras de xisto e algumas pedras de quartzo leitoso e com uma laje de xisto por cima, para proteção da sua água, contra animais e entrada de impurezas. 
A Fonte do Milreu ou Mirreu tinha água muito boa, dava de beber aos ganadeiros, moleiros, caçadores, trabalhadores que andavam na região, guardas fiscais, contrabandistas, pescadores, às pessoas que por ali passavam e às que iam fazer paródias na barraca do Ti Tonico da Cinza.

A Fonte do Milreu ou Mirreu situava-se na direção do final da ilha da Cinza que começava neste lugar






13 - Fonte do Cão: 

Situada no Vale do Rio Guadiana, na herdade da Defesa de Bobadela de Cima, da Casa Dias, por baixo de um esporão pouco acentuado, sobre o rio Guadiana, no sítio chamado Espinhaço de Cão, mas acabou por ser conhecida por Fonte do Cão, sendo o acesso feito por veredas a partir de um antigo caminho para o rio Guadiana. 
Esta Fonte era muito antiga,  porque neste sítio foi reconhecido um importante povoamento da Idade do Ferro, do período proto-histórico anterior à ocupação romana, os relatórios arqueológicos da região associam o lugar a achados do Neolítico, Calcolítico e da Idade do Ferro, constando de um habitat rural, implantado num esporão pouco pronunciado sobre o rio Guadiana, estruturas habitacionais, correspondentes a várias fases de construção e de reconstrução, com plantas ortogonais, como também, habitat da época neo-calcolitica, onde à superfície foram identificados vários seixos e lascas e um fragmento de sílex, nas proximidades foi identificado um machado de pedra polida, a Fonte que, decerto abastecia esta comunidade de água potável, tinha pequenas dimensões, estava escavada em terra e rocha, de pouca profundidade, bem arranjada e limpa, empedrada com pedras de xisto e, algumas pedras de quartzo leitoso e com uma laje de xisto por cima, para proteção da sua água, contra animais e entrada de impurezas. 
A Fonte do Cão tinha água muito boa, dava de beber aos ganadeiros, moleiros, caçadores, trabalhadores que andavam na região, guardas fiscais, contrabandistas, pescadores, às pessoas que por ali passavam e às que iam fazer paródias para o Moinho da Cinza, ou nos Moinhos Novos. 

Neste mapa podemos verificar que Espinhaço de Cão, logo a Fonte do Cão, ficava por baixo de Espinhaço de Cabra, junto ao Ribeiro do Maruto.

 


 



















14 - Fonte do Calça: 
Situada no Vale do Rio Guadiana, na herdade da Defesa de Bobadela de Baixo, no socalco de um pequeno afluente do rio Guadiana e do Moinho a Moinhola, sendo o acesso feito por veredas de várias direções.
A Fonte do Calça era muito antiga, porque em toda esta região existiram vários Povoados do período neollítico, calcolítico e Idade do Ferro, pelo que, esta Fonte devia abastecer esta comunidade de água potável, mas deve ter sido recuperada mais tarde por algum ganadeiro, caçador ou contrabandista que, por ter uma vida económica desafogada tinha a alcunha do "calça larga", uma vez que, só os ricos usavam as calças largas, porque gastavam mais tecido, mas mostravam a sua diferença em relação aos pobres, depois, acabou por ficar somente Fonte do Calça, tinha pequenas dimensões, estava escavada em terra, de pouca profundidade, bem arranjada e limpa, empedrada com pedras de xisto e algumas pedras de quartzo leitoso e com uma laje de xisto por cima, para proteção da sua água, contra animais e entrada de impurezas. 
A Fonte do Calça tinha alguma relevância, porque é a única da Freguesia de Capelins, das que ficaram submersas na Albufeira de Alqueva, que consta no Diário da Republica número 4446, publicado em 13 de Maio de 2002, sobre o reconhecimento oficial dos sítios arqueológicos do refolgo do Alqueva, e junto dela, estão restos de habitações classificadas de grau médio, na classificação da sua importância que vai é de reduzido, médio e elevado.
Esta Fonte, tinha água muito boa e, dava de beber aos ganadeiros, moleiros, caçadores, trabalhadores que andavam na região, guardas fiscais, contrabandistas, pescadores, e a todas as pessoas que por ali passavam. 

A Fonte do Calça situava-se ao fundo deste lugar, na Defesa de Bobadela de Baixo, perto do Moinho a Moinhola
 




15 - Fonte de Miguéns ou dos Guardas Fiscais:

Situada no Vale do Ro Guadiana, na herdade do Roncanito entre o posto da Guarda Fiscal de Miguéns e o Moinho de Miguéns a cerca de duzentos metros do rio Guadiana, o seu acesso era feito por veredas de várias direções, sendo a principal a da ligação ao dito posto e casas dos guardas fiscais que ficavam no outeiro.
A Fonte de Miguéns era muito antiga, embora, tivesse sido reconstruída ao longo dos séculos, pelos ganadeiros e, talvez pelos guardas fiscais, porque, existem registos arqueológicos de um povoado da Idade do Ferro neste lugar e, também, foram aqui encontrados artefactos do terceiro milénio antes de Cristo, logo com mais de 5.000 anos, pelo que, esta Fonte ou outra nas imediações, abastecia essa comunidade, tinha pequenas dimensões, estava escavada em terra, de pouca profundidade, bem arranjada e limpa, empedrada com pedras de xisto e algumas pedras de quartzo leitoso e com uma laje de xisto por cima, para proteção da sua água, contra animais e da entrada de impurezas. 
Esta Fonte, tinha água muito boa e, embora tivesse muito consumo, raramente secava, dava de beber aos guardas fiscais e suas famílias, a ganadeiros, moleiros, caçadores, trabalhadores que andavam na região, pescadores, e a todas as pessoas que por ali passavam. 

A Fonte de Miguéns ou dos Guardas Fiscais situava-se ao fundo deste lugar, do lado direito, a cerca de duzentos metros do Rio Guadiana 


















16 - Fonte da Malhada da Serra das Carochas: 

Situada no Vale da Ribeira de Azevel, na herdade do Roncanito, no sopé da serra das carochas, entre o Monte dos Caldeirões e a Ribeira de Azevel, sendo o seu acesso por veredas em várias direções a partir de caminhos antigos.
A Fonte da Malhada da serra das carochas era muito antiga, há notícias que, constava na rota da transumância, quando os rebanhos passavam para as pastagens a sul e de volta, era uma das Fontes onde os pastores se abasteciam de água e, como sabemos, existia aqui o Baldio do Roncanito, da Câmara de Terena, cujas pastagens, também se destinavam aos gados passantes, nesta região existiram vários povoados desde a pré história, logo, decerto abastecia essas comunidades de água potável, tinha pequenas dimensões, escavada em terra e rocha, de pouca profundidade, estava bem arranjada e limpa, empedrada com pedras de xisto e algumas pedras de quartzo leitoso e com uma laje de xisto por cima, para proteção da sua água, contra animais e a entrada de impurezas, mais tarde, por necessidade de mais água naquela região, a Fonte foi alargada e aprofundada e passou a ser um pocinho.
Esta Fonte, fazia parte do património rural e etnográfico da Freguesia de Capelins, representando as antigas dinâmicas comunitárias de abastecimento de água nesta região.
A Fonte da Malhada da serra das carochas, tinha água muito boa e, dava de beber aos ganadeiros, caçadores, trabalhadores que andavam na região, contrabandistas, e a todas as pessoas que por ali passavam. 

A Fonte da Malhada da Serra das Carochas situava-se a Norte deste lugar, mais para o lado da Ribeira de Azevel 







17 - Fonte da Sina: 

Situada no planalto ou serra da Sina na parte Nordeste com vistas para a Aldeia de Faleiros e para a Vila de Terena, sendo o acesso feito por veredas de várias direções a partir de caminhos antigos, mas as mais movimentadas eram as que a ligavam ao Lugar da Igreja de Santo António de Capelins e ao Monte da Sina.
A Fonte da Sina é muito antiga, embora tenha aparência de ser recente, porque foi recuperada e, atualmente tem partes em alvenaria moderna com uma pequena porta ou janela que se mantém fechada, o local onde se encontra reveste-se de grande interesse histórico, arqueológico e etnográfico para esta região, porque esta área alberga um importante povoado arqueológico que remonta ao período Calcolítico (Idade do Cobre), conforme as escavações e vestígios encontrados aqui, como cerâmicas manuais, pesos de tear e instrumentos de pedra, há indicações que a Fonte da Sina seria o ponto de abastecimento de água crucial para esta antiga comunidade há milhares de anos e mais tarde era uma das principais Fontes de abastecimento de água potável aos habitantes do Lugar de Santo António. que fica a 200/300 metros dali. 
Esta Fonte faz parte do imaginário e da tradição oral da população local, estando, fortemente associada a várias lendas, como a de um tesouro, que de verdade, no decénio de 1940 foi encontrado perto dela, parte do dito tesouro, uma panela cheia de moedas muito antigas de valor desconhecido.
Esta Fonte, tinha/tem água muito boa e, dava de beber aos moradores das casas junto à Igreja de Santo António e da Aldeia de Ferreira, aos ganadeiros, caçadores, trabalhadores que andavam na região, e a todas as pessoas que por ali passavam.

A Fonte da Sina, situa-se aqui na serra da sina, mais abaixo deste lugar, à direita


















18 - Fonte do Cebolal: 

Situada num assentamento a meio da encosta entre o Monte da Igreja e o Monte do Cebolal do Ti Varandas, um pouco à direita, sendo o acesso feito por uma vereda a partir da estrada principal e ligava à Igreja de Santo António de Capelins.
A Fonte do Cebolal era antiga, os ancestrais desconheciam quem a tinha feito, o termo "Fonte do Cebolal" referia-se à conhecida área de propriedades denominadas Cebolal, tinha pequenas dimensões, estava escavada em terra, de pouca profundidade, bem arranjada e limpa, empedrada com pedras de xisto e algumas pedras de quartzo leitoso e com uma laje de xisto por cima, para proteção da sua água, contra animais e da entrada de impurezas. 
Esta Fonte, tinha água muito boa, mas o seu nascente não aguentava o verão, no entanto, até ao meio do estio, dava de beber aos moradores dos Montes que ficam mais perto, aos trabalhadores que andavam naquela área e a todas as pessoas que por ali passavam, principalmente os fiéis que iam assistir às missas nos Domingos, à Igreja de Santo António de Capelins. 

A Fonte do Cebolal situava-se perto deste lugar, mais abaixo, à esquerda 


















19 - Fonte do Gomes: 

Situada no vale do Gomes, a cerca de 200 metros abaixo do poço do Ti José Anão, depois do Ti António Fura, com acesso por uma vereda a partir da estrada entre as Aldeias de Ferreira e Rosário. 
A Fonte do Gomes era antiga, os ancestrais diziam que sempre ali a conheceram, ficava no espaço geográfico, antigamente pertencente à Câmara da Vila de Ferreira, tinha dimensões médias, comparada com a maioria das Fontes aqui descritas,  estava escavada em terra, com cerca de um metro, ou mais, de profundidade, bem arranjada e limpa, empedrada com pedras de xisto e algumas pedras de quartzo leitoso e com uma grande laje de xisto por cima, para proteção da sua água, contra animais e entrada de impurezas. 
Esta Fonte, tinha boa água, dava de beber aos moradores dos Montes que ficam mais perto, aos da Aldeia de Ferreira, e a todas as pessoas que por ali passavam, mais tarde abriram muitos poços em seu redor e foi o seu fim, mas manteve a sua estrutura até à década de 1970/80, ou mais tarde. 

A Fonte do Gomes, situava-se no lugar central desta fotografia do lado direito

 

















20 - Fonte do Vale do Poço da Bomba: 

Situada no vale do poço da bomba, na herdade da Defesa de Ferreira, da Casa Dias, entre este poço da Junta de Freguesia, e o Ribeiro, cujo acesso era feito por uma vereda. 
Esta Fonte era muito antiga, noutros tempos, tinha pequenas dimensões, estava escavada em terra, de pouca profundidade, mas mais tarde, por necessidade de mais água para regar uma horta, foi aprofundada e alargada e fizeram um pocinho empedrado com pedras de xisto e algumas pedras de quartzo leitoso e com uma laje de xisto por cima, para proteção da sua água, contra animais e entrada de impurezas. 
Esta Fonte, tinha água muito boa e corria para fora, abastecendo parte da comunidade de Capelins de Baixo, mas no decénio de 1950, a Junta de Freguesia de Capelins mandou abrir um poço com vinte metros de fundo e duas galerias a que chamaram poço da bomba e fizerem o lavadouro da roupa mesmo por cima da Fonte, o seu nascente não foi afetado, mas a água ensaboada dos tanques corria a poucos metros e, contaminava a água da Fonte, deixando de ser potável, apenas era usada para regar a horta. 

A Fonte do vale do Poço da Bomba, situava-se abaixo dos tanques, à esquerda

 


















21 - Fonte do Vale dos Foros: 

Situada no vale dos Foros, entre os Barrinhos e o Monte da Cruz, onde era a vereda do Monte da Cruz para a Igreja de Santo António, o acesso era feito pela dita vereda. 
Esta Fonte era muito antiga, estava situada numa das courelas aforadas, talvez na centúria de 1400, que permitiu a construção de alguns Montes ali perto, entre os quais, o Monte dos Foros e o Monte de Capelins, logo, essa comunidade devia abastecer-se de água nesta Fonte, já que, não existem indícios de mais nenhuma nesta área, os ancestrais desconheciam quem a tinha feito, de pequenas dimensões, estava escavada em terra, de pouca profundidade, era empedrada com pedras de xisto e algumas pedras de quartzo leitoso.
Nesta área da Freguesia de Capelins, antigamente marcada por escassez de água, ao contrário do Lugar de Ferreira, na atual Neves, junto à Ribeira de Lucefécit, esta Fonte, como a do Gomes e a do vale do poço da bomba, antes de existirem aqui poços, eram cruciais para o abastecimento da comunidade local.
Esta Fonte, tinha água muito boa e corria para fora, dava de beber aos moradores desta região e a toda a gente que por ali passava, a maioria pela vereda entre as Aldeias e a Igreja de Santo António de Capelins, mais tarde, esta Fonte foi transformada num pocinho, chamado do Matias e, parece que, o seu nascente faleceu. 

Seguindo este caminho, a partir do Monte da Cruz, a cerca de quinhentos metros, à esquerda, lá estava a Fonte dos Foros

 


















Noutros tempos, muitas outras pequenas Fontes de água, menos relevantes, existiram na Freguesia de Capelins, mas por falta de manutenção ou por extinção natural dos seus nascentes, acabaram por desaparecer, dando lugar a outras, porque era impossível a comunidade capelinense viver sem água potável, até que, na centúria de 1900 surgiram os poços muito profundos e com bastante água.

Fim 

Texto: Correia Manuel

Agradecimento pela colaboração a:

António Ramalho;
António Rocha;
António Silveira;
José da Lapa;
José Salvador;
José Tique.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

A lenda da destruição dos painéis de Cristo na Igreja de Santo António de Capelins

A lenda da destruição dos painéis de Cristo na Igreja de Santo António de Capelins

Conta-se que, a Igreja de Santo António de Capelins, mandada construir pelo rei D. João III em meados da centúria de 1500, tinha a Capela Mor coberta de pinturas e de painéis bíblicos, que faziam dela, uma das mais bonitas da região.
Em Março de 1745, houve mais uma visita pastoral à Igreja de Santo António, a mandado do Arcebispo de Évora, Frei Miguel de Távora, cujo resultado, proferiu, entre outros, o seguinte provimento: Mandar picar a Capela Mor nos dois lados do Altar para tirar as pinturas dos dois painéis com a imagem de Cristo, porque, segundo o visitador, estavam indecentes, talvez representassem milagres em que Jesus punia os outros, logo contrariavam a imagem de perdão e amor descritos nos quatro evangelhos, assim, não bastava pintar por cima deles ou rebocar, tinham de ser picados para não deixarem vestígios, talvez, como outros, por serem considerados fantasiosos, aberrantes e sem fontes históricas seguras.
Quando os fiéis da Freguesia de Santo António, tiveram conhecimento desse provimento, sem nenhuma explicação, não compreendiam o motivo e ficaram revoltados, nomearam uma comissão para impedir a destruição das ditas obras de arte, mas foram informados que, ao estarem contra o Arcebispo podiam ser denunciados à Santa Inquisição, ser presos e ir parar à fogueira, e os fregueses ficaram com medo e não tiveram outro remédio, senão deixar destruir os painéis bíblicos do século XVI.
O Arcebispo que, desde 1745 até 1753, manteve a Igreja de Santo António debaixo de olho, onde esteve presente em 1752, porque existiram sempre aqui costumes judaicos, embrulhados com cristãos, mandou novo visitador para verificar se os provimentos tinham sido todos cumpridos, pelo que, seria impossível salvar os painéis com as imagens de Cristo, e a Igreja de Santo António ficou mais pobre, mas ao gosto do Arcebispo.

Texto: Correia Manuel

Igreja de Santo António de Capelins



terça-feira, 9 de junho de 2026

A lenda das multas, a quem não fosse às missas em Capelins

A lenda das multas, a quem não fosse às missas em Capelins

Conta-se que, noutros tempos, os moradores da Freguesia de Santo António de Capelins, podiam trocar a sua presença nas missas por um tostão, ou seja, no caso de não poderem ir ouvir a missa, seriam multados em 10 réis, o mesmo que um tostão.
Nesse tempo, as pessoas trabalhavam os sete dias da semana e, somente os que não moravam nas herdades onde trabalhavam, se não fosse no tempo das ceifas, iam a casa mudar a roupa e ver a mulher e os filhos nos domingos à tardinha, ou já de noite, e ainda voltavam às herdades pela noite dentro ou de madrugada, não tendo tempo para mais nada, além do trabalho.
Em 1749, o desembargador e visitador da Câmara Eclesiástica de Évora, a mandado do Arcebispo, fez uma visita pastoral à Igreja de Santo António, e ficou preocupado ao verificar que, o número de fiéis que assistiam às missas, em relação aos moradores na Freguesia de Capelins, era muito baixa, nenhuma paróquia da região apresentava esses valores, embora o padre António de Sousa e Silva, fizesse tudo para mudar a situação, não tinha sucesso, então o desembargador mandou que, o padre multasse em 1 tostão, ou seja 10 réis, cada pessoas que não fosse ouvir a missa.
O padre António Silva ficou entre a espada e a parede, passou noites sem dormir a pensar como ia resolver a situação, sabia que, ao cumprir o mandado do desembargador ia revoltar o povo contra ele, se as pessoas não tinham dinheiro para comer, também não podiam pagar multas à Igreja, decerto não dava bom resultado, mas não podia deixar de cumprir o mandado do visitador, porque ele, ou outro ia voltar, estava metido num grande sarilho.
O padre António Sillva foi à Vigararia da Vila de Terena pedir ajuda aos colegas e ao Vigário, mas pouco adiantou, todos responderam que, sendo um mandado do desembargador, tinha de ser cumprido, a solução era ele encontrar uma maneira dos fregueses serem dispensados pelos lavradores para irem à missa, ou trocar uma missa por um tostão, eles na Vila de Terena não tinham esse problema, porque havia muitos funcionários do reino que, com as suas famílias, estavam sempre disponÍveis para assistir a todas as missas.
O padre António Silva, sabia que a chave da questão estava nas mãos dos lavradores, eram eles os culpados dos fregueses não irem à missa, uma vez que, não os dispensavam do trabalho, e pensou em os convocar para lhe meter a batata quente nas mãos e foi o que fez.
Quando o padre contou aos lavradores, onde estava metido e lhes mostrou e leu o mandado do desembargador, logo do Arcebispo, ficaram surpreendidos e perceberam que a situação tinha de ser resolvida por eles, porque não podiam ser considerados culpados pela ausência dos fiéis nas missas, não fosse a Santa Inquisição complicar-lhe a vida.
Depois de várias ideias, acertaram que, os lavradores e a família, ou parte dela, estariam sempre presentes nas missas, e a partir do domingo seguinte, começavam a dispensar alguns criados e criadas, durante umas horas, para assistirem à missa, seriam umas vezes uns, e outras vezes outros, conforme os trabalhos que andavam fazendo, e quanto aos moradores das Aldeias, tinham de se entender entre eles, para garantir sempre, trinta ou quarenta pessoas nas missas, os que não pudessem ir, tinham de mandar outras pessoas no seu lugar e ia rodando, porque se fosse toda a gente, não cabiam na Igreja, e o mandado do desembargador não dizia que tinham de estar os fregueses todos ao mesmo tempo nas missas, o que seria impossível.
Esta ideia agradou a todos e, ainda mais ao padre, assim não tinha de multar ninguém, as pessoas que não pudessem ir à missa, mandavam outras no seu lugar, logo, não as podia multar e essa ação, decerto aumentava, consideravelmente o número de fregueses nas missas, sendo cumprido o mandado do desembargador.
Esta decisão entrou logo em vigor, com grande sucesso, e passado algum tempo, o Arcebispo mandou outro desembargador a visitar a Paróquia de Santo António, para saber se o mandado tinha sido cumprido e qual era o resultado.
Quando o Arcebispo recebeu o relatório da visita ficou muito satisfeito, verificou que, o padre não tinha aplicado nenhuma multa, porque não havia razão para isso, o número de fregueses nas missas tinha triplicado, a Igreja estava sempre cheia, era o melhor resultado das paróquias da região e alguns padres iam pedir ao pároco António Silva para lhes dizer como tinha conseguido aquele resultado, porque também estavam nos limites, e ele respondia que era a fé dos seus fregueses.

Texto: Correia Manuel

Fotografia: Correia Manuel

Imagem de Santo António de Capelins




segunda-feira, 8 de junho de 2026

A lenda dos cavaleiros de bota e espora, de Capelins

 A lenda dos cavaleiros de bota e espora, de Capelins 

Conta-se que, noutros tempos, os lavradores da Freguesia de Capelins eram uma classe muito poderosa, e ostentavam o seu poder de várias formas, com mão de ferro sobre os trabalhadores e sobretudo através daquilo que não estava ao alcance dos mais pobres, como botas de montar e esporas, para manter as diferenças. 

Nos finais do decénio de 1600, início de 1700, dez das doze herdades que constituiam a Coutada ou Defesa de Ferreira, foram partidas, cada uma em duas e em algumas courelas e propriedades de menor dimensão, que permitiu um grande aumento de lavradores na Freguesia de Santo António que, com as suas famílias reforçaram a élite que se destacava da classe pobre, em termos económicos, no que vestiam e calçavam e na sua apresentação nas feiras, festas do povo ou festas particulares, como nos casamentos, batizados ou outros atos religiosos.

Os lavradores, chamados os ricos, não andavam a pé, os homens da família tinha cada um, o seu cavalo, nos quais se deslocavam a todo o lado, e as mulheres viajavam em carruagens, também puxadas por lindos cavalos guiados por um cocheiro vestido a rigor, e os remediados andavam de charrete, mas essa ostentação, não era bem vista por muita gente pobre, que tinha os filhos com fome e não ganhavam para comer.

Os lavradores cavaleiros usavam botas de montar, nas quais, eram colocadas esporas, que tinham uma pequena peça em metal, lisa ou roda dentada, tipo roseta, com armação presa ao calcanhar da bota do cavaleiro e serviam para guiar ou picar o cavalo para o fazer andar mais rápido.

As rosetas metálicas estavam pendentes e, quando o cavaleiro se deslocava a pé, ao dar o passo e bater com a bota sobre alguns pisos mais rígidos, emitiam um tilintar, e no caso de ser um grupo de cavaleiros com esporas a tilintar, incomodavam muita gente, porque, entendiam  que, também era uma maneira de mostrar o poder.

Assim, por inveja ou porque se sentiam humilhadas, algumas pessoas reclamavam, e diziam: - Lá vão os vaidosos de bota e espora! Mas não podiam fazer nada, muito menos quando isso se passava nas ruas, onde decorriam as feiras ou festas, mas quando os homens e rapazes de bota e espora entravam na Igreja de Santo António já com as missas ou outros atos religiosos em andamento, os padres tinham de interromper, porque a sua voz era abafada pelo barulho produzido pelos de bota e espora dentro da Igreja, e isso irritava os fiéis. 

Quando, em 25 de Novembro de 1753, em mais uma visita do desembargador da Relação Eclesiástica de Évora visitou a Igreja de Santo António, recebeu a queixa sobre os cavaleiros de bota e espora, sendo-lhe explicado da inconveniência  da sua entrada na Igreja, incomodando os fiéis, a dita queixa foi transcrita para o relatório e entregue ao Arcebispo de Évora que, ordenou o seguinte: "Nenhuma pessoas entrava na Igreja de Santo António de Capelins com esporas calçadas".

Quando o pároco António Silva comunicou aos lavradores de bota e espora, deixou claro que, eram ordens do Reverendíssimo Arcebispo e tinha de ser levada muito a sério, porque em caso de desobediência podiam ser expulsos da Igreja e isso, podia implicar a intervenção da Santa Inquisição e até podiam ser queimados vivos.

Os lavradores e famílias não gostaram da ordem do Arcebispo, acharam que era uma humilhação, mas devido à sombra da Santa Inquisição, da qual, ninguém escapava, aceitaram e limitaram-se a mandar um criado a pé ou montado numa burra à frente deles para lhe tirar, guardar e depois colocar as esporas à porta da Igreja de Santo António e a sua vaidade caiu a pique.

Quanto aos pobres que tinham sido humilhados durante muitos anos  com a entrada triunfante dos cavaleiros de bota e espora na Igreja de Santo António, agora riam baixinho, quando eles entravam e pareciam uns gatinhos pé ante pé para não darem por eles, e assim os atos religiosos deixaram de ser interrompidos. 

Na Freguesia de Capelins, até há pouco tempo, sempre que alguém aparecia mais bem calçado e bem vestido, diziam que andava todo aperaltado e de bota e espora.

Texto: Correia Manuel

Fotografia: Correia Manuel 

Igreja de Santo António de Capelins 




sábado, 6 de junho de 2026

A lenda do toque do sino da Igreja de Santo António de Capelins

A lenda do toque do sino da Igreja de Santo António de Capelins

Conta-se que, à volta do ano de 1820, durante uma temporada, o sino da Igreja de Santo António de Capelins, tocava à meia noite a chamar para a missa.

Como nessa época as pessoas deitavam-se pouco depois do solposto, cansados do trabalho duro que faziam nos campos, nessa hora, dormiam profundamente, mas acordavam atarantados, mas o sino parava de tocar e viravam-se nas suas camas continuando a dormir, só o sacristão e o padre Marcos Pouzão iam à porta a ver o que se passava, mas não viam ninguém, nem ouviam nada e, corriam para a cama, mas no dia seguinte toda a gente que morava junto à Igreja, reclamava e comentava o sucedido. 

Como a situação se repetia, as pessoas começaram a fazer vigias e mesmo assim, o sino tocava sem ninguém por perto e os moradores já andavam assustados e começaram a dizer que só podia ser uma alma penada, mas também diziam, que as almas penadas não entravam no Campo Santo, não entendiam como é que esta, se aproximava assim da Igreja. 

O padre Marcos Pouzão e o sacristão prometeram que iam resolver a situação, porque se fosse uma alma penada, tinha de dizer o que queria e começaram a andar por ali a essa hora, mas o sino tocava e não viam nada, até que, numa noite de grande invernia o sino tocou, e o padre foi a correr e disse ao sacristão para ficar em casa e não sair, porque podia ser um caso só para ele, por isso, é que a alma penada nunca se mostrava, quando iam os dois, e afastou-se.

Quando o padre chegou à porta da Igreja viu que estava iluminada e a porta com uma pequena fisga aberta, empurrou a porta e viu um padre paramentado de costas para ele, ficou assustado, mas foi indo devagar e naquele momento ouviu uma voz dizer-lhe: - Não tenha medo, há muito tempo que estou à sua espera, sou o pároco Luciano o anterior, e estou no  purgatório para ser purificado, mas fui castigado, porque recebi uma grande esmola de um lavrador daqui para rezar uma missa pela alma dele e não o fiz, agora preciso da sua ajuda, porque tenho de rezar a missa com a ajuda de outro padre, mas antes de eu dar a benção o colega tem de sair daqui a correr, não se esqueça disso! 

O Pároco Luciano rezou a missa com a ajuda do padre Marcos que, antes da benção, como o pároco lhe disse, fugiu e quando passou a porta da Igreja ela fechou-se bruscamente, quase o entalava e, ao mesmo tempo ouviu grande estouro dentro da Igreja.

O padre Marcos Pouzão foi dali a correr para a sua casa, e nessa noite pouco fechou os olhos e de manhã assim que se levantou chamou o sacristão e contou-lhe o que se tinha passado, foram os dois à Igreja a observar tudo ao pormenor e não havia sinais de alguém ali ter estado, e o sacristão que morava paredes meias com a Igreja, afirmou que não ouviu nada, mas acreditou no padre. 

Nesse dia à meia noite, os moradores esperavam o toque do sino a chamar para a missa, mas o sino nunca mais tocou, o padre apenas lhe disse que, o caso estava resolvido, mas passado algum tempo, acabaram por saber o que se tinha passado, através do sacristão, e ficaram descansados, por mais uma alma do purgatório, ter sido salva.

Texto; Correia Manuel 

Fotografia: Correia Manuel 

Igreja de santo António de Capelins 

Existiam aqui pelo menos seis casas de habitação



sexta-feira, 5 de junho de 2026

A lenda do último lobo de Capelins

 A lenda do último lobo de Capelins 

Conta-se que, noutros tempos, a Freguesia de Capelins tinha muitos lobos, devido às condições geográficas propícias ao seu habitat, com as Ribeiras de Lucefécit e de Azevel, lateralmente e, com o rio Guadiana ao fundo, onde existiam muitos esconderijos, desde moitas de tamujeiras e de outros arbustos, além dos silvados e zonas de grandes matagais, como também, à existência de muito gado e de caça, por isso, os lobos andaram por aqui até finais da década de 1940, mas em algumas Freguesias vizinhas ficaram até mais tarde. 

Os lobos viviam em alcateias, eram famílias, e tinham o território dividido entre elas, mas por vezes, não respeitavam os respetivos domínios e neste caso, os lobos de Santa Luzia que residiam sobre um rochedo chamado entalão da moura, passavam a ribeira de Lucefécit para o lado de Capelins, onde atacavam o gado dos lavradores, e os do lado de cá atacavam o gado de lá, acontecendo o mesmo em relação a Monsaraz. 

Os lobos da Freguesia de Capelins tinham o seu território para o lado da Ribeira de Azevel, até ao domínio dos lobos de Monsaraz, mas como era uma área muito batida por caçadores, pelo menos desde a centúria de 1700, tinham o seu covil num matagal com algumas rochas, na herdade do Assento, depois Monte Seco, perto do Monte da Vinha, nas chamadas courelas das lobas. 

Assim, os lobos de Capelins, desciam até à Ribeira de Azevel e daí ao rio Guadiana à região do Gato, e rio acima, e para se protegerem, durante a noite, subiam ou desciam, a partir do seu covil, pelo ribeiro do peral que desagua diretamente na Ribeira de  Azevel, mas em caso de haver esperas, feitas pelos caçadores, usavam outros caminhos, porque eram muito espertos. 

A alcateia das courelas da loba passou por uma época, de boa cama e boa mesa, cresceu muito e começou a fazer muitos ataques ao gado da região e os lavradores e criadores de gado reuniram-se para encontrar uma maneira de a desalojar das courelas das lobas, e acabar com eles. 

Os lavradores de Capelins, tinham quase todos espingardas de caça, nesse tempo ainda eram de atacar pela boca, metiam a pólvora e o chumbo pelo cano e apertavam com uma vareta, depois colocavam uma escorva que era picada por uma agulha de aço, o percussor, e disparava, imediatamente, ao contrário das anteriores, nas quais, usavam um pedacinho de pederneira para fazer explodir a pólvora, mas dava tempo aos lobos de se meterem a milhas e, assim, começou a caça feroz aos lobos de Capelins. 

Os lavradores faziam batidas, esperas e armavam laços aos lobos e depressa lhe deram grande desbasto na alcateia das courelas das lobas, ficou apenas uma loba com três filhos pequeninos, porque, não a faziam sair do covil de junto dos filhos, lá ficava a alimentá-los vários dias sem comer, só em noites muito escuras, conseguia sair e, como conhecia muito bem a região, não caia nas armadilhas, ia a um rebanho e não matava as ovelhas, levava apenas um borrego ou outro, muitas vezes perdidos do rebanho, que pouca diferença fazia aos pastores e assim criou os três lobitos.

Como os ataques ao gado desapareceram, os lavradores deixaram a loba em paz, e os seus filhos foram crescendo, mas devido à sua natural rebeldia, ela já não conseguia mantê-los na toca e começaram a fazer as suas descobertas, investindo contra os rebanhos e causando prejuízos, logo, também pela sua inexperiência, em poucos meses, foram abatidos, ficando a loba sozinha, ninguém dava notícias de mais lobos residentes na Freguesia de Capelins. 

A loba de Capelins, continuou mais uma temporada no seu covil, sem causar grandes danos na região, os caçadores faziam-lhe esperas, usavam cães para a encontrar, mas ela era muito matreira, não a conseguiam encurralar, porém, começaram a reparar que não havia pegadas na entrada ou saída do covil, pensaram que, tinha mudado o covil para outro lugar, mas não o encontraram em lado nenhum, nem vestígios dela, e confirmaram que tinha desaparecido, ou foi para outra região à procura de um lobo, talvez até tenha passado o rio Guadiana para Espanha num ano de seca, ou morreu de desgosto por ficar sozinha, no interior da sua toca, e foi ela, já nos finais do decénio de 1940, o último lobo, neste caso, loba, da Freguesia de Capelins.

Texto: Correia Manuel 

Fotografia: Correia Manuel 

Monte Seco de Capelins



As lendárias Fontes de Água, da Freguesia de Capelins

  As lendárias Fontes de Água, da Freguesia de Capelins  Antigamente, não existiam poços de água na Freguesia de Capelins, os gados bebiam n...