A lenda do "senhor do seu nariz", de Capelins
Noutros tempos, a maioria dos moradores da Freguesia de Capelins, eram analfabetos, porque as pessoas achavam que para trabalhar nas herdades, no campo, não era preciso saber ler nem escrever, não servia para nada, mas havia gente com bons conhecimentos em algumas matérias, e do que eles diziam, ninguém se atrevia a duvidar.
De entre os mestres do conhecimento, havia o ti António Joaquim, que se achava, mestre dos mestres, e devido à sua altivez, começaram a dizer que era muito "senhor do seu nariz", e depressa ganhou essa alcunha, embora, apesar do seu feitio, muita gente recorria a ele, fosse para pedir algum conselho sobre qualquer decisão importante a tomar, ou como juiz em desentendimentos entre familiares ou vizinhos, por causa de limites de terras, de pastagens ou gados, mas principalmente para fazer as partilhas das heranças, de casas e courelas, às quais, ele atribuía os respetivos valores e fazia os quinhões justos, para cada herdeiro, depois tiravam sortes, e se algum herdeiro achasse que ficava mais mal, não tinha coragem para confrontar o "senhor do seu nariz", porque, o que ele dizia estava dito.
Na Freguesia de Capelins, ninguém se atrevia a enfrentar o "senhor do seu nariz", mesmo que não concordassem com ele, porque reconheciam que ele tinha muitos conhecimentos, que foi acumulando desde criança, recebidos do seu avô materno, que também sabia muito, mas devido à evolução social e tecnológica, começaram a surgir situações que já não eram do seu domínio, mas isso não o apeava do alto da sua sabedoria, e por exemplo bastou ele dizer que aquilo do homem ir à lua era tudo uma mentira, quase toda a gente acreditou nele, era Deus no céu e ele na Terra.
Nas décadas de 1970/80, começaram a surgir já muitos televisores em Capelins e as pessoas a ficarem mais informadas devido aos noticiários diários, mas se o "senhor do seu nariz" não concordasse com alguma notícia televisiva, prevaleciam os seus argumentos, porque segundo ele, Lisboa era Lisboa e Capelins era Capelins e o que se passava lá, não se passava cá, e estava justificado.
Numa tarde de um mês de Junho, estava um grupo de rapazes na rabióca, ou seja, na brincadeira, à porta da taberna e um deles alcançou uma antena de televisão, nova ali, diferente das habituais, ficou muito admirado e exclamou: - É malta, olhem lá, o que será aquilo? A rapaziada olharam todos e cada um disse o que lhe veio à cabeça, mas por fim todos acharam que só podia ser uma antena de televisão, mas como ainda existiam dúvidas, porque nunca tinham visto nenhuma antena semelhante, o Zé Manel levantou os braços, mandou calar a rapaziada e disse:
Zé Manel: Esperem lá, está ali o "senhor do seu nariz", ele sabe tudo, já nos diz o que é aquilo! E dirigiu-se a ele.
Zé Manel: Olhe lá, ti António, sabe o que é aquilo que está no alto daquela chaminé aí em frente?
O ti António esteve algum tempo a observar, e a pensar o que responder e por fim disse:
Ti António: Ó rapaz, então não havia de saber! Sei, sei!
Zé Manel: Então se sabe, é o quê?
O ti António não podia dizer que não sabia, e respondeu:
Ti António: É um vídeo!
A rapaziada que estava à espera da resposta, comentaram em coro:
Rapaziada: É um vídeo?
Ti António: Sim, sim, é um vídeo!
Como o "senhor do seu nariz" não podia ser contrariado, alguns rapazes ficaram com dúvidas e murmuraram baixinho:
Rapaziada: É um vídeo? Aquilo é um vídeo?
Um dos rapazes, chamado Francisco que trabalhava em Lisboa, não ficou calado e disse-lhe:
Francisco: Olhe lá ti António, eu já vi vídeos lá em Lisboa e não são nada daquilo, são uns aparelhos que estão ao pé das televisões e metem-se umas cassetes que têm lá dentro filmes, documentários e outras coisas, então como é que as pessoas metem as cassetes além naquela altura?
Ti António: Mas tu, ouviste-me falar que aquilo além levava algumas cassetes? Quem falou aqui em cassetes foste tu, estás a meter-te naquilo que não sabes, mas pensas que por andares lá por Lisboa que já sabes tudo, mas não sabes!
Francisco: Ó ti António, eu só disse que os vídeos estão ligados às televisões e levam umas cassetes para vermos os filmes que queremos!
Ti António: Isso até pode ser assim, os que tu conheces, cada um mete os vídeos onde quiser, aquele além também está ligado à televisão, é só escolher o que se quer ver sem precisar de cassetes nenhumas!
Francisco: Está enganado ti António, mas é fácil saber, vá lá perguntar ao homem que além mora e fica logo a saber que aquilo não é um vídeo!
Ti António: Eu não pergunto nada a ninguém, era o que me faltava receber ordens de um rufia como tu, ao que isto chegou, rufia, que és um rufia, pensas que sabes mais do que eu!
O "senhor do seu nariz" ficou muito ofendido, porque nunca tinha sido contrariado, mas todos os reinados têm o seu fim, a rapaziada viram o caso mal parado, foram deslizando para outro poiso e a antena da televisão em Capelins, passou a ser um vídeo.
Texto: Correia Manuel
Fotografia: Correia Manuel
Ferreira de Capelins
