A lenda da rapariga com o diabo no corpo, em Capelins
Conta-se que, no ano de 1752, morava no Monte da Talaveira, uma rapariga muito bonita chamada Joana, com o seu pai já idoso, era filha do segundo casamento de José Lopes, que estava novamente viúvo, por ambas as mulheres terem falecido de moléstia não identificada.
A Joana tinha muitos pretendentes, mas rapidamente se afastavam ao saberem que tinha o diabo no corpo, porque estava muito bem, mas inesperadamente atirava-se ao chão com brusquidão e rebolava-se por tempo indeterminado.
Os familiares e vizinhos tinham muita pena dela, mas ninguém sabia o que fazer para a ajudar, tentavam segurá-la com receio de se magoar nas rochas e pedras, mas ainda era pior, muitas vezes nem quatro homens a conseguiam segurar. Passado algum tempo, uma irmã foi consultar uma curandeira, porque toda a gente dizia que só uma curandeira a podia curar.
Depois da irmã contar o que se passava com a Joana, a curandeira disse-lhe que não era caso para ela, que não tinha poderes para tirar o que a Joana tinha lá dentro e explicou-lhe que eram precisas muitas forças juntas dentro da Igreja de Nossa Senhora das Neves, com a presença do padre, que teria de a benzer no fim da missa e tinham de estar presentes pelo menos oito a dez pessoas, bem fortes, de mãos dadas e sem nunca largar as mãos, só assim a Joana se curava.
Após voltar ao Monte da Talaveira, a irmã contou à família e vizinhos o que a curandeira lhe tinha dito e foram, imediatamente falar com o padre que, mesmo sendo muito amigo da família não esteve de acordo com o que lhe pediram, dizendo que, aquilo era diabólico e não o podia fazer na Igreja e, contra a vontade do padre, não puderam fazer nada.
A situação da Joana piorava, tinha mais "ataques" mas como todos sabiam o que a curandeira tinha dito, começaram a pressionar o padre, que acabou por ceder. Porém, estavam perante outro grande problema, como fazer entrar a Joana na Igreja, porque já sabiam que nem à porta a conseguiam levar desde que tinha começado com a doença, assim decidiram que a melhor maneira era enrolar uma manta em redor da Joana atarem-na com cordas fortes e levarem-na numa carroça até à Igreja de Nossa Senhora das Neves. E, assim foi, um grupo de homens, com grande dificuldade fizeram-na entrar, estava tudo preparado, o padre rezou a missa e depois pediu para a chegarem junto dele e de Nossa Senhora das Neves, estrebuchava com muita energia, mas o padre benzeu-a e, assim que água benta caiu sobre ela, saiu das suas profundezas um grito assustador e ao mesmo tempo ouviu-se um grande estrondo e viram um relâmpago a sair pela porta da Igreja.
As pessoas que estavam de mãos dadas sentiram-se desfalecer por alguns momentos, mas passou logo, a Joana ficou desmaiada, mas passados uns minutos acordou e perguntou onde estava e o que tinha acontecido.
Os familiares disseram-lhe que já estava curada dos ataques e que tinha sido um milagre de Nossa Senhora das Neves, depois dos agradecimentos ao padre e a todos que ajudaram, foram para o Monte da Talaveira.
A Joana nunca mais teve ataques e, alguns anos mais tarde, casou-se, teve filhos e foi muito feliz no Monte da Talaveira.
Fim
Texto: Correia Manuel
Fotografia: Correia Manuel
Ermida de Nossa Senhora das Neves - Capelins
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