segunda-feira, 12 de setembro de 2022

A lenda da Ti Maria Faleira, de Faleiros

 A lenda da Ti Maria Faleira, de Faleiros 

A aldeia de Faleiros teve origem no Monte dos Faleiros, ou seja no Monte construído nesse lugar pela família Faleiro, sobre a qual já se encontram registos na Paróquia de Santo António na década de 1630, mas também encontramos essa família na região de Borba e em Terena. O caso que descrevemos, passou-se no ano de 1850, um dia pela tardinha a Ti Maria Faleira estava sentada à soalheira à sua porta a cozer, cortando de um lado, pondo remendos e mais remendos na roupa já gasta do marido e dos filhos. Era primavera, mas o sol estava quente e a Ti Maria estava com tanto sono, que já mal via o que estava fazendo, quando ouve uma voz desconhecida: - Boa tarde vizinha! Abriu bem os dois olhos e viu à sua frente uma senhora desconhecida, muito bem vestida, uma boa figura! A senhora é minha vizinha? Não a conheço, nunca a vi aqui! Disse a Ti Maria! Sou sua vizinha, moro ali em baixo! Disse a desconhecida! Mas como pode morar ali em baixo, se não existe ali nenhuma casa! Disse a Ti Maria! Está ali a minha casa, venha lá vê-la! Disse a desconhecida! Mas o que vou eu ver, se sei que não há ali nenhuma casa, mas está bem, vamos lá! Disse a Ti Maria! Deram a volta ao Monte e seguiram o caminho do Monte Abaixo e a Ti Maria ficou abismada ao ver uma casa no sítio que todos os dias olhava e não estava lá nada! Ainda pensou que estava a sonhar, mas não, estava bem acordada. A desconhecida, no caminho pediu-lhe muito que dentro de casa nunca dissesse a palavra Deus, a Ti Maria ficou surpreendida, mas pensou que seria alguma família de origem Judia ou Muçulmana e prometeu que não dizia a palavra Deus. Chegaram à casa estranha, a desconhecida abriu a porta e convidou a Ti Maria a entrar, assim que entrou, não conseguia fechar a boca, nunca tinha visto uma casa assim, tudo brilhava, tinha mesa, cadeiras, arca de madeira, chão em laje polida, nem a casa do patrão do marido era como aquela. Quando a Ti Maria estava para voltar para sua casa, a desconhecida disse-lhe que ainda faltava ver o quarto. A Ti Maria nem hesitou, dirigiu-se com a desconhecida à porta do quarto e entraram, o quarto estava todo iluminado de vermelho, pareciam chamas e ao fundo um nevoeiro, também vermelho de onde saiu uma voz cavernosa que disse: "Bem vinda ao nosso reino", a Ti Maria ainda olhou para o lado e no lugar da desconhecida estava uma cabra virada para ela de olhos muito abertos, deu um grito: Ai valha-me Deus! e benzeu-se, naquele momento deu-se um estrondo no quarto e a Ti Maria desmaiou, quando acordou estava sentada na erva na berma do caminho, de mão dada à desconhecida e a casa tinha desaparecido, ficou sem palavras, a desconhecida puxou-a pela mão e levou-a de volta a sua casa, sentou-a e disse-lhe: Obrigada por me ter libertado do mafarico, não conte a ninguém o que aqui se passou e a partir de hoje a sua vida vai mudar para melhor. A Ti Maria abanou a cabeça a tentar sair daquele marasmo e quando olhou em frente a desconhecida tinha desaparecido. A Ti Maria pensou que tinha estado a sonhar, mas na dúvida não contou nada a ninguém e continuou o seu trabalho, até à hora de fazer a ceia (jantar) porque o marido, que era pastor na herdade da Boeira, vinha cear e dormir a casa, ficando os dois filhos mais velhos na choça, com as ovelhas. A Ti Maria estava a por a mesa quando entrou o marido aos pulos, parecia que vinha doido, pregando grande susto à mulher, gritando: - Maria, a partir de hoje, a nossa vida vai mudar! 
Quando o marido da Ti Maria Faleira entrou em casa repetiu as palavras da desconhecida: "A nossa vida a partir de hoje vai melhorar". A Ti Maria Faleira ainda pensou que era alguma brincadeira combinada entre o marido e a desconhecida, mas tirou logo isso da ideia devido ao que se tinha passado naquela casa e perguntou: - Então, como é que a nossa vida vai mudar? Só se for para pior! E o marido apressou-se a contou-lhe o que se tinha passado na Boeira naquele dia: - O patrão e o feitor, hoje foram lá ver as ovelhas e o patrão ficou tão satisfeito, por o rebanho estar tão bem tratado e com tantos borregos, que não se cansou de me dizer que eu era o melhor pastor que alguma vez teve, e olha, aumentou-me a jorna e deu ordem ao feitor para escolhermos duas borregas do ano passado para nós e, podemos comprar mais oito e uma cabra para ficarem lá no rebanho, são nossas e os borregos, o leite, a lã tudo nosso e sem pagarmos nada! Ninguém nessa época tinha um "povial" num rebanho do patrão! A Ti Maria ficou muito contente, mas pouco entusiasmada, porque não lhe saiam da cabeça as palavras da desconhecida, podia ser coincidência, mas a verdade é que a sua vida lhe parecia que ia mesmo melhorar! Passou algum tempo e tudo corria de feição, a sua vida melhorava dia a dia, os filhos mais novos, um menino e uma menina já estavam crescidos e mudaram-se todos para a choça na Boeira, onde havia muita largueza e tinham muitas galinhas, frangos e muita fartura de ovos, de leite das cabras, de tudo, muito raramente visitavam o seu Monte em Faleiros, até ao dia em que devido à idade e para darem o lugar na Boeira, aos filhos, a Ti Maria e o marido tiveram de voltar definitivamente para Faleiros. No derradeiro dia, carregaram as burras, a Ti Maria montou uma com a ajuda dos filhos e, em companhia da filha puseram-se a caminho, pelo Ai Ai e Monte Abaixo, quando estavam quase a chegar, a Ti Maria deu um safanão tão forte na burra, que o animal levantou as patas da frente quase a atirou abaixo e à carga que trazia, a filha e o marido ficaram surpreendidos sem perceberem o que se passava, ainda foram a correr para segurarem a burra, mas já ela estava quase em casa. Depois perguntaram-lhe o que se tinha passado, mas a Ti Maria, apenas respondeu, que não sabia, não sabia e não se falou mais no caso, mas ela a partir daquele dia nunca mais teve coragem de ir atrás do Monte, porque a razão da atitude da Ti Maria, para com a burra, no dia que chegou a Faleiros, foi porque no lugar da casa que ela tinha visitado com a desconhecida estava agora uma casa exatamente igual aquela e por muito que lhe explicassem de quem era e quem lá morava, não a conseguiram convencer, dois anos depois ficou acamada e antes de partir para a Igreja de Santo António, onde foi sepultada, um dia contou tudo à filha. A casa que estava naquele lugar e ainda está, é o Monte da Hortinha! (Que era dos meus bisavós paternos, João Nabais e Maria Francisca Correia)! 
Acredito que foi pura coincidência! 

Fim


Texto: Correia Manuel





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