terça-feira, 9 de junho de 2026

A lenda das multas, a quem não fosse às missas em Capelins

A lenda das multas, a quem não fosse às missas em Capelins

Conta-se que, noutros tempos, os moradores da Freguesia de Santo António de Capelins, podiam trocar a sua presença nas missas por um tostão, ou seja, no caso de não poderem ir ouvir a missa, seriam multados em 10 réis, o mesmo que um tostão.
Nesse tempo, as pessoas trabalhavam os sete dias da semana e, somente os que não moravam nas herdades onde trabalhavam, se não fosse no tempo das ceifas, iam a casa mudar a roupa e ver a mulher e os filhos nos domingos à tardinha, ou já de noite, e ainda voltavam às herdades pela noite dentro ou de madrugada, não tendo tempo para mais nada, além do trabalho.
Em 1749, o desembargador e visitador da Câmara Eclesiástica de Évora, a mandado do Arcebispo, fez uma visita pastoral à Igreja de Santo António, e ficou preocupado ao verificar que, o número de fiéis que assistiam às missas, em relação aos moradores na Freguesia de Capelins, era muito baixa, nenhuma paróquia da região apresentava esses valores, embora o padre António de Sousa e Silva, fizesse tudo para mudar a situação, não tinha sucesso, então o desembargador mandou que, o padre multasse em 1 tostão, ou seja 10 réis, cada pessoas que não fosse ouvir a missa.
O padre António Silva ficou entre a espada e a parede, passou noites sem dormir a pensar como ia resolver a situação, sabia que, ao cumprir o mandado do desembargador ia revoltar o povo contra ele, se as pessoas não tinham dinheiro para comer, também não podiam pagar multas à Igreja, decerto não dava bom resultado, mas não podia deixar de cumprir o mandado do visitador, porque ele, ou outro ia voltar, estava metido num grande sarilho.
O padre António Sillva foi à Vigararia da Vila de Terena pedir ajuda aos colegas e ao Vigário, mas pouco adiantou, todos responderam que, sendo um mandado do desembargador, tinha de ser cumprido, a solução era ele encontrar uma maneira dos fregueses serem dispensados pelos lavradores para irem à missa, ou trocar uma missa por um tostão, eles na Vila de Terena não tinham esse problema, porque havia muitos funcionários do reino que, com as suas famílias, estavam sempre disponÍveis para assistir a todas as missas.
O padre António Silva, sabia que a chave da questão estava nas mãos dos lavradores, eram eles os culpados dos fregueses não irem à missa, uma vez que, não os dispensavam do trabalho, e pensou em os convocar para lhe meter a batata quente nas mãos e foi o que fez.
Quando o padre contou aos lavradores, onde estava metido e lhes mostrou e leu o mandado do desembargador, logo do Arcebispo, ficaram surpreendidos e perceberam que a situação tinha de ser resolvida por eles, porque não podiam ser considerados culpados pela ausência dos fiéis nas missas, não fosse a Santa Inquisição complicar-lhe a vida.
Depois de várias ideias, acertaram que, os lavradores e a família, ou parte dela, estariam sempre presentes nas missas, e a partir do domingo seguinte, começavam a dispensar alguns criados e criadas, durante umas horas, para assistirem à missa, seriam umas vezes uns, e outras vezes outros, conforme os trabalhos que andavam fazendo, e quanto aos moradores das Aldeias, tinham de se entender entre eles, para garantir sempre, trinta ou quarenta pessoas nas missas, os que não pudessem ir, tinham de mandar outras pessoas no seu lugar e ia rodando, porque se fosse toda a gente, não cabiam na Igreja, e o mandado do desembargador não dizia que tinham de estar os fregueses todos ao mesmo tempo nas missas, o que seria impossível.
Esta ideia agradou a todos e, ainda mais ao padre, assim não tinha de multar ninguém, as pessoas que não pudessem ir à missa, mandavam outras no seu lugar, logo, não as podia multar e essa ação, decerto aumentava, consideravelmente o número de fregueses nas missas, sendo cumprido o mandado do desembargador.
Esta decisão entrou logo em vigor, com grande sucesso, e passado algum tempo, o Arcebispo mandou outro desembargador a visitar a Paróquia de Santo António, para saber se o mandado tinha sido cumprido e qual era o resultado.
Quando o Arcebispo recebeu o relatório da visita ficou muito satisfeito, verificou que, o padre não tinha aplicado nenhuma multa, porque não havia razão para isso, o número de fregueses nas missas tinha triplicado, a Igreja estava sempre cheia, era o melhor resultado das paróquias da região e alguns padres iam pedir ao pároco António Silva para lhes dizer como tinha conseguido aquele resultado, porque também estavam nos limites, e ele respondia que era a fé dos seus fregueses.

Texto: Correia Manuel

Fotografia: Correia Manuel

Imagem de Santo António de Capelins




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