segunda-feira, 12 de setembro de 2022

A lenda da Perua do Baldio

 A lenda da Perua do Baldio

Como sabemos, antigamente, as feiticeiras eram abundantes nas terras de Capelins e são muitas as peripécias que as envolve e que passaram de geração em geração. 
As feiticeiras eram obrigadas a fazer bailes em lugares ermos, a transformarem-se em animais nas noites de lua cheia nas encruzilhadas das estradas, e tudo isso era feito entre a meia noite e a uma hora da manhã.
Este caso que vamos descrever aconteceu com uma feiticeira que se transformava em perua e nas noites de lua cheia pavoneava-se pelas estradas do baldio, acontecendo o seguinte: 
Numa tarde de um domingo do mês de Abril de 1865, o Ti Jesuíno, feitor do Monte da Recheada, foi às aldeias de Capelins de Baixo e Capelins de Cima acertar contas com algumas mulheres que tinham feito a monda naquela herdade, depois de cumprir o seu dever, entrou numa taberna que existia no Monte do Pinheiro, cumprimentou os presentes, foi-se chegando até ao balcão e pediu um copo de vinho. Depressa o sorveu e mandou logo encher outro, foi-se metendo nas conversas e ao terceiro copo já estava a ensaiar umas cantigas. A partir daí, começaram a vir rodadas de copos de vinho e, cada um começou a apresentar as cantigas que tinha feito durante a ultima semana. Foram cantando ao despique e acompanhando com uns copos de vinho de dez réis. O tempo foi passando e quando se aperceberam já passava das onze horas da noite, muito tarde para os que tinham de se levantar pelas quatro ou cinco horas da manhã. O Ti Jesuíno, já com grão na asa, pediu as contas, pagou e despediu-se, mas antes de sair, ainda teve de beber mais um copo, logo a seguir desceu a estrada do Monte do Pinheiro para sul e virou para o lado da herdade do terraço, virando depois à esquerda pelo Seixo e Baldio, na direção do Monte da Recheada, chegando ao Baldio pela meia noite, estava uma lua cheia que iluminava a estrada como sendo dia, de repente, passou-lhe um animal pela frente com tanta velocidade que nem conseguiu perceber que animal tinha sido e não ligou, continuou o seu caminho e pouco tinha andado, novamente apareceu o animal a pavonear-se à sua frente, aí ele percebeu o que se passava, porque já tinha ouvido dizer que uma feiticeira se transformava numa perua e pavoneava-se pelas estradas do Baldio, mas nunca acreditou nisso, fingiu que não a via, mas pensou em preparar o bordão que trazia para defesa e, se ela se pusesse a jeito logo a tratava. Mais à frente a perua passa-lhe a rasar a perna direita e começou a dançar à sua frente, o Ti Jesuíno, que já estava preparado, mandou-lhe uma bordanada deixando-a como morta no meio da estrada. Apanhou o bordão e aproximou-se dela, observou-a muito bem e viu que era uma perua autêntica, não existiam quaisquer sinais de feiticeira e começou logo a imaginar o ensopado do dia seguinte, baixou-se a apanhá-la pelas patas e naquele momento ficou com as mãos nos tornozelos de uma mulher que começou a gemer, ai, ai, ai. O Ti Jesuíno recuou dois passos com o bordão no ar e ela começou a gritar: - ai compadre Jesuíno não me faça mal, porque eu sou obrigada a fazer isto, por favor não conte nada a ninguém, senão ainda me matam e que seria dos meus filhos, eu juro que não faço mal à sua família nem a ninguém, ai ai ai! O Ti Jesuíno estava estarrecido, por fim disse-lhe: Oh comadre Maria das Candeias, foi por pouco que não a matei, se lhe acerto no pescoço tinha-o partido, e agora o que vai dizer desses ferimentos? Digo que à noite fui aventar uma bacia de água à rua e sem saber como, caí para trás, porque a porrada que me deu foi atrás da cabeça e na mão (asa) direita! Disse a Ti Maria das Candeias! O que posso eu dizer! Olhe, desapareça! Disse o Ti Jesuíno! E a Ti Maria das candeias desapareceu! 
O Ti Jesuíno continuou para o Monte da Recheada, deitou-se logo, e levantou-se muito cedo, foi dar as ordens aos trabalhadores da herdade e pelas oito horas chegou ao Monte da Recheada para almoçar (pequeno almoço), estava a esposa a ouvir a versão da sua comadre Maria das Candeias, que era a mulher do pastor da herdade da Recheada, sobre os ferimentos que tinha na cabeça e na mão direita, o Ti Jesuíno, deu os bons dias com pouco entusiasmo e, apenas olhou de soslaio para a comadre, apesar da sua esposa o chamar para lhe contar o que tinha acontecido à comadre na noite anterior. A partir daquele dia as suas relações nunca mais voltaram a ser as mesmas, mas o Ti Jesuíno, enquanto a Ti Maria das Candeias foi viva, nunca contou a ninguém o que tinha acontecido naquela noite no Baldio! 

Fim 

Texto: Correia Manuel 


Estas azinheiras, assistiram ao acontecimento, aqui ao lado. 


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