segunda-feira, 12 de setembro de 2022

A lenda do cão piloto, de Capelins

 A lenda do cão piloto, de Capelins

O pastor do Monte Seco, perto da Aldeia de Cabeça de Carneiro, chamado Manel Moreira, guardava mais de trezentas ovelhas, duas cabras, duas burras e uma borcalha, nesta herdade, tendo como ajuda o afilhado de doze anos chamado João da Rosa. 
No mês de Maio de 1870, realizou-se a feira de Reguengos e o Ti Manel decidiu ir à feira vender a borcalha e comprar uns chocalhos e outras coisas que estava a precisar. 
O ti Manel organizou tudo com antecedência, o João ficava a guardar as ovelhas com a ajuda da Ti Joaquina Rosa, a mulher do pastor e à noite o ajuda dormia na choça e a Ti Joaquina ia dormir ao Monte, decerto não havia nenhum problema. 
No dia da feira, de madrugada, o Ti Manel albardou a burra, prendeu a borcalha à albarda e partiu para Reguengos, ao nascer do sol estava a passar a aldeia de Mato e menos de uma hora depois, estava a entrar na feira. 
O ti Manel depressa vendeu a borcalha na feira do gado, tinha boas medidas, muito semelhante à mãe, com tudo para sair uma linda burra, deixou a burra numa cavalariça onde tratavam e guardavam esse animais e foi dar uma volta com mais atenção à feira do gado, levando algumas horas a observar e a falar com conhecidos. 
Quando apertou a fome, chegou-se a uma barraca de vinhos e petiscos, pediu meio litro de vinho, abriu a merenda composta de pão, toucinho, queijo e azeitonas e ficou bem almoçado e pronto para percorrer o resto da feira para procurar e apreciar os produtos que queria comprar, para ainda nesse dia fazer as compras e logo de madrugada partir para o Monte Seco. 
A choça do Ti Manel e o bardo (curral) das ovelhas ficavam muito longe do Monte e nesses tempos existiam muitos lobos por aquela região, mas nunca tinham atacado o rebanho da herdade do Monte Seco, porque o Ti Manel não se descuidava nada durante a noite e com a ajuda do seu cão piloto de raça rafeiro alentejano, temidos pelos lobos, conseguia afastá-los dali. Porém, nessa noite, ninguém soube porquê, algumas pessoas diziam que os lobos conseguiam farejar e descobriram que o Ti Manel não estava na choça, e fizeram grande ataque ao rebanho. 
O João acordou com o barulho da correria dos animais, com o berrar das ovelhas e com o ladrar do piloto, tinham outro cão de outra raça, o qual com medo dos lobos desapareceu, só aparecendo à choça no dia seguinte, o João saiu da choça apenas com o pau de guardar as ovelhas e foi fazer frente aos lobos, mas era uma grande alcateia e em pouco tempo estava cercado, já cansado e sem conseguir defender-se por todos os lados, os lobos, uns atacavam, outros recuavam, e apareciam ainda com mais força e outro grupo de lobos tentava chegar às ovelhas, mas eram impedidos pelo cão piloto, que para defender as ovelhas não conseguia ajudar o João, mas quando o João começou a gritar por socorro, o piloto fez grande investida contra os lobos para os afastar para o mais longe possível e correu a ajudar o João que já tinha os lobos a poucos metros, o piloto atirou-se aos lobos e os que apanhava pelo pescoço dava-lhe uma abanão e caiam mortos, mas os lobos eram tantos que o piloto já estava cheio de sangue, a faltarem-lhe as forças e todo mordido, mas com muita coragem corria a todos os lados matando cada vez mais lobos, até que estes já em menor número começaram a fugir e não voltaram mais. 
O piloto ficou muito ferido, o João levou-o para a choça, deitou-o na palha e com água lavou-lhe as feridas, o piloto estava a sofrer, tremia muito, mas o João não sabia o que fazer, passou o resto da noite agarrado a ele a dar-lhe carinhos, porque sabia que ele lhe tinha salvado a vida e que não tinha deixado os lobos chegar a uma única ovelha. 
Quando o Ti Manel chegou, parecia-lhe tudo normal com o rebanho, mas ao aproximar-se da choça começou a ver tantos lobos mortos e logo adivinhou o que se tinha passado, ficou muito aflito por não ver o João, que estava dentro da choça ainda agarrado ao piloto, começou a chamá-lo e ele respondeu que estava ali. 
O Ti Manel, entrou na choça a correr, viu o piloto muito ferido e o João a chorar contou-lhe tudo o que se tinha passado e como o piloto lhe tinha salvado a vida e todo o rebanho e choraram os dois, ainda mais com pena do piloto. 
O Ti Manel, agarrou-o ao colo para cima da burra e levou-o para o Monte Seco, mas com pouca esperança de sobreviver. Nesse tempo, ainda não existiam veterinários, mas haviam pessoas que sabiam tratar os animais, o Ti Manel foi a Santiago Maior buscar um homem dos melhores tratadores e disse-lhe que, sem olhar a despesas, pagava o que fosse preciso, para ele salvar o piloto. 
O caso era muito grave e existiam poucas esperanças de o salvar, mas foi tão bem tratado que ao fim de três meses já estava junto do rebanho, onde ele gostava de estar, nunca mais foi o mesmo piloto em genica, mas tornou-se tão dócil e agradecido pelo que fizeram por ele que lambia as mãos a todas as pessoas que se aproximavam dele em sinal de reconhecimento. 
O piloto, nunca mais deixou o João, mas um dia partiu, morrendo aos pés do João. 

Fim 

Texto: Correia Manuel


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