A lenda do último lobo de Capelins
Conta-se que, noutros tempos, a Freguesia de Capelins tinha muitos lobos, devido às condições geográficas propícias ao seu habitat, com as Ribeiras de Lucefécit e de Azevel, lateralmente e, com o rio Guadiana ao fundo, onde existiam muitos esconderijos, desde moitas de tamujeiras e de outros arbustos, além dos silvados e zonas de grandes matagais, como também, à existência de muito gado e de caça, por isso, os lobos andaram por aqui até finais da década de 1940, mas em algumas Freguesias vizinhas ficaram até mais tarde.
Os lobos viviam em alcateias, eram famílias, e tinham o território dividido entre elas, mas por vezes, não respeitavam os respetivos domínios e neste caso, os lobos de Santa Luzia que residiam sobre um rochedo chamado entalão da moura, passavam a ribeira de Lucefécit para o lado de Capelins, onde atacavam o gado dos lavradores, e os do lado de cá atacavam o gado de lá, acontecendo o mesmo em relação a Monsaraz.
Os lobos da Freguesia de Capelins tinham o seu território para o lado da Ribeira de Azevel, até ao domínio dos lobos de Monsaraz, mas como era uma área muito batida por caçadores, pelo menos desde a centúria de 1700, tinham o seu covil num matagal com algumas rochas, na herdade do Assento, depois Monte Seco, perto do Monte da Vinha, nas chamadas courelas das lobas.
Assim, os lobos de Capelins, desciam até à Ribeira de Azevel e daí ao rio Guadiana à região do Gato, e rio acima, e para se protegerem, durante a noite, subiam ou desciam, a partir do seu covil, pelo ribeiro do peral que desagua diretamente na Ribeira de Azevel, mas em caso de haver esperas, feitas pelos caçadores, usavam outros caminhos, porque eram muito espertos.
A alcateia das courelas da loba passou por uma época, de boa cama e boa mesa, cresceu muito e começou a fazer muitos ataques ao gado da região e os lavradores e criadores de gado reuniram-se para encontrar uma maneira de a desalojar das courelas das lobas, e acabar com eles.
Os lavradores de Capelins, tinham quase todos espingardas de caça, nesse tempo ainda eram de atacar pela boca, metiam a pólvora e o chumbo pelo cano e apertavam com uma vareta, depois colocavam uma escorva que era picada por uma agulha de aço, o percussor, e disparava, imediatamente, ao contrário das anteriores, nas quais, usavam um pedacinho de pederneira para fazer explodir a pólvora, mas dava tempo aos lobos de se meterem a milhas e, assim, começou a caça feroz aos lobos de Capelins.
Os lavradores faziam batidas, esperas e armavam laços aos lobos e depressa lhe deram grande desbasto na alcateia das courelas das lobas, ficou apenas uma loba com três filhos pequeninos, porque, não a faziam sair do covil de junto dos filhos, lá ficava a alimentá-los vários dias sem comer, só em noites muito escuras, conseguia sair e, como conhecia muito bem a região, não caia nas armadilhas, ia a um rebanho e não matava as ovelhas, levava apenas um borrego ou outro, muitas vezes perdidos do rebanho, que pouca diferença fazia aos pastores e assim criou os três lobitos.
Como os ataques ao gado desapareceram, os lavradores deixaram a loba em paz, e os seus filhos foram crescendo, mas devido à sua natural rebeldia, ela já não conseguia mantê-los na toca e começaram a fazer as suas descobertas, investindo contra os rebanhos e causando prejuízos, logo, também pela sua inexperiência, em poucos meses, foram abatidos, ficando a loba sozinha, ninguém dava notícias de mais lobos residentes na Freguesia de Capelins.
A loba de Capelins, continuou mais uma temporada no seu covil, sem causar grandes danos na região, os caçadores faziam-lhe esperas, usavam cães para a encontrar, mas ela era muito matreira, não a conseguiam encurralar, porém, começaram a reparar que não havia pegadas na entrada ou saída do covil, pensaram que, tinha mudado o covil para outro lugar, mas não o encontraram em lado nenhum, nem vestígios dela, e confirmaram que tinha desaparecido, ou foi para outra região à procura de um lobo, talvez até tenha passado o rio Guadiana para Espanha num ano de seca, ou morreu de desgosto por ficar sozinha, no interior da sua toca, e foi ela, já nos finais do decénio de 1940, o último lobo, neste caso, loba, da Freguesia de Capelins.
Texto: Correia Manuel
Fotografia: Correia Manuel
Monte Seco de Capelins
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