segunda-feira, 12 de setembro de 2022

A lenda do lavrador de Faleiros

 A lenda do lavrador de Faleiros

Conta-se que, o Pároco da Igreja de Santo António de Capelins, chamado Marcos Gomez, nas primeiras décadas de 1800, exigia como parte do dízimo, a todos os lavradores das terras de Capelins, um "jantar" pequena porção de carne, quando faziam as matanças dos porcos. 
Quase todos os lavradores de Capelins aceitaram a exigência do Pároco sem levantar nenhum problema, mas um lavrador do Monte da Cerca em Faleiros, conhecido como o maior unhas de fome da região, porque nunca dava uma côdea de pão ou um bocadinho de toucinho ou azeitonas a nenhum mendicante, por isso, não via a exigência do padre com bons olhos, nunca ia entregar a carne à casa paroquial e quando o Pároco aparecia no Monte da Cerca para a levar tinha sempre desculpa, dizia que não podia ser, porque a carne ainda não estava boa de fumo, ou que não tinha ficado boa e que ainda matava outro porco e depois logo fazia a entrega.
O Pároco já o conhecia muito bem, então nunca deixava escapar a sua parte do porco, ou seja, o lavrador nunca levava a melhor. 
No ano de 1812 chegou a época das matanças dos porcos e o lavrador começou a pensar a maneira de enganar o Pároco, já tinha tentado tudo e nada dava resultado, ainda por cima quando matavam os porcos no Monte da Cerca, por mais que o lavrador lhe tapasse a boca, ouviam-se a grunhir à Igreja de Santo António e o Pároco aparecia logo pelas redondezas para o lavrador perceber que ele sabia que a matança estava em andamento.
Depois do lavrador, dar voltas e mais voltas à cabeça e não encontrar uma solução, foi ter com o seu compadre, o ti Zé Francisco, a pedir ajuda, porque não achava bem ter de repartir o porco com o Pároco Marcos, tinha os seus filhos para criar e os anos de colheitas não eram bons e mais isto e mais aquilo, o homem dava pena. 
O compadre Zé sabia que era tudo manha, mas disse-lhe que o ajudava e começou a pensar como, coçou a cabeça, até que lhe disse: 
Ti Zé: Oh compadre eu tenho uma ideia para você se livrar de ter que dar a parte do porco ao Pároco Marcos! 
Lavrador: Então, diga lá compadre! O que tenho de fazer?
Ti Zé: É muito fácil, no dia da matança do porco, em vez de o meter para casa, diz aos seus criados para o pendurarem no alpendre do quintal, para enxugar bem, para escorrer e diz-lhe que fica lá toda a noite e que de manhã o recolhem para casa para o desmancharem e tratar da carne, mas de madrugada, com a ajuda dos seus filhos, esconde-o em casa e depois de manhã, faz grande alarido e diz a toda a gente que o roubaram, ficam todos convencidos que foi verdade, porque tem testemunhas que o porco ficou no alpendre do quintal e o Pároco Marcos vai acreditar e livra-se de lhe dar a parte dele!
O lavrador, pensou um pouco e achou uma excelente ideia, agradeceu ao compadre Zé e foi para o Monte da Cerca e, no dia seguinte fez a matança do porco e tudo exatamente como o compadre lhe tinha falado. 
De madrugada, acordou a esposa e os filhos, para carregarem o porco para casa e escondê-lo, mas quando chegaram ao quintal o porco tinha desaparecido, o lavrador procurou por todo o lado, gritava como um doido, que lhe tinham roubado o porco e uns acreditaram, outros não, mas o Pároco não lhe perdoou a sua parte, porque teve mesmo de matar noutro porco. 

O porco nunca mais apareceu e muita gente dizia que foi o compadre do lavrador que o levou, outros diziam que foi castigo de Deus por ele tentar enganar o Pároco.

E foi assim que o lavrador de Faleiros, para não dar uma chouriça ao Pároco de Capelins, perdeu um porco inteiro.

Fim 

Texto: Correia Manuel



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