sexta-feira, 9 de setembro de 2022

A lenda das Feiticeiras de Capelins

 A lenda das Feiticeiras de Capelins 

Antigamente, nas terras de Capelins, tudo o que acontecia de mal na vida dos capelinenses, tinha sempre desculpa. Dizia-se: - Coitado/a não teve culpa nenhuma, foram as feiticeiras! 
Esse sentimento era transmitido de geração em geração e era impensável contrariar os crentes, segundo eles, havia feiticeiras por todo o lado.
 Em Capelins, conta-se um caso que só poderia ser obra de uma feiticeira, embora fosse familiar muito chegada dos intervenientes. 
Num Domingo pelo meio dia, o Ti Manoel Caeiro, que trabalhava na herdade da Negra, foi a casa em Capelins de Baixo, para mudar a roupa da semana e deixar o dinheiro da jorna, voltando ao trabalho na madrugada seguinte. Quando entrou em casa, estava a mulher, a Ti Águeda, a fazer as migas para o almoço, o Ti Manoel descarregou a saca que trazia às costas, cumprimentou-a e disse-lhe: - Águeda, está aqui o dinheiro da jorna, guarda-o! E atirou 3 notas de 20 escudos muito enroladinhas para cima da mesa! Deixa aí o dinheiro, que eu agora não posso, depois o guardo! Disse a Ti Águeda! 
Como ainda era cedo, o Ti Manoel foi até à taberna do ti Chico. Logo a seguir entrou em casa a cunhada a Ti Maria Caeira a pedir uma pitadinha de sal, que o tinha deixado acabar. Olha está aí o saleiro em cima da mesa, tira o que quiseres! Disse a Ti Águeda! A Ti Maria Caeira aviou-se e foi-se embora. Estava na hora do almoço e veio o Ti Manoel a pensar nas migas. A mulher estava a pôr a mesa e lembrou-se do dinheiro da jorna e disse: Deixa lá guardar o dinheiro e já comemos! Olhou para toda a mesa e nada do dinheiro. Já guardas-te o dinheiro Manoel? Perguntou a Ti Águeda! Deixei aqui o dinheiro e nunca mais o vi! Disse o Ti Manoel! Ora essa! procuraram por todo o lado, agitaram a toalha da mesa, viraram tudo e nada do dinheiro! Mas não entrou aqui ninguém! Como o poderiam roubar? Disse ele! E a Ti Águeda contou-lhe que tinha estado ali a cunhada! Mas é impossível que ela o tenha roubado, nem pensar numa coisa dessas! Disseram os dois! Então vamos comer as migas e depois logo vimos o que fazer! Disse o Ti Manoel, que se dirigiu à saída da porta a lavar as mãos e a Ti Águeda foi à chaminé a buscar a tigela de fogo, de barro, com as migas e chegaram ambos ao mesmo tempo à mesa. Ficaram os dois paralisados, estás a ver o mesmo que eu Manoel? Estou! Respondeu o Ti Manoel! Estavam as 3 notas de vinte escudos a um canto da mesa tão esticadinhas, lisinhas, que só podiam ter sido passadas a ferro. Pensaram os dois o mesmo, mas não tiveram coragem de dizer nada! 
Só podia ser coisa de feiticeiras e, a feiticeira não podia ser outra, senão quem lá entrou em casa. 

Fim 

Texto: Correia Manuel 

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