sábado, 6 de junho de 2026

A lenda do toque do sino da Igreja de Santo António de Capelins

A lenda do toque do sino da Igreja de Santo António de Capelins

Conta-se que, à volta do ano de 1820, durante uma temporada, o sino da Igreja de Santo António de Capelins, tocava à meia noite a chamar para a missa.

Como nessa época as pessoas deitavam-se pouco depois do solposto, cansados do trabalho duro que faziam nos campos, nessa hora, dormiam profundamente, mas acordavam atarantados, mas o sino parava de tocar e viravam-se nas suas camas continuando a dormir, só o sacristão e o padre Marcos Pouzão iam à porta a ver o que se passava, mas não viam ninguém, nem ouviam nada e, corriam para a cama, mas no dia seguinte toda a gente que morava junto à Igreja, reclamava e comentava o sucedido. 

Como a situação se repetia, as pessoas começaram a fazer vigias e mesmo assim, o sino tocava sem ninguém por perto e os moradores já andavam assustados e começaram a dizer que só podia ser uma alma penada, mas também diziam, que as almas penadas não entravam no Campo Santo, não entendiam como é que esta, se aproximava assim da Igreja. 

O padre Marcos Pouzão e o sacristão prometeram que iam resolver a situação, porque se fosse uma alma penada, tinha de dizer o que queria e começaram a andar por ali a essa hora, mas o sino tocava e não viam nada, até que, numa noite de grande invernia o sino tocou, e o padre foi a correr e disse ao sacristão para ficar em casa e não sair, porque podia ser um caso só para ele, por isso, é que a alma penada nunca se mostrava, quando iam os dois, e afastou-se.

Quando o padre chegou à porta da Igreja viu que estava iluminada e a porta com uma pequena fisga aberta, empurrou a porta e viu um padre paramentado de costas para ele, ficou assustado, mas foi indo devagar e naquele momento ouviu uma voz dizer-lhe: - Não tenha medo, há muito tempo que estou à sua espera, sou o pároco Luciano o anterior, e estou no  purgatório para ser purificado, mas fui castigado, porque recebi uma grande esmola de um lavrador daqui para rezar uma missa pela alma dele e não o fiz, agora preciso da sua ajuda, porque tenho de rezar a missa com a ajuda de outro padre, mas antes de eu dar a benção o colega tem de sair daqui a correr, não se esqueça disso! 

O Pároco Luciano rezou a missa com a ajuda do padre Marcos que, antes da benção, como o pároco lhe disse, fugiu e quando passou a porta da Igreja ela fechou-se bruscamente, quase o entalava e, ao mesmo tempo ouviu grande estouro dentro da Igreja.

O padre Marcos Pouzão foi dali a correr para a sua casa, e nessa noite pouco fechou os olhos e de manhã assim que se levantou chamou o sacristão e contou-lhe o que se tinha passado, foram os dois à Igreja a observar tudo ao pormenor e não havia sinais de alguém ali ter estado, e o sacristão que morava paredes meias com a Igreja, afirmou que não ouviu nada, mas acreditou no padre. 

Nesse dia à meia noite, os moradores esperavam o toque do sino a chamar para a missa, mas o sino nunca mais tocou, o padre apenas lhe disse que, o caso estava resolvido, mas passado algum tempo, acabaram por saber o que se tinha passado, através do sacristão, e ficaram descansados, por mais uma alma do purgatório, ter sido salva.

Texto; Correia Manuel 

Fotografia: Correia Manuel 

Igreja de santo António de Capelins 

Existiam aqui pelo menos seis casas de habitação



sexta-feira, 5 de junho de 2026

A lenda do último lobo de Capelins

 A lenda do último lobo de Capelins 

Conta-se que, noutros tempos, a Freguesia de Capelins tinha muitos lobos, devido às condições geográficas propícias ao seu habitat, com as Ribeiras de Lucefécit e de Azevel, lateralmente e, com o rio Guadiana ao fundo, onde existiam muitos esconderijos, desde moitas de tamujeiras e de outros arbustos, além dos silvados e zonas de grandes matagais, como também, à existência de muito gado e de caça, por isso, os lobos andaram por aqui até finais da década de 1940, mas em algumas Freguesias vizinhas ficaram até mais tarde. 

Os lobos viviam em alcateias, eram famílias, e tinham o território dividido entre elas, mas por vezes, não respeitavam os respetivos domínios e neste caso, os lobos de Santa Luzia que residiam sobre um rochedo chamado entalão da moura, passavam a ribeira de Lucefécit para o lado de Capelins, onde atacavam o gado dos lavradores, e os do lado de cá atacavam o gado de lá, acontecendo o mesmo em relação a Monsaraz. 

Os lobos da Freguesia de Capelins tinham o seu território para o lado da Ribeira de Azevel, até ao domínio dos lobos de Monsaraz, mas como era uma área muito batida por caçadores, pelo menos desde a centúria de 1700, tinham o seu covil num matagal com algumas rochas, na herdade do Assento, depois Monte Seco, perto do Monte da Vinha, nas chamadas courelas das lobas. 

Assim, os lobos de Capelins, desciam até à Ribeira de Azevel e daí ao rio Guadiana à região do Gato, e rio acima, e para se protegerem, durante a noite, subiam ou desciam, a partir do seu covil, pelo ribeiro do peral que desagua diretamente na Ribeira de  Azevel, mas em caso de haver esperas, feitas pelos caçadores, usavam outros caminhos, porque eram muito espertos. 

A alcateia das courelas da loba passou por uma época, de boa cama e boa mesa, cresceu muito e começou a fazer muitos ataques ao gado da região e os lavradores e criadores de gado reuniram-se para encontrar uma maneira de a desalojar das courelas das lobas, e acabar com eles. 

Os lavradores de Capelins, tinham quase todos espingardas de caça, nesse tempo ainda eram de atacar pela boca, metiam a pólvora e o chumbo pelo cano e apertavam com uma vareta, depois colocavam uma escorva que era picada por uma agulha de aço, o percussor, e disparava, imediatamente, ao contrário das anteriores, nas quais, usavam um pedacinho de pederneira para fazer explodir a pólvora, mas dava tempo aos lobos de se meterem a milhas e, assim, começou a caça feroz aos lobos de Capelins. 

Os lavradores faziam batidas, esperas e armavam laços aos lobos e depressa lhe deram grande desbasto na alcateia das courelas das lobas, ficou apenas uma loba com três filhos pequeninos, porque, não a faziam sair do covil de junto dos filhos, lá ficava a alimentá-los vários dias sem comer, só em noites muito escuras, conseguia sair e, como conhecia muito bem a região, não caia nas armadilhas, ia a um rebanho e não matava as ovelhas, levava apenas um borrego ou outro, muitas vezes perdidos do rebanho, que pouca diferença fazia aos pastores e assim criou os três lobitos.

Como os ataques ao gado desapareceram, os lavradores deixaram a loba em paz, e os seus filhos foram crescendo, mas devido à sua natural rebeldia, ela já não conseguia mantê-los na toca e começaram a fazer as suas descobertas, investindo contra os rebanhos e causando prejuízos, logo, também pela sua inexperiência, em poucos meses, foram abatidos, ficando a loba sozinha, ninguém dava notícias de mais lobos residentes na Freguesia de Capelins. 

A loba de Capelins, continuou mais uma temporada no seu covil, sem causar grandes danos na região, os caçadores faziam-lhe esperas, usavam cães para a encontrar, mas ela era muito matreira, não a conseguiam encurralar, porém, começaram a reparar que não havia pegadas na entrada ou saída do covil, pensaram que, tinha mudado o covil para outro lugar, mas não o encontraram em lado nenhum, nem vestígios dela, e confirmaram que tinha desaparecido, ou foi para outra região à procura de um lobo, talvez até tenha passado o rio Guadiana para Espanha num ano de seca, ou morreu de desgosto por ficar sozinha, no interior da sua toca, e foi ela, já nos finais do decénio de 1940, o último lobo, neste caso, loba, da Freguesia de Capelins.

Texto: Correia Manuel 

Fotografia: Correia Manuel 

Monte Seco de Capelins



quinta-feira, 4 de junho de 2026

A lenda do ti talocadas, de Capelins

 A lenda do ti talocadas, de Capelins

Conta-se que, noutros tempos existiam muitos fantasmas, a que chamavam medos, na Freguesia de Capelins, como as pessoas eram obrigadas a andar de noite para chegarem cedo ao trabalho nas herdades, porque começavam a trabalhar ao romper da aurora, quando se começava a ver com luz natural, durante os percursos entre as suas casas e o trabalho, encontravam muitos medos e perigos.
O ti António da Rosa, conhecido pelo ti talocadas, ganhou esta alcunha, por estar sempre a oferecer talocadas aos companheiros, por tudo e por nada, morava em Capelins de Baixo e trabalhava no Monte da Talaveira, só ia a casa aos domingos para mudar a roupa, nessa noite dormia na sua casa, e de madrugada, bem cedo, metia-se a caminho, passando pelo poço da estrada, alto do malhão, descia ao ribeiro da negra e, logo ali estava a Talaveira.
Na Freguesia de Capelins, ouvia-se que, aparecia um medo no alto do malhão, e calhou ao ti talocadas, quando ia fazendo a curva desse caminho, levantou os olhos e reparou num vulto ao seu lado esquerdo, à medida que ele ia andando, o vulto ia lado a lado, era homem que não tinha medo de nada, por isso, continuou o seu caminho como se nada fosse, mas já na descida da Negra, lembrou-se que devia ser alguma alma penada e perguntou duas vezes: - O que é que tu queres? Mas não teve resposta, até que preparou o bordão que levava e manobrava muito bem, e assim que apanhou o vulto a jeito, preparou-se e deu-lhe grande talocada, e ouviu-se um grito de dor, com voz de mulher muito estridente, que ecoou por toda a cova da Negra e até se ouviu no Monte da Zorra e por pessoas que seguiam pelo mesmo caminho.
O vulto desapareceu e o ti talocadas pensou que já tinha acabado com o medo do alto do malhão, mas quando ia chegando ao ribeiro, lá estava o vulto ao seu lado, como se nada tivesse acontecido, e ele perguntou, novamente: - O que é que tu queres? Mas não teve resposta.
O ti talocadas passou o ribeiro e meteu-se pelo caminho que dava diretamente ao Monte da Talaveira e o vulto continuou a seu lado dele, então preparou o bordão e deu-lhe grande bordanada e, novamente se ouviu o mesmo grito e por momentos o vulto desapareceu, mas logo mais à frente, já lá estava outra vez ao lado do ti talocadas, mas quando ele chegou à eira do Monte da Talaveira, o vulto desapareceu, e nunca mais apareceu a ninguém, e as pessoas diziam que não tinham dúvidas, o seu desaparecimento tinha sido graças às talocadas que o ti talocadas lhe tinha dado e foi assim, que acabou mais um dos medos de Capelins.
Texto: Correia Manuel
Fotografia: Correia Manuel

Capelins



terça-feira, 2 de junho de 2026

A lenda da alma penada, da mulher da serra da estrêla, em Capelins

A lenda da alma penada, da mulher da serra da estrêla, em Capelins

Conta-se que, o Zé Miguel, um rapaz natural da Aldeia de Cabeça de Carneiro, era ajuda de um ganadeiro na herdade da Boieira e de oito em oito dias ia a sua casa a mudar a roupa, umas vezes mais cedo, outras já à noitinha, era conforme a disposição do ganadeiro.
Nas suas idas a casa, fazia quase sempre o mesmo percurso, o que ele achava mais direto, logo mais rápido, passava junto à Aldeia de Faleiros, depois seguia por um caminho pela cova da Sina até à Igreja de Santo António de Capelins, dali pelo baldio, Monte da Vinha e depressa chegava a casa.
Um dia saiu da Boeira já ao sol posto, seguindo o dito caminho e quando chegou à cova da Sina já estava escurecido e o Zé Miguel sentiu que alguma coisa não estava bem, alguém o seguia e quando olhou para trás estava mesmo a ser alcançado por uma mulher vestida de negro e com um véu pela cabeça, apanhou um grande susto e começou a correr o mais que podia e só parou quase junto à Igreja, porque estava muito cansado, olhou para trás e já não viu mulher nenhuma.
Passaram-lhe muitas coisas pela cabeça, a pontos de já nem ter a certeza o que tinha visto, pensou em ir pedir ajuda ao sacristão, que era amigo dele e da família, mas lembrou-se que, podiam gozar com ele e acabou por seguir o seu caminho.
Desde a Igreja até ao cruzeiro que indica o limite do Campo Santo, quando se vem do lado da dita Aldeia de Cabeça de Carneiro, não viu nada, mas assim que passou esse limite, olhou em frente e lá estava a mulher à sua espera, apanhou mais um susto, recuou uns passos e voltou a correr até à Igreja, entrou na casa do sacristão, tremia todo e mal conseguia falar, mas a pouco e pouco, lá explicou o que lhe tinha acontecido.
O sacristão, era um homem muito corajoso, viu o estado em que o Zé Miguel estava, pensou logo que só podia ser uma feiticeira a meter medo ao rapaz, e não gozou com ele, disse-lhe para ter calma que tudo se resolvia, se fosse preciso, ia com ele até à Aldeia de Cabeça de Carneiro.
O sacristão pegou num bordão e com um dos filhos que tinha assistido à conversa, foram com o Zé Miguel, passaram o cruzeiro do limite do Campo Santo e não viram nada no sítio onde ele dizia que estava a mulher, ali estiveram falando sobre o que poderia ser, ou não ser e, o filho do sacristão pediu ao Zé Miguel para lhe dizer o sítio certo onde tinha visto a mulher, depois de ele lhe indicar, puxou uma feixa de esteva e lenha seca para esse sítio, e disse: - Se for uma feiticeira, eu já acabo com ela! E pegou numa caixa de fósforos para puxar fogo à lenha e naquele momento o lume acendeu-se sozinho e com uma chama tão alta e clara que iluminou um circulo, parecia ser dia, e fora desse circulo de luz, na parte mais escura, lá estava a mulher com o véu pela cabeça.
Eles ficaram sem palavras e sem saber o que fazer, mas ela disse-lhe para não terem medo, não estava ali por mal, apenas pedia ajuda e adiantou que, era uma alma penada que andava ali perdida, porque não conhecia a região, por ser da serra da estrêla.
Surgiram várias ideias na cabeça do sacristão, mas acalmou-se, fez peito em sinal que não tinha medo, empertigou-se todo e perguntou-lhe o que queria deles?
A alma penada repetiu que, era da serra da estrêla e uma vez tinha estado por algum tempo em Capelins, a visitar o marido que era pastor da transumância, e nesse tempo andava ali nas herdades da Casa do Infantado, e ela tinha cá adoecido com as febres que matavam quase toda a gente, e prometeu a Santo António que se a curasse, daria três voltas à sua Igreja a rezar, e acendia uma vela no seu altar, depois melhorou, voltou para sua casa na serra da estrêla, e nunca mais se tinha lembrado de pagar a dita promessa, agora pedia ajuda, para alguém a pagar por ela, em troca de proteção divina.
O sacristão ouviu-a com atenção e compreendeu, depois disse-lhe que estava salva do purgatório, porque no dia seguinte, logo de manhãzinha, a promessa seria paga, a mulher agradeceu, desapareceu e o lume apagou-se.
O sacristão e o filho disseram ao Zé Miguel que já podia seguir o seu caminho descansado, o caso estava resolvido, de certeza que, a mulher já não lhe aparecia, mas ele tremia como varas verdes e eles decidiram acompanhá-lo até quase ao Monte da Vinha, depois lá seguiu sozinho, sempre a correr até casa.
Assim que o sacristão chegou a casa, contou à mulher o que se tinha passado, e concordaram que ela, logo de manhãzinha pagaria a promessa, para salvarem aquela alma penada do purgatório.
De manhã, a promessa foi paga e a alma penada da mulher da serra da estrêla, nunca mais apareceu por Capelins.
O Zé Miguel, continuou a ser ajuda de gado na herdade da Boeira e ia a casa de oito em oito dias, mudar a roupa, mas nunca mais seguiu por aquele caminho, nem de dia, ia junto à Aldeia de Faleiros, passava pelo Monte das Courelas, Monte das Fontanas e depois descia à Aldeia de Cabeça de Carneiro, para um e outro lado, era mais longe, mas mais seguro, contra almas penadas.

Texto: Correia Manuel

Fotografia: Correia Manuel



segunda-feira, 1 de junho de 2026

A lenda do anjo de Capelins

 A lenda do anjo de Capelins 

Conta-se que, nos primeiros decénios da centúria de 1700, durante alguns anos, nas noites em que os anjos se movimentavam pela Terra, cuja crença era em 05 de Janeiro, 19 de Março, 31 de Maio, 12 de Agosto e 24 de Outubro, embora se pudessem movimentar sempre que fosse necessário, pela meia noite, alguns ganadeiros, começaram a ver uma silhueta, muito brilhante, de uma linda menina, envolta num manto branco, que descia o curso dos ribeiros, do terraço, do quebra, da silveirinha, do carrão, e depois seguia junto à Ribeira de Lucefécit, até às Azenhas D'El-Rei, onde desaparecia no rio Guadiana.

Este caso, começou a ser muito falado em toda a Freguesia de Capelins e arredores, havia muitas opiniões, algumas pessoas acreditavam, outras não, umas diziam que era um medo, outras uma alma penada, ou que eram as feiticeiras, cada cabeça sua sentença.

O tempo passava e cada vez havia mais pessoas a confirmar o que os ganadeiros contavam, e queriam descobrir o que era aquela figura luminosa, e organizaram grupos que, antes da meia noite iam para sítios onde viam bem o dito percurso, e numa noite toda a gente viu a silhueta da menina, alguns tentaram deitar-lhe a mão, mas não conseguiram, porque não passava de uma imagem sem consistência e era muito rápida a movimentar-se, mas não tiveram dúvidas que era um anjo. 

No dia seguinte, não se falava noutra coisa e algumas pessoas diziam que a tinham visto descer desde a Igreja de Santo António, e isso não demorou em chegar aos ouvidos do padre Miguel Galego que, não acreditou, nem deixou de acreditar, era muita gente a dizer o mesmo, por isso, alguma coisa havia. 

Estava confirmado parte do mistério, faltava saber o que fazia por ali aquele anjo, e os grupos de curiosos continuaram a trabalhar, já tinham ideia das datas mais prováveis da sua aparição e quando ela voltou a aparecer tiveram a certeza que tinha saído da Igreja e correram a chamar o padre Miguel e o sacristão, para irem ver se alguma campa dos anjinhos estava remexida, levaram um lampião e viram, com os seus olhos, as lages que cobriam uma campa estavam fora do seu lugar e o sacristão confirmou que, era a campa da filha do Moleiro das Azenhas D'El-Rei, chamada Maria de Jesus,  que tinha falecido aos 10 anos de idade e era a criança mais carinhosa que tinham conhecido, era alegre e cheia de saúde, depois adoeceu e faleceu, deixando toda a gente muito triste.

 Os moradores de Capelins diziam que, devido a menina ser tão carinhosa e bondosa para toda a gente, decerto que, tinha sido escolhida por Deus e Nossa Senhora, para ser mais um anjinho.

Sempre que lhe era permitido por Deus, o anjinho Maria de Jesus ia ver os pais e irmãos ao Moinho das Azenhas D'El-Rei, e numa noite de temporal, o rio Guadiana registou uma grande cheia, e ela salvou o pai de morrer afogado, que se tinha deixado dormir dentro do Moinho, depois de o acordar e ele fugir, em poucos minutos, o Moinho ficou submerso.

O anjinho Maria de Jesus, continuou pelas terras de Capelins durante muitos anos, ajudando os moradores da Freguesia, mas um dia, a sua missão aqui, chegou ao fim, e desapareceu para sempre, mas a sua sepultura está, aos pés da sua madrinha, Nossa Senhora do Rosário, na Igreja de Santo António de Capelins.

Texto: Correia Manuel

Fotografia: Correia Manuel 

Nossa Senhora do Rosário - Capelins




quinta-feira, 28 de maio de 2026

A lenda da ti Maria Joana e da ti Maria Joaquina, de Capelins

A lenda da ti Maria Joana e da ti Maria Joaquina, de Capelins

A ti Maria Joana e a ti Maria Joaquina, eram amigas quando crianças e na sua mocidade, depois casaram, ficaram a morar lado a lado e a situação alterou-se.
As vizinhas, mesmo depois de viúvas, não se entendiam, as casas eram encostadas uma à outra e os quintais eram separados por um muro lateral com mais de um metro de altura, era o muro da discórdia entre elas, porque foi devido a ele que, desde o tempo em que os seus maridos ainda eram vivos já andavam a ódio, não se falavam, porque a ti Maria Joana dizia que o muro não era meeiro, estava feito na sua terra, e a ti Maria Joaquina não podia encostar nada ao dito muro, do lado do seu quintal, senão estava o caldo entornado.
A ti Maria Joana não tinha filhos, apenas umas sobrinhas que moravam no Alandroal e Vila Viçosa e pouco apareciam, e a ti Maria Joaquina tinha filhos e netos, mas estavam fora e, rararmente a visitavam, pelo que, estavam ambas sozinhas, valia-lhes a companhia dos seus cães, cada uma tinha o seu.
O ódio das vizinhas chegava aos cães que, diariamente, logo de manhãzinha corriam, ao longo do muro, um de cada lado, várias vezes, a ladrar, com tanta raiva, que parecia quererem matar-se um ao outro, sem nunca se verem, e as suas donas ficavam especadas a assistir atrás dos cortinados das janelas, e quando os viam já cansados lá os chamavam de volta a casa.
Uma noite, passou uma trovoada tão grande por Capelins, uma tempestade, choveu tanto que o quintal da ti Maria Joana ficou cheio de água até quase à altura do muro, porque o canal de escoamento entupiu e não dava saída, e parte do muro ao fundo do quintal, não aguentou o peso e ruiu.
O dia seguinte nasceu solarengo, e como habitualmente, quando as vizinhas abriram as portas de suas casas, os seus cães sairam a correr a ladrar ao longo do muro, e quando chegaram ao fundo, pararam e ficaram frente a frente em silêncio, a olhar um para o outro, depois aproximaram-se, cheiraram-se mutuamente e começaram a brincar, a rebolar, e a correr juntos por todo o quintal da ti Maria Joana e daí passaram para o quintal da ti Maria Joaquina, sempre com muita alegria, como elas estavam a observá-los ficaram aflitas, sem saberem o que fazer, não entendiam como se tinham juntado e muito menos o seu comportamento, e quando os chamaram eles não obedeceram, nem as ouviam, via-se que existia uma grande amizade entre eles e que não aceitavam a separação.
As vizinhas ficaram sem saber o que fazer, e desceram ao longo do muro para ver a causa do ajuntamento dos cães, ou seja, foram até à parte do muro que estava caído, e a ti Maria Joana acabou por quebrar o silêncio, e disse: - Tal não foi a tempestade esta noite, tive muito medo!
A ti Maria Joaquina, ainda hesitou em falar, mas ao ver a alegria dos cães, acabou por responder: - Foi grande tempestade, até derrubou aqui o muro, por isso os nossos cães se juntaram!
Eu vou já mandá-lo arranjar! Disse a a ti Maria Joana!
Não há pressa, parece que faz falta aos nossos cães, e quando o mandar arranjar eu pago metade! Respondeu a ti Maria Joaquina!
Nesse dia, a conversa não se alongou muito, ficou por ali, os cães já cansados de tanto correr e com fome, recolheram a suas casas.
No dia seguinte, logo cedo, já os cães estavam impacientes para sair de casa para os quintais e repetiram a mesma corrida do dia anterior, parecia que andavam doidos de tão contentes, via-se que, existia alguma coisa estranha entre eles.
As vizinhas, começaram a falar sobre os cães e concluíram que, eles eram irmãos, e da mesma ninhada, e depois de tantos anos separados, ainda se conheceram, por isso, a sua alegria.
Aquela amizade entre os cães, despertou sentimentos na ti Maria Joana e na ti Maria Joaquina, e pouco a pouco foram-se aproximando e esquecendo o ódio que perdurou tantos anos, e iniciaram uma grande amizade entre elas, nunca mais quiseram saber de quem era o muro da discórdia, mandaram arranjar a parte que tinha ruído e abrir uma porta mais perto das suas casas para elas e os cães poderem conviver no dia a dia, e as suas vidas começaram a ter outro sentido, com mais segurança e felicidade, graças à lição dada pelos seus cães.

Texto: Correia Manuel

Fotografia: Correia Manuel

Ferreira de Capelins



segunda-feira, 25 de maio de 2026

A lenda do ti Manel Francisco e do ti Francisco Manel, de Capelins

 A lenda do ti Manel Francisco e do ti Francisco Manel, de Capelins

Conta-se que, noutros tempos, havia muita gente teimosa, persistente nas ideias, na Freguesia de Capelins como o ti Manel Francisco morador no Monte do Pinheiro de Capleins e o seu compadre o ti Francisco Manel, morador na Aldeia de Capelins de Baixo.
Numa manhã chuvosa de um Domingo, no início da centúria de mil e novecentos, o ti Manel Francisco descia a chapada do Pinheiro que estava cheia de lama, porque a vereda era usada por muita gente e nesse tempo ainda não existiam as escadinhas, por isso, era perigosa, por ser íngreme e muito escorregadia, qualquer pessoa que lá caísse, podia ser o seu fim, quando ia a meio caminho, um bocadinho mais acima, viu que ia a subir o seu compadre o ti Francisco Manel, e quando estava a poucos metros de se cruzarem, o ti Manel Francisco escorregou na lama e veio desmandado por ali abaixo, valeu-lhe o ti Francisco Manel que lhe deitou a mão com firmeza e energia e ficaram especados frente a frente quase nariz com nariz.
O ti Manel Francisco agradeceu ao compadre pelo auxílio, reconheceu que podia ter sido um caso sério e acrescentou: - Esta descida é muito perigosa, se tivesse aqui umas escadinhas isto não me acontecia!
- Mas qual descida compadre? Isto é uma chapada, por isso, é uma subida!
Como eram ambos muito teimosos, continuaram durante horas a meio da chapada do Pinheiro a teimar, o ti Manel Francisco dizia que era uma descida, e o ti Francisco Manel dizia que era uma subida e fizeram-se horas de jantar (hoje almoço), entretanto choveu muito, ficaram encharcados até aos ossos, mas a discussão não parou. As mulheres de cada um, mandaram os filhos a procurá-los, porque já tinham as sopas arredadas do lume e a mesa posta, e eles não apareciam, os filhos foram dar com eles, mas não resolveram nada, porque eles diziam que não saiam dali sem levarem a razão que lhes pertencia, era uma questão de honra, e mandaram dizer às mulheres para lhes trazerem uma marmita com as sopas e comeram ali naquele lugar, sempre em grande discussão sobre a chapada ser subida ou ser descida.
Era inverno, estava perto de cair a noite e eles continuavam a discussão, até que, as mulheres de ambos, que eram primas, foram-se por eles e depois de os tentarem convencer a ir cada um para sua casa, tiveram de desistir, e lembraram-se de descer até à taberna e chamar alguns homens mais respeitados, que depois de se inteirarem sobre a causa da discussão, foram lá e disseram-lhes com muita calma que os dois tinham razão, se o ti Manel Francisco ia a descer, para ele era uma descida que tinha pela frente, mas para o ti Francisco Manel se ia a subir, para ele era uma subida que tinha pela frente, sem nunca deixar e ser uma chapada.
O ti Manel Francisco e o ti Francisco Manel parece que acordaram, olharam um para o outro e disseram em coro: - É compadre como é que a gente não nos lembrámos disso! E a sua teimosia nesse dia, acabou por ali, mas continuaram a ser os mais teimosos da Freguesia de Capelins.

Texto: Correia Manuel

Fotografia: Correia Manuel

Escadinhas do Pinheiro de Capelins


A lenda do toque do sino da Igreja de Santo António de Capelins

A lenda do toque do sino da Igreja de Santo António de Capelins Conta-se que, à volta do ano de 1820, durante uma temporada, o sino da Igrej...