quarta-feira, 20 de maio de 2026

A lenda do João e da Joana, de Capelins

 A lenda do João e da Joana, de Capelins

Os ancestrais da Freguesia de Capelins contavam que, noutros tempos, morou aqui um rapaz chamado João Silva, bem afeiçoado, mas pouco cobiçado, porque tinha uma deficiência visual que, no entanto, não o impedia de fazer a sua vida de trabalho, como escamel no Monte de uma herdade de Capelins.
Ao fundo da sua rua, morava uma rapariga chamada Joana Maria, muito bonita, com cabelos aos caracóis e uns olhos lindos, mas pouco cobiçada, porque tinha uma deficiência, neste caso, falta de ouvido, era surda, tinham de lhe falar alto, ou perto dos ouvidos, para ouvir qualquer coisa, por esse motivo, ficava a leste das conversas das outras raparigas, mas fazia todos os trabalhos do campo e de casa mas, tal como o João, ficava esquecida.
Devido à vida de trabalho, o João pouco metia os pés na Aldeia, a não ser a mudar a roupa, sempre a correr, e quando havia algum baile, ou pela Santa Cruz, ou nas Festas de Santo António, por isso, embora vizinhos, muito raramente se encontravam.
A Joana, já andava com o olho nele, porque havia muita mangação por parte da vizinhança e das famílias, todos diziam, que faziam um lindo par, que eram mesmo bons um para o outro, por isso, um ano, pela Santa Cruz, antes de começar o fogo de artifício, ela decidiu dar um passo em frente, passou-lhe a um palmo do nariz, para ele a ver e perceber que o esperava no baile.
Depois de acabar o fogo de artifício, começou o baile, abrilhantado pelo conjunto Jaz e Band, mas a iluminação era muito fraca, não passava da luz de uns lampiões a petróleo pendurados nuns postes de madeira, nuns paus, e a visão do João não alcançava o sítio onde estavam as raparigas, e muito menos o lugar da Joana para ir pedir-lhe para dançar, e mesmo empurrado por outros rapazes, nenhum o fez dar um passo em frente, assim, acabou o baile e a Santa Cruz e não chegou a arrimar-se à Joana.
Em Capelins, toda a gente sabia que eles gostavam muito um do outro, só faltava o João dar um passo em frente a pedir namoro à Joana, mas o tempo passava e isso não acontecia.
Os amigos e familiares do João mangavam com ele, diziam-lhe que tinha de pedir namoro à Joana, para depois a ir pedir ao pai, e ele respondia sempre o mesmo: - Estou à espera!
As raparigas também mangavam com a Joana, mas ela não podia fazer nada, apenas respondia: - Estou à espera! De certa forma, já estavam prometidos um ao outro pelas famílias, faltava só o João avançar, mas o tempo passava e nada mudava.
Os amigos e as famílias deles, já não sabiam o que fazer mais, para entusiasmar o João a ir pedir namoro à Joana, iam aos bailes, mas ele, talvez devido à sua deficiência visual não dançava, assim não se aproximava da Joana, nem nas Festas, nem lhe saía ao caminho e não podia escrever-lhe uma carta, porque nem ele nem ela sabiam ler nem escrever, como quase toda a gente nesse tempo.
Os dias, os meses, e os anos iam passando e nada se decidia, a idade de ambos ia avançando, e sempre que as pessoas lhes perguntavam quando casavam, continuavam ambos a responder: - Estou à espera!
Assim, a Joana passou a sua vida inteira à espera do João, e o João passou a sua vida inteira à espera da Joana, e não passaram disso, só pela distância de um passo que ele não conseguia dar, para lhe pedir namoro, talvez, devido à sua condição física, que o condicionava.
Os anos não perdoaram e foram passando, até que um dia, ouviu-se que o João Silva tinha falecido, mas a maior surpresa, foi quando se ouviu que a Joana Maria, também tinha falecido, nesse mesmo dia e à mesma hora, e as gentes de Capelins diziam que, as suas almas tinham casado no céu, ficando juntos até à eternidade e, decerto, que o João e a Joana foram felizes.
Texto: Correia Manuel
Fotografia: Correia Manuel

Ferreira de Capelins



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