A lenda do segredo da filha do Regedor de Capelins
O ti Joaquim Manuel e sua
legítima mulher a ti Joaquina Maria, moravam na antiga Aldeia de Capelins de
Cima, eram seareiros, e devido às suas competências ele era o Regedor da
Freguesia de Santo António de Capelins, desde 1836, não tinham filhos, porque a
natureza dele ou dela ou dos dois, não o permitiam e, essa situação assombrava
a sua felicidade.
Na madrugada do dia 25 de
Abril de 1840, o ti Joaquim Manuel, como habitualmente, levantou-se da sua cama,
acendeu a candeia de azeite e preparou-se para ir à cabana dar a ração à sua
mula, para depois fazer as migas com toucinho frito para o almoço (pequeno
almoço) e partir para as courelas.
Quando abriu a porta de casa,
ainda estava muito escuro, ouviu uns passos de corrida, estranhou aquele
movimento e tentou ver o que se passava, mas devido à escuridão não viu nada, quando
deu um passo em frente para sair tocou com a biqueira da bota numa cesta e
murmurou: Mau, mau, aqui há gato! E com a ajuda da pouca luz da candeia, com
muito cuidado, levantou um pano que tapava a cesta e ficou admirado ao ver que
tinha lá dentro uma criança, tornou a olhar a rua, porque tinha o
pressentimento que estava a ser observado, mas como não avistou ninguém, pegou
na cesta e foi acordar a ti Joaquina, contou-lhe o que se estava a passar, e
ficaram sem saber o que fazer.
Já mais calmos, a ti Joaquina
pegou na criança e confirmaram que era uma menina com poucas horas de vida,
precisava de muitos cuidados, e acreditaram que era uma dádiva divina, tinham ali
a filha que tanto desejavam, porém, sabiam que tinham muitos passos a dar para a
legalizar, mas o ti Joaquim sossegou a ti Joaquina, dizendo-lhe que seria tudo
feito pelo Pároco de Santo António, o padre Manuel de Santo Inácio Pereira, com
o qual tinham muito boas relações e sabia que ele os ajudava, e meteu-se logo a
caminho da Igreja, quando o padre se levantou já ele estava à porta da casa
Paroquial e, em poucas palavras contou-lhe o que ali o levava.
O Pároco mostrou-se muito surpreendido
com o sucedido e fez algumas perguntas ao ti Joaquim, se desconfiava quem seriam
os pais da menina, que idade teria, se não seria algum engano e alguém lá voltaria
a buscá-la e, principalmente, o que pensava fazer, porque podia aperfilhá-la, ou
entregá-la ao juiz dos órfãos da Vila de Terena, quaisquer dos casos, o padre
tratava de tudo.
O ti Joaquim respondeu que já
tinha falado com a ti Joaquina e que não tinham dúvidas, queriam aperfilhar a
menina, e depois de tudo esclarecido o padre pediu-lhe alguns dados, dele e da
ti Joaquina, para fazer o registo e disse-lhe, para quando pudessem levarem a
menina à Igreja para ser batizada e pôr-lhe os Santos Óleos e podia ir
descansado que a menina seria deles.
O ti Joaquim despediu-se do
Pároco e foi a correr até à Aldeia, para contar à ti Joaquina que estava tudo
bem encaminhado para ficarem com a menina e, assim que ela ficou informada, ele
foi a correr buscar leite de vaca para a criança, senão, quando acordasse com
fome, não tinham nada para lhe dar e a ti Joaquina ficou a preparar tudo para o
seu bem estar.
Passadas poucas horas, já toda
a gente na Freguesia sabiam que tinha aparecido uma menina dentro de uma cesta
à porta do Regedor, e as mentes brilhantes começaram a trabalhar, a tentar
descobri quem seria a mãe, e foram nomeadas todas as mulheres que estavam de
barriga na Freguesia, as quais, à medida que iam confirmando, não poderem ser,
iam sendo riscadas da lista e durante muito tempo não se falou noutra coisa, houve
muitos boatos, mas a maioria das pessoas concluíram que, tinha de ser de fora,
e com o passar do tempo, o segredo foi ficando esquecido.
A menina foi batizada e
registada com o mesmo nome da mãe adotiva, ficou a chamar-se Joaquina, teve uma
infância normal, muito feliz, nunca lhe faltou nada, o ti Joaquim, de seareiro
passou a ser lavrador, com uma vida muito boa, e a menina era conhecida em
Capelins como a filha do Regedor.
A menina Joaquina foi
crescendo, tornando-se uma das raparigas mais bonitas de Capelins e, quando
chegou à idade casadoira, tinha muitos pretendentes, mas ela perdeu-se de
amores por um dos filhos do lavrador da Zorra, namoraram algum tempo e foi marcado
o casamento, sendo cumpridas, integralmente todas as tradições.
O casamento da filha do
Regedor foi muito falado por toda a Freguesia e no dia da sua realização, em Setembro
de 1865, estava toda a gente junto à Igreja de Santo António para ver os noivos
e a sua saída já casados, e quando eles surgiram na porta grande a ocidente,
ouviu-se o grito estridente de uma mulher, a dizer: Minha querida filha, tão
linda que estás, ainda bem que o fiz, e caiu de joelhos em grande pranto, essa
mulher, era uma das filhas do taberneiro de Capelins, chamada Rosália.
A maioria das pessoas não se
aperceberam, nem as do casamento, porque estava toda a gente com os olhos nos
recém casados e existia muito burburinho, mas as que estavam mais próximas, ouviram
bem, correram a levantá-la, e as mais velhas, olharam umas para as outras,
desconfiadas e, assim que tiveram oportunidade confrontaram-na sobre o caso, e
ela negou que a Joaquina fosse sua filha, que aquilo tinha sido por gostar
muito dela, como de uma filha, mas já era tarde.
A emoção ao ver a filha tão linda e bem casada,
apoderou-se dela e traiu-a, porém, continuou a negar que era a sua mãe, mas a
novidade espalhou-se pela Freguesia, chegando aos ouvidos da Joaquina, do
Regedor e da mulher, que não deram importância, acreditando que, era mais um
boato como os outros, mas na verdade, estava desvendado metade do segredo da
filha do Regedor, faltava saber quem seria o pai biológico e, novamente
surgiram os nomes de muitos homens da Freguesia que podiam ser o pai.
O resto do segredo só foi desvendado mais
tarde, depois da Rosália ter ido prestar contas ao Senhor, a irmã que a tinha
ajudado acabou por contar que a Rosália, então, uma moça muito linda de cabelos
negros, muito longos, dona de uns olhos verdes muito lindos, com traços de
moura, tinha-se envolvido com um fidalgo da Casa de Bragança que, frequentemente
caçava nas terras de Capelins e frequentava a taberna, mas depois dela ficar de
barriga, nunca mais apareceu, ela conseguiu esconder bem a gravidez, mas quando
a criança nascesse, seria uma grande vergonha para ela e para a família, e não teve
outra solução, senão deixá-la à porta do Regedor, porque sabia que seria bem cuidada
e estaria perto dela, podia acompanhar o seu crescimento e dar-lhe o seu
carinho.
A Rosália, era muito procurada
por rapazes de bem, que queriam casar com ela, e ninguém compreendia a sua
rejeição, mas era porque, continuava a sonhar que o fidalgo um dia voltaria no
seu cavalo alazão, para a levar a ela e à sua filha, para o Paço Ducal, mas ele
nunca mais voltou a Capelins.
Quando foi desvendado o
segredo, sobre quem eram os pais biológicos da Joaquina, já o ti Joaquim e a ti
Joaquina tinham partido e, nada se alterou na vida da filha do Regedor, que era
uma fidalga.
Fim
Texto: Correia Manuel
Fotografia: Correia Manuel


