A lenda dos melros amestrados pelo caçador de Capelins
Conta-se que, Capelins era terra de pão de gado e de caça, por isso, muito visitada por caçadores de todas as regiões que, além da vinda para caçar, nas aberturas havia grandes paródias, entusiasmando alguns moradores, que também gostavam de caçar e, talvez por isso, a rapaziada, assim que tinham oportunidade tornavam-se caçadores.
O ti António Zé, morador na Aldeia de Ferreira de Capelins, era caçador, e no seu quintal tinha um alpendre, a que chamavam um arramadão, onde arrumava algumas ferramentas, sacos, cestos e outra tralha, que por vezes ali estava algum tempo sem ser usada e se não fizesse falta nem reparava nela.
Um dia o ti António Zé foi procurar uma ferramenta que precisava e quando deitou a mão a uma caixa, ficou assustado com o voo de uma ave que lhe passou um palmo à frente dos olhos e pousou a poucos metros de distância, dentro do alpendre, como bom conhecedor das espécies cinegéticas não teve dúvidas em a identificar, era uma melra que, começou a cantar dirigida a ele como se estivesse a falar, obrigando-o a dar-lhe atenção, depois olhou para o lugar de onde ela tinha saído e para onde a melra fazia gestos com a cabeça ao cantar e viu um ninho dentro de uma cesta, com cinco ovos.
Aqui o ti António Zé compreendeu o que a melra lhe estava a pedir, era permissão para a deixar criar os filhos dentro da sua cesta, e depois de apanhar as ferramentas disse em voz alta: - Ó amiga fica à vontade que aqui ninguém te vai fazer mal! A melra, parece que, o compreendeu e parou de piar ou cantar.
O ti António Zé foi-se afastando, devagarinho sem movimentos bruscos, depois esteve alguns dias sem a importunar, não fosse ela enjeitar o ninho, ou seja, os ovos, e quebrava o contrato que tinha feito, mas a curiosidade persistia e passados uns dias foi pé ante pé a observar em que pontos estava a ninhada e já lá tinha cinco passarinhos pelados, todos de bico aberto à espera de comida trazida pelos pais.
A partir daquele dia, o ti António Zé, começou a visitar, diariamente os melrinhos, com consentimento dos pais, que pousavam junto dele, já estavam amestrados, ele assobiava e eles respondiam a cantar, e esperavam, pacientemente que ele se afastasse para lhes poderem dar as minhocas que traziam no bico para os alimentar, mas eles estavam sempre cheios de fome e o ti António Zé ainda pensou procurar minhocas na terra para lhe dar, mas teve receio que os pais não gostassem e desistiu, porém, a sua amizade com a família melro era cada vez maior, até que, um dia pela manhã, quando os foi visitar, o ninho estava deserto, já tinham batido a asa na companhia dos pais, para as terras de montado, e nunca mais por ali os viu, mas a amizade não tinha acabado.
Quando começou a caça aos tordos, um dia o ti António Zé fez um aguardo atrás de uns carrascos, perto da Igreja de Santo António de Capelins, para fazer a espera na passagem deles, do montado para os olivais onde iam comer, a caçada estava a correr bem e como já poucos tordos apareciam, pensou em abalar, mas naquele momento viu aparecer uma ave que, pensou ser um tordo, apontou a espingarda e quando ia puxar o gatilho conheceu o cantar da sua amiga melra, a que tinha feito o ninho no seu telheiro e ainda foi a tempo de não disparar.
A melra ainda o conheceu, por isso, lhe fez aquele cumprimento, que lhe salvou a vida, a partir daquele dia, o ti António Zé nunca mais disparou um tiro contra nenhum melro, porque a amizade verdadeira é para sempre.
No ano seguinte, quando chegou a altura de fazer o ninho, lá estava a melra no mesmo sítio, uma prova que tinha boa memória, mas antes, o ti António Zé preparou a mesma cesta e no mesmo sítio, para facilitar a vida aos seus amigos melros, e a sua amizade perdurou por muitos anos.
Texto: Correia Manuel
Fotografia: António Rocha

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