A lenda do João Cabreiro e de sua madrinha, de Monsaraz
Conta-se que, nos finais da década de mil seiscentos e vinte, nasceu um rapaz na Vila de Monsaraz, a quem foi dado o nome de João.
O João ainda pequenino, já mostrava grande afeição por cabras e elas por ele, deixavam-no mamar, como se fosse seu filho, por isso, as pessoas diziam que o rapaz devia ser filho de uma cabra.
Como o avô tinha um pequeno rebanho de cabras, que pastavam nas margens das Ribeiras da Pega e do Azevel, e o João andava sempre atrás dele, ganhou a alcunha de João Cabreiro, conhecia a região a palmo, assim como, todos os segredos sobre as cabras e a vida no campo, e quando o avô arrumou as botas, o João Cabreiro ficou com o rebanho de cabras que, guardava na mesma região, com a ajuda de dois cães tão bem treinados, que podia estar descansado e ausentar-se por algum tempo, que os cães tomavam conta delas.
No dia vinte e oito de Setembro de mil seiscentos e quarenta e cinco, na Guerra da Restauração, entraram cerca de trezentos castelhanos bem armados, pelo Concelho de Monsaraz e saquearam as Aldeias e Montes das herdades até Montoito, daí voltaram, no dia vinte e nove, juntando o gado, vacas, muares, cabras, porcos, ovelhas e outros, e desceram na direção do rio Guadiana, para passarem para Castela, no Porto de Monsaraz - Mourão, mas sempre acoçados por alguma tropa portuguesa, na tentativa de lhe tirarem o gado, e quando um grupo de castelhanos chegaram a alguns metros da Ribeira da Pega, onde o João Cabreiro estava escondido, a tentar proteger as suas cabras, porque já sabia que os inimigos estavam por perto, carregou a sua funda que manobrava como ninguém, com um penedo branco, ou bajoulo, chamado quartzo leitoso, fixou os olhos na cabeça do castelhano da frente do grupo, rodopiou a funda por cima da cabeça e lançou o penedo, acertando mesmo no meio da testa do castelhano, atirando com ele do cavalo abaixo com a cabeça aberta, ficando logo morto.
Os castelhanos ficaram atónitos e correram em seu auxílio, foi o tempo suficiente para o João Cabreiro fugir na direção do olival da Pega, subiu uma oliveira que ele bem conhecia, e deixou-se escorregar para dentro do seu tronco ôco, onde nem respirava, com medo de ser ouvido, sabia que, se fosse descoberto, seria logo morto.
Alguns castelhanos ainda foram no seu encalço e passaram várias vezes por debaixo da oliveira, mas nem desconfiavam que ele podia lá estar metido dentro, e como se aproximava uma companhia de tropa portuguesa, acabaram por desistir e fugiram, assim, o João Cabreiro foi salvo por aquela oliveira de tronco ôco.
A partir daquele dia, sempre que o João Cabreiro ia à Vila de Monsaraz e lhe diziam: - Então João, estás cá hoje?
O João Cabreiro respondia sempre o mesmo: Estou cá hoje, graças à minha madrinha!
Os montesarenses achavam a resposta estranha e queriam saber quem era essa senhora, madrinha do João Cabreiro que o deixava ir à Vila de Monsaraz, e ele respondia: Qualquer dia conto-lhes! Porque estava em causa a morte do castelhano e ainda podia haver vingança, e só quando se estabeleceu a paz, o João Cabreiro contou a toda a gente o que tinha acontecido naquele dia do Arcanjo S. Miguel, e afirmava que, se estava vivo, era graças à oliveira da Pega, por isso, a venerava e seria sua madrinha para sempre.
Depois dos montesarenses saberem desse acontecimento, aclamaram o João Cabreiro como herói, pela sua valentia, afinal podia ter morrido em defesa das suas cabras e da honra dos montesarenses, e a oliveira da Pega que lhe salvou a vida, passou a chamar-se, a madrinha do João Cabreiro, e foi assim conhecida por muitas gerações.
Quando chegou a hora, o João Cabreiro foi prestar contas ao seu padroeiro S. Tiago, e a sua madrinha lá ficou onde, atualmente se encontra, sendo uma das oliveiras mais velhas, senão a mais velha de Portugal.
Fim
Texto: Correia Manuel
Fotografia: Isidro Pinto
Oliveira da Pega






