sexta-feira, 17 de abril de 2026

A lenda do segredo da filha do Regedor de Capelins

 A lenda do segredo da filha do Regedor de Capelins

O ti Joaquim Manuel e sua legítima mulher a ti Joaquina Maria, moravam na antiga Aldeia de Capelins de Cima, eram seareiros, e devido às suas competências ele era o Regedor da Freguesia de Santo António de Capelins, desde 1836, não tinham filhos, porque a natureza dele ou dela ou dos dois, não o permitiam e, essa situação assombrava a sua felicidade.

Na madrugada do dia 25 de Abril de 1840, o ti Joaquim Manuel, como habitualmente, levantou-se da sua cama, acendeu a candeia de azeite e preparou-se para ir à cabana dar a ração à sua mula, para depois fazer as migas com toucinho frito para o almoço (pequeno almoço) e partir para as courelas.

Quando abriu a porta de casa, ainda estava muito escuro, ouviu uns passos de corrida, estranhou aquele movimento e tentou ver o que se passava, mas devido à escuridão não viu nada, quando deu um passo em frente para sair tocou com a biqueira da bota numa cesta e murmurou: Mau, mau, aqui há gato! E com a ajuda da pouca luz da candeia, com muito cuidado, levantou um pano que tapava a cesta e ficou admirado ao ver que tinha lá dentro uma criança, tornou a olhar a rua, porque tinha o pressentimento que estava a ser observado, mas como não avistou ninguém, pegou na cesta e foi acordar a ti Joaquina, contou-lhe o que se estava a passar, e ficaram sem saber o que fazer.

Já mais calmos, a ti Joaquina pegou na criança e confirmaram que era uma menina com poucas horas de vida, precisava de muitos cuidados, e acreditaram que era uma dádiva divina, tinham ali a filha que tanto desejavam, porém, sabiam que tinham muitos passos a dar para a legalizar, mas o ti Joaquim sossegou a ti Joaquina, dizendo-lhe que seria tudo feito pelo Pároco de Santo António, o padre Manuel de Santo Inácio Pereira, com o qual tinham muito boas relações e sabia que ele os ajudava, e meteu-se logo a caminho da Igreja, quando o padre se levantou já ele estava à porta da casa Paroquial e, em poucas palavras contou-lhe o que ali o levava.

O Pároco mostrou-se muito surpreendido com o sucedido e fez algumas perguntas ao ti Joaquim, se desconfiava quem seriam os pais da menina, que idade teria, se não seria algum engano e alguém lá voltaria a buscá-la e, principalmente, o que pensava fazer, porque podia aperfilhá-la, ou entregá-la ao juiz dos órfãos da Vila de Terena, quaisquer dos casos, o padre tratava de tudo.

O ti Joaquim respondeu que já tinha falado com a ti Joaquina e que não tinham dúvidas, queriam aperfilhar a menina, e depois de tudo esclarecido o padre pediu-lhe alguns dados, dele e da ti Joaquina, para fazer o registo e disse-lhe, para quando pudessem levarem a menina à Igreja para ser batizada e pôr-lhe os Santos Óleos e podia ir descansado que a menina seria deles.

O ti Joaquim despediu-se do Pároco e foi a correr até à Aldeia, para contar à ti Joaquina que estava tudo bem encaminhado para ficarem com a menina e, assim que ela ficou informada, ele foi a correr buscar leite de vaca para a criança, senão, quando acordasse com fome, não tinham nada para lhe dar e a ti Joaquina ficou a preparar tudo para o seu bem estar.

Passadas poucas horas, já toda a gente na Freguesia sabiam que tinha aparecido uma menina dentro de uma cesta à porta do Regedor, e as mentes brilhantes começaram a trabalhar, a tentar descobri quem seria a mãe, e foram nomeadas todas as mulheres que estavam de barriga na Freguesia, as quais, à medida que iam confirmando, não poderem ser, iam sendo riscadas da lista e durante muito tempo não se falou noutra coisa, houve muitos boatos, mas a maioria das pessoas concluíram que, tinha de ser de fora, e com o passar do tempo, o segredo foi ficando esquecido.

A menina foi batizada e registada com o mesmo nome da mãe adotiva, ficou a chamar-se Joaquina, teve uma infância normal, muito feliz, nunca lhe faltou nada, o ti Joaquim, de seareiro passou a ser lavrador, com uma vida muito boa, e a menina era conhecida em Capelins como a filha do Regedor.

A menina Joaquina foi crescendo, tornando-se uma das raparigas mais bonitas de Capelins e, quando chegou à idade casadoira, tinha muitos pretendentes, mas ela perdeu-se de amores por um dos filhos do lavrador da Zorra, namoraram algum tempo e foi marcado o casamento, sendo cumpridas, integralmente todas as tradições.

O casamento da filha do Regedor foi muito falado por toda a Freguesia e no dia da sua realização, em Setembro de 1865, estava toda a gente junto à Igreja de Santo António para ver os noivos e a sua saída já casados, e quando eles surgiram na porta grande a ocidente, ouviu-se o grito estridente de uma mulher, a dizer: Minha querida filha, tão linda que estás, ainda bem que o fiz, e caiu de joelhos em grande pranto, essa mulher, era uma das filhas do taberneiro de Capelins, chamada Rosália.

A maioria das pessoas não se aperceberam, nem as do casamento, porque estava toda a gente com os olhos nos recém casados e existia muito burburinho, mas as que estavam mais próximas, ouviram bem, correram a levantá-la, e as mais velhas, olharam umas para as outras, desconfiadas e, assim que tiveram oportunidade confrontaram-na sobre o caso, e ela negou que a Joaquina fosse sua filha, que aquilo tinha sido por gostar muito dela, como de uma filha, mas já era tarde.

A emoção  ao ver a filha tão linda e bem casada, apoderou-se dela e traiu-a, porém, continuou a negar que era a sua mãe, mas a novidade espalhou-se pela Freguesia, chegando aos ouvidos da Joaquina, do Regedor e da mulher, que não deram importância, acreditando que, era mais um boato como os outros, mas na verdade, estava desvendado metade do segredo da filha do Regedor, faltava saber quem seria o pai biológico e, novamente surgiram os nomes de muitos homens da Freguesia que podiam ser o pai.

 O resto do segredo só foi desvendado mais tarde, depois da Rosália ter ido prestar contas ao Senhor, a irmã que a tinha ajudado acabou por contar que a Rosália, então, uma moça muito linda de cabelos negros, muito longos, dona de uns olhos verdes muito lindos, com traços de moura, tinha-se envolvido com um fidalgo da Casa de Bragança que, frequentemente caçava nas terras de Capelins e frequentava a taberna, mas depois dela ficar de barriga, nunca mais apareceu, ela conseguiu esconder bem a gravidez, mas quando a criança nascesse, seria uma grande vergonha para ela e para a família, e não teve outra solução, senão deixá-la à porta do Regedor, porque sabia que seria bem cuidada e estaria perto dela, podia acompanhar o seu crescimento e dar-lhe o seu carinho.

A Rosália, era muito procurada por rapazes de bem, que queriam casar com ela, e ninguém compreendia a sua rejeição, mas era porque, continuava a sonhar que o fidalgo um dia voltaria no seu cavalo alazão, para a levar a ela e à sua filha, para o Paço Ducal, mas ele nunca mais voltou a Capelins.

Quando foi desvendado o segredo, sobre quem eram os pais biológicos da Joaquina, já o ti Joaquim e a ti Joaquina tinham partido e, nada se alterou na vida da filha do Regedor, que era uma fidalga.

Fim

Texto: Correia Manuel

Fotografia: Correia Manuel




 

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