terça-feira, 2 de junho de 2026

A lenda da alma penada, da mulher da serra da estrêla, em Capelins

A lenda da alma penada, da mulher da serra da estrêla, em Capelins

Conta-se que, o Zé Miguel, um rapaz natural da Aldeia de Cabeça de Carneiro, era ajuda de um ganadeiro na herdade da Boieira e de oito em oito dias ia a sua casa a mudar a roupa, umas vezes mais cedo, outras já à noitinha, era conforme a disposição do ganadeiro.
Nas suas idas a casa, fazia quase sempre o mesmo percurso, o que ele achava mais direto, logo mais rápido, passava junto à Aldeia de Faleiros, depois seguia por um caminho pela cova da Sina até à Igreja de Santo António de Capelins, dali pelo baldio, Monte da Vinha e depressa chegava a casa.
Um dia saiu da Boeira já ao sol posto, seguindo o dito caminho e quando chegou à cova da Sina já estava escurecido e o Zé Miguel sentiu que alguma coisa não estava bem, alguém o seguia e quando olhou para trás estava mesmo a ser alcançado por uma mulher vestida de negro e com um véu pela cabeça, apanhou um grande susto e começou a correr o mais que podia e só parou quase junto à Igreja, porque estava muito cansado, olhou para trás e já não viu mulher nenhuma.
Passaram-lhe muitas coisas pela cabeça, a pontos de já nem ter a certeza o que tinha visto, pensou em ir pedir ajuda ao sacristão, que era amigo dele e da família, mas lembrou-se que, podiam gozar com ele e acabou por seguir o seu caminho.
Desde a Igreja até ao cruzeiro que indica o limite do Campo Santo, quando se vem do lado da dita Aldeia de Cabeça de Carneiro, não viu nada, mas assim que passou esse limite, olhou em frente e lá estava a mulher à sua espera, apanhou mais um susto, recuou uns passos e voltou a correr até à Igreja, entrou na casa do sacristão, tremia todo e mal conseguia falar, mas a pouco e pouco, lá explicou o que lhe tinha acontecido.
O sacristão, era um homem muito corajoso, viu o estado em que o Zé Miguel estava, pensou logo que só podia ser uma feiticeira a meter medo ao rapaz, e não gozou com ele, disse-lhe para ter calma que tudo se resolvia, se fosse preciso, ia com ele até à Aldeia de Cabeça de Carneiro.
O sacristão pegou num bordão e com um dos filhos que tinha assistido à conversa, foram com o Zé Miguel, passaram o cruzeiro do limite do Campo Santo e não viram nada no sítio onde ele dizia que estava a mulher, ali estiveram falando sobre o que poderia ser, ou não ser e, o filho do sacristão pediu ao Zé Miguel para lhe dizer o sítio certo onde tinha visto a mulher, depois de ele lhe indicar, puxou uma feixa de esteva e lenha seca para esse sítio, e disse: - Se for uma feiticeira, eu já acabo com ela! E pegou numa caixa de fósforos para puxar fogo à lenha e naquele momento o lume acendeu-se sozinho e com uma chama tão alta e clara que iluminou um circulo, parecia ser dia, e fora desse circulo de luz, na parte mais escura, lá estava a mulher com o véu pela cabeça.
Eles ficaram sem palavras e sem saber o que fazer, mas ela disse-lhe para não terem medo, não estava ali por mal, apenas pedia ajuda e adiantou que, era uma alma penada que andava ali perdida, porque não conhecia a região, por ser da serra da estrêla.
Surgiram várias ideias na cabeça do sacristão, mas acalmou-se, fez peito em sinal que não tinha medo, empertigou-se todo e perguntou-lhe o que queria deles?
A alma penada repetiu que, era da serra da estrêla e uma vez tinha estado por algum tempo em Capelins, a visitar o marido que era pastor da transumância, e nesse tempo andava ali nas herdades da Casa do Infantado, e ela tinha cá adoecido com as febres que matavam quase toda a gente, e prometeu a Santo António que se a curasse, daria três voltas à sua Igreja a rezar, e acendia uma vela no seu altar, depois melhorou, voltou para sua casa na serra da estrêla, e nunca mais se tinha lembrado de pagar a dita promessa, agora pedia ajuda, para alguém a pagar por ela, em troca de proteção divina.
O sacristão ouviu-a com atenção e compreendeu, depois disse-lhe que estava salva do purgatório, porque no dia seguinte, logo de manhãzinha, a promessa seria paga, a mulher agradeceu, desapareceu e o lume apagou-se.
O sacristão e o filho disseram ao Zé Miguel que já podia seguir o seu caminho descansado, o caso estava resolvido, de certeza que, a mulher já não lhe aparecia, mas ele tremia como varas verdes e eles decidiram acompanhá-lo até quase ao Monte da Vinha, depois lá seguiu sozinho, sempre a correr até casa.
Assim que o sacristão chegou a casa, contou à mulher o que se tinha passado, e concordaram que ela, logo de manhãzinha pagaria a promessa, para salvarem aquela alma penada do purgatório.
De manhã, a promessa foi paga e a alma penada da mulher da serra da estrêla, nunca mais apareceu por Capelins.
O Zé Miguel, continuou a ser ajuda de gado na herdade da Boeira e ia a casa de oito em oito dias, mudar a roupa, mas nunca mais seguiu por aquele caminho, nem de dia, ia junto à Aldeia de Faleiros, passava pelo Monte das Courelas, Monte das Fontanas e depois descia à Aldeia de Cabeça de Carneiro, para um e outro lado, era mais longe, mas mais seguro, contra almas penadas.

Texto: Correia Manuel

Fotografia: Correia Manuel



segunda-feira, 1 de junho de 2026

A lenda do anjo de Capelins

 A lenda do anjo de Capelins 

Conta-se que, nos primeiros decénios da centúria de 1700, durante alguns anos, nas noites em que os anjos se movimentavam pela Terra, cuja crença era em 05 de Janeiro, 19 de Março, 31 de Maio, 12 de Agosto e 24 de Outubro, embora se pudessem movimentar sempre que fosse necessário, pela meia noite, alguns ganadeiros, começaram a ver uma silhueta, muito brilhante, de uma linda menina, envolta num manto branco, que descia o curso dos ribeiros, do terraço, do quebra, da silveirinha, do carrão, e depois seguia junto à Ribeira de Lucefécit, até às Azenhas D'El-Rei, onde desaparecia no rio Guadiana.

Este caso, começou a ser muito falado em toda a Freguesia de Capelins e arredores, havia muitas opiniões, algumas pessoas acreditavam, outras não, umas diziam que era um medo, outras uma alma penada, ou que eram as feiticeiras, cada cabeça sua sentença.

O tempo passava e cada vez havia mais pessoas a confirmar o que os ganadeiros contavam, e queriam descobrir o que era aquela figura luminosa, e organizaram grupos que, antes da meia noite iam para sítios onde viam bem o dito percurso, e numa noite toda a gente viu a silhueta da menina, alguns tentaram deitar-lhe a mão, mas não conseguiram, porque não passava de uma imagem sem consistência e era muito rápida a movimentar-se, mas não tiveram dúvidas que era um anjo. 

No dia seguinte, não se falava noutra coisa e algumas pessoas diziam que a tinham visto descer desde a Igreja de Santo António, e isso não demorou em chegar aos ouvidos do padre Miguel Galego que, não acreditou, nem deixou de acreditar, era muita gente a dizer o mesmo, por isso, alguma coisa havia. 

Estava confirmado parte do mistério, faltava saber o que fazia por ali aquele anjo, e os grupos de curiosos continuaram a trabalhar, já tinham ideia das datas mais prováveis da sua aparição e quando ela voltou a aparecer tiveram a certeza que tinha saído da Igreja e correram a chamar o padre Miguel e o sacristão, para irem ver se alguma campa dos anjinhos estava remexida, levaram um lampião e viram, com os seus olhos, as lages que cobriam uma campa estavam fora do seu lugar e o sacristão confirmou que, era a campa da filha do Moleiro das Azenhas D'El-Rei, chamada Maria de Jesus,  que tinha falecido aos 10 anos de idade e era a criança mais carinhosa que tinham conhecido, era alegre e cheia de saúde, depois adoeceu e faleceu, deixando toda a gente muito triste.

 Os moradores de Capelins diziam que, devido a menina ser tão carinhosa e bondosa para toda a gente, decerto que, tinha sido escolhida por Deus e Nossa Senhora, para ser mais um anjinho.

Sempre que lhe era permitido por Deus, o anjinho Maria de Jesus ia ver os pais e irmãos ao Moinho das Azenhas D'El-Rei, e numa noite de temporal, o rio Guadiana registou uma grande cheia, e ela salvou o pai de morrer afogado, que se tinha deixado dormir dentro do Moinho, depois de o acordar e ele fugir, em poucos minutos, o Moinho ficou submerso.

O anjinho Maria de Jesus, continuou pelas terras de Capelins durante muitos anos, ajudando os moradores da Freguesia, mas um dia, a sua missão aqui, chegou ao fim, e desapareceu para sempre, mas a sua sepultura está, aos pés da sua madrinha, Nossa Senhora do Rosário, na Igreja de Santo António de Capelins.

Texto: Correia Manuel

Fotografia: Correia Manuel 

Nossa Senhora do Rosário - Capelins




quinta-feira, 28 de maio de 2026

A lenda da ti Maria Joana e da ti Maria Joaquina, de Capelins

A lenda da ti Maria Joana e da ti Maria Joaquina, de Capelins

A ti Maria Joana e a ti Maria Joaquina, eram amigas quando crianças e na sua mocidade, depois casaram, ficaram a morar lado a lado e a situação alterou-se.
As vizinhas, mesmo depois de viúvas, não se entendiam, as casas eram encostadas uma à outra e os quintais eram separados por um muro lateral com mais de um metro de altura, era o muro da discórdia entre elas, porque foi devido a ele que, desde o tempo em que os seus maridos ainda eram vivos já andavam a ódio, não se falavam, porque a ti Maria Joana dizia que o muro não era meeiro, estava feito na sua terra, e a ti Maria Joaquina não podia encostar nada ao dito muro, do lado do seu quintal, senão estava o caldo entornado.
A ti Maria Joana não tinha filhos, apenas umas sobrinhas que moravam no Alandroal e Vila Viçosa e pouco apareciam, e a ti Maria Joaquina tinha filhos e netos, mas estavam fora e, rararmente a visitavam, pelo que, estavam ambas sozinhas, valia-lhes a companhia dos seus cães, cada uma tinha o seu.
O ódio das vizinhas chegava aos cães que, diariamente, logo de manhãzinha corriam, ao longo do muro, um de cada lado, várias vezes, a ladrar, com tanta raiva, que parecia quererem matar-se um ao outro, sem nunca se verem, e as suas donas ficavam especadas a assistir atrás dos cortinados das janelas, e quando os viam já cansados lá os chamavam de volta a casa.
Uma noite, passou uma trovoada tão grande por Capelins, uma tempestade, choveu tanto que o quintal da ti Maria Joana ficou cheio de água até quase à altura do muro, porque o canal de escoamento entupiu e não dava saída, e parte do muro ao fundo do quintal, não aguentou o peso e ruiu.
O dia seguinte nasceu solarengo, e como habitualmente, quando as vizinhas abriram as portas de suas casas, os seus cães sairam a correr a ladrar ao longo do muro, e quando chegaram ao fundo, pararam e ficaram frente a frente em silêncio, a olhar um para o outro, depois aproximaram-se, cheiraram-se mutuamente e começaram a brincar, a rebolar, e a correr juntos por todo o quintal da ti Maria Joana e daí passaram para o quintal da ti Maria Joaquina, sempre com muita alegria, como elas estavam a observá-los ficaram aflitas, sem saberem o que fazer, não entendiam como se tinham juntado e muito menos o seu comportamento, e quando os chamaram eles não obedeceram, nem as ouviam, via-se que existia uma grande amizade entre eles e que não aceitavam a separação.
As vizinhas ficaram sem saber o que fazer, e desceram ao longo do muro para ver a causa do ajuntamento dos cães, ou seja, foram até à parte do muro que estava caído, e a ti Maria Joana acabou por quebrar o silêncio, e disse: - Tal não foi a tempestade esta noite, tive muito medo!
A ti Maria Joaquina, ainda hesitou em falar, mas ao ver a alegria dos cães, acabou por responder: - Foi grande tempestade, até derrubou aqui o muro, por isso os nossos cães se juntaram!
Eu vou já mandá-lo arranjar! Disse a a ti Maria Joana!
Não há pressa, parece que faz falta aos nossos cães, e quando o mandar arranjar eu pago metade! Respondeu a ti Maria Joaquina!
Nesse dia, a conversa não se alongou muito, ficou por ali, os cães já cansados de tanto correr e com fome, recolheram a suas casas.
No dia seguinte, logo cedo, já os cães estavam impacientes para sair de casa para os quintais e repetiram a mesma corrida do dia anterior, parecia que andavam doidos de tão contentes, via-se que, existia alguma coisa estranha entre eles.
As vizinhas, começaram a falar sobre os cães e concluíram que, eles eram irmãos, e da mesma ninhada, e depois de tantos anos separados, ainda se conheceram, por isso, a sua alegria.
Aquela amizade entre os cães, despertou sentimentos na ti Maria Joana e na ti Maria Joaquina, e pouco a pouco foram-se aproximando e esquecendo o ódio que perdurou tantos anos, e iniciaram uma grande amizade entre elas, nunca mais quiseram saber de quem era o muro da discórdia, mandaram arranjar a parte que tinha ruído e abrir uma porta mais perto das suas casas para elas e os cães poderem conviver no dia a dia, e as suas vidas começaram a ter outro sentido, com mais segurança e felicidade, graças à lição dada pelos seus cães.

Texto: Correia Manuel

Fotografia: Correia Manuel

Ferreira de Capelins



segunda-feira, 25 de maio de 2026

A lenda do ti Manel Francisco e do ti Francisco Manel, de Capelins

 A lenda do ti Manel Francisco e do ti Francisco Manel, de Capelins

Conta-se que, noutros tempos, havia muita gente teimosa, persistente nas ideias, na Freguesia de Capelins como o ti Manel Francisco morador no Monte do Pinheiro de Capleins e o seu compadre o ti Francisco Manel, morador na Aldeia de Capelins de Baixo.
Numa manhã chuvosa de um Domingo, no início da centúria de mil e novecentos, o ti Manel Francisco descia a chapada do Pinheiro que estava cheia de lama, porque a vereda era usada por muita gente e nesse tempo ainda não existiam as escadinhas, por isso, era perigosa, por ser íngreme e muito escorregadia, qualquer pessoa que lá caísse, podia ser o seu fim, quando ia a meio caminho, um bocadinho mais acima, viu que ia a subir o seu compadre o ti Francisco Manel, e quando estava a poucos metros de se cruzarem, o ti Manel Francisco escorregou na lama e veio desmandado por ali abaixo, valeu-lhe o ti Francisco Manel que lhe deitou a mão com firmeza e energia e ficaram especados frente a frente quase nariz com nariz.
O ti Manel Francisco agradeceu ao compadre pelo auxílio, reconheceu que podia ter sido um caso sério e acrescentou: - Esta descida é muito perigosa, se tivesse aqui umas escadinhas isto não me acontecia!
- Mas qual descida compadre? Isto é uma chapada, por isso, é uma subida!
Como eram ambos muito teimosos, continuaram durante horas a meio da chapada do Pinheiro a teimar, o ti Manel Francisco dizia que era uma descida, e o ti Francisco Manel dizia que era uma subida e fizeram-se horas de jantar (hoje almoço), entretanto choveu muito, ficaram encharcados até aos ossos, mas a discussão não parou. As mulheres de cada um, mandaram os filhos a procurá-los, porque já tinham as sopas arredadas do lume e a mesa posta, e eles não apareciam, os filhos foram dar com eles, mas não resolveram nada, porque eles diziam que não saiam dali sem levarem a razão que lhes pertencia, era uma questão de honra, e mandaram dizer às mulheres para lhes trazerem uma marmita com as sopas e comeram ali naquele lugar, sempre em grande discussão sobre a chapada ser subida ou ser descida.
Era inverno, estava perto de cair a noite e eles continuavam a discussão, até que, as mulheres de ambos, que eram primas, foram-se por eles e depois de os tentarem convencer a ir cada um para sua casa, tiveram de desistir, e lembraram-se de descer até à taberna e chamar alguns homens mais respeitados, que depois de se inteirarem sobre a causa da discussão, foram lá e disseram-lhes com muita calma que os dois tinham razão, se o ti Manel Francisco ia a descer, para ele era uma descida que tinha pela frente, mas para o ti Francisco Manel se ia a subir, para ele era uma subida que tinha pela frente, sem nunca deixar e ser uma chapada.
O ti Manel Francisco e o ti Francisco Manel parece que acordaram, olharam um para o outro e disseram em coro: - É compadre como é que a gente não nos lembrámos disso! E a sua teimosia nesse dia, acabou por ali, mas continuaram a ser os mais teimosos da Freguesia de Capelins.

Texto: Correia Manuel

Fotografia: Correia Manuel

Escadinhas do Pinheiro de Capelins


sábado, 23 de maio de 2026

A lenda dos melros amestrados pelo caçador de Capelins

 A lenda dos melros amestrados pelo caçador de Capelins

Conta-se que, Capelins era terra de pão de gado e de caça, por isso, muito visitada por caçadores de todas as regiões que, além da vinda para caçar, nas aberturas havia grandes paródias, entusiasmando alguns moradores, que também gostavam de caçar e, talvez por isso, a rapaziada, assim que tinham oportunidade tornavam-se caçadores.
O ti António Zé, morador na Aldeia de Ferreira de Capelins, era caçador, e no seu quintal tinha um alpendre, a que chamavam um arramadão, onde arrumava algumas ferramentas, sacos, cestos e outra tralha, que por vezes ali estava algum tempo sem ser usada e se não fizesse falta nem reparava nela.
Um dia o ti António Zé foi procurar uma ferramenta que precisava e quando deitou a mão a uma caixa, ficou assustado com o voo de uma ave que lhe passou um palmo à frente dos olhos e pousou a poucos metros de distância, dentro do alpendre, como bom conhecedor das espécies cinegéticas não teve dúvidas em a identificar, era uma melra que, começou a cantar dirigida a ele como se estivesse a falar, obrigando-o a dar-lhe atenção, depois olhou para o lugar de onde ela tinha saído e para onde a melra fazia gestos com a cabeça ao cantar e viu um ninho dentro de uma cesta, com cinco ovos.
Aqui o ti António Zé compreendeu o que a melra lhe estava a pedir, era permissão para a deixar criar os filhos dentro da sua cesta, e depois de apanhar as ferramentas disse em voz alta: - Ó amiga fica à vontade que aqui ninguém te vai fazer mal! A melra, parece que, o compreendeu e parou de piar ou cantar.
O ti António Zé foi-se afastando, devagarinho sem movimentos bruscos, depois esteve alguns dias sem a importunar, não fosse ela enjeitar o ninho, ou seja, os ovos, e quebrava o contrato que tinha feito, mas a curiosidade persistia e passados uns dias foi pé ante pé a observar em que pontos estava a ninhada e já lá tinha cinco passarinhos pelados, todos de bico aberto à espera de comida trazida pelos pais.
A partir daquele dia, o ti António Zé, começou a visitar, diariamente os melrinhos, com consentimento dos pais, que pousavam junto dele, já estavam amestrados, ele assobiava e eles respondiam a cantar, e esperavam, pacientemente que ele se afastasse para lhes poderem dar as minhocas que traziam no bico para os alimentar, mas eles estavam sempre cheios de fome e o ti António Zé ainda pensou procurar minhocas na terra para lhe dar, mas teve receio que os pais não gostassem e desistiu, porém, a sua amizade com a família melro era cada vez maior, até que, um dia pela manhã, quando os foi visitar, o ninho estava deserto, já tinham batido a asa na companhia dos pais, para as terras de montado, e nunca mais por ali os viu, mas a amizade não tinha acabado.
Quando começou a caça aos tordos, um dia o ti António Zé fez um aguardo atrás de uns carrascos, perto da Igreja de Santo António de Capelins, para fazer a espera na passagem deles, do montado para os olivais onde iam comer, a caçada estava a correr bem e como já poucos tordos apareciam, pensou em abalar, mas naquele momento viu aparecer uma ave que, pensou ser um tordo, apontou a espingarda e quando ia puxar o gatilho conheceu o cantar da sua amiga melra, a que tinha feito o ninho no seu telheiro e ainda foi a tempo de não disparar.
A melra ainda o conheceu, por isso, lhe fez aquele cumprimento, que lhe salvou a vida, a partir daquele dia, o ti António Zé nunca mais disparou um tiro contra nenhum melro, porque a amizade verdadeira é para sempre.
No ano seguinte, quando chegou a altura de fazer o ninho, lá estava a melra no mesmo sítio, uma prova que tinha boa memória, mas antes, o ti António Zé preparou a mesma cesta e no mesmo sítio, para facilitar a vida aos seus amigos melros, e a sua amizade perdurou por muitos anos.

Texto: Correia Manuel

Fotografia: António Rocha



quarta-feira, 20 de maio de 2026

A lenda do João e da Joana, de Capelins

 A lenda do João e da Joana, de Capelins

Os ancestrais da Freguesia de Capelins contavam que, noutros tempos, morou aqui um rapaz chamado João Silva, bem afeiçoado, mas pouco cobiçado, porque tinha uma deficiência visual que, no entanto, não o impedia de fazer a sua vida de trabalho, como escamel no Monte de uma herdade de Capelins.
Ao fundo da sua rua, morava uma rapariga chamada Joana Maria, muito bonita, com cabelos aos caracóis e uns olhos lindos, mas pouco cobiçada, porque tinha uma deficiência, neste caso, falta de ouvido, era surda, tinham de lhe falar alto, ou perto dos ouvidos, para ouvir qualquer coisa, por esse motivo, ficava a leste das conversas das outras raparigas, mas fazia todos os trabalhos do campo e de casa mas, tal como o João, ficava esquecida.
Devido à vida de trabalho, o João pouco metia os pés na Aldeia, a não ser a mudar a roupa, sempre a correr, e quando havia algum baile, ou pela Santa Cruz, ou nas Festas de Santo António, por isso, embora vizinhos, muito raramente se encontravam.
A Joana, já andava com o olho nele, porque havia muita mangação por parte da vizinhança e das famílias, todos diziam, que faziam um lindo par, que eram mesmo bons um para o outro, por isso, um ano, pela Santa Cruz, antes de começar o fogo de artifício, ela decidiu dar um passo em frente, passou-lhe a um palmo do nariz, para ele a ver e perceber que o esperava no baile.
Depois de acabar o fogo de artifício, começou o baile, abrilhantado pelo conjunto Jaz e Band, mas a iluminação era muito fraca, não passava da luz de uns lampiões a petróleo pendurados nuns postes de madeira, nuns paus, e a visão do João não alcançava o sítio onde estavam as raparigas, e muito menos o lugar da Joana para ir pedir-lhe para dançar, e mesmo empurrado por outros rapazes, nenhum o fez dar um passo em frente, assim, acabou o baile e a Santa Cruz e não chegou a arrimar-se à Joana.
Em Capelins, toda a gente sabia que eles gostavam muito um do outro, só faltava o João dar um passo em frente a pedir namoro à Joana, mas o tempo passava e isso não acontecia.
Os amigos e familiares do João mangavam com ele, diziam-lhe que tinha de pedir namoro à Joana, para depois a ir pedir ao pai, e ele respondia sempre o mesmo: - Estou à espera!
As raparigas também mangavam com a Joana, mas ela não podia fazer nada, apenas respondia: - Estou à espera! De certa forma, já estavam prometidos um ao outro pelas famílias, faltava só o João avançar, mas o tempo passava e nada mudava.
Os amigos e as famílias deles, já não sabiam o que fazer mais, para entusiasmar o João a ir pedir namoro à Joana, iam aos bailes, mas ele, talvez devido à sua deficiência visual não dançava, assim não se aproximava da Joana, nem nas Festas, nem lhe saía ao caminho e não podia escrever-lhe uma carta, porque nem ele nem ela sabiam ler nem escrever, como quase toda a gente nesse tempo.
Os dias, os meses, e os anos iam passando e nada se decidia, a idade de ambos ia avançando, e sempre que as pessoas lhes perguntavam quando casavam, continuavam ambos a responder: - Estou à espera!
Assim, a Joana passou a sua vida inteira à espera do João, e o João passou a sua vida inteira à espera da Joana, e não passaram disso, só pela distância de um passo que ele não conseguia dar, para lhe pedir namoro, talvez, devido à sua condição física, que o condicionava.
Os anos não perdoaram e foram passando, até que um dia, ouviu-se que o João Silva tinha falecido, mas a maior surpresa, foi quando se ouviu que a Joana Maria, também tinha falecido, nesse mesmo dia e à mesma hora, e as gentes de Capelins diziam que, as suas almas tinham casado no céu, ficando juntos até à eternidade e, decerto, que o João e a Joana foram felizes.
Texto: Correia Manuel
Fotografia: Correia Manuel

Ferreira de Capelins



quinta-feira, 14 de maio de 2026

A lenda dos pagadores das promessas das almas penadas, em Capelins

A lenda dos pagadores das promessas das almas penadas, em Capelins

Na Freguesia de Capelins, e não só, noutros tempos, os fiéis, incitados pela Igreja, acreditavam que, após o falecimento de alguém, a sua alma ficava, temporariamente no Purgatório para a sua purificação final.
Diziam que, as almas não podiam entrar, imediatamente no Céu, não era um castigo, mas uma fase de preparação para a santidade absoluta, porém, existiam as almas penadas que, eram espíritos de pessoas falecidas, que se acreditava, regressavam ao mundo dos vivos, para poderem cumprir penas, por não terem confessado pecados graves antes de morrer, por deixarem dívidas, ou porque eram pessoas más em vida, ou para resolver outras situações pendentes, como o pagamento de promessas que deixaram por pagar.
As almas penadas, ou espíritos, enquanto resolviam as ditas situações, andavam em sofrimento, penando, e surgiam logo à noitinha em caminhos solitários junto à Ribeira de Lucefécit, do Rio Guadiana, ou outros, como encruzilhadas, ou perto da Igreja, para pedir ajuda aos vivos, e apresentavam-se na forma de, vultos brancos, luzes brilhantes, gemidos e suspiros, causando temor a muita gente.
Na Igreja de Santo António de Capelins, às segundas feiras, eram rezadas missas de encomendação das almas, para ajudar os espíritos a aliviar as suas penas no Purgatório, mas só isso não bastava, precisavam da ajuda dos pagadores das suas promessas, assim, comunicavam entre si, e ouviam o que podiam fazer para a sua purificação, recebendo em troca a garantia de proteção divina, para eles, para a sua família e para toda a comunidade.
Os pagadores das promessas, homens e mulheres, eram pessoas com coragem que iam ao encontro dos espíritos, já sabiam as horas, as noites e os lugares onde os podiam encontrar, ouvia-se que, as almas penadas podiam ver-se e ouvir-se com maior frequência na Quaresma e nas madrugadas de sextas feiras dessa época podiam ver-se procissões delas, mas também se encontravam nas noites de, S. João, de 31 de Outubro, e 2 de Novembro.
A função dos pagadores das promessas das almas penadas em Capelins, era secreta, ouviam-se rumores sobre quem eram, mas era um segredo muito bem guardado, e poucas pessoas se atreviam a falar nisso, eles e elas tinham o poder de comunicar com os espíritos, ouviam os seus pedidos e faziam tudo como lhe era dito, e logo que a promessa fosse paga, a qual, podia ser, acender velas na Igreja, rezar orações, mandar rezar missas, colocar cruzes pregadas na terra batida em encruzilhadas, feitas com rabaça, ou arrabaça venenosa entrelaçada, levar os Santos numa procissão, ou outros atos religiosos, a partir daí, o espírito ficava purificado e podia entrar no Céu, acabando o seu sofrimento.
Como referimos, este tema era sagrado, sendo dos maiores segredos de Capelins, pelo qual, a maioria dos ancestrais tinham muito respeito e não gostavam de falar nisso, mas acreditavam em tudo o que é descrito.

Texto: Correia Manuel

Fotografia: Correia Manuel

Cruzeiro na Serra da Sina



A lenda da alma penada, da mulher da serra da estrêla, em Capelins

A lenda da alma penada, da mulher da serra da estrêla, em Capelins Conta-se que, o Zé Miguel, um rapaz natural da Aldeia de Cabeça de Carnei...