sábado, 10 de setembro de 2022

A lenda da Maria Gomes e do Sapo do Monte Grande, de Capelins

 A lenda da Maria Gomes e do Sapo do Monte Grande, de Capelins

O lavrador do Monte Grande, o mais poderoso das terras de Capelins, chamado José Savedra, perdeu-se de amores pela filha mais nova de Manoel Gomes, lavrador do Monte de Capelins, chamada Maria Gomes.
O José era muito feio, alto, pernas fininhas, grande barriga, olhos salientes, pele de sapo, não lhe faltava nada para parecer um autêntico sapo, foi fácil ganhar esse apelido por aqui. 
A Maria Gomes era a donzela mais linda de Capelins e arredores, com tudo no seu lugar e era muito cobiçada por todos os rapazes em idade de casar, mas a Maria era filha de lavrador e só podia casar com um filho de outro lavrador ou com um lavrador. 
O José Savedra não deixava a Maria por um momento, mas ela não só não gostava dele, como o odiava cada vez mais, até que um dia ele foi pedi-la em casamento ao seu pai, mas quando este viu e ouviu o desgraçado, que além de ser muito feio, não tinha maneiras, estava vazio de princípios, não teve coragem de lhe entregar a mão de Maria, mas também não a podia negar, ele era o melhor partido que podia existir para a sua filha e tentou ganhar algum tempo, pediu desculpa, dizendo que queria ouvir a esposa e a filha e que ela ainda era muito nova e não estava preparada para se casar e mais isto e mais aquilo. O Sapo, percebeu que o lavrador Manoel não queria ser seu sogro, considerou uma grande desfeita e a partir daquele dia as suas atitudes mudaram completamente. O que o sapo ainda não sabia era que na vida da Maria já existia um grande amor, era o filho do lavrador do Monte da Capeleira, chamado António, mas não demorou muito a saber. 
O sapo não desistiu de casar com a Maria e se não conseguia a bem, foi tentar a mal. Um dia mandou atrelar um cavalo à sua charrete e foi procurar uma bruxa que morava nas imediações de Terena e que tinha muita fama de resolver estes assuntos através dos seus bruxedos. Contou-lhe o que se passava e o que queria que ela fizesse e perguntou-lhe se conseguia fazer a Maria gostar dele, respondendo a bruxa que sim, com a maior das facilidades, mas para isso dar certo tinha de se instalar no Monte Grande e ele tinha de lhe dar tudo o que ela pedisse, ao que ele acedeu e a bruxa instalou-se no Monte Grande, como uma rainha, tudo do melhor. Começou, imediatamente a fazer os bruxedos para separar a Maria do António e para ela gostar do sapo, mas quantos mais bruxedos fazia, mais unidos eles estavam e o António pediu-a em casamento, sendo bem aceite pelo pai de Maria. Tudo corria do avesso ao sapo e à bruxa o que o levou ao desespero e um dia expulsou a bruxa do Monte Grande e foi-lhe dando pontapés até ao Monte de Nabais, quase a matou à pancada. A bruxa ficou um tempo pelo Ai Ai a recuperar e, assim que melhorou jurou vingar-se do sapo e foi instalar-se perto do Monte Grande, para os bruxedos, agora contra o sapo, terem mais força. O sapo, cada dia que passava estava mais definhado, comia, comia, chegava a comer uma galinha inteira com um pão e a sua barriga estava cada vez maior e as pernas cada vez mais fininhas, todo mirrado, só tinha olhos e barriga, um autêntico sapo, até que um dia caiu na cama e não se levantou mais. 
Chegou o dia do casamento da Maria e do António e no momento que estavam a celebrar o casamento na Igreja de Santo António, o sapo deu o último suspiro e faleceu no Monte Grande. Quando os noivos, já casados, deixaram a Igreja, cruzaram-se com a bruxa que regressava a casa e, ainda lhe acenou a desejar felicidades. 
No dia seguinte, fizeram o funeral do sapo na Igreja de Santo António e nunca mais se falou dele nas terras de Capelins.
A Maria e o António foram muito felizes, tiveram muitos filhos e os seus descendentes ainda hoje estão pelas terras de Capelins.

Texto: Correia Manuel 

Fotografia: Correia Manuel 



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