A troca das encomendas pelo ti Manel, de Capelins
Em 1936, foi decretado que todas as crianças dos 7 aos 10 anos tinham de completar pelo menos a terceira classe, porém, não existiam instalações e só depois da construção de milhares de escolas na década de 1940, o Decreto começou a ser cumprido, com receio das coimas anunciadas a quem não o cumprisse.
As famílias eram quase todas muito numerosas e os irmãos mais velho ajudavam à criação dos mais novos, a partir dos 7 anos ou antes, saiam de casa e iam para ajudas de gado, ganhavam pouco, mas ajudavam muito, como andavam a de comer, o patrão dava-lhe a comida, eram menos bocas a comer em casa, assim a obrigação de irem à escola era um desastre para essas famílias que, estavam contra a dita medida, até porque achavam que ir à escola não servia para nada, saber ler e escrever não lhes trazia nenhum benefício aos seus trabalhos rurais.
Como habitualmente, à noitinha, depois de deixar o trabalho, no início do decénio de 1940 o ti Manel da Courela entrou na taberna do seu compadre Xico, onde já estava um grupo de fregueses em acesa conversa, o ti Manel pediu um copo de vinho, bebeu metade pousou o copo no balcão de madeira e meteu as agulhas, era sobre a obrigação de mandar os filhos para a escola e estavam todos contra isso, menos o taberneiro, eles defendiam que saber ler e escrever não fazia falta nenhuma a ninguém, só precisavam de trabalho, e a escola só ia trazer mais fome e miséria a algumas famílias, e ia ensinar os gaiatos a serem moinantes, porque, assim, só lá para os nove ou dez anos podiam ser ajudas de gado, não aprendiam a fazer nada. O taberneiro dizia-lhe que se soubessem ler e escrever podiam arranjar melhores empregos a ganhar mais e a sofrer menos e que era muito triste uma pessoa não saber ler nem escrever, e mais isto e mais aquilo, mas não lhe entrava na cabeça.
O ti Manel bebeu dois ou três copos de vinho, por fim disse ao compadre Xico que no dia seguinte tinha de ir ao Alandroal tratar de uns assuntos de umas partilhas e se ele quisesse de lá alguma encomenda era melhor aproveitar. O ti Xico respondeu que sim, queria de lá cinco tostões de pó roial da botica, (Farmácia), porque não dispensava uma pitadinha na amassadura, o pão crescia mais e não abolarentava, mas pediu-lhe segredo, e queria uma rêlha lá do Zéi das Patas Grandes, para o cunhado Tónho Zéi.
O ti Manel disse-lhe que tinha muitas encomendas, por isso, uma vez que ele sabia ler e escrever, era melhor escrever em dois bocadinhos de papel o que queria e ele lá era só mostrar o respetivo papelinho, assim, não havia enganos, e foi o que o ti Xico fez.
O ti Manel de madrugada, montou-se na sua burra e chegou cedo ao Alandroal, foi tratar dos seus assuntos, bebeu um copinho de vinho com petisco, e começou a recolher as encomendas e ao chegar à Botica mostrou o papelinho com o produto que queria ao boticário, ele virou o papel de todas as maneiras, mas não entendia o que lá estava escrito, até que pediu ao ti Manel para ele ler, mas ele respondeu-lhe que não sabia ler nem escrever e nem falta lhe fazia. Então o boticário perguntou-lhe se sabia para que era a mezinha? O ti Manel respondeu que era uma encomenda e que lhe tinham pedido segredo, mas era para meter no pão. O boticário ficou admirado e pensou que era algum conduto para o pão e disse-lhe que não tinha, o ti Manel ainda insistiu, mas desistiu e foi dar o resto da volta. Quando chegou à casa do Zé das Patas, tirou o outro papelinho do bolso e disse-lhe que queria o que estava lá escrito, o homem deu voltas e voltas ao papel e acabou por lhe perguntar o que estava ali escrito? E ele respondeu o mesmo, que não sabia ler nem escrever, e nem falta lhe fazia, depois o Zé das Patas perguntou-lhe para que era aquilo? O ti Manel ficou a pensar que ele estava a brincar, por fim respondeu: Ora essa! Então não sabes que isso é para uma charrua? O Zé ficou admirado a pensar que era alguma partida e respondeu que, por agora não tinha. O ti Manel não ficou convencido, mas sem alternativa, guardou o papel e regressou à Aldeia sem as encomendas do seu compadre Xico.
À noitinha, o ti Manel foi beber um copinho de vinho e a entregar o dinheiro e os dois papelinhos onde estava escrito o nome das encomendas, ao compadre Xico e disse-lhe que não havia nada do que ele queria! O ti Xico não queria acreditar, e desconfiado que teria havido troca dos papéis, perguntou-lhe se tinha pedido por boca ou se tinha mostrado os papelinhos? O ti Manel respondeu que tinha mostrado os papelinhos, mas que tinha dito para que eram os produtos. Sendo assim, dá-me lá o papel que era para a Botica e como é que sabias que estava certo? Disse o ti Xico!
Tu deves pensar que por eu não saber ler, que sou parvo, então, fiz-lhe um sinal para me entender, o que era para a Botica dei-lhe duas dobras e o que era para o Zé das Patas dei-lhe só uma.
Como os papéis das encomendas ainda estavam em cima do balcão da taberna, o ti Xico pediu-lhe para ele lhe entregar o que era para a Botica, e o ti Manel pegou no papel com as duas dobras, onde estava escrito uma rêlha, e disse-lhe: Este era para a Botica e o outro para o Zéi das Patas, tem alguma coisa que enganar?
O ti Xico leu em voz alta para todos ouvirem, o que estava escrito em cada papel, e confirmaram que o ti Manel tinha ido à Botica a pedir “uma rêlha” para o pão, e ao Zé das Patas a comprar pó roial para uma charrua! Houve riso e mais riso e o ti Manel ficou muito envergonhado! Fizeste figura de parvo, por não saberes ler nem escrever, senão isso não tinha acontecido! Vocês estão a ver? Foi uma coisa sem importância, mas podia ser grave, de vida ou de morte, o ti Xico aproveitou para lhe dar uma lição, sobre o papel da escola!
O ti Manel e os fregueses que estavam contra a escola, a partir daquele dia, mudaram a sua opinião, afinal a escola fazia muita falta, no entanto, continuava o grande dilema para as famílias numerosas de Capelins, seria muito difícil passar sem o rendimento dos filhos que eram obrigados a ir para a escola.
Nos finais da década de 1940, Capelins já tinha escolas novas e quase todas as crianças dos 7 aos 10 anos as frequentavam, com mais, ou menos dificuldades económicas das famílias, e mais tarde, alguns conseguiram arranjar melhores empregos, ou na vida militar, nas Guardas e noutros Serviços do Estado.
As escolas de Capelins, estão abandonadas, mas cumpriram a sua missão quando foi necessário.
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