quinta-feira, 4 de junho de 2026

A lenda do ti talocadas, de Capelins

 A lenda do ti talocadas, de Capelins

Conta-se que, noutros tempos existiam muitos fantasmas, a que chamavam medos, na Freguesia de Capelins, como as pessoas eram obrigadas a andar de noite para chegarem cedo ao trabalho nas herdades, porque começavam a trabalhar ao romper da aurora, quando se começava a ver com luz natural, durante os percursos entre as suas casas e o trabalho, encontravam muitos medos e perigos.
O ti António da Rosa, conhecido pelo ti talocadas, ganhou esta alcunha, por estar sempre a oferecer talocadas aos companheiros, por tudo e por nada, morava em Capelins de Baixo e trabalhava no Monte da Talaveira, só ia a casa aos domingos para mudar a roupa, nessa noite dormia na sua casa, e de madrugada, bem cedo, metia-se a caminho, passando pelo poço da estrada, alto do malhão, descia ao ribeiro da negra e, logo ali estava a Talaveira.
Na Freguesia de Capelins, ouvia-se que, aparecia um medo no alto do malhão, e calhou ao ti talocadas, quando ia fazendo a curva desse caminho, levantou os olhos e reparou num vulto ao seu lado esquerdo, à medida que ele ia andando, o vulto ia lado a lado, era homem que não tinha medo de nada, por isso, continuou o seu caminho como se nada fosse, mas já na descida da Negra, lembrou-se que devia ser alguma alma penada e perguntou duas vezes: - O que é que tu queres? Mas não teve resposta, até que preparou o bordão que levava e manobrava muito bem, e assim que apanhou o vulto a jeito, preparou-se e deu-lhe grande talocada, e ouviu-se um grito de dor, com voz de mulher muito estridente, que ecoou por toda a cova da Negra e até se ouviu no Monte da Zorra e por pessoas que seguiam pelo mesmo caminho.
O vulto desapareceu e o ti talocadas pensou que já tinha acabado com o medo do alto do malhão, mas quando ia chegando ao ribeiro, lá estava o vulto ao seu lado, como se nada tivesse acontecido, e ele perguntou, novamente: - O que é que tu queres? Mas não teve resposta.
O ti talocadas passou o ribeiro e meteu-se pelo caminho que dava diretamente ao Monte da Talaveira e o vulto continuou a seu lado dele, então preparou o bordão e deu-lhe grande bordanada e, novamente se ouviu o mesmo grito e por momentos o vulto desapareceu, mas logo mais à frente, já lá estava outra vez ao lado do ti talocadas, mas quando ele chegou à eira do Monte da Talaveira, o vulto desapareceu, e nunca mais apareceu a ninguém, e as pessoas diziam que não tinham dúvidas, o seu desaparecimento tinha sido graças às talocadas que o ti talocadas lhe tinha dado e foi assim, que acabou mais um dos medos de Capelins.
Texto: Correia Manuel
Fotografia: Correia Manuel

Capelins



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