terça-feira, 5 de setembro de 2017

188 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos
História, lendas e tradições das terras de Capelins
A Serração da Velha
A Serração da Ti Guilhermina em 1965, em Capelins de 
Cima

Ao aproximar-se a noite da “serração da velha” que era na noite de 17 de Março, o João e o seu grupo habitual, estavam em Capelins de Baixo e ele lembrou-se que tinham de combinar as coisas para a “serração da velha”! O ajuntamento do grupo tinha de ser no cabanão do pai, perto de Capelins de Cima, porque não convinha serem vistos juntos a cochichar, senão inventavam logo que estavam a tramar alguma e ainda se estragava tudo antes de começar! Sim! Porque está na hora de escolhermos as velhas que vamos serrar e temos de combinar bem as coisas, porque todos os anos temos problemas, falha sempre alguma coisa, disse o João! Não foi preciso muito tempo para se entenderem, prontificaram-se logo a ir ter ao cabanão do pai do João! Não! Disse ele, vocês ficam além ao Muro, ao Monte Grande e eu vou lá ao cabanão ver se o meu velho lá está, ele ia para o Guadiana, mas sei lá, pode não ter ido, depois se o caminho estiver livre eu levanto o braço e vão indo um de cada vez! Todos concordaram e em poucos minutos estavam reunidos no cabanão, eram: o João I, o primo Manuel, o António, o José e o João II! Chegamos bem os cinco, senão quantos mais são, pior é, disse o João I e continuou:
João I: Bem! Eu já tenho tudo na cabeça! A serração da velha é na quarta-feira à noite, agora, só temos de acertar quais as velhas que vamos serrar, combinar quem vai falar e responder pelas velhas e lembrar as lengas lengas! Alguém tem alguma ideia brilhante nova para este ano? Eh pá, para não ser sempre a mesma coisa!
António: O que podia ser diferente eram os versos, porque o resto faz tudo parte da serração, não podemos mudar nada, senão não é serração, já no tempo do meu avô era assim!
Manuel: Bem dito! Mas qual de nós consegue fazer outros versos diferentes? Somos todos burros, para isso não damos!
João II: Pois! Tens razão” Nenhum de nós sabe fazer versos! Mas há aí muita gente que sabe! E se pedíssemos para nos fazerem uns versos novos?
João I: Tu estás parvo? Ou estás maluco? Pedíamos para nos fazerem uns versos novos e depois íamos-lhe a serrar a mãe ou a sogra! E ninguém nos fazia isso, porque depois tudo se sabe e esse é que ficava nos cornos do touro!
Isso é verdade, responderam em coro!
João I: E então? Como fazemos?
José: Fazemos como no ano passado e nos outros anos, os versos, são os que são e mais nada! Nem a gente consegue aprender mais nenhum! Esses dois que sabemos, já temos que andar agora oito dias a estudá-los e mesmo assim nos enganamos sempre, por isso, por mim fica assim!
Então fica assim! Responderam todos!
João I: Agora vamos para o ponto 2, quem fala para as velhas? E quem responde com a falinha delas?
Imediatamente, apontaram todos o João I e o Manuel e, disseram: Tu, João, falas para as velhas, apontas os defeitos e o Manuel responde com a fala delas!
João I: Quais defeitos? O que é que eu digo às velhas?
António: Dizes o mesmo do ano passado: “Oh avozinha vossemecê é muito má, é maluca, já é muito velha, está na hora de calçar as botas e ir a caminho de Santo António e deixar-me tudo o que tem, e chega isso! Depois, se nos lembrarmos logo dizemos outras coisas! Não te esqueças que cada vez que lhe disseres uma coisa destas, logo a seguir tens de perguntar: “Oh avó, o que deixa ao neto?” E o Manuel responde com a fala dela: “O buraco do cu aberto” ou “ o penico aviado” e o José está sempre passando o serrote pela tábua, depois, no fim o João II diz os versos e nós vamos todos ajudando! Perceberam?
Sim! Responderam todos! Agora é só treinarmos!
João I: Ainda falta escolhermos as velhas para serrar! A tradição diz que têm de ser as mais velhas da aldeia, mas se não forem, não são! Quantas são este ano?
António: Eh pá! Não podem ser mais que três ou quatro, porque sempre leva algum tempo! Embora possa falhar alguma, porque não se esqueçam do perigo do penico aviado que algumas tê preparado para nos atirar com o presente acima, pelo postigo! Temos de ter muito cuidado com os postigos!
Os rapazes do grupo escolheram as idosas que seriam serradas, entre elas, a mais velha da aldeia, já com idade muito acima dos oitenta anos, a Ti Guilhermina que, morava em Capelins de Cima! Combinaram acertar ainda alguns pontos até à dita noite e como estava tudo tratado a reunião foi dada como terminada! Foram saindo do cabanão um de cada vez e juntaram-se novamente a caminho de Capelins de Baixo!
Chegou a noite da serração da velha e, o grupo estava preparado para cumprir a tradição, esperaram que toda a aldeia se metesse nos lençóis e pelas 23:00 horas, acharam que estava na hora certa, para não acabarem muito tarde, pegaram no serrote, numa tábua e foram direitinhos à porta da Ti Guilhermina, porque era a mais próxima dali, depois, logo seguiriam até à casa da última velha!
A Ti Guilhermina tinha fama de ser muito rabugenta e dona de grande esperteza, mal pensavam eles que ela já há muito tempo estava sentada atrás da porta com o penico aviado e o postigo encostado, para quando eles viessem a serrá-la, como sempre faziam, abria o postigo e levavam com o produto pelas ventas e depois fossem queixar-se onde quisessem!
Os rapazes chegaram à porta com muita cautela, chiu, chiu, que a velha é esperta, dizia o João I, eles eram cinco, havia pedras soltas na rua, era impossível aproximarem-se sem a Ti Guilhermina não dar por isso! Assim que os ouviu a cochichar a Ti Guilhermina pegou no penico com uma das mãos e com a outra agarrou o fecho do postigo para o abrir, o João I ia começar a lenga lenga quando reparou que o postigo estava a abrir-se, calculou logo o que se ia passar, ainda lhe deitou a mão e puxou-o para fora, não deixando passar o penico e a Ti Guilhermina puxou-o para dentro para o abrir, arranjou-se ali uma contenda até que o postigo saiu do lugar e saltou pelo ar estatelando-se no chão da casa de fora e a Ti Guilhermina gritava: “socorro, acudam, acudam”! Os rapazes começaram a ouvir as portas dos vizinhos a abrir e alguns a gritar: “malandros, deixem a velhota em paz”, os rapazes não tiveram outra solução senão fugir, desorientados, foram cada um para seu lado, uns pela talisca abaixo, outros para os lados do Monte da Cruz, outros para os lados do Monte Grande e só já se juntaram na tarde do dia seguinte! Os vizinhos da Ti Guilhermina foram chamar um sobrinho porque ela estava muito nervosa e sem postigo, depois com a luz da candeia viram que estava todo partido! Como a Ti Guilhermina conheceu o João I, na manhã seguinte o sobrinho estava à porta do pai dele a contar-lhe o que o filho tinha feito na noite anterior ao postigo da sua tia! O pai do João I, ainda exclamou: O que é que eu posso fazer? Não dou conta dele! Olhe, como vossemecê é carpinteiro, arranje lá o postigo e depois diga-me quanto é, que eu pago! A seguir puxou as orelhas ao João e ficou por ali, porque, afinal ele estava apenas a cumprir uma tradição de Capelins!
Nesse ano, a serração da velha, foi mal sucedida e, no ano seguinte, na respetiva noite, parece que, a Ti Guilhermina dormiu sentada numa cadeira atrás da porta, com o penico aviado, à espera que a fossem serrar, mas não apareceu lá ninguém! A partir daí, ainda houve algumas serrações de velhas e velhos, também com maus resultados, por isso um pouco mais tarde essa tradição desapareceu nas terras de Capelins!
Este caso foi verídico, com mais ou menos estes acontecimentos, só não garantimos se o ano foi exatamente 1965, mas foi por aí, alguns nomes dos rapazes do grupo da serração da velha, hoje reformados, foram alterados e outros não foram mencionados porque facilmente seriam identificados!
Bem Hajam! Quanto à Ti Guilhermina, P.A.S.A.


Fim 



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