A lenda dos pagadores das promessas das almas penadas, em Capelins
Na Freguesia de Capelins, e não só, noutros tempos, os fiéis, incitados pela Igreja, acreditavam que, após o falecimento de alguém, a sua alma ficava, temporariamente no Purgatório para a sua purificação final.
Diziam que, as almas não podiam entrar, imediatamente no Céu, não era um castigo, mas uma fase de preparação para a santidade absoluta, porém, existiam as almas penadas que, eram espíritos de pessoas falecidas, que se acreditava, regressavam ao mundo dos vivos, para poderem cumprir penas, por não terem confessado pecados graves antes de morrer, por deixarem dívidas, ou porque eram pessoas más em vida, ou para resolver outras situações pendentes, como o pagamento de promessas que deixaram por pagar.
As almas penadas, ou espíritos, enquanto resolviam as ditas situações, andavam em sofrimento, penando, e surgiam logo à noitinha em caminhos solitários junto à Ribeira de Lucefécit, do Rio Guadiana, ou outros, como encruzilhadas, ou perto da Igreja, para pedir ajuda aos vivos, e apresentavam-se na forma de, vultos brancos, luzes brilhantes, gemidos e suspiros, causando temor a muita gente.
Na Igreja de Santo António de Capelins, às segundas feiras, eram rezadas missas de encomendação das almas, para ajudar os espíritos a aliviar as suas penas no Purgatório, mas só isso não bastava, precisavam da ajuda dos pagadores das suas promessas, assim, comunicavam entre si, e ouviam o que podiam fazer para a sua purificação, recebendo em troca a garantia de proteção divina, para eles, para a sua família e para toda a comunidade.
Os pagadores das promessas, homens e mulheres, eram pessoas com coragem que iam ao encontro dos espíritos, já sabiam as horas, as noites e os lugares onde os podiam encontrar, ouvia-se que, as almas penadas podiam ver-se e ouvir-se com maior frequência na Quaresma e nas madrugadas de sextas feiras dessa época podiam ver-se procissões delas, mas também se encontravam nas noites de, S. João, de 31 de Outubro, e 2 de Novembro.
A função dos pagadores das promessas das almas penadas em Capelins, era secreta, ouviam-se rumores sobre quem eram, mas era um segredo muito bem guardado, e poucas pessoas se atreviam a falar nisso, eles e elas tinham o poder de comunicar com os espíritos, ouviam os seus pedidos e faziam tudo como lhe era dito, e logo que a promessa fosse paga, a qual, podia ser, acender velas na Igreja, rezar orações, mandar rezar missas, colocar cruzes pregadas na terra batida em encruzilhadas, feitas com rabaça, ou arrabaça venenosa entrelaçada, levar os Santos numa procissão, ou outros atos religiosos, a partir daí, o espírito ficava purificado e podia entrar no Céu, acabando o seu sofrimento.
Como referimos, este tema era sagrado, sendo dos maiores segredos de Capelins, pelo qual, a maioria dos ancestrais tinham muito respeito e não gostavam de falar nisso, mas acreditavam em tudo o que é descrito.
Texto: Correia Manuel
Fotografia: Correia Manuel
Cruzeiro na Serra da Sina
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