A lenda dos cavaleiros de bota e espora, de Capelins
Conta-se que, noutros tempos, os lavradores da Freguesia de Capelins eram uma classe muito poderosa, e ostentavam o seu poder de várias formas, com mão de ferro sobre os trabalhadores e sobretudo através daquilo que não estava ao alcance dos mais pobres, como botas de montar e esporas, para manter as diferenças.
Nos finais do decénio de 1600, início de 1700, dez das doze herdades que constituiam a Coutada ou Defesa de Ferreira, foram partidas, cada uma em duas e em algumas courelas e propriedades de menor dimensão, que permitiu um grande aumento de lavradores na Freguesia de Santo António que, com as suas famílias reforçaram a élite que se destacava da classe pobre, em termos económicos, no que vestiam e calçavam e na sua apresentação nas feiras, festas do povo ou festas particulares, como nos casamentos, batizados ou outros atos religiosos.
Os lavradores, chamados os ricos, não andavam a pé, os homens da família tinha cada um, o seu cavalo, nos quais se deslocavam a todo o lado, e as mulheres viajavam em carruagens, também puxadas por lindos cavalos guiados por um cocheiro vestido a rigor, e os remediados andavam de charrete, mas essa ostentação, não era bem vista por muita gente pobre, que tinha os filhos com fome e não ganhavam para comer.
Os lavradores cavaleiros usavam botas de montar, nas quais, eram colocadas esporas, que tinham uma pequena peça em metal, lisa ou roda dentada, tipo roseta, com armação presa ao calcanhar da bota do cavaleiro e serviam para guiar ou picar o cavalo para o fazer andar mais rápido.
As rosetas metálicas estavam pendentes e, quando o cavaleiro se deslocava a pé, ao dar o passo e bater com a bota sobre alguns pisos mais rígidos, emitiam um tilintar, e no caso de ser um grupo de cavaleiros com esporas a tilintar, incomodavam muita gente, porque, entendiam que, também era uma maneira de mostrar o poder.
Assim, por inveja ou porque se sentiam humilhadas, algumas pessoas reclamavam, e diziam: - Lá vão os vaidosos de bota e espora! Mas não podiam fazer nada, muito menos quando isso se passava nas ruas, onde decorriam as feiras ou festas, mas quando os homens e rapazes de bota e espora entravam na Igreja de Santo António já com as missas ou outros atos religiosos em andamento, os padres tinham de interromper, porque a sua voz era abafada pelo barulho produzido pelos de bota e espora dentro da Igreja, e isso irritava os fiéis.
Quando, em 25 de Novembro de 1753, em mais uma visita do desembargador da Relação Eclesiástica de Évora visitou a Igreja de Santo António, recebeu a queixa sobre os cavaleiros de bota e espora, sendo-lhe explicado da inconveniência da sua entrada na Igreja, incomodando os fiéis, a dita queixa foi transcrita para o relatório e entregue ao Arcebispo de Évora que, ordenou o seguinte: "Nenhuma pessoas entrava na Igreja de Santo António de Capelins com esporas calçadas".
Quando o pároco António Silva comunicou aos lavradores de bota e espora, deixou claro que, eram ordens do Reverendíssimo Arcebispo e tinha de ser levada muito a sério, porque em caso de desobediência podiam ser expulsos da Igreja e isso, podia implicar a intervenção da Santa Inquisição e até podiam ser queimados vivos.
Os lavradores e famílias não gostaram da ordem do Arcebispo, acharam que era uma humilhação, mas devido à sombra da Santa Inquisição, da qual, ninguém escapava, aceitaram e limitaram-se a mandar um criado a pé ou montado numa burra à frente deles para lhe tirar, guardar e depois colocar as esporas à porta da Igreja de Santo António e a sua vaidade caiu a pique.
Quanto aos pobres que tinham sido humilhados durante muitos anos com a entrada triunfante dos cavaleiros de bota e espora na Igreja de Santo António, agora riam baixinho, quando eles entravam e pareciam uns gatinhos pé ante pé para não darem por eles, e assim os atos religiosos deixaram de ser interrompidos.
Na Freguesia de Capelins, até há pouco tempo, sempre que alguém aparecia mais bem calçado e bem vestido, diziam que andava todo aperaltado e de bota e espora.
Texto: Correia Manuel
Fotografia: Correia Manuel
Igreja de Santo António de Capelins
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