A lenda do anjo de Capelins
Conta-se que, nos primeiros decénios da centúria de 1700, durante alguns anos, nas noites em que os anjos se movimentavam pela Terra, cuja crença era em 05 de Janeiro, 19 de Março, 31 de Maio, 12 de Agosto e 24 de Outubro, embora se pudessem movimentar sempre que fosse necessário, pela meia noite, alguns ganadeiros, começaram a ver uma silhueta, muito brilhante, de uma linda menina, envolta num manto branco, que descia o curso dos ribeiros, do terraço, do quebra, da silveirinha, do carrão, e depois seguia junto à Ribeira de Lucefécit, até às Azenhas D'El-Rei, onde desaparecia no rio Guadiana.
Este caso, começou a ser muito falado em toda a Freguesia de Capelins e arredores, havia muitas opiniões, algumas pessoas acreditavam, outras não, umas diziam que era um medo, outras uma alma penada, ou que eram as feiticeiras, cada cabeça sua sentença.
O tempo passava e cada vez havia mais pessoas a confirmar o que os ganadeiros contavam, e queriam descobrir o que era aquela figura luminosa, e organizaram grupos que, antes da meia noite iam para sítios onde viam bem o dito percurso, e numa noite toda a gente viu a silhueta da menina, alguns tentaram deitar-lhe a mão, mas não conseguiram, porque não passava de uma imagem sem consistência e era muito rápida a movimentar-se, mas não tiveram dúvidas que era um anjo.
No dia seguinte, não se falava noutra coisa e algumas pessoas diziam que a tinham visto descer desde a Igreja de Santo António, e isso não demorou em chegar aos ouvidos do padre Miguel Galego que, não acreditou, nem deixou de acreditar, era muita gente a dizer o mesmo, por isso, alguma coisa havia.
Estava confirmado parte do mistério, faltava saber o que fazia por ali aquele anjo, e os grupos de curiosos continuaram a trabalhar, já tinham ideia das datas mais prováveis da sua aparição e quando ela voltou a aparecer tiveram a certeza que tinha saído da Igreja e correram a chamar o padre Miguel e o sacristão, para irem ver se alguma campa dos anjinhos estava remexida, levaram um lampião e viram, com os seus olhos, as lages que cobriam uma campa estavam fora do seu lugar e o sacristão confirmou que, era a campa da filha do Moleiro das Azenhas D'El-Rei, chamada Maria de Jesus, que tinha falecido aos 10 anos de idade e era a criança mais carinhosa que tinham conhecido, era alegre e cheia de saúde, depois adoeceu e faleceu, deixando toda a gente muito triste.
Os moradores de Capelins diziam que, devido a menina ser tão carinhosa e bondosa para toda a gente, decerto que, tinha sido escolhida por Deus e Nossa Senhora, para ser mais um anjinho.
Sempre que lhe era permitido por Deus, o anjinho Maria de Jesus ia ver os pais e irmãos ao Moinho das Azenhas D'El-Rei, e numa noite de temporal, o rio Guadiana registou uma grande cheia, e ela salvou o pai de morrer afogado, que se tinha deixado dormir dentro do Moinho, depois de o acordar e ele fugir, em poucos minutos, o Moinho ficou submerso.
O anjinho Maria de Jesus, continuou pelas terras de Capelins durante muitos anos, ajudando os moradores da Freguesia, mas um dia, a sua missão aqui, chegou ao fim, e desapareceu para sempre, mas a sua sepultura está, aos pés da sua madrinha, Nossa Senhora do Rosário, na Igreja de Santo António de Capelins.
Texto: Correia Manuel
Fotografia: Correia Manuel
Nossa Senhora do Rosário - Capelins

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