sexta-feira, 8 de maio de 2026

A lenda do filho do lavrador, que foi deserdado, por amor

 A lenda do filho do lavrador, que foi deserdado, por amor 

Nas terras de Capelins, e não só, noutros tempos, os lavradores pertenciam a uma classe social muito poderosa e respeitada, eram os senhores das terras, e mantinham distância dos pobres, não admitiam casamentos dos seus filhos ou filhas com rapazes ou raparigas da classe pobre, havia casos de envolvimentos, mas casar nem pensar, porque era considerada uma desonra para a família dos lavradores.

Conta-se que, o filho mais velho do lavrador mais opulento da Freguesia de Capelins, chamado João António, perdeu-se de amores por uma rapariga pobre, muito bonita, com longos cabelos negros, olhos de pardaloca e bem afeiçoada, chamada Antónia Rosa, e a sua relação amorosa começou a dar que falar, a conversa sobre eles andava na boca de toda a gente, diziam que, era mais uma rapariga que ia ficar coxa, o mesmo que desonrada, porque se não podiam casar, era só para fazer pouco dela e da família.

O pai da Antónia sabia o que se passava, tal como a sua família, mas não diziam nada, porque no fundo tinham esperança que a sua menina viesse a casar com um rapaz rico, era a ambição dos pobres nesse tempo.

O pai do João ao ouvir alguns rumores sobre o caso, chamou o filho e teve uma longa conversa com ele, e disse-lhe que tinha de se afastar, quanto antes, da Antónia, porque já se ouviam muitas conversas sobre eles e a sua relação, não podia continuar.

O João respondeu que estava apaixonado pela Antónia e  não era para fazer pouco dela, porque a amava, sentia-se muito feliz, e estava a pensar em se casar com ela. 

O lavrador ficou irritado com o filho e explicou-lhe que nunca podia casar com ela, porque além de ser uma desonra para a família, os outros lavradores e famílias iam fazer chacota deles e ficariam desgraçados, por isso, ele tinha de tirar a Antónia da cabeça e arranjar uma rapariga rica, filha de um lavrador da Freguesia ou da região. 

O João ignorou, completamente o que o pai lhe disse e continuou a encontrar-se com a Antónia, mas a partir daquele dia começou uma guerra entre eles. 

Na Freguesia de Capelins, cada vez se ouviam mais conversas sobre eles, até que, um dia o João perguntou à Antónia se queria casar com ele, e ela mesmo sabendo que se iam meter numa grande confusão, respondeu que era o que mais queria, mas para ele ver bem, no que se ia meter.

O João, assim que chegou ao Monte da herdade, disse ao pai e à família que se ia casar com a Antónia, eles ficaram muito aborrecidos e responderam que não consentiam essa afronta, e para ele pensar bem, mas ele disse que estava decidido e o pai disse-lhe que, sendo assim, tinha de escolher entre a sua família e a Antónia. E o João respondeu que não queria comparar uma coisa com a outra, mas que não desistia de casar com a Antónia, e seria o mais depressa possível.

Ainda nesse dia, o João foi falar com o Pároco da Paróquia de Santo António, o Padre Jerónimo de Jesus Maria Granja, contou-lhe a situação em que estava metido e tiveram uma longa conversa, mas a decisão estava tomada, e o Padre, embora contrariado, não teve outro remédio senão tratar dos papéis de estilo e marcar o casamento, ficando para o dia 15 de Outubro de 1860, o João queria antes, mas o Padre disse-lhe que antes não podia ser, porque a aprovação não dependia só dele, mas foi na esperança que ele ainda pudesse mudar de ideia, mas não mudou, e no dia marcado, realizou-se o matrimónio sem a presença de nenhum elemento da sua família, porque lhe viraram as costas, mas não faltaram os seus amigos.

Este caso, foi um grande escândalo em Capelins, os lavradores ficaram ofendidos e alguns não pouparam críticas, culpando o pai do João, por não ter mão nele, então o lavrador para limpar a sua honra e da família, rejeitou o filho, chamou o Tabelião da Vila de Terena lá ao Monte da herdade e mandou redigir um testamento, no qual, deserdava o seu filho João António.

O João e a Antónia Rosa depois do casamento ficaram a morar numa casa muito modesta, e ele foi logo pedir a um lavrador seu amigo, que não se dava bem com o pai dele, para o concertar, ou seja, empregar, uma vez que sabia fazer todos os trabalhos da herdade, e começou logo a trabalhar como jornaleiro, e andou alguns anos, como diziam antigamente, de alcofa às costas, mas muito feliz. 

A sua dedicação e afeição ao amigo lavrador e família, deu-lhe oportunidade de ocupar a vaga de feitor da herdade, desempenhando essas funções durante alguns anos, e a sua vida, em termos económicos começou a melhorar a olhos vistos.

Devido aos seus conhecimentos e já com algumas economias, abriu-se mais uma porta, com a ajuda do patrão, arrendou uma boa herdade e tornou-se lavrador, sem qualquer ajuda da sua família que, depois do pai falecer, cumpriram com rigor o que constava no testamento, não lhe deram nada da herança, mas isso ainda lhe deu mais força para lutar por melhor vida, e ao contrário dos irmãos, que se desentenderam por causa das partilhas e começaram a entrar em declínio, ele comprou uma grande herdade e mais tarde dois Moinhos no rio Guadiana e ficou sendo o maior lavrador da Freguesia de Capelins.

O João nasceu rico, mas por amor a uma rapariga pobre, não respeitou as regras existentes entre os lavradores, por isso, foi deserdado e expulso  da sua própria família, mas essa injustiça  deu-lhe muita força para lutar e chegar onde chegou, passou pela pobreza, e humilhação por parte da família, mas afirmava sempre que, em momento algum, se arrependeu de ter feito o que fez, porque foi sempre muito feliz com a Antónia, a mulher da sua vida que, muito amava,  independentemente de ser pobre ou rica.

O João e a Antónia tiveram cinco filhos, cuja descendência ainda hoje existe na Freguesia de Capelins.

Baseada num caso verídico, que aconteceu na Freguesia de Capelins.

Texto: Correia Manuel

Fotografia: Correia Manuel 


Freguesia de Capelins




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