A lenda da ti Maria Joana e da ti Maria Joaquina, de Capelins
A ti Maria Joana e a ti Maria Joaquina, eram amigas quando crianças e na sua mocidade, depois casaram, ficaram a morar lado a lado e a situação alterou-se.
As vizinhas, mesmo depois de viúvas, não se entendiam, as casas eram encostadas uma à outra e os quintais eram separados por um muro lateral com mais de um metro de altura, era o muro da discórdia entre elas, porque foi devido a ele que, desde o tempo em que os seus maridos ainda eram vivos já andavam a ódio, não se falavam, porque a ti Maria Joana dizia que o muro não era meeiro, estava feito na sua terra, e a ti Maria Joaquina não podia encostar nada ao dito muro, do lado do seu quintal, senão estava o caldo entornado.
A ti Maria Joana não tinha filhos, apenas umas sobrinhas que moravam no Alandroal e Vila Viçosa e pouco apareciam, e a ti Maria Joaquina tinha filhos e netos, mas estavam fora e, rararmente a visitavam, pelo que, estavam ambas sozinhas, valia-lhes a companhia dos seus cães, cada uma tinha o seu.
O ódio das vizinhas chegava aos cães que, diariamente, logo de manhãzinha corriam, ao longo do muro, um de cada lado, várias vezes, a ladrar, com tanta raiva, que parecia quererem matar-se um ao outro, sem nunca se verem, e as suas donas ficavam especadas a assistir atrás dos cortinados das janelas, e quando os viam já cansados lá os chamavam de volta a casa.
Uma noite, passou uma trovoada tão grande por Capelins, uma tempestade, choveu tanto que o quintal da ti Maria Joana ficou cheio de água até quase à altura do muro, porque o canal de escoamento entupiu e não dava saída, e parte do muro ao fundo do quintal, não aguentou o peso e ruiu.
O dia seguinte nasceu solarengo, e como habitualmente, quando as vizinhas abriram as portas de suas casas, os seus cães sairam a correr a ladrar ao longo do muro, e quando chegaram ao fundo, pararam e ficaram frente a frente em silêncio, a olhar um para o outro, depois aproximaram-se, cheiraram-se mutuamente e começaram a brincar, a rebolar, e a correr juntos por todo o quintal da ti Maria Joana e daí passaram para o quintal da ti Maria Joaquina, sempre com muita alegria, como elas estavam a observá-los ficaram aflitas, sem saberem o que fazer, não entendiam como se tinham juntado e muito menos o seu comportamento, e quando os chamaram eles não obedeceram, nem as ouviam, via-se que existia uma grande amizade entre eles e que não aceitavam a separação.
As vizinhas ficaram sem saber o que fazer, e desceram ao longo do muro para ver a causa do ajuntamento dos cães, ou seja, foram até à parte do muro que estava caído, e a ti Maria Joana acabou por quebrar o silêncio, e disse: - Tal não foi a tempestade esta noite, tive muito medo!
A ti Maria Joaquina, ainda hesitou em falar, mas ao ver a alegria dos cães, acabou por responder: - Foi grande tempestade, até derrubou aqui o muro, por isso os nossos cães se juntaram!
Eu vou já mandá-lo arranjar! Disse a a ti Maria Joana!
Não há pressa, parece que faz falta aos nossos cães, e quando o mandar arranjar eu pago metade! Respondeu a ti Maria Joaquina!
Nesse dia, a conversa não se alongou muito, ficou por ali, os cães já cansados de tanto correr e com fome, recolheram a suas casas.
No dia seguinte, logo cedo, já os cães estavam impacientes para sair de casa para os quintais e repetiram a mesma corrida do dia anterior, parecia que andavam doidos de tão contentes, via-se que, existia alguma coisa estranha entre eles.
As vizinhas, começaram a falar sobre os cães e concluíram que, eles eram irmãos, e da mesma ninhada, e depois de tantos anos separados, ainda se conheceram, por isso, a sua alegria.
Aquela amizade entre os cães, despertou sentimentos na ti Maria Joana e na ti Maria Joaquina, e pouco a pouco foram-se aproximando e esquecendo o ódio que perdurou tantos anos, e iniciaram uma grande amizade entre elas, nunca mais quiseram saber de quem era o muro da discórdia, mandaram arranjar a parte que tinha ruído e abrir uma porta mais perto das suas casas para elas e os cães poderem conviver no dia a dia, e as suas vidas começaram a ter outro sentido, com mais segurança e felicidade, graças à lição dada pelos seus cães.
Texto: Correia Manuel
Fotografia: Correia Manuel
Ferreira de Capelins
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