quarta-feira, 10 de junho de 2026

A lenda da destruição dos painéis de Cristo na Igreja de Santo António de Capelins

A lenda da destruição dos painéis de Cristo na Igreja de Santo António de Capelins

Conta-se que, a Igreja de Santo António de Capelins, mandada construir pelo rei D. João III em meados da centúria de 1500, tinha a Capela Mor coberta de pinturas e de painéis bíblicos, que faziam dela, uma das mais bonitas da região.
Em Março de 1745, houve mais uma visita pastoral à Igreja de Santo António, a mandado do Arcebispo de Évora, Frei Miguel de Távora, cujo resultado, proferiu, entre outros, o seguinte provimento: Mandar picar a Capela Mor nos dois lados do Altar para tirar as pinturas dos dois painéis com a imagem de Cristo, porque, segundo o visitador, estavam indecentes, talvez representassem milagres em que Jesus punia os outros, logo contrariavam a imagem de perdão e amor descritos nos quatro evangelhos, assim, não bastava pintar por cima deles ou rebocar, tinham de ser picados para não deixarem vestígios, talvez, como outros, por serem considerados fantasiosos, aberrantes e sem fontes históricas seguras.
Quando os fiéis da Freguesia de Santo António, tiveram conhecimento desse provimento, sem nenhuma explicação, não compreendiam o motivo e ficaram revoltados, nomearam uma comissão para impedir a destruição das ditas obras de arte, mas foram informados que, ao estarem contra o Arcebispo podiam ser denunciados à Santa Inquisição, ser presos e ir parar à fogueira, e os fregueses ficaram com medo e não tiveram outro remédio, senão deixar destruir os painéis bíblicos do século XVI.
O Arcebispo que, desde 1745 até 1753, manteve a Igreja de Santo António debaixo de olho, onde esteve presente em 1752, porque existiram sempre aqui costumes judaicos, embrulhados com cristãos, mandou novo visitador para verificar se os provimentos tinham sido todos cumpridos, pelo que, seria impossível salvar os painéis com as imagens de Cristo, e a Igreja de Santo António ficou mais pobre, mas ao gosto do Arcebispo.

Texto: Correia Manuel

Igreja de Santo António de Capelins



terça-feira, 9 de junho de 2026

A lenda das multas, a quem não fosse às missas em Capelins

A lenda das multas, a quem não fosse às missas em Capelins

Conta-se que, noutros tempos, os moradores da Freguesia de Santo António de Capelins, podiam trocar a sua presença nas missas por um tostão, ou seja, no caso de não poderem ir ouvir a missa, seriam multados em 10 réis, o mesmo que um tostão.
Nesse tempo, as pessoas trabalhavam os sete dias da semana e, somente os que não moravam nas herdades onde trabalhavam, se não fosse no tempo das ceifas, iam a casa mudar a roupa e ver a mulher e os filhos nos domingos à tardinha, ou já de noite, e ainda voltavam às herdades pela noite dentro ou de madrugada, não tendo tempo para mais nada, além do trabalho.
Em 1749, o desembargador e visitador da Câmara Eclesiástica de Évora, a mandado do Arcebispo, fez uma visita pastoral à Igreja de Santo António, e ficou preocupado ao verificar que, o número de fiéis que assistiam às missas, em relação aos moradores na Freguesia de Capelins, era muito baixa, nenhuma paróquia da região apresentava esses valores, embora o padre António de Sousa e Silva, fizesse tudo para mudar a situação, não tinha sucesso, então o desembargador mandou que, o padre multasse em 1 tostão, ou seja 10 réis, cada pessoas que não fosse ouvir a missa.
O padre António Silva ficou entre a espada e a parede, passou noites sem dormir a pensar como ia resolver a situação, sabia que, ao cumprir o mandado do desembargador ia revoltar o povo contra ele, se as pessoas não tinham dinheiro para comer, também não podiam pagar multas à Igreja, decerto não dava bom resultado, mas não podia deixar de cumprir o mandado do visitador, porque ele, ou outro ia voltar, estava metido num grande sarilho.
O padre António Sillva foi à Vigararia da Vila de Terena pedir ajuda aos colegas e ao Vigário, mas pouco adiantou, todos responderam que, sendo um mandado do desembargador, tinha de ser cumprido, a solução era ele encontrar uma maneira dos fregueses serem dispensados pelos lavradores para irem à missa, ou trocar uma missa por um tostão, eles na Vila de Terena não tinham esse problema, porque havia muitos funcionários do reino que, com as suas famílias, estavam sempre disponÍveis para assistir a todas as missas.
O padre António Silva, sabia que a chave da questão estava nas mãos dos lavradores, eram eles os culpados dos fregueses não irem à missa, uma vez que, não os dispensavam do trabalho, e pensou em os convocar para lhe meter a batata quente nas mãos e foi o que fez.
Quando o padre contou aos lavradores, onde estava metido e lhes mostrou e leu o mandado do desembargador, logo do Arcebispo, ficaram surpreendidos e perceberam que a situação tinha de ser resolvida por eles, porque não podiam ser considerados culpados pela ausência dos fiéis nas missas, não fosse a Santa Inquisição complicar-lhe a vida.
Depois de várias ideias, acertaram que, os lavradores e a família, ou parte dela, estariam sempre presentes nas missas, e a partir do domingo seguinte, começavam a dispensar alguns criados e criadas, durante umas horas, para assistirem à missa, seriam umas vezes uns, e outras vezes outros, conforme os trabalhos que andavam fazendo, e quanto aos moradores das Aldeias, tinham de se entender entre eles, para garantir sempre, trinta ou quarenta pessoas nas missas, os que não pudessem ir, tinham de mandar outras pessoas no seu lugar e ia rodando, porque se fosse toda a gente, não cabiam na Igreja, e o mandado do desembargador não dizia que tinham de estar os fregueses todos ao mesmo tempo nas missas, o que seria impossível.
Esta ideia agradou a todos e, ainda mais ao padre, assim não tinha de multar ninguém, as pessoas que não pudessem ir à missa, mandavam outras no seu lugar, logo, não as podia multar e essa ação, decerto aumentava, consideravelmente o número de fregueses nas missas, sendo cumprido o mandado do desembargador.
Esta decisão entrou logo em vigor, com grande sucesso, e passado algum tempo, o Arcebispo mandou outro desembargador a visitar a Paróquia de Santo António, para saber se o mandado tinha sido cumprido e qual era o resultado.
Quando o Arcebispo recebeu o relatório da visita ficou muito satisfeito, verificou que, o padre não tinha aplicado nenhuma multa, porque não havia razão para isso, o número de fregueses nas missas tinha triplicado, a Igreja estava sempre cheia, era o melhor resultado das paróquias da região e alguns padres iam pedir ao pároco António Silva para lhes dizer como tinha conseguido aquele resultado, porque também estavam nos limites, e ele respondia que era a fé dos seus fregueses.

Texto: Correia Manuel

Fotografia: Correia Manuel

Imagem de Santo António de Capelins




segunda-feira, 8 de junho de 2026

A lenda dos cavaleiros de bota e espora, de Capelins

 A lenda dos cavaleiros de bota e espora, de Capelins 

Conta-se que, noutros tempos, os lavradores da Freguesia de Capelins eram uma classe muito poderosa, e ostentavam o seu poder de várias formas, com mão de ferro sobre os trabalhadores e sobretudo através daquilo que não estava ao alcance dos mais pobres, como botas de montar e esporas, para manter as diferenças. 

Nos finais do decénio de 1600, início de 1700, dez das doze herdades que constituiam a Coutada ou Defesa de Ferreira, foram partidas, cada uma em duas e em algumas courelas e propriedades de menor dimensão, que permitiu um grande aumento de lavradores na Freguesia de Santo António que, com as suas famílias reforçaram a élite que se destacava da classe pobre, em termos económicos, no que vestiam e calçavam e na sua apresentação nas feiras, festas do povo ou festas particulares, como nos casamentos, batizados ou outros atos religiosos.

Os lavradores, chamados os ricos, não andavam a pé, os homens da família tinha cada um, o seu cavalo, nos quais se deslocavam a todo o lado, e as mulheres viajavam em carruagens, também puxadas por lindos cavalos guiados por um cocheiro vestido a rigor, e os remediados andavam de charrete, mas essa ostentação, não era bem vista por muita gente pobre, que tinha os filhos com fome e não ganhavam para comer.

Os lavradores cavaleiros usavam botas de montar, nas quais, eram colocadas esporas, que tinham uma pequena peça em metal, lisa ou roda dentada, tipo roseta, com armação presa ao calcanhar da bota do cavaleiro e serviam para guiar ou picar o cavalo para o fazer andar mais rápido.

As rosetas metálicas estavam pendentes e, quando o cavaleiro se deslocava a pé, ao dar o passo e bater com a bota sobre alguns pisos mais rígidos, emitiam um tilintar, e no caso de ser um grupo de cavaleiros com esporas a tilintar, incomodavam muita gente, porque, entendiam  que, também era uma maneira de mostrar o poder.

Assim, por inveja ou porque se sentiam humilhadas, algumas pessoas reclamavam, e diziam: - Lá vão os vaidosos de bota e espora! Mas não podiam fazer nada, muito menos quando isso se passava nas ruas, onde decorriam as feiras ou festas, mas quando os homens e rapazes de bota e espora entravam na Igreja de Santo António já com as missas ou outros atos religiosos em andamento, os padres tinham de interromper, porque a sua voz era abafada pelo barulho produzido pelos de bota e espora dentro da Igreja, e isso irritava os fiéis. 

Quando, em 25 de Novembro de 1753, em mais uma visita do desembargador da Relação Eclesiástica de Évora visitou a Igreja de Santo António, recebeu a queixa sobre os cavaleiros de bota e espora, sendo-lhe explicado da inconveniência  da sua entrada na Igreja, incomodando os fiéis, a dita queixa foi transcrita para o relatório e entregue ao Arcebispo de Évora que, ordenou o seguinte: "Nenhuma pessoas entrava na Igreja de Santo António de Capelins com esporas calçadas".

Quando o pároco António Silva comunicou aos lavradores de bota e espora, deixou claro que, eram ordens do Reverendíssimo Arcebispo e tinha de ser levada muito a sério, porque em caso de desobediência podiam ser expulsos da Igreja e isso, podia implicar a intervenção da Santa Inquisição e até podiam ser queimados vivos.

Os lavradores e famílias não gostaram da ordem do Arcebispo, acharam que era uma humilhação, mas devido à sombra da Santa Inquisição, da qual, ninguém escapava, aceitaram e limitaram-se a mandar um criado a pé ou montado numa burra à frente deles para lhe tirar, guardar e depois colocar as esporas à porta da Igreja de Santo António e a sua vaidade caiu a pique.

Quanto aos pobres que tinham sido humilhados durante muitos anos  com a entrada triunfante dos cavaleiros de bota e espora na Igreja de Santo António, agora riam baixinho, quando eles entravam e pareciam uns gatinhos pé ante pé para não darem por eles, e assim os atos religiosos deixaram de ser interrompidos. 

Na Freguesia de Capelins, até há pouco tempo, sempre que alguém aparecia mais bem calçado e bem vestido, diziam que andava todo aperaltado e de bota e espora.

Texto: Correia Manuel

Fotografia: Correia Manuel 

Igreja de Santo António de Capelins 




sábado, 6 de junho de 2026

A lenda do toque do sino da Igreja de Santo António de Capelins

A lenda do toque do sino da Igreja de Santo António de Capelins

Conta-se que, à volta do ano de 1820, durante uma temporada, o sino da Igreja de Santo António de Capelins, tocava à meia noite a chamar para a missa.

Como nessa época as pessoas deitavam-se pouco depois do solposto, cansados do trabalho duro que faziam nos campos, nessa hora, dormiam profundamente, mas acordavam atarantados, mas o sino parava de tocar e viravam-se nas suas camas continuando a dormir, só o sacristão e o padre Marcos Pouzão iam à porta a ver o que se passava, mas não viam ninguém, nem ouviam nada e, corriam para a cama, mas no dia seguinte toda a gente que morava junto à Igreja, reclamava e comentava o sucedido. 

Como a situação se repetia, as pessoas começaram a fazer vigias e mesmo assim, o sino tocava sem ninguém por perto e os moradores já andavam assustados e começaram a dizer que só podia ser uma alma penada, mas também diziam, que as almas penadas não entravam no Campo Santo, não entendiam como é que esta, se aproximava assim da Igreja. 

O padre Marcos Pouzão e o sacristão prometeram que iam resolver a situação, porque se fosse uma alma penada, tinha de dizer o que queria e começaram a andar por ali a essa hora, mas o sino tocava e não viam nada, até que, numa noite de grande invernia o sino tocou, e o padre foi a correr e disse ao sacristão para ficar em casa e não sair, porque podia ser um caso só para ele, por isso, é que a alma penada nunca se mostrava, quando iam os dois, e afastou-se.

Quando o padre chegou à porta da Igreja viu que estava iluminada e a porta com uma pequena fisga aberta, empurrou a porta e viu um padre paramentado de costas para ele, ficou assustado, mas foi indo devagar e naquele momento ouviu uma voz dizer-lhe: - Não tenha medo, há muito tempo que estou à sua espera, sou o pároco Luciano o anterior, e estou no  purgatório para ser purificado, mas fui castigado, porque recebi uma grande esmola de um lavrador daqui para rezar uma missa pela alma dele e não o fiz, agora preciso da sua ajuda, porque tenho de rezar a missa com a ajuda de outro padre, mas antes de eu dar a benção o colega tem de sair daqui a correr, não se esqueça disso! 

O Pároco Luciano rezou a missa com a ajuda do padre Marcos que, antes da benção, como o pároco lhe disse, fugiu e quando passou a porta da Igreja ela fechou-se bruscamente, quase o entalava e, ao mesmo tempo ouviu grande estouro dentro da Igreja.

O padre Marcos Pouzão foi dali a correr para a sua casa, e nessa noite pouco fechou os olhos e de manhã assim que se levantou chamou o sacristão e contou-lhe o que se tinha passado, foram os dois à Igreja a observar tudo ao pormenor e não havia sinais de alguém ali ter estado, e o sacristão que morava paredes meias com a Igreja, afirmou que não ouviu nada, mas acreditou no padre. 

Nesse dia à meia noite, os moradores esperavam o toque do sino a chamar para a missa, mas o sino nunca mais tocou, o padre apenas lhe disse que, o caso estava resolvido, mas passado algum tempo, acabaram por saber o que se tinha passado, através do sacristão, e ficaram descansados, por mais uma alma do purgatório, ter sido salva.

Texto; Correia Manuel 

Fotografia: Correia Manuel 

Igreja de santo António de Capelins 

Existiam aqui pelo menos seis casas de habitação



sexta-feira, 5 de junho de 2026

A lenda do último lobo de Capelins

 A lenda do último lobo de Capelins 

Conta-se que, noutros tempos, a Freguesia de Capelins tinha muitos lobos, devido às condições geográficas propícias ao seu habitat, com as Ribeiras de Lucefécit e de Azevel, lateralmente e, com o rio Guadiana ao fundo, onde existiam muitos esconderijos, desde moitas de tamujeiras e de outros arbustos, além dos silvados e zonas de grandes matagais, como também, à existência de muito gado e de caça, por isso, os lobos andaram por aqui até finais da década de 1940, mas em algumas Freguesias vizinhas ficaram até mais tarde. 

Os lobos viviam em alcateias, eram famílias, e tinham o território dividido entre elas, mas por vezes, não respeitavam os respetivos domínios e neste caso, os lobos de Santa Luzia que residiam sobre um rochedo chamado entalão da moura, passavam a ribeira de Lucefécit para o lado de Capelins, onde atacavam o gado dos lavradores, e os do lado de cá atacavam o gado de lá, acontecendo o mesmo em relação a Monsaraz. 

Os lobos da Freguesia de Capelins tinham o seu território para o lado da Ribeira de Azevel, até ao domínio dos lobos de Monsaraz, mas como era uma área muito batida por caçadores, pelo menos desde a centúria de 1700, tinham o seu covil num matagal com algumas rochas, na herdade do Assento, depois Monte Seco, perto do Monte da Vinha, nas chamadas courelas das lobas. 

Assim, os lobos de Capelins, desciam até à Ribeira de Azevel e daí ao rio Guadiana à região do Gato, e rio acima, e para se protegerem, durante a noite, subiam ou desciam, a partir do seu covil, pelo ribeiro do peral que desagua diretamente na Ribeira de  Azevel, mas em caso de haver esperas, feitas pelos caçadores, usavam outros caminhos, porque eram muito espertos. 

A alcateia das courelas da loba passou por uma época, de boa cama e boa mesa, cresceu muito e começou a fazer muitos ataques ao gado da região e os lavradores e criadores de gado reuniram-se para encontrar uma maneira de a desalojar das courelas das lobas, e acabar com eles. 

Os lavradores de Capelins, tinham quase todos espingardas de caça, nesse tempo ainda eram de atacar pela boca, metiam a pólvora e o chumbo pelo cano e apertavam com uma vareta, depois colocavam uma escorva que era picada por uma agulha de aço, o percussor, e disparava, imediatamente, ao contrário das anteriores, nas quais, usavam um pedacinho de pederneira para fazer explodir a pólvora, mas dava tempo aos lobos de se meterem a milhas e, assim, começou a caça feroz aos lobos de Capelins. 

Os lavradores faziam batidas, esperas e armavam laços aos lobos e depressa lhe deram grande desbasto na alcateia das courelas das lobas, ficou apenas uma loba com três filhos pequeninos, porque, não a faziam sair do covil de junto dos filhos, lá ficava a alimentá-los vários dias sem comer, só em noites muito escuras, conseguia sair e, como conhecia muito bem a região, não caia nas armadilhas, ia a um rebanho e não matava as ovelhas, levava apenas um borrego ou outro, muitas vezes perdidos do rebanho, que pouca diferença fazia aos pastores e assim criou os três lobitos.

Como os ataques ao gado desapareceram, os lavradores deixaram a loba em paz, e os seus filhos foram crescendo, mas devido à sua natural rebeldia, ela já não conseguia mantê-los na toca e começaram a fazer as suas descobertas, investindo contra os rebanhos e causando prejuízos, logo, também pela sua inexperiência, em poucos meses, foram abatidos, ficando a loba sozinha, ninguém dava notícias de mais lobos residentes na Freguesia de Capelins. 

A loba de Capelins, continuou mais uma temporada no seu covil, sem causar grandes danos na região, os caçadores faziam-lhe esperas, usavam cães para a encontrar, mas ela era muito matreira, não a conseguiam encurralar, porém, começaram a reparar que não havia pegadas na entrada ou saída do covil, pensaram que, tinha mudado o covil para outro lugar, mas não o encontraram em lado nenhum, nem vestígios dela, e confirmaram que tinha desaparecido, ou foi para outra região à procura de um lobo, talvez até tenha passado o rio Guadiana para Espanha num ano de seca, ou morreu de desgosto por ficar sozinha, no interior da sua toca, e foi ela, já nos finais do decénio de 1940, o último lobo, neste caso, loba, da Freguesia de Capelins.

Texto: Correia Manuel 

Fotografia: Correia Manuel 

Monte Seco de Capelins



quinta-feira, 4 de junho de 2026

A lenda do ti talocadas, de Capelins

 A lenda do ti talocadas, de Capelins

Conta-se que, noutros tempos existiam muitos fantasmas, a que chamavam medos, na Freguesia de Capelins, como as pessoas eram obrigadas a andar de noite para chegarem cedo ao trabalho nas herdades, porque começavam a trabalhar ao romper da aurora, quando se começava a ver com luz natural, durante os percursos entre as suas casas e o trabalho, encontravam muitos medos e perigos.
O ti António da Rosa, conhecido pelo ti talocadas, ganhou esta alcunha, por estar sempre a oferecer talocadas aos companheiros, por tudo e por nada, morava em Capelins de Baixo e trabalhava no Monte da Talaveira, só ia a casa aos domingos para mudar a roupa, nessa noite dormia na sua casa, e de madrugada, bem cedo, metia-se a caminho, passando pelo poço da estrada, alto do malhão, descia ao ribeiro da negra e, logo ali estava a Talaveira.
Na Freguesia de Capelins, ouvia-se que, aparecia um medo no alto do malhão, e calhou ao ti talocadas, quando ia fazendo a curva desse caminho, levantou os olhos e reparou num vulto ao seu lado esquerdo, à medida que ele ia andando, o vulto ia lado a lado, era homem que não tinha medo de nada, por isso, continuou o seu caminho como se nada fosse, mas já na descida da Negra, lembrou-se que devia ser alguma alma penada e perguntou duas vezes: - O que é que tu queres? Mas não teve resposta, até que preparou o bordão que levava e manobrava muito bem, e assim que apanhou o vulto a jeito, preparou-se e deu-lhe grande talocada, e ouviu-se um grito de dor, com voz de mulher muito estridente, que ecoou por toda a cova da Negra e até se ouviu no Monte da Zorra e por pessoas que seguiam pelo mesmo caminho.
O vulto desapareceu e o ti talocadas pensou que já tinha acabado com o medo do alto do malhão, mas quando ia chegando ao ribeiro, lá estava o vulto ao seu lado, como se nada tivesse acontecido, e ele perguntou, novamente: - O que é que tu queres? Mas não teve resposta.
O ti talocadas passou o ribeiro e meteu-se pelo caminho que dava diretamente ao Monte da Talaveira e o vulto continuou a seu lado dele, então preparou o bordão e deu-lhe grande bordanada e, novamente se ouviu o mesmo grito e por momentos o vulto desapareceu, mas logo mais à frente, já lá estava outra vez ao lado do ti talocadas, mas quando ele chegou à eira do Monte da Talaveira, o vulto desapareceu, e nunca mais apareceu a ninguém, e as pessoas diziam que não tinham dúvidas, o seu desaparecimento tinha sido graças às talocadas que o ti talocadas lhe tinha dado e foi assim, que acabou mais um dos medos de Capelins.
Texto: Correia Manuel
Fotografia: Correia Manuel

Capelins



terça-feira, 2 de junho de 2026

A lenda da alma penada, da mulher da serra da estrêla, em Capelins

A lenda da alma penada, da mulher da serra da estrêla, em Capelins

Conta-se que, o Zé Miguel, um rapaz natural da Aldeia de Cabeça de Carneiro, era ajuda de um ganadeiro na herdade da Boieira e de oito em oito dias ia a sua casa a mudar a roupa, umas vezes mais cedo, outras já à noitinha, era conforme a disposição do ganadeiro.
Nas suas idas a casa, fazia quase sempre o mesmo percurso, o que ele achava mais direto, logo mais rápido, passava junto à Aldeia de Faleiros, depois seguia por um caminho pela cova da Sina até à Igreja de Santo António de Capelins, dali pelo baldio, Monte da Vinha e depressa chegava a casa.
Um dia saiu da Boeira já ao sol posto, seguindo o dito caminho e quando chegou à cova da Sina já estava escurecido e o Zé Miguel sentiu que alguma coisa não estava bem, alguém o seguia e quando olhou para trás estava mesmo a ser alcançado por uma mulher vestida de negro e com um véu pela cabeça, apanhou um grande susto e começou a correr o mais que podia e só parou quase junto à Igreja, porque estava muito cansado, olhou para trás e já não viu mulher nenhuma.
Passaram-lhe muitas coisas pela cabeça, a pontos de já nem ter a certeza o que tinha visto, pensou em ir pedir ajuda ao sacristão, que era amigo dele e da família, mas lembrou-se que, podiam gozar com ele e acabou por seguir o seu caminho.
Desde a Igreja até ao cruzeiro que indica o limite do Campo Santo, quando se vem do lado da dita Aldeia de Cabeça de Carneiro, não viu nada, mas assim que passou esse limite, olhou em frente e lá estava a mulher à sua espera, apanhou mais um susto, recuou uns passos e voltou a correr até à Igreja, entrou na casa do sacristão, tremia todo e mal conseguia falar, mas a pouco e pouco, lá explicou o que lhe tinha acontecido.
O sacristão, era um homem muito corajoso, viu o estado em que o Zé Miguel estava, pensou logo que só podia ser uma feiticeira a meter medo ao rapaz, e não gozou com ele, disse-lhe para ter calma que tudo se resolvia, se fosse preciso, ia com ele até à Aldeia de Cabeça de Carneiro.
O sacristão pegou num bordão e com um dos filhos que tinha assistido à conversa, foram com o Zé Miguel, passaram o cruzeiro do limite do Campo Santo e não viram nada no sítio onde ele dizia que estava a mulher, ali estiveram falando sobre o que poderia ser, ou não ser e, o filho do sacristão pediu ao Zé Miguel para lhe dizer o sítio certo onde tinha visto a mulher, depois de ele lhe indicar, puxou uma feixa de esteva e lenha seca para esse sítio, e disse: - Se for uma feiticeira, eu já acabo com ela! E pegou numa caixa de fósforos para puxar fogo à lenha e naquele momento o lume acendeu-se sozinho e com uma chama tão alta e clara que iluminou um circulo, parecia ser dia, e fora desse circulo de luz, na parte mais escura, lá estava a mulher com o véu pela cabeça.
Eles ficaram sem palavras e sem saber o que fazer, mas ela disse-lhe para não terem medo, não estava ali por mal, apenas pedia ajuda e adiantou que, era uma alma penada que andava ali perdida, porque não conhecia a região, por ser da serra da estrêla.
Surgiram várias ideias na cabeça do sacristão, mas acalmou-se, fez peito em sinal que não tinha medo, empertigou-se todo e perguntou-lhe o que queria deles?
A alma penada repetiu que, era da serra da estrêla e uma vez tinha estado por algum tempo em Capelins, a visitar o marido que era pastor da transumância, e nesse tempo andava ali nas herdades da Casa do Infantado, e ela tinha cá adoecido com as febres que matavam quase toda a gente, e prometeu a Santo António que se a curasse, daria três voltas à sua Igreja a rezar, e acendia uma vela no seu altar, depois melhorou, voltou para sua casa na serra da estrêla, e nunca mais se tinha lembrado de pagar a dita promessa, agora pedia ajuda, para alguém a pagar por ela, em troca de proteção divina.
O sacristão ouviu-a com atenção e compreendeu, depois disse-lhe que estava salva do purgatório, porque no dia seguinte, logo de manhãzinha, a promessa seria paga, a mulher agradeceu, desapareceu e o lume apagou-se.
O sacristão e o filho disseram ao Zé Miguel que já podia seguir o seu caminho descansado, o caso estava resolvido, de certeza que, a mulher já não lhe aparecia, mas ele tremia como varas verdes e eles decidiram acompanhá-lo até quase ao Monte da Vinha, depois lá seguiu sozinho, sempre a correr até casa.
Assim que o sacristão chegou a casa, contou à mulher o que se tinha passado, e concordaram que ela, logo de manhãzinha pagaria a promessa, para salvarem aquela alma penada do purgatório.
De manhã, a promessa foi paga e a alma penada da mulher da serra da estrêla, nunca mais apareceu por Capelins.
O Zé Miguel, continuou a ser ajuda de gado na herdade da Boeira e ia a casa de oito em oito dias, mudar a roupa, mas nunca mais seguiu por aquele caminho, nem de dia, ia junto à Aldeia de Faleiros, passava pelo Monte das Courelas, Monte das Fontanas e depois descia à Aldeia de Cabeça de Carneiro, para um e outro lado, era mais longe, mas mais seguro, contra almas penadas.

Texto: Correia Manuel

Fotografia: Correia Manuel



segunda-feira, 1 de junho de 2026

A lenda do anjo de Capelins

 A lenda do anjo de Capelins 

Conta-se que, nos primeiros decénios da centúria de 1700, durante alguns anos, nas noites em que os anjos se movimentavam pela Terra, cuja crença era em 05 de Janeiro, 19 de Março, 31 de Maio, 12 de Agosto e 24 de Outubro, embora se pudessem movimentar sempre que fosse necessário, pela meia noite, alguns ganadeiros, começaram a ver uma silhueta, muito brilhante, de uma linda menina, envolta num manto branco, que descia o curso dos ribeiros, do terraço, do quebra, da silveirinha, do carrão, e depois seguia junto à Ribeira de Lucefécit, até às Azenhas D'El-Rei, onde desaparecia no rio Guadiana.

Este caso, começou a ser muito falado em toda a Freguesia de Capelins e arredores, havia muitas opiniões, algumas pessoas acreditavam, outras não, umas diziam que era um medo, outras uma alma penada, ou que eram as feiticeiras, cada cabeça sua sentença.

O tempo passava e cada vez havia mais pessoas a confirmar o que os ganadeiros contavam, e queriam descobrir o que era aquela figura luminosa, e organizaram grupos que, antes da meia noite iam para sítios onde viam bem o dito percurso, e numa noite toda a gente viu a silhueta da menina, alguns tentaram deitar-lhe a mão, mas não conseguiram, porque não passava de uma imagem sem consistência e era muito rápida a movimentar-se, mas não tiveram dúvidas que era um anjo. 

No dia seguinte, não se falava noutra coisa e algumas pessoas diziam que a tinham visto descer desde a Igreja de Santo António, e isso não demorou em chegar aos ouvidos do padre Miguel Galego que, não acreditou, nem deixou de acreditar, era muita gente a dizer o mesmo, por isso, alguma coisa havia. 

Estava confirmado parte do mistério, faltava saber o que fazia por ali aquele anjo, e os grupos de curiosos continuaram a trabalhar, já tinham ideia das datas mais prováveis da sua aparição e quando ela voltou a aparecer tiveram a certeza que tinha saído da Igreja e correram a chamar o padre Miguel e o sacristão, para irem ver se alguma campa dos anjinhos estava remexida, levaram um lampião e viram, com os seus olhos, as lages que cobriam uma campa estavam fora do seu lugar e o sacristão confirmou que, era a campa da filha do Moleiro das Azenhas D'El-Rei, chamada Maria de Jesus,  que tinha falecido aos 10 anos de idade e era a criança mais carinhosa que tinham conhecido, era alegre e cheia de saúde, depois adoeceu e faleceu, deixando toda a gente muito triste.

 Os moradores de Capelins diziam que, devido a menina ser tão carinhosa e bondosa para toda a gente, decerto que, tinha sido escolhida por Deus e Nossa Senhora, para ser mais um anjinho.

Sempre que lhe era permitido por Deus, o anjinho Maria de Jesus ia ver os pais e irmãos ao Moinho das Azenhas D'El-Rei, e numa noite de temporal, o rio Guadiana registou uma grande cheia, e ela salvou o pai de morrer afogado, que se tinha deixado dormir dentro do Moinho, depois de o acordar e ele fugir, em poucos minutos, o Moinho ficou submerso.

O anjinho Maria de Jesus, continuou pelas terras de Capelins durante muitos anos, ajudando os moradores da Freguesia, mas um dia, a sua missão aqui, chegou ao fim, e desapareceu para sempre, mas a sua sepultura está, aos pés da sua madrinha, Nossa Senhora do Rosário, na Igreja de Santo António de Capelins.

Texto: Correia Manuel

Fotografia: Correia Manuel 

Nossa Senhora do Rosário - Capelins




quinta-feira, 28 de maio de 2026

A lenda da ti Maria Joana e da ti Maria Joaquina, de Capelins

A lenda da ti Maria Joana e da ti Maria Joaquina, de Capelins

A ti Maria Joana e a ti Maria Joaquina, eram amigas quando crianças e na sua mocidade, depois casaram, ficaram a morar lado a lado e a situação alterou-se.
As vizinhas, mesmo depois de viúvas, não se entendiam, as casas eram encostadas uma à outra e os quintais eram separados por um muro lateral com mais de um metro de altura, era o muro da discórdia entre elas, porque foi devido a ele que, desde o tempo em que os seus maridos ainda eram vivos já andavam a ódio, não se falavam, porque a ti Maria Joana dizia que o muro não era meeiro, estava feito na sua terra, e a ti Maria Joaquina não podia encostar nada ao dito muro, do lado do seu quintal, senão estava o caldo entornado.
A ti Maria Joana não tinha filhos, apenas umas sobrinhas que moravam no Alandroal e Vila Viçosa e pouco apareciam, e a ti Maria Joaquina tinha filhos e netos, mas estavam fora e, rararmente a visitavam, pelo que, estavam ambas sozinhas, valia-lhes a companhia dos seus cães, cada uma tinha o seu.
O ódio das vizinhas chegava aos cães que, diariamente, logo de manhãzinha corriam, ao longo do muro, um de cada lado, várias vezes, a ladrar, com tanta raiva, que parecia quererem matar-se um ao outro, sem nunca se verem, e as suas donas ficavam especadas a assistir atrás dos cortinados das janelas, e quando os viam já cansados lá os chamavam de volta a casa.
Uma noite, passou uma trovoada tão grande por Capelins, uma tempestade, choveu tanto que o quintal da ti Maria Joana ficou cheio de água até quase à altura do muro, porque o canal de escoamento entupiu e não dava saída, e parte do muro ao fundo do quintal, não aguentou o peso e ruiu.
O dia seguinte nasceu solarengo, e como habitualmente, quando as vizinhas abriram as portas de suas casas, os seus cães sairam a correr a ladrar ao longo do muro, e quando chegaram ao fundo, pararam e ficaram frente a frente em silêncio, a olhar um para o outro, depois aproximaram-se, cheiraram-se mutuamente e começaram a brincar, a rebolar, e a correr juntos por todo o quintal da ti Maria Joana e daí passaram para o quintal da ti Maria Joaquina, sempre com muita alegria, como elas estavam a observá-los ficaram aflitas, sem saberem o que fazer, não entendiam como se tinham juntado e muito menos o seu comportamento, e quando os chamaram eles não obedeceram, nem as ouviam, via-se que existia uma grande amizade entre eles e que não aceitavam a separação.
As vizinhas ficaram sem saber o que fazer, e desceram ao longo do muro para ver a causa do ajuntamento dos cães, ou seja, foram até à parte do muro que estava caído, e a ti Maria Joana acabou por quebrar o silêncio, e disse: - Tal não foi a tempestade esta noite, tive muito medo!
A ti Maria Joaquina, ainda hesitou em falar, mas ao ver a alegria dos cães, acabou por responder: - Foi grande tempestade, até derrubou aqui o muro, por isso os nossos cães se juntaram!
Eu vou já mandá-lo arranjar! Disse a a ti Maria Joana!
Não há pressa, parece que faz falta aos nossos cães, e quando o mandar arranjar eu pago metade! Respondeu a ti Maria Joaquina!
Nesse dia, a conversa não se alongou muito, ficou por ali, os cães já cansados de tanto correr e com fome, recolheram a suas casas.
No dia seguinte, logo cedo, já os cães estavam impacientes para sair de casa para os quintais e repetiram a mesma corrida do dia anterior, parecia que andavam doidos de tão contentes, via-se que, existia alguma coisa estranha entre eles.
As vizinhas, começaram a falar sobre os cães e concluíram que, eles eram irmãos, e da mesma ninhada, e depois de tantos anos separados, ainda se conheceram, por isso, a sua alegria.
Aquela amizade entre os cães, despertou sentimentos na ti Maria Joana e na ti Maria Joaquina, e pouco a pouco foram-se aproximando e esquecendo o ódio que perdurou tantos anos, e iniciaram uma grande amizade entre elas, nunca mais quiseram saber de quem era o muro da discórdia, mandaram arranjar a parte que tinha ruído e abrir uma porta mais perto das suas casas para elas e os cães poderem conviver no dia a dia, e as suas vidas começaram a ter outro sentido, com mais segurança e felicidade, graças à lição dada pelos seus cães.

Texto: Correia Manuel

Fotografia: Correia Manuel

Ferreira de Capelins



segunda-feira, 25 de maio de 2026

A lenda do ti Manel Francisco e do ti Francisco Manel, de Capelins

 A lenda do ti Manel Francisco e do ti Francisco Manel, de Capelins

Conta-se que, noutros tempos, havia muita gente teimosa, persistente nas ideias, na Freguesia de Capelins como o ti Manel Francisco morador no Monte do Pinheiro de Capleins e o seu compadre o ti Francisco Manel, morador na Aldeia de Capelins de Baixo.
Numa manhã chuvosa de um Domingo, no início da centúria de mil e novecentos, o ti Manel Francisco descia a chapada do Pinheiro que estava cheia de lama, porque a vereda era usada por muita gente e nesse tempo ainda não existiam as escadinhas, por isso, era perigosa, por ser íngreme e muito escorregadia, qualquer pessoa que lá caísse, podia ser o seu fim, quando ia a meio caminho, um bocadinho mais acima, viu que ia a subir o seu compadre o ti Francisco Manel, e quando estava a poucos metros de se cruzarem, o ti Manel Francisco escorregou na lama e veio desmandado por ali abaixo, valeu-lhe o ti Francisco Manel que lhe deitou a mão com firmeza e energia e ficaram especados frente a frente quase nariz com nariz.
O ti Manel Francisco agradeceu ao compadre pelo auxílio, reconheceu que podia ter sido um caso sério e acrescentou: - Esta descida é muito perigosa, se tivesse aqui umas escadinhas isto não me acontecia!
- Mas qual descida compadre? Isto é uma chapada, por isso, é uma subida!
Como eram ambos muito teimosos, continuaram durante horas a meio da chapada do Pinheiro a teimar, o ti Manel Francisco dizia que era uma descida, e o ti Francisco Manel dizia que era uma subida e fizeram-se horas de jantar (hoje almoço), entretanto choveu muito, ficaram encharcados até aos ossos, mas a discussão não parou. As mulheres de cada um, mandaram os filhos a procurá-los, porque já tinham as sopas arredadas do lume e a mesa posta, e eles não apareciam, os filhos foram dar com eles, mas não resolveram nada, porque eles diziam que não saiam dali sem levarem a razão que lhes pertencia, era uma questão de honra, e mandaram dizer às mulheres para lhes trazerem uma marmita com as sopas e comeram ali naquele lugar, sempre em grande discussão sobre a chapada ser subida ou ser descida.
Era inverno, estava perto de cair a noite e eles continuavam a discussão, até que, as mulheres de ambos, que eram primas, foram-se por eles e depois de os tentarem convencer a ir cada um para sua casa, tiveram de desistir, e lembraram-se de descer até à taberna e chamar alguns homens mais respeitados, que depois de se inteirarem sobre a causa da discussão, foram lá e disseram-lhes com muita calma que os dois tinham razão, se o ti Manel Francisco ia a descer, para ele era uma descida que tinha pela frente, mas para o ti Francisco Manel se ia a subir, para ele era uma subida que tinha pela frente, sem nunca deixar e ser uma chapada.
O ti Manel Francisco e o ti Francisco Manel parece que acordaram, olharam um para o outro e disseram em coro: - É compadre como é que a gente não nos lembrámos disso! E a sua teimosia nesse dia, acabou por ali, mas continuaram a ser os mais teimosos da Freguesia de Capelins.

Texto: Correia Manuel

Fotografia: Correia Manuel

Escadinhas do Pinheiro de Capelins


sábado, 23 de maio de 2026

A lenda dos melros amestrados pelo caçador de Capelins

 A lenda dos melros amestrados pelo caçador de Capelins

Conta-se que, Capelins era terra de pão de gado e de caça, por isso, muito visitada por caçadores de todas as regiões que, além da vinda para caçar, nas aberturas havia grandes paródias, entusiasmando alguns moradores, que também gostavam de caçar e, talvez por isso, a rapaziada, assim que tinham oportunidade tornavam-se caçadores.
O ti António Zé, morador na Aldeia de Ferreira de Capelins, era caçador, e no seu quintal tinha um alpendre, a que chamavam um arramadão, onde arrumava algumas ferramentas, sacos, cestos e outra tralha, que por vezes ali estava algum tempo sem ser usada e se não fizesse falta nem reparava nela.
Um dia o ti António Zé foi procurar uma ferramenta que precisava e quando deitou a mão a uma caixa, ficou assustado com o voo de uma ave que lhe passou um palmo à frente dos olhos e pousou a poucos metros de distância, dentro do alpendre, como bom conhecedor das espécies cinegéticas não teve dúvidas em a identificar, era uma melra que, começou a cantar dirigida a ele como se estivesse a falar, obrigando-o a dar-lhe atenção, depois olhou para o lugar de onde ela tinha saído e para onde a melra fazia gestos com a cabeça ao cantar e viu um ninho dentro de uma cesta, com cinco ovos.
Aqui o ti António Zé compreendeu o que a melra lhe estava a pedir, era permissão para a deixar criar os filhos dentro da sua cesta, e depois de apanhar as ferramentas disse em voz alta: - Ó amiga fica à vontade que aqui ninguém te vai fazer mal! A melra, parece que, o compreendeu e parou de piar ou cantar.
O ti António Zé foi-se afastando, devagarinho sem movimentos bruscos, depois esteve alguns dias sem a importunar, não fosse ela enjeitar o ninho, ou seja, os ovos, e quebrava o contrato que tinha feito, mas a curiosidade persistia e passados uns dias foi pé ante pé a observar em que pontos estava a ninhada e já lá tinha cinco passarinhos pelados, todos de bico aberto à espera de comida trazida pelos pais.
A partir daquele dia, o ti António Zé, começou a visitar, diariamente os melrinhos, com consentimento dos pais, que pousavam junto dele, já estavam amestrados, ele assobiava e eles respondiam a cantar, e esperavam, pacientemente que ele se afastasse para lhes poderem dar as minhocas que traziam no bico para os alimentar, mas eles estavam sempre cheios de fome e o ti António Zé ainda pensou procurar minhocas na terra para lhe dar, mas teve receio que os pais não gostassem e desistiu, porém, a sua amizade com a família melro era cada vez maior, até que, um dia pela manhã, quando os foi visitar, o ninho estava deserto, já tinham batido a asa na companhia dos pais, para as terras de montado, e nunca mais por ali os viu, mas a amizade não tinha acabado.
Quando começou a caça aos tordos, um dia o ti António Zé fez um aguardo atrás de uns carrascos, perto da Igreja de Santo António de Capelins, para fazer a espera na passagem deles, do montado para os olivais onde iam comer, a caçada estava a correr bem e como já poucos tordos apareciam, pensou em abalar, mas naquele momento viu aparecer uma ave que, pensou ser um tordo, apontou a espingarda e quando ia puxar o gatilho conheceu o cantar da sua amiga melra, a que tinha feito o ninho no seu telheiro e ainda foi a tempo de não disparar.
A melra ainda o conheceu, por isso, lhe fez aquele cumprimento, que lhe salvou a vida, a partir daquele dia, o ti António Zé nunca mais disparou um tiro contra nenhum melro, porque a amizade verdadeira é para sempre.
No ano seguinte, quando chegou a altura de fazer o ninho, lá estava a melra no mesmo sítio, uma prova que tinha boa memória, mas antes, o ti António Zé preparou a mesma cesta e no mesmo sítio, para facilitar a vida aos seus amigos melros, e a sua amizade perdurou por muitos anos.

Texto: Correia Manuel

Fotografia: António Rocha



quarta-feira, 20 de maio de 2026

A lenda do João e da Joana, de Capelins

 A lenda do João e da Joana, de Capelins

Os ancestrais da Freguesia de Capelins contavam que, noutros tempos, morou aqui um rapaz chamado João Silva, bem afeiçoado, mas pouco cobiçado, porque tinha uma deficiência visual que, no entanto, não o impedia de fazer a sua vida de trabalho, como escamel no Monte de uma herdade de Capelins.
Ao fundo da sua rua, morava uma rapariga chamada Joana Maria, muito bonita, com cabelos aos caracóis e uns olhos lindos, mas pouco cobiçada, porque tinha uma deficiência, neste caso, falta de ouvido, era surda, tinham de lhe falar alto, ou perto dos ouvidos, para ouvir qualquer coisa, por esse motivo, ficava a leste das conversas das outras raparigas, mas fazia todos os trabalhos do campo e de casa mas, tal como o João, ficava esquecida.
Devido à vida de trabalho, o João pouco metia os pés na Aldeia, a não ser a mudar a roupa, sempre a correr, e quando havia algum baile, ou pela Santa Cruz, ou nas Festas de Santo António, por isso, embora vizinhos, muito raramente se encontravam.
A Joana, já andava com o olho nele, porque havia muita mangação por parte da vizinhança e das famílias, todos diziam, que faziam um lindo par, que eram mesmo bons um para o outro, por isso, um ano, pela Santa Cruz, antes de começar o fogo de artifício, ela decidiu dar um passo em frente, passou-lhe a um palmo do nariz, para ele a ver e perceber que o esperava no baile.
Depois de acabar o fogo de artifício, começou o baile, abrilhantado pelo conjunto Jaz e Band, mas a iluminação era muito fraca, não passava da luz de uns lampiões a petróleo pendurados nuns postes de madeira, nuns paus, e a visão do João não alcançava o sítio onde estavam as raparigas, e muito menos o lugar da Joana para ir pedir-lhe para dançar, e mesmo empurrado por outros rapazes, nenhum o fez dar um passo em frente, assim, acabou o baile e a Santa Cruz e não chegou a arrimar-se à Joana.
Em Capelins, toda a gente sabia que eles gostavam muito um do outro, só faltava o João dar um passo em frente a pedir namoro à Joana, mas o tempo passava e isso não acontecia.
Os amigos e familiares do João mangavam com ele, diziam-lhe que tinha de pedir namoro à Joana, para depois a ir pedir ao pai, e ele respondia sempre o mesmo: - Estou à espera!
As raparigas também mangavam com a Joana, mas ela não podia fazer nada, apenas respondia: - Estou à espera! De certa forma, já estavam prometidos um ao outro pelas famílias, faltava só o João avançar, mas o tempo passava e nada mudava.
Os amigos e as famílias deles, já não sabiam o que fazer mais, para entusiasmar o João a ir pedir namoro à Joana, iam aos bailes, mas ele, talvez devido à sua deficiência visual não dançava, assim não se aproximava da Joana, nem nas Festas, nem lhe saía ao caminho e não podia escrever-lhe uma carta, porque nem ele nem ela sabiam ler nem escrever, como quase toda a gente nesse tempo.
Os dias, os meses, e os anos iam passando e nada se decidia, a idade de ambos ia avançando, e sempre que as pessoas lhes perguntavam quando casavam, continuavam ambos a responder: - Estou à espera!
Assim, a Joana passou a sua vida inteira à espera do João, e o João passou a sua vida inteira à espera da Joana, e não passaram disso, só pela distância de um passo que ele não conseguia dar, para lhe pedir namoro, talvez, devido à sua condição física, que o condicionava.
Os anos não perdoaram e foram passando, até que um dia, ouviu-se que o João Silva tinha falecido, mas a maior surpresa, foi quando se ouviu que a Joana Maria, também tinha falecido, nesse mesmo dia e à mesma hora, e as gentes de Capelins diziam que, as suas almas tinham casado no céu, ficando juntos até à eternidade e, decerto, que o João e a Joana foram felizes.
Texto: Correia Manuel
Fotografia: Correia Manuel

Ferreira de Capelins



quinta-feira, 14 de maio de 2026

A lenda dos pagadores das promessas das almas penadas, em Capelins

A lenda dos pagadores das promessas das almas penadas, em Capelins

Na Freguesia de Capelins, e não só, noutros tempos, os fiéis, incitados pela Igreja, acreditavam que, após o falecimento de alguém, a sua alma ficava, temporariamente no Purgatório para a sua purificação final.
Diziam que, as almas não podiam entrar, imediatamente no Céu, não era um castigo, mas uma fase de preparação para a santidade absoluta, porém, existiam as almas penadas que, eram espíritos de pessoas falecidas, que se acreditava, regressavam ao mundo dos vivos, para poderem cumprir penas, por não terem confessado pecados graves antes de morrer, por deixarem dívidas, ou porque eram pessoas más em vida, ou para resolver outras situações pendentes, como o pagamento de promessas que deixaram por pagar.
As almas penadas, ou espíritos, enquanto resolviam as ditas situações, andavam em sofrimento, penando, e surgiam logo à noitinha em caminhos solitários junto à Ribeira de Lucefécit, do Rio Guadiana, ou outros, como encruzilhadas, ou perto da Igreja, para pedir ajuda aos vivos, e apresentavam-se na forma de, vultos brancos, luzes brilhantes, gemidos e suspiros, causando temor a muita gente.
Na Igreja de Santo António de Capelins, às segundas feiras, eram rezadas missas de encomendação das almas, para ajudar os espíritos a aliviar as suas penas no Purgatório, mas só isso não bastava, precisavam da ajuda dos pagadores das suas promessas, assim, comunicavam entre si, e ouviam o que podiam fazer para a sua purificação, recebendo em troca a garantia de proteção divina, para eles, para a sua família e para toda a comunidade.
Os pagadores das promessas, homens e mulheres, eram pessoas com coragem que iam ao encontro dos espíritos, já sabiam as horas, as noites e os lugares onde os podiam encontrar, ouvia-se que, as almas penadas podiam ver-se e ouvir-se com maior frequência na Quaresma e nas madrugadas de sextas feiras dessa época podiam ver-se procissões delas, mas também se encontravam nas noites de, S. João, de 31 de Outubro, e 2 de Novembro.
A função dos pagadores das promessas das almas penadas em Capelins, era secreta, ouviam-se rumores sobre quem eram, mas era um segredo muito bem guardado, e poucas pessoas se atreviam a falar nisso, eles e elas tinham o poder de comunicar com os espíritos, ouviam os seus pedidos e faziam tudo como lhe era dito, e logo que a promessa fosse paga, a qual, podia ser, acender velas na Igreja, rezar orações, mandar rezar missas, colocar cruzes pregadas na terra batida em encruzilhadas, feitas com rabaça, ou arrabaça venenosa entrelaçada, levar os Santos numa procissão, ou outros atos religiosos, a partir daí, o espírito ficava purificado e podia entrar no Céu, acabando o seu sofrimento.
Como referimos, este tema era sagrado, sendo dos maiores segredos de Capelins, pelo qual, a maioria dos ancestrais tinham muito respeito e não gostavam de falar nisso, mas acreditavam em tudo o que é descrito.

Texto: Correia Manuel

Fotografia: Correia Manuel

Cruzeiro na Serra da Sina



sexta-feira, 8 de maio de 2026

A lenda do filho do lavrador, que foi deserdado, por amor

 A lenda do filho do lavrador, que foi deserdado, por amor 

Nas terras de Capelins, e não só, noutros tempos, os lavradores pertenciam a uma classe social muito poderosa e respeitada, eram os senhores das terras, e mantinham distância dos pobres, não admitiam casamentos dos seus filhos ou filhas com rapazes ou raparigas da classe pobre, havia casos de envolvimentos, mas casar nem pensar, porque era considerada uma desonra para a família dos lavradores.

Conta-se que, o filho mais velho do lavrador mais opulento da Freguesia de Capelins, chamado João António, perdeu-se de amores por uma rapariga pobre, muito bonita, com longos cabelos negros, olhos de pardaloca e bem afeiçoada, chamada Antónia Rosa, e a sua relação amorosa começou a dar que falar, a conversa sobre eles andava na boca de toda a gente, diziam que, era mais uma rapariga que ia ficar coxa, o mesmo que desonrada, porque se não podiam casar, era só para fazer pouco dela e da família.

O pai da Antónia sabia o que se passava, tal como a sua família, mas não diziam nada, porque no fundo tinham esperança que a sua menina viesse a casar com um rapaz rico, era a ambição dos pobres nesse tempo.

O pai do João ao ouvir alguns rumores sobre o caso, chamou o filho e teve uma longa conversa com ele, e disse-lhe que tinha de se afastar, quanto antes, da Antónia, porque já se ouviam muitas conversas sobre eles e a sua relação, não podia continuar.

O João respondeu que estava apaixonado pela Antónia e  não era para fazer pouco dela, porque a amava, sentia-se muito feliz, e estava a pensar em se casar com ela. 

O lavrador ficou irritado com o filho e explicou-lhe que nunca podia casar com ela, porque além de ser uma desonra para a família, os outros lavradores e famílias iam fazer chacota deles e ficariam desgraçados, por isso, ele tinha de tirar a Antónia da cabeça e arranjar uma rapariga rica, filha de um lavrador da Freguesia ou da região. 

O João ignorou, completamente o que o pai lhe disse e continuou a encontrar-se com a Antónia, mas a partir daquele dia começou uma guerra entre eles. 

Na Freguesia de Capelins, cada vez se ouviam mais conversas sobre eles, até que, um dia o João perguntou à Antónia se queria casar com ele, e ela mesmo sabendo que se iam meter numa grande confusão, respondeu que era o que mais queria, mas para ele ver bem, no que se ia meter.

O João, assim que chegou ao Monte da herdade, disse ao pai e à família que se ia casar com a Antónia, eles ficaram muito aborrecidos e responderam que não consentiam essa afronta, e para ele pensar bem, mas ele disse que estava decidido e o pai disse-lhe que, sendo assim, tinha de escolher entre a sua família e a Antónia. E o João respondeu que não queria comparar uma coisa com a outra, mas que não desistia de casar com a Antónia, e seria o mais depressa possível.

Ainda nesse dia, o João foi falar com o Pároco da Paróquia de Santo António, o Padre Jerónimo de Jesus Maria Granja, contou-lhe a situação em que estava metido e tiveram uma longa conversa, mas a decisão estava tomada, e o Padre, embora contrariado, não teve outro remédio senão tratar dos papéis de estilo e marcar o casamento, ficando para o dia 15 de Outubro de 1860, o João queria antes, mas o Padre disse-lhe que antes não podia ser, porque a aprovação não dependia só dele, mas foi na esperança que ele ainda pudesse mudar de ideia, mas não mudou, e no dia marcado, realizou-se o matrimónio sem a presença de nenhum elemento da sua família, porque lhe viraram as costas, mas não faltaram os seus amigos.

Este caso, foi um grande escândalo em Capelins, os lavradores ficaram ofendidos e alguns não pouparam críticas, culpando o pai do João, por não ter mão nele, então o lavrador para limpar a sua honra e da família, rejeitou o filho, chamou o Tabelião da Vila de Terena lá ao Monte da herdade e mandou redigir um testamento, no qual, deserdava o seu filho João António.

O João e a Antónia Rosa depois do casamento ficaram a morar numa casa muito modesta, e ele foi logo pedir a um lavrador seu amigo, que não se dava bem com o pai dele, para o concertar, ou seja, empregar, uma vez que sabia fazer todos os trabalhos da herdade, e começou logo a trabalhar como jornaleiro, e andou alguns anos, como diziam antigamente, de alcofa às costas, mas muito feliz. 

A sua dedicação e afeição ao amigo lavrador e família, deu-lhe oportunidade de ocupar a vaga de feitor da herdade, desempenhando essas funções durante alguns anos, e a sua vida, em termos económicos começou a melhorar a olhos vistos.

Devido aos seus conhecimentos e já com algumas economias, abriu-se mais uma porta, com a ajuda do patrão, arrendou uma boa herdade e tornou-se lavrador, sem qualquer ajuda da sua família que, depois do pai falecer, cumpriram com rigor o que constava no testamento, não lhe deram nada da herança, mas isso ainda lhe deu mais força para lutar por melhor vida, e ao contrário dos irmãos, que se desentenderam por causa das partilhas e começaram a entrar em declínio, ele comprou uma grande herdade e mais tarde dois Moinhos no rio Guadiana e ficou sendo o maior lavrador da Freguesia de Capelins.

O João nasceu rico, mas por amor a uma rapariga pobre, não respeitou as regras existentes entre os lavradores, por isso, foi deserdado e expulso  da sua própria família, mas essa injustiça  deu-lhe muita força para lutar e chegar onde chegou, passou pela pobreza, e humilhação por parte da família, mas afirmava sempre que, em momento algum, se arrependeu de ter feito o que fez, porque foi sempre muito feliz com a Antónia, a mulher da sua vida que, muito amava,  independentemente de ser pobre ou rica.

O João e a Antónia tiveram cinco filhos, cuja descendência ainda hoje existe na Freguesia de Capelins.

Baseada num caso verídico, que aconteceu na Freguesia de Capelins.

Texto: Correia Manuel

Fotografia: Correia Manuel 


Freguesia de Capelins




segunda-feira, 4 de maio de 2026

A lenda dos pés rapados de Capelins

 A lenda dos pés rapados de Capelins

Noutros tempos, na Freguesia de Capelins, as ruas e caminhos não eram pavimentados, eram cobertos com algumas pedras e com terra, mas devido às grandes invernias e ao muito movimento de pessoas, animais e carroças, havia grandes lameiros, logo lama por todo o lado, mas os moradores estavam tão habituados que nem se apercebiam e entravam em casa nas choupanas, na Igreja, com os pés descalços ou com o calçado carregados de lama.
Nos domingos, depois das missas, ou quando se realizavam casamentos, batizados ou outras cerimónias religiosas, no tempo das chuvas, que duravam muitos meses, a mulher e os filhos do sacristão tiravam carradas de terra, de barro vermelho e até de estrume misturado, de dentro da Igreja de Santo António, porque ninguém tinha o cuidado de limpar os pés ou o calçado, antes de entrarem, e depois ficava tudo lá dentro.
Cerca do ano de 1805, chegou a Santo António, o Pároco Marcos Gomes Pouzão, vindo da Vigararia da Vila de Terena, onde os fiéis já não entravam nas Igrejas com os pés ou com o calçado carregado de lama e, como era inverno, após a primeira missa, quando viu o lamaçal que ficou dentro da Igreja, disse ao sacristão que aquilo já não se via em sítio nenhum, por isso, iam fazer como nas Igrejas da Vila de Terena, e pediu-lhe para ele, assim que pudesse, ir falar com os ferreiros que tinham feito as raspadeiras para a entrada das ditas Igrejas e encomendar uma igual, ali para a porta da Igreja de Santo António, e no Domingo seguinte, na missa, o Pároco começou a preparar os fiéis, para depois não lhe parecer mal.
Quando veio a raspadeira foi fixada à porta da Igreja, mas os fiéis não reparavam nela, esqueciam-se da nova regra, talvez, porque não era para todos, já que os lavradores, ou seja, os ricos, chegavam à porta da Igreja com a sua família nas suas carruagens, como as charretes, logo não pisavam lama, por isso, não precisavam de se dirigir à raspadeira, entravam diretamente na Igreja, induzindo os outros fiéis em erro e foi necessário o sacristão começar a fazer de porteiro, barrando a porta aos fiéis que não cumpriam o dever de ir rapar os pés.
Foi assim que, a Freguesia de Capelins, à semelhança do que já existia noutras regiões, também ganhou os pés rapados, uma vez que, os fiéis pobres que andavam a pé, pisando lama, antes de entrarem na Igreja de Santo António, tinham de rapar os pés descalços ou o calçado, ao contrário dos ricos que não passavam por isso, porque não pisavam na lama, logo, ser pobre ou pé rapado era a mesma coisa, embora usado de forma pejorativa.
Texto: Correia Manuel
Fotografia: Correia Manuel

Igreja de Santo António de Capelins



sábado, 2 de maio de 2026

A lenda do "senhor do seu nariz", de Capelins

 A lenda do "senhor do seu nariz", de Capelins

Noutros tempos, a maioria dos moradores da Freguesia de Capelins, eram analfabetos, porque as pessoas achavam que para trabalhar nas herdades, no campo, não era preciso saber ler nem escrever, não servia para nada, mas havia gente com bons conhecimentos em algumas matérias, e do que eles diziam, ninguém se atrevia a duvidar.
De entre os mestres do conhecimento, havia o ti António Joaquim, que se achava, mestre dos mestres, e devido à sua altivez, começaram a dizer que era muito "senhor do seu nariz", e depressa ganhou essa alcunha, embora, apesar do seu feitio, muita gente recorria a ele, fosse para pedir algum conselho sobre qualquer decisão importante a tomar, ou como juiz em desentendimentos entre familiares ou vizinhos, por causa de limites de terras, de pastagens ou gados, mas principalmente para fazer as partilhas das heranças, de casas e courelas, às quais, ele atribuía os respetivos valores e fazia os quinhões justos, para cada herdeiro, depois tiravam sortes, e se algum herdeiro achasse que ficava mais mal, não tinha coragem para confrontar o "senhor do seu nariz", porque, o que ele dizia estava dito.
Na Freguesia de Capelins, ninguém se atrevia a enfrentar o "senhor do seu nariz", mesmo que não concordassem com ele, porque reconheciam que ele tinha muitos conhecimentos, que foi acumulando desde criança, recebidos do seu avô materno, que também sabia muito, mas devido à evolução social e tecnológica, começaram a surgir situações que já não eram do seu domínio, mas isso não o apeava do alto da sua sabedoria, e por exemplo bastou ele dizer que aquilo do homem ir à lua era tudo uma mentira, quase toda a gente acreditou nele, era Deus no céu e ele na Terra.
Nas décadas de 1970/80, começaram a surgir já muitos televisores em Capelins e as pessoas a ficarem mais informadas devido aos noticiários diários, mas se o "senhor do seu nariz" não concordasse com alguma notícia televisiva, prevaleciam os seus argumentos, porque segundo ele, Lisboa era Lisboa e Capelins era Capelins e o que se passava lá, não se passava cá, e estava justificado.
Numa tarde de um mês de Junho, estava um grupo de rapazes na rabióca, ou seja, na brincadeira, à porta da taberna e um deles alcançou uma antena de televisão, nova ali, diferente das habituais, ficou muito admirado e exclamou: - É malta, olhem lá, o que será aquilo? A rapaziada olharam todos e cada um disse o que lhe veio à cabeça, mas por fim todos acharam que só podia ser uma antena de televisão, mas como ainda existiam dúvidas, porque nunca tinham visto nenhuma antena semelhante, o Zé Manel levantou os braços, mandou calar a rapaziada e disse:
Zé Manel: Esperem lá, está ali o "senhor do seu nariz", ele sabe tudo, já nos diz o que é aquilo! E dirigiu-se a ele.
Zé Manel: Olhe lá, ti António, sabe o que é aquilo que está no alto daquela chaminé aí em frente?
O ti António esteve algum tempo a observar, e a pensar o que responder e por fim disse:
Ti António: Ó rapaz, então não havia de saber! Sei, sei!
Zé Manel: Então se sabe, é o quê?
O ti António não podia dizer que não sabia, e respondeu:
Ti António: É um vídeo!
A rapaziada que estava à espera da resposta, comentaram em coro:
Rapaziada: É um vídeo?
Ti António: Sim, sim, é um vídeo!
Como o "senhor do seu nariz" não podia ser contrariado, alguns rapazes ficaram com dúvidas e murmuraram baixinho:
Rapaziada: É um vídeo? Aquilo é um vídeo?
Um dos rapazes, chamado Francisco que trabalhava em Lisboa, não ficou calado e disse-lhe:
Francisco: Olhe lá ti António, eu já vi vídeos lá em Lisboa e não são nada daquilo, são uns aparelhos que estão ao pé das televisões e metem-se umas cassetes que têm lá dentro filmes, documentários e outras coisas, então como é que as pessoas metem as cassetes além naquela altura?
Ti António: Mas tu, ouviste-me falar que aquilo além levava algumas cassetes? Quem falou aqui em cassetes foste tu, estás a meter-te naquilo que não sabes, mas pensas que por andares lá por Lisboa que já sabes tudo, mas não sabes!
Francisco: Ó ti António, eu só disse que os vídeos estão ligados às televisões e levam umas cassetes para vermos os filmes que queremos!
Ti António: Isso até pode ser assim, os que tu conheces, cada um mete os vídeos onde quiser, aquele além também está ligado à televisão, é só escolher o que se quer ver sem precisar de cassetes nenhumas!
Francisco: Está enganado ti António, mas é fácil saber, vá lá perguntar ao homem que além mora e fica logo a saber que aquilo não é um vídeo!
Ti António: Eu não pergunto nada a ninguém, era o que me faltava receber ordens de um rufia como tu, ao que isto chegou, rufia, que és um rufia, pensas que sabes mais do que eu!
O "senhor do seu nariz" ficou muito ofendido, porque nunca tinha sido contrariado, mas todos os reinados têm o seu fim, a rapaziada viram o caso mal parado, foram deslizando para outro poiso e a antena da televisão em Capelins, passou a ser um vídeo.

Texto: Correia Manuel

Fotografia: Correia Manuel

Ferreira de Capelins



quinta-feira, 30 de abril de 2026

A lenda dos espelhos das feiticeiras de Capelins

 A lenda dos espelhos das feiticeiras de Capelins 

Conta-se que, nos tempos de outrora, existiam muitas feiticeiras na Freguesia de Capelins, desde mulheres mais velhas, até mais novas, que herdavam os novelos, ou seja, o poder das mães ou de madrinhas que faleciam da vida terrena muito cedo.

As feiticeiras estavam ao serviço do Mafarrico e a sua obrigação era praticar o mal, fazer sofrer pessoas e animais, e até destruir elementos da natureza para prejudicar alguém, tinham de cumprir as ordens dele, mesmo que fosse contra familiares chegados, como avós aos netos, dos quais, tanto gostavam, mas não podiam recusar, senão, eram bem castigadas, tanto na vida terrena, como no inferno, até à eternidade.

Quando o Mafarrico as convocava para os bailes alucinantes na Ribeira de Luceféct, não podiam faltar, e antes da meia noite, lá estavam todas presentes. Nesse tempo, toda a gente se deitava ao sol posto, porque tinham de se levantar pelas quatro ou cinco horas da manhã, para seguirem para o trabalho nas herdades, por isso, quase ninguém dava por nada, houve um caso ou outro, em que elas obrigaram uns homens que iam de passagem, pelo menos um, era de Cabeça de Carneiro, os outros eram de Capelins, a participar nos célebres bailes em pêlo e, ficaram tão estafados, que passaram alguns dias de cama, e de pouco se lembravam do que lhes tinha acontecido. 

Num desses bailes, as feiticeiras queixaram-se ao Mafarrico que tinham cada vez mais dificuldade em saber o que tinham de fazer, porque havia muita gente desconfiada e com o olho nelas, pelo que, precisavam de encontrar uma maneira discreta para receber as ordens dele e saberem o que se passava no seu reino.

O Mafarrico já sabia o que elas iam pedir, meteu a mão ao bolso e tirou uma quantidade de pequenos espelhos redondos, entregou um a cada feiticeira e disse-lhe que a partir daquela noite, o espelho seria o meio de comunicação entre ele e cada uma delas, bastava-lhes fixar os olhos no mesmo e viam a imagem dele e ouviam o que tinham de ouvir e podiam ficar descansadas que só elas tinham o poder de o ver e ouvir, mesmo que outras pessoas olhassem para o espelho, nada viam.

A partir dessa noite, a vida das feiticeiras de Capelins ficou mais fácil, sempre que era preciso, pegavam num pente, e fingiam que penteavam os seus cabelos com os olhos postos no espelho e, ao mesmo tempo viam o Mafarrico, e ouviam o que era preciso ouvir, algumas até faziam isso às soalheiras, sem as mulheres que estavam ao lado delas darem por isso.

Este meio de comunicação entre as feiticeiras e o Mafarrico era muito eficiente, ninguém desconfiava delas, e o segredo só foi desvendado muito tarde, quando duas feiticeiras mais novas, falavam à soalheira e não se acautelaram, porque estavam umas mulheres a escutar a conversa delas atrás da lenha, e contaram a outras o que tinham ouvido, mas poucas pessoas souberam e muitas menos acreditaram nisso, e os espelhos das feiticeiras continuaram em funcionamento, mas as ditas feiticeiras foram bem castigadas pelo Mafarrico, levaram tanta pancada que ficaram derreadas para o resto da vida, mas diziam que tinham caído um grande estouro, ou seja, tinham dado uma grande queda.

Foi devido a esses espelhos que surgiu a crença em Capelins sobre, quem partisse um espelho, tinha sete anos de azar na vida, porque dentro dele, estava a imagem do Mafarrico.

Texto: Correia Manuel 

Fotografia: Correia Manuel



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