A lenda dos pés rapados de Capelins
Noutros tempos, na Freguesia de Capelins, as ruas e caminhos não eram pavimentados, eram cobertos com algumas pedras e com terra, mas devido às grandes invernias e ao muito movimento de pessoas, animais e carroças, havia grandes lameiros, logo lama por todo o lado, mas os moradores estavam tão habituados que nem se apercebiam e entravam em casa nas choupanas, na Igreja, com os pés descalços ou com o calçado carregados de lama.
Nos domingos, depois das missas, ou quando se realizavam casamentos, batizados ou outras cerimónias religiosas, no tempo das chuvas, que duravam muitos meses, a mulher e os filhos do sacristão tiravam carradas de terra, de barro vermelho e até de estrume misturado, de dentro da Igreja de Santo António, porque ninguém tinha o cuidado de limpar os pés ou o calçado, antes de entrarem, e depois ficava tudo lá dentro.
Cerca do ano de 1805, chegou a Santo António, o Pároco Marcos Gomes Pouzão, vindo da Vigararia da Vila de Terena, onde os fiéis já não entravam nas Igrejas com os pés ou com o calçado carregado de lama e, como era inverno, após a primeira missa, quando viu o lamaçal que ficou dentro da Igreja, disse ao sacristão que aquilo já não se via em sítio nenhum, por isso, iam fazer como nas Igrejas da Vila de Terena, e pediu-lhe para ele, assim que pudesse, ir falar com os ferreiros que tinham feito as raspadeiras para a entrada das ditas Igrejas e encomendar uma igual, ali para a porta da Igreja de Santo António, e no Domingo seguinte, na missa, o Pároco começou a preparar os fiéis, para depois não lhe parecer mal.
Quando veio a raspadeira foi fixada à porta da Igreja, mas os fiéis não reparavam nela, esqueciam-se da nova regra, talvez, porque não era para todos, já que os lavradores, ou seja, os ricos, chegavam à porta da Igreja com a sua família nas suas carruagens, como as charretes, logo não pisavam lama, por isso, não precisavam de se dirigir à raspadeira, entravam diretamente na Igreja, induzindo os outros fiéis em erro e foi necessário o sacristão começar a fazer de porteiro, barrando a porta aos fiéis que não cumpriam o dever de ir rapar os pés.
Foi assim que, a Freguesia de Capelins, à semelhança do que já existia noutras regiões, também ganhou os pés rapados, uma vez que, os fiéis pobres que andavam a pé, pisando lama, antes de entrarem na Igreja de Santo António, tinham de rapar os pés descalços ou o calçado, ao contrário dos ricos que não passavam por isso, porque não pisavam na lama, logo, ser pobre ou pé rapado era a mesma coisa, embora usado de forma pejorativa.
Texto: Correia Manuel
Fotografia: Correia Manuel
Igreja de Santo António de Capelins

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