A lenda da alma penada, da mulher da serra da estrêla, em Capelins
Conta-se que, o Zé Miguel, um rapaz natural da Aldeia de Cabeça de Carneiro, era ajuda de um ganadeiro na herdade da Boieira e de oito em oito dias ia a sua casa a mudar a roupa, umas vezes mais cedo, outras já à noitinha, era conforme a disposição do ganadeiro.
Nas suas idas a casa, fazia quase sempre o mesmo percurso, o que ele achava mais direto, logo mais rápido, passava junto à Aldeia de Faleiros, depois seguia por um caminho pela cova da Sina até à Igreja de Santo António de Capelins, dali pelo baldio, Monte da Vinha e depressa chegava a casa.
Um dia saiu da Boeira já ao sol posto, seguindo o dito caminho e quando chegou à cova da Sina já estava escurecido e o Zé Miguel sentiu que alguma coisa não estava bem, alguém o seguia e quando olhou para trás estava mesmo a ser alcançado por uma mulher vestida de negro e com um véu pela cabeça, apanhou um grande susto e começou a correr o mais que podia e só parou quase junto à Igreja, porque estava muito cansado, olhou para trás e já não viu mulher nenhuma.
Passaram-lhe muitas coisas pela cabeça, a pontos de já nem ter a certeza o que tinha visto, pensou em ir pedir ajuda ao sacristão, que era amigo dele e da família, mas lembrou-se que, podiam gozar com ele e acabou por seguir o seu caminho.
Desde a Igreja até ao cruzeiro que indica o limite do Campo Santo, quando se vem do lado da dita Aldeia de Cabeça de Carneiro, não viu nada, mas assim que passou esse limite, olhou em frente e lá estava a mulher à sua espera, apanhou mais um susto, recuou uns passos e voltou a correr até à Igreja, entrou na casa do sacristão, tremia todo e mal conseguia falar, mas a pouco e pouco, lá explicou o que lhe tinha acontecido.
O sacristão, era um homem muito corajoso, viu o estado em que o Zé Miguel estava, pensou logo que só podia ser uma feiticeira a meter medo ao rapaz, e não gozou com ele, disse-lhe para ter calma que tudo se resolvia, se fosse preciso, ia com ele até à Aldeia de Cabeça de Carneiro.
O sacristão pegou num bordão e com um dos filhos que tinha assistido à conversa, foram com o Zé Miguel, passaram o cruzeiro do limite do Campo Santo e não viram nada no sítio onde ele dizia que estava a mulher, ali estiveram falando sobre o que poderia ser, ou não ser e, o filho do sacristão pediu ao Zé Miguel para lhe dizer o sítio certo onde tinha visto a mulher, depois de ele lhe indicar, puxou uma feixa de esteva e lenha seca para esse sítio, e disse: - Se for uma feiticeira, eu já acabo com ela! E pegou numa caixa de fósforos para puxar fogo à lenha e naquele momento o lume acendeu-se sozinho e com uma chama tão alta e clara que iluminou um circulo, parecia ser dia, e fora desse circulo de luz, na parte mais escura, lá estava a mulher com o véu pela cabeça.
Eles ficaram sem palavras e sem saber o que fazer, mas ela disse-lhe para não terem medo, não estava ali por mal, apenas pedia ajuda e adiantou que, era uma alma penada que andava ali perdida, porque não conhecia a região, por ser da serra da estrêla.
Surgiram várias ideias na cabeça do sacristão, mas acalmou-se, fez peito em sinal que não tinha medo, empertigou-se todo e perguntou-lhe o que queria deles?
A alma penada repetiu que, era da serra da estrêla e uma vez tinha estado por algum tempo em Capelins, a visitar o marido que era pastor da transumância, e nesse tempo andava ali nas herdades da Casa do Infantado, e ela tinha cá adoecido com as febres que matavam quase toda a gente, e prometeu a Santo António que se a curasse, daria três voltas à sua Igreja a rezar, e acendia uma vela no seu altar, depois melhorou, voltou para sua casa na serra da estrêla, e nunca mais se tinha lembrado de pagar a dita promessa, agora pedia ajuda, para alguém a pagar por ela, em troca de proteção divina.
O sacristão ouviu-a com atenção e compreendeu, depois disse-lhe que estava salva do purgatório, porque no dia seguinte, logo de manhãzinha, a promessa seria paga, a mulher agradeceu, desapareceu e o lume apagou-se.
O sacristão e o filho disseram ao Zé Miguel que já podia seguir o seu caminho descansado, o caso estava resolvido, de certeza que, a mulher já não lhe aparecia, mas ele tremia como varas verdes e eles decidiram acompanhá-lo até quase ao Monte da Vinha, depois lá seguiu sozinho, sempre a correr até casa.
Assim que o sacristão chegou a casa, contou à mulher o que se tinha passado, e concordaram que ela, logo de manhãzinha pagaria a promessa, para salvarem aquela alma penada do purgatório.
De manhã, a promessa foi paga e a alma penada da mulher da serra da estrêla, nunca mais apareceu por Capelins.
O Zé Miguel, continuou a ser ajuda de gado na herdade da Boeira e ia a casa de oito em oito dias, mudar a roupa, mas nunca mais seguiu por aquele caminho, nem de dia, ia junto à Aldeia de Faleiros, passava pelo Monte das Courelas, Monte das Fontanas e depois descia à Aldeia de Cabeça de Carneiro, para um e outro lado, era mais longe, mas mais seguro, contra almas penadas.
Texto: Correia Manuel
Fotografia: Correia Manuel
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