sexta-feira, 9 de setembro de 2022

A lenda do Escrivão de Capelins

 A lenda do Escrivão de Capelins 

Como sabemos, a Villa de Ferreira tinha Câmara com Alcaide, Juiz, Vereadores, Procurador, Escrivão! Assim, no início dos anos de 1700, foi designado um Escrivão que foi morar para o Monte do Escrivão, foi sempre aí o lugar dos responsáveis por esta função, era um homem muito taciturno, medonho, uma figura sinistra e conforme era a sua aparência, assim eram os seus atos para com os capelinenses com os quais tinha de conviver devido ao seu trabalho. Tinha fama de ser muito mau e nunca saía do Monte do Escrivão, nem era visitado por nenhum familiar, uma situação muito estranha. O tempo foi passando e um dia o Escrivão adoeceu e temendo estar no fim da sua vida já de cama, mandou chamar o Pároco de Capelins para lhe ministrar todos os Sacramentos. O Pároco de Capelins, Miguel Gonçalves Galego, deslocou-se ao Monte do Escrivão, deu-lhe os Sacramentos, ele arrependeu-se de todos os seus pecados e do mal que fez às pessoas e para selar o juramento tomou a hóstia (que afinal não tomou, porque ficou-lhe atravessada na garganta), e após esse ato morreu imediatamente. Nestes tempos, os cristãos eram sepultados dentro das Igrejas e o Escrivão no dia seguinte foi sepultado na Igreja de Santo António. Nesse dia, já à noitinha, estava o Pároco Miguel Galego, na casa Paroquial, junta à Igreja, a preparar-se para se deitar, quando de repente bateram três pancadas na porta com tanta força que a porta quase saía dos cachimbos. O Pároco apanhou grande susto e gritou: - Quem é? E respondeu uma voz profunda e muito calma: Um seu criado, fazia favor! O Pároco veio à porta, que estava sempre aberta, só no trinco e vê na sua frente uma figura medonha, que o arrepiou todo! Boa noite, então diga lá, já me estava a deitar! Continuou o Pároco! Boa noite, sei que sepultou hoje na sua Igreja o Escrivão de Capelins, que era meu familiar, foi ele que me criou e queria despedir-me dele, desculpe chegar a esta hora, mas eu venho de muito longe e gostava de estar um bocadinho com ele, queria que me dissesse qual é a sepultura dele e depois pode deitar-se que eu quando abalar puxo a porta da Igreja, disse o estranho! O Pároco concordou e entrou com ele na Igreja de Santo António, indicando-lhe o lugar onde estava sepultado o Escrivão, com uma pesada laje de xisto por cima, e foi-se deitar!
aje tinha de ser carregada por quatro homens, o visitante tirou-a sozinho, sem barulho, ninguém ouviu nada, e levou o corpo do Escrivão. O Pároco, começou a gritar em grande aflição e vieram o Sacristão, o Coveiro, e todos os moradores das casas junto à Igreja a correr e saber o que se passava. Ficaram todos abismados com o que viram, então o Pároco contou-lhe o que se tinha passado com o visitante, porque só podia ter sido ele a fazer aquele maléfico trabalho! Mas a grande surpresa ainda estava para acontecer! Os mais corajosos foram entrando na Igreja de Santo António, com receio e com muito cuidado até chegarem junto à sepultura que estava aberta e sem o corpo do Escrivão, começaram a observar tudo com muita atenção e ficaram atónitos com o que viram. Em volta da sepultura, havia muita terra e pó, mas não havia pisadas de gente, as pisadas eram de cascos, como os dos bodes, sem dúvida pisadas do Diabo e, ao lado da sepultura estava caída a hóstia que o Pároco lhe tinha ministrado no Monte do Escrivão. Todos concluíram que, a figura sinistra que veio à Igreja de Santo António, naquela noite de um dia de Janeiro de 1713 era o Diabo que veio buscar o corpo do Escrivão. O insólito caso foi participado ao Arcebispado de Évora para ser investigado, mas anos mais tarde foi arquivado e nunca mais se encontrou o corpo do Escrivão de Capelins. 

Fim 

Texto: Correia Manuel




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