A lenda dos espelhos das feiticeiras de Capelins
Conta-se que, nos tempos de outrora, existiam muitas feiticeiras na Freguesia de Capelins, desde mulheres mais velhas, até mais novas, que herdavam os novelos, ou seja, o poder das mães ou de madrinhas que faleciam da vida terrena muito cedo.
As feiticeiras estavam ao serviço do Mafarrico e a sua obrigação era praticar o mal, fazer sofrer pessoas e animais, e até destruir elementos da natureza para prejudicar alguém, tinham de cumprir as ordens dele, mesmo que fosse contra familiares chegados, como avós aos netos, dos quais, tanto gostavam, mas não podiam recusar, senão, eram bem castigadas, tanto na vida terrena, como no inferno, até à eternidade.
Quando o Mafarrico as convocava para os bailes alucinantes na Ribeira de Luceféct, não podiam faltar, e antes da meia noite, lá estavam todas presentes. Nesse tempo, toda a gente se deitava ao sol posto, porque tinham de se levantar pelas quatro ou cinco horas da manhã, para seguirem para o trabalho nas herdades, por isso, quase ninguém dava por nada, houve um caso ou outro, em que elas obrigaram uns homens que iam de passagem, pelo menos um, era de Cabeça de Carneiro, os outros eram de Capelins, a participar nos célebres bailes em pêlo e, ficaram tão estafados, que passaram alguns dias de cama, e de pouco se lembravam do que lhes tinha acontecido.
Num desses bailes, as feiticeiras queixaram-se ao Mafarrico que tinham cada vez mais dificuldade em saber o que tinham de fazer, porque havia muita gente desconfiada e com o olho nelas, pelo que, precisavam de encontrar uma maneira discreta para receber as ordens dele e saberem o que se passava no seu reino.
O Mafarrico já sabia o que elas iam pedir, meteu a mão ao bolso e tirou uma quantidade de pequenos espelhos redondos, entregou um a cada feiticeira e disse-lhe que a partir daquela noite, o espelho seria o meio de comunicação entre ele e cada uma delas, bastava-lhes fixar os olhos no mesmo e viam a imagem dele e ouviam o que tinham de ouvir e podiam ficar descansadas que só elas tinham o poder de o ver e ouvir, mesmo que outras pessoas olhassem para o espelho, nada viam.
A partir dessa noite, a vida das feiticeiras de Capelins ficou mais fácil, sempre que era preciso, pegavam num pente, e fingiam que penteavam os seus cabelos com os olhos postos no espelho e, ao mesmo tempo viam o Mafarrico, e ouviam o que era preciso ouvir, algumas até faziam isso às soalheiras, sem as mulheres que estavam ao lado delas darem por isso.
Este meio de comunicação entre as feiticeiras e o Mafarrico era muito eficiente, ninguém desconfiava delas, e o segredo só foi desvendado muito tarde, quando duas feiticeiras mais novas, falavam à soalheira e não se acautelaram, porque estavam umas mulheres a escutar a conversa delas atrás da lenha, e contaram a outras o que tinham ouvido, mas poucas pessoas souberam e muitas menos acreditaram nisso, e os espelhos das feiticeiras continuaram em funcionamento, mas as ditas feiticeiras foram bem castigadas pelo Mafarrico, levaram tanta pancada que ficaram derreadas para o resto da vida, mas diziam que tinham caído um grande estouro, ou seja, tinham dado uma grande queda.
Foi devido a esses espelhos que surgiu a crença em Capelins sobre, quem partisse um espelho, tinha sete anos de azar na vida, porque dentro dele, estava a imagem do Mafarrico.
Texto: Correia Manuel
Fotografia: Correia Manuel
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