sábado, 10 de setembro de 2022

A lenda do tecido enfeitiçado, em Capelins

 A lenda do tecido enfeitiçado, em Capelins 

Conta-se que, cerca do ano de 1800, o Ti Manel Coelho, seareiro e morador no Monte do Meio, como fazia habitualmente, num dia do mês de Maio, de madrugada, carregou na sua carroça um saco de trigo e foi trocá-lo por farinha ao Moinho das Azenhas Del-Rei no rio Guadiana. 
O ti Manel chegou cedo, mas como não havia farinha suficiente teve de esperar e só conseguiu voltar depois do meio dia, passou pela fonte da lesma para dar de beber à mula e para encher o barril de água nova e meteu-se pela estrada do Roncão de Capelins e depois da Zorra, mas como já estava na hora em que costumava dormir uma sesta, começo a fechar os olhos em cima da carroça e de quando em quando saía fora da estrada, ao passar o Ribeiro do Carrão na Zorra, por pouco tombava a carroça, apanhando grande susto. 
Logo a seguir, estava uma grande azinheira com uma boa sombra, encostou a mula, estendeu um saco no chão e deitou-se para dormir um pouco, não lhe fosse acontecer algum azar. Assim que se deitou, caiu num sono profundo e começou a sonhar. Chegou uma mulher muito bonita junto dele e pediu-lhe para a levar ás Neves, ele disse-lhe que não podia, porque não era esse o caminho que levava e que tinha a esposa à espera da farinha, para a peneirar para no dia seguinte fazerem a cozedura do pão. 
A mulher tanto insistiu que ele disse-lhe que sim! Então ela entregou-lhe um tecido muito lindo e disse-lhe: Pega neste tecido e dás um passo para trás, sem nunca olhares. O Ti Manel Coelho, olhou para o tecido e nunca tinha visto igual, pegou nele, deu um passo para trás e ficou imediatamente nas Neves com a mulher, ela disse-lhe para fazer o mesmo e depois para levar o tecido para a esposa fazer dele um vestido, o mais lindo nas terras de Capelins, ele assim fez e ficou logo junto da sua carroça e da mula, de repente acordou porque a mula estava a esgravatar terra para cima dele. Ficou melhor do sono e seguiu caminho para o Monte do Meio e não ligou ao sonho. 
Ao chegar ao Monte, foi descarregar a farinha e ficou abismado, porque atrás do saco estava o tecido. A esposa viu o tecido e, naturalmente, perguntou-lhe onde o tinha comprado, mas ele não conseguiu explicar e armou-se uma grande confusão, ficando o tecido por ali. No dia seguinte trataram da cozedura e acenderam o forno, o ambiente ainda estava azedo e a sua esposa pegou no tecido e atirou-o para dentro do forno, o tecido começou logo a arder e ao mesmo tempo deu-se uma explosão saindo uma grande chama pela boca do forno. O Ti Manel Coelho e a esposa ficaram muito assustados, então ele contou-lhe o sonho e tiveram a certeza que era feitiçaria e por sorte tinham-se livrado dela e com as pazes feitas trataram da sua cozedura do pão.
As terras de Capelins, nesses tempos, tinham feiticeiras em abundância.


Monte do Meio - Capelins 


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