quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

Memórias da lua de mel na choupana com o burro, em Capelins

Memórias da lua de mel na choupana com o burro, em Capelin

A partir do ano de mil novecentos e dez, os Registos dos casamentos deixaram de ser feitos nas Paróquias, pelos respetivos Párocos que, devido a essa alteração perderam o controlo em obrigar os seus paroquianos a realizar, oficialmente esse Sacramento da Igreja e, assim os chamados ajuntamentos começaram a aumentar, algumas raparigas durante a noite fugiam com os namorados, para a casa deles, ou para outra casa ou choupana, previamente preparada, e mais tarde iam casar ao Posto do Registo Civil de Capelins, e a união ficava oficializada, pelo Civil, porque, pela Igreja tinham de dar outros passos. 

A meio da manhã de um lindo dia do mês de Abril na década de 1960, o Chiquinho de Capelins andava a brincar no quintal em Capelins de Cima, quando se ouviu uma galinha a cacarejar, avisando que tinha acabado de pôr o ovo. 

Não demorou, a mãe do Chiquinho veio à porta, olhou, olhou, e como não o via em lado nenhum, encheu o peito de ar, empertigou-se e gritou: 

Mãe: Ó Chiquinho, Chiquinho! 

O Chiquinho estava a brincar aos passarinhos a fazer um ninho em cima da oliveira a poucos metros da mãe, imaginou que ela o estava a ver e em tom de zangado, respondeu: 

Chiquinho: Ó mãe, então se eu estou aqui mesmo ao pé, para que está a gritar lá para Capelins de Baixo? 

Mãe: Ora essa! Porque não te via! O que estás tu a fazer em cima da oliveira, vamos ver se cais daí e arranjas algumas fezes? 

Chiquinho: Estou aqui a brincar aos passarinhos, e não sei se sabe, eles fazem os ninhos em cima das oliveiras! 

Mãe: Desce lá daí e vai lá ao galinheiro buscar os ovos, mas tem cuidado não os partas, como fazes tantas vezes e depois a ti Xica já não os quer e só me faltam dois para amanhã lhe vender duas dúzias! 

Chiquinho: Qual Xica? 

Mãe: A ti Xica do ovos, que Xica havia de ser? 

Chiquinho: Sei lá! Há aí tantas Xicas! Fique já a saber que eu não quero o filho dela além do portão para dentro, porque ele está cada vez mais parvo! 

Mãe: Olha, tu é que estás cada vez mais parvo, não te metas com o rapaz, que ele não se mete com ninguém, coitado, anda aí a trabalhar a ajudar a mãe, não é como alguns que não fazem nada! 

Chiquinho: Mau, mau! Estou a desconfiar que já gosta mais do Celso do que de mim, fique cá com ele! 

Mãe: Olha, cala-te, senão apanho aí o esborralhador do forno e vens a correr pela oliveira abaixo, vai lá depressa ao galinheiro, porque as galinhas podem comer os ovos! 

Chiquinho: Ó mãe já que está aqui, porque não vai lá e deixa-me acabar o ninho que está a fazer falta aos passarinhos! 

Mãe: Não vou, não, porque está na hora de temperar as sopas de grãos, senão ao meio dia não comes! 

O Chiquinho pensou que podia pôr as sopinhas do jantar (almoço) em causa, e depressa desceu da oliveira e foi apressado para dentro da capoeira das galinhas, para dali entrar no galinheiro e recolher os ovos, mas quando se baixou a meter a cabeça para dentro do galinheiro ouviu a mãe gritar: 

Mãe: Ó Chiquinho, Chiquinho! 

Chiquinho: Estou aqui, dentro da capoeira, não me mandou a buscar os ovos, já não é para os levar? 

Mãe: É, é, mas vem depressa que tens de ir fazer um mandado! 

O Chiquinho ficou a barafustar, murmurando que tinha de fazer tudo naquela casa, e ainda tinha fama de não fazer nada, o Celso é que trabalhava, mas era ele que não dava a conta a fazer tanto trabalho, mas recolheu os ovos e foi-se chegando até casa, onde estava a mãe com uma visita, a ti Maria Joaquina, numa conversa misteriosa. 

O Chiquinho pousou os ovos em cima da mesa e perguntou à mãe o que queria? O que era e onde era o mandado? E foi a ti Maria Joaquina a responder: 

Ti Maria: Olha lá Chiquinho, tens de me fazer um mandado, ouve lá bem, com atenção, vais à choupana do meu burro, bates à porta e chamas o meu Manel e depois pergunta-lhe se a namorada dele está lá dentro com ele e diz-lhe que é só para a mãe e o pai dela ficarem descansados, porque, ela desapareceu e eles não sabem se está morta ou viva, depois diz-lhe para pôr o burro cá fora, porque faz-me falta para ir levar umas encomendas ao Monte da Vinha! 

Chiquinho: Ó ti Maria, eu posso lá ir, mas porque é que não vai lá vocemecê? 

Ti Maria: Ó filho, passei lá horas a bater à porta, mas o bruto não me responde, nem me abre a porta, se fores lá tu, tenho a certeza, que ele fala contigo, porque ele gosta muito de ti! Olha, diz-lhe também, que a mãe dela está à espera da resposta lá na minha casa e o pai ficou ali no Monte da Cruz, e que não tenham medo, eles só querem saber se ela cá está e se é para ficar com ele, mais nada! 

Chiquinho: Está bem, eu vou lá, mas deixe lá ver se no fim levo alguma cachaçada atrás das orelhas, por andar lá meter o nariz na choupana!  

Ti Maria: Cala-te filho, não levas, não, ele gosta muito de ti, não te faz mal, vai descansado, e depois vem ter aqui comigo, que eu fico à espera! Vá, vai num pé e vem no outro!

O Chiquinho saiu a correr para a choupana do burro da ti Maria e do ti José que ficava a duzentos ou trezentos metros dali e, só parou a poucos metros a reprogramar o que devia dizer ao Manel, quando chegou à porta forrada a zinco, fechou a mãe e bateu várias vezes com a força que tinha, mas não ouviu resposta, depois, lembrou-se de o chamar: 

Chiquinho: Ó Manel, Manel! 

Manel: Ah, és tu? Pensava que era a minha mãe, outra vez! Para que estás a gritar, se eu estou aqui mesmo ao pé de ti, o que queres? 

Chiquinho: Venho a fazer um mandado à tua mãe, ela quer saber se a tua namorada está aqui contigo, porque desapareceu de casa e o pai e a mãe não sabem se ela está morta ou viva e disse para pores o burro aqui fora que lhe está a fazer falta!

Manel: Está aqui, está e bem viva! Então, estás aí sozinho? 

Chiquinho: Estou, estou, e não há ninguém à vista! 

Manel: Então espera aí, que eu vou pôr o burro aí fora e já falamos! 

O Manel saiu da choupana a sorrir e queria saber se a família dele e da namorada estavam zangados por eles terem fugido, mas pelo que o Chiquinho lhe contou, tirado da conversa da mãe dele, teve a certeza que estava tudo a correr bem, ninguém estava zangado com ninguém.

O Chiquinho voltou a casa e contou à ti Maria o que tinha falado com o Manel, e confirmou que, a namorada estava lá com ele e bem viva, deixando-a muito contente, abalando a correr para casa a contar à mãe da rapariga que ela estava lá com o Manel e para ficar! 

A meio da tarde, o Chiquinho feito curioso, foi-se chegando até à casa da ti Maria, a porta estava aberta e ele entrou sem pedir licença, porque, isso não se usava em Capelins, se as portas estavam abertas era sinal que se podia entrar à vontade, estavam lá o Manel e a namorada, só os dois, a fazer uma açorda, ela estava envergonhada, pouco falava, o Chiquinho sentou-se e mirou-a da cabeça aos pés, porque ela não era de Capelins e ele não a conhecia, como imaginava que ela estaria coberta de palha, como os ouriços de espinhos, reparou que não tinha uma palhas na roupa, o Manel estava muito contente, meteu-se logo com o Chiquinho e não se calava a comentar, como tinha sido tão boa a lua de mel, embora tivessem passado muita fome, muita sede e dormido com o burro! 

Foi a primeira vez que o Chiquinho ouviu falar em lua de mel e, começou a imaginar o que seria isso, não encontrava nenhuma ligação da lua com o mel, mas uma coisa estava certa, metia mel, já a lua não achava lugar para ela, como o Manel não falava noutra coisa, teve a certeza que era alguma coisa muito boa, muito doce, pensou num bolo com mel, porque ligava com casamento e, assim que apanhou o Manel a jeito, perguntou-lhe o que era a lua de mel, e o Manel muito ufano, respondeu-lhe: - Então, foi o que eu passei com ela lá na choupana e com o burro, esta noite!    

O Chiquinho ficou abismado, a pensar que, afinal a lua de mel não era mais do que dormir com a namorada na choupana e com o burro e, ficou convencido, só passados alguns anos percebeu que, não estava enganado de todo, apenas o burro estava a mais na lua de mel que, ele imaginava.

O Manel e a namorada, organizaram a sua vida, arranjaram a sua casa, depois casaram, tiveram filhos e uma boa vida em comum durante muitos anos.

O Manel, ainda cedo, foi prestar contas a Deus, mas deixou por aqui, alguns descendentes. 

Fim 

Texto: Correia Manuel   

Ferreira - Capelins



segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

Memórias da tragédia do raio, em Capelins

 Memórias da tragédia do raio, em Capelins 

Na Freguesia de Capelins, noutros tempos, os elementos mais temíveis pelos capelinenses eram as feiticeiras e as trovoadas que, também as associavam,  contavam que, as trovoadas não queriam nada com as feiticeiras, porque elas sabiam segredos para acabar com elas e, vagueavam por baixo delas sem nada lhes acontecer, o mesmo, não acontecia com o comum dos mortais, os quais, tinham de ter a oração a Santa Bárbara na ponta da língua, como arma para afastar as trovoadas lá para bem longe onde não houvesse cadilho de lã, nem bafo de gente cristã, e com essa fé iam escapando dos raios que iam caindo num ou noutro lugar da Freguesia, mas a Santa Bárbara não conseguia acudir a toda a gente e, por vezes, aconteciam fatalidades com raios. 

Na quinta - feira, dia 14 de Junho do ano de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil novecentos e quarenta e cinco, a madrugada estava muito calma, como todas neste mês de verão, e os jornaleiros começaram a sair para os seus trabalhos nas herdades e  os seareiros e famílias nas carroças para as suas courelas, nas quais, já ceifavam os favais, a aveia e a cevada, os primeiros cereais a amadurecer e a ficar prontos para a ceifa, só depois, seguia a ceifa do trigo.

Nessa madrugada, também o casal, meus tios avós, seareiros, chamados Joaquim Dias e Maria Rosa Baptista, que moravam na Aldeia de Ferreira, no centro de Capelins de Cima, saíram na carroça da mula para a sua courela no Gomes, onde andavam a ceifar, levaram a panela com as sopas de grãos, pronta a arrumar ao lume para estarem cozidas ao meio dia, ou seja, à hora do jantar (almoço), porque, como toda a gente, só voltavam a casa à noitinha. 

Antes de abalar, enquanto comiam as migas com toucinho frito, do almoço (pequeno almoço), a Maria Rosa, disse ao marido que tinha dormido muito mal, tinha tido muitos pesadelos, sonhos muito maus, palpitava-lhe que, estava para lhe acontecer alguma coisa má, mas dava voltas  e mais voltas  à cabeça e não imaginava o que podia ser, já tinha pensado se algum deles se ia cortar com a foice, ou iam ter algum acidente com a carroça da mula, não achava mais nada! O Joaquim, pouco ligou à conversa da mulher, apenas respondeu que, não pensasse nos sonhos, porque, tinha a certeza que nada de mal lhe podia acontecer! E a conversa ficou por ali.

Chegaram à courela do Gomes e nada de mal aconteceu no caminho, e a Maria Rosa ficou mais descansada, o dia decorria normal, como todos os outros, e não pensaram mais nos maus sonhos, mas pelas quatro horas da tarde o Joaquim olhou para o horizonte a Sul e disse-lhe: - Olha Maria, já lá vem a magana da trovoada! Já passou Cheles e o Guadiana, não me agrada nada, não sei se não é sêca, são as piores, são raios e mais raios e nada de água! Agora, é todas as tardes e cada vez mais cedo, nunca vem só uma, há quinze dias que são seguidas! Temos de ir arrumando isto, porque, está aqui, está cá! Deixa-a, e a gente já cá estamos, é mais uma, o que podemos fazer? Comentou a Maria! 

O Joaquim e a Maria continuaram a ceifar, e a trovoada estava cada vez mais perto, era um negrume assustador, muitos relâmpagos e trovões tão fortes que faziam tremer o chão, mas como ainda não chovia, eles não arredavam pé para o abrigo que já estava preparado, como sempre, debaixo da carroça que, com umas sacas de serapilheira por cima, não deixava entrar água e, não era sítio para atrair raios, ainda nunca se tinha ouvido que tivesse caído um raio em cima de uma carroça, porque, os raios procuram sempre o sítio mais alto do solo, procuram a menor distância entre a nuvém e o solo, por isso, no campo, caem quase sempre nas azinheiras mais altas, assim, achavam que naquele abrigo não corriam perigo. 

Quando a trovoada estava por cima deles, correram para o abrigo e a Maria começou, imediatamente a rezar a oração a Santa Bárbara, mas nesse dia, a Santa das trovoadas não chegou a tempo, fez um relâmpago, ao mesmo tempo um grande.trovão e em simultâneo caiu um raio que os fulminou, não faleceram ali, porque, decerto não receberam o choque direto do raio, senão o coração parava de bater, a respiração era interrompida e morriam logo, mas ninguém soube como conseguiram chegar à Aldeia a pedir socorro, parece que, andaram desorientados pelo caminho, no entanto, já era tarde, porque, pouco depois faleceram, talvez, devido à descarga elétrica, ou a queimaduras profundas, lesões cardíacas ou danificação do sistema nervoso, inclusive do cérebro, provocando-lhe convulsões, perda de consciência e desnorteio, e por fim a morte. 

Esta tragédia, da morte do Joaquim Dias de 33 anos e da Maria Rosa Baptista de 32 anos, tinham casado cerca de dois anos antes, em Outubro de 1942, causou grande choque emocional na comunidade capelinense e, se a maioria das pessoas já temiam as trovoadas, este caso, aumentou o medo, mas ninguém deixou de acreditar em Santa Bárbara, continuando a ser invocada, sempre que, passava uma trovoada por Capelins.

Fim 

Texto:  Correia Manuel 

Alto do Gomes - Capelins 



quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

Memórias dos castelhanos rabudos, em Capelins

 Memórias dos castelhanos rabudos, em Capelins

Quando não existiam fogões a gás nem eletricidade na Freguesia de Capelins, o combustível mais usado era a lenha para o lume, quer para aquecimento, quer para cozinhar os alimentos, sendo, ao mesmo tempo, uma companhia para aqueles que, nos invernos, passavam os serões ao canto da chaminé, pondo mais lenha, atiçando o lume, ou conversando uns com os outros ou com o lume sobre as amarguras das suas vidas, mas quer fosse inverno ou verão tinham de acender o lume todos os dias, fosse para aquecer água, fazer o café com a brasa dentro da cafeteira, cozer as migas, as sopas e as açordas.

Nas noites mais frias de inverno, eram escolhidos os melhores e maiores madeiros, ou seja, partes dos troncos ou pernadas das azinheiras que ardiam durante o dia e a noite até à hora de ir para a cama, quando eram apagados com água e, na madrugada seguinte, acendiam-se, novamente o lume e continuavam a arder, fazendo bons braseiros e borralhos. 

No inverno, depois da ceia (jantar) e de quase tudo arrumado, chegava-se toda a gente para dentro da chaminé a fazer o serão, em volta do lume, os pais ou avós disponíveis, começavam a contar lendas, contos, histórias e peripécias aos mais novos, enquanto os mais velhos iam falando da sua vida de trabalho do dia a dia, mas estavam sempre com um olho no lume, para não o deixar apagar e dar lugar ao frio, por isso, quando a chama enfraquecia ou desaparecia, punham mais lenha, ou pegavam no canudo, um tubo de metal com cerca de um metro e extremidade achatada que servia para soprar e dar força à chama, e com ele picavam o madeiro que, com as pancadas na parte que ardia começava a crepitar com grande força, lançando faíscas em todas as direções que faziam fugir toda a gente da chaminé, porque, podiam ser atingidos e onde elas caíssem queimavam ou abriam um buraco na roupa, a essas faíscas chamavam-lhe castelhanos e quando pareciam estrelas cadentes, com rabo de fogo, diziam que eram castelhanos rabudos. 

Quando o madeiro debitava castelhanos era uma festa para a rapaziada, fugiam da chaminé e não se aproximavam enquanto o lume não estivesse calmo, ficando muito intrigados com aquele fogo de artifício e com o nome que lhe davam, castelhanos rabudos, era engraçado, muitas vezes pediam explicações aos mais velhos sobre essa designação e eles respondiam que os castelhanos rabudos eram os espanhóis e diziam que sempre tinham ouvido isso aos ancestrais, mas a rapaziada não percebia o que tinham os espanhóis a ver com os castelhanos rabudos, até ao dia em que avô Xico, com muita paciência, lhe explicou, a comparação entre os castelhanos rabudos e os vizinhos espanhóis, e começou assim:

A comparação que fazemos entre as faíscas do lume com os espanhóis já vem de há muitos séculos, como sabem, nunca nos demos bem, embora vizinhos, tivemos muitas guerras com eles, ódios e invejas, e por ofensa chamavam-lhe castelhanos rabudos e eles chamavam-nos judeus, mas essa alcunha veio da mãe do nosso rei D. Dinis, que era castelhana e chamava-se Beatriz,  filha do rei Afonso X de Castela e era descendente da Casa de Gusmão pelo lado da mãe, e em Espanha diziam que as mulheres dessa Casa, tinham filhos com cauda, com rabo como os macacos, e cá no Reino de Portugal as senhoras da Corte não gostavam dela, por inveja, e começaram a dizer que ela tinha rabo e vinha de uma choupana para o palácio real e chamavam-lhe a rabuda, depois para agravar a situação, ela trouxe para a Corte portuguesa a moda das cotas de rabo, ou caudatas, uns vestidos com rabo, que era a grande moda na Europa, por isso, as senhoras da nobreza e as princesas começaram a usá-los, o povo estranhava aqueles trajes e associaram-no ao rabo da Dª Beatriz, diziam que, era para esconder a cauda, assim, ganhou o título da "rabuda" e, por desprezo, para achincalhar os vizinhos, os portugueses atribuíram o mesmo título aos castelhanos, eram todos "rabudos".

Ao longo da nossa história, toda a gente afirmava, e estavam convencidos que Dª Beatriz, tinha nascido com cauda, e a intriga na Corte era tanta que, no dia 01 de Agosto de 1569, o rei D. Sebastião mandou abrir o túmulo da dita rainha Dª Beatriz, no Mosteiro de Alcobaça, e os físicos do Reino confirmaram que era, inteiramente falso, mas já era tarde, o título da rabuda e dos castelhanos rabudos não se alterou. 

Agora vejam, as faíscas dos madeiros a arder, saem com rabo de fogo, são rabudas e todos fugimos delas, como aqui fugiam dos castelhanos, quando havia guerras, vinham cá a roubar e a matar a gente, logo as comparamos com os castelhanos rabudos, nada é por acaso, rapaziada! 

A rapaziada já esclarecida, comentou em coro: - Bem visto, bem visto! Castelhanos rabudos! Castelhanos rabudos! Acabou o serão e foram todos para a "tulha" cama, a sonhar com os castelhanos rabudos.

Fim 

Texto: Correia Manuel 

Dª Beatriz - mãe de D. Dinis - Foto net




quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

O Moinho da Cinza no Rio Guadiana em Capelins

 O Moinho da Cinza no Rio Guadiana em Capelins

Como sabemos, é muito difícil de reunir os documentos que nos dão a conhecer os episódios da história das terras de Capelins que, noutros tempos, não tinham esta denominação, desde o primeiro Foral de Santa Maria de Terena, concedido por D. Gil Martins e por sua mulher Dona Maria Anes da Maia passaram por ser a Vila de Ferreira, pensamos que em 1550 foi criada a Freguesia de Santo António de Terena e, cerca de 1793 passaram a ser Santo António de Capelins e, em 1941 Freguesia de Capelins Santo António.
O Moinho da Cinza prevê-se que foi construído nos finais da centúria de 1600, após a Guerra da Restauração foi necessário repovoar estas terras que tinham ficado desertas e uma das formas de atrair povoadores foi dividir as herdades cada uma em duas e vendê-las aos lavradores e pequenas parcelas a seareiros, assim como, o aforamento de courelas e esta região começou a crescer nas primeiras décadas da centúria de 1700. 
Com o desenvolvimento verificado na Freguesia de Santo António, vieram muitos povoadores de novo e foram criadas algumas estruturas, Montes, cabanas para os gados, caminhos e alguns Moinhos no Rio Guadiana e nas Ribeiras de Lucefécit e do Azevel, entre eles este Moinho da Cinza. 
Como a construção de um Moinho tinha custos muito elevados, devido à forma como era construído, preparado para estar submerso durante meses e não ser arrastado pelas cheias, assim como o seu açude, só pessoas muito ricas ou a Coroa, os podiam mandar construir, neste caso, pensamos que talvez tenha sido um grupo de lavradores, como aconteceu com outros. 
Era um Moinho de rodízio ou roda horizontal com pelo menos  dois aferidos ou seja, casais de mós ou linhas de moagem. 
Este Moinho tinha um açude construído em aparelho gravitacional que atravessava o Rio Guadiana de margem a margem, que barrava a água e a canalizava para fazer mover as mós andantes que transformavam os cereais em farinha e tinha um bom caneiro ou pesqueira, que pescava muito peixe.
Por aqui passaram muitos Moleiros, sendo um dos últimos o senhor Francisco Vieira, conhecido por ti Xico da Cinza, porque esteve aqui tantos anos, que ganhou esta alcunha, assim como alguns dos seus filhos, como o senhor António da Cinza, conhecido em Capelins por ti Tonico da Cinza. 
Nos finais dos anos de 1960, foi o seu fim, como fábrica de fazer farinha, continuou em pé a dar guarida a quem precisava, aos contrabandistas, às paródias e a quem quisesse descansar no seu interior, até que, no ano de 2002 foi submerso pelas águas da Albufeira de Alqueva que começou a encher no dia 08 de Fevereiro desse ano, e continua submerso.
Fim 
Texto: Correia Manuel 
Moinho da Cinza



Resenha da história do Posto do Registo Civil na Freguesia de Capelins

Resenha da história do Posto do Registo Civil na Freguesia de Capelins

Os Registos dos nascimentos, casamentos e óbitos, no Concelho de Terena, Freguesia de São Pedro, tiveram início no ano de 1572, mas, nas primeiras décadas de 1600, passaram a ser feitos nas respetivas Paróquias, no caso de Santo António, foi em 1633.
As Paróquias foram responsáveis pelos ditos Registos até 31 de Dezembro de 1910.
A partir de 01 de Janeiro de 1911, essa função passou para as Conservatórias do Registo Civil, com sede nos Concelhos.
Para facilitar o acesso dos que residiam a maiores distâncias foram criados diversos Postos de proximidade, (conforme Decreto da Direção Geral da Justiça de 03 de Abril de 1911).
No caso do Concelho do Alandroal, foi criado um Posto em Santiago Maior e outro na Vila de Terena, este incluía a Freguesia de Santo António de Capelins.
Assim, a partir de 01 de Janeiro de 1911, os capelinenses para fazer estes Registos tinham de se deslocar à Vila de Terena, onde eram redigidos pelo responsável, senhor Mariano José Ruivo de Carvalho e foi assim durante três anos.
A partir de 01 de Janeiro de 1914, os ditos Registos passaram a ser feitos no Posto do Registo Civil de Capelins, pela responsável, senhora Rosalina Tavares Nogueira.
A senhora Rosalina Tavares Nogueira foi responsável pelo Posto do Registo Civil de Capelins, durante 28 anos, entre 1914 e 1942.
A partir de 01 de Janeiro de 1943 a responsável pelo Posto do Registo Civil de Capelins e pelos Registos, passou a ser a senhora Ana Fernandes Coelho, que desempenhou esse serviço durante 9 anos, entre 1943 e 31 de Dezembro de 1952.
Conforme, informação de amigos capelinenses, as senhoras, eram ambas professoras.
A partir de 01 de Janeiro de 1953, o responsável pelo Posto de Registo Civil de Capelins, e pelos Registos, passou a ser o senhor Inácio Moreira Correia, que fazia os ditos Registos no Monte do Roncão Velho e, também, no Monte de Calados em Capelins.
Livro dos Registos dos casamentos do ano de 1953, quando o senhor Inácio Moreira Correia, iniciou as funções. 















Decreto da criação dos Postos do Registo Civil





Os Moinhos no Rio Guadiana em Capelins - 1326

 Os Moinhos no Rio Guadiana em Capelins - 1326

Através de documentos régios, aparentemente sem importância, conseguimos desvendar segredos e factos históricos referentes à nossa Freguesia de Capelins e, através desses retalhos vamos construindo a história e identidade da Freguesia de Capelins.
Neste caso, através do documento constante na Chancelaria do Rei D. Afonso IV, "o Bravo", volume I, filho do rei D. Dinis, que governou o Reino de Portugal entre 1325 e 1357, sabemos vários segredos, como a existência de Moinhos de água na Freguesia de Capelins, nessas data, assim, podemos verificar a carta de aforamento de dois Moinhos em Cuncos, sendo um no Concelho de Mourão e o outro no Concelho de Terena, no dia 01 de Julho de 1326, pelo que, além de sabermos que nessa data já existiam Moinhos no Rio Guadiana na Freguesia de Capelins, sabemos que, Cuncos era dos dois lados do Rio Guadiana, do lado de Mourão, onde se situa a Ribeira de Cuncos, mas também na margem direita, no Concelho de Terena, onde, hoje, se designa por Calvinos.
Os ditos Moinhos foram aforados a João Perez Alfayate de Monsaraz e a sua mulher Catalina Dominguez, que ficaram a pagar ao rei um quinto da produção de farinha, porque como era habitual, foram apregoados (foram a leilão) e ninguém ofereceu mais.
É de salientar que, dentro desta data já tinha sido aforado o Moinho da Cinza a uma Dona Catalina e outros.
Sabemos que, o Rei D. Dinis deu alvará (licença) para a construção de dois Moinhos nesta região, talvez tivessem sido o da Cinza e o de Calvinos, ou podem ter sido estes dois de Cuncos, de qualquer maneira, a existência de Moinhos no Rio Guadiana em Capelins é muito mais remota do que os ancestrais imaginavam, e esta região, já nos primeiros decénios de 1300, não estava tão abandonada, como se pensava.
"Carta de foro d huas Açenhas que son em Termho de Terena.
Don Affonso pela graça de Deus Rey de Portugal e do Algarue. A quantos esta carta viren faço saber que eu dou e outorgo a foro pera senpre a Johan perez Alfayate de monssaraz. e a Catalina dominguez sua molher as minhas acenhas que ora estan despovoadas no logar de cuncos termho de terena e de mouran so tal preito e condiçon que me de delas o quinto a salua porque foron apregõadas como he de custume e non acharon quen. por elas mais desse salua os sobredictos.
E eles deven fazer en ellas quanta benfectoria poderen no logar d assessega hu estavan ou a par delas hu viren que paden mais proveitar que sejan nos meus herdamentos en esse logar. e daren dellas a mjn esse quinto en salua ao tenpo como o dan das outras azenhas que eu ei nos outros logares dessa terra en cada hûu Ano. a mjn e a todos meus suscessores. E eles non deuen a dar nen uender nen dõar nen apenhorar nen escanbhar. nen en outra maneira alhëar as dictas acenhas a caualeiro nen a dona nen a escudeiro nen a clerigo nen a Religioso nen a outro homen poderoso senon aa taaes pessõas que seian de uossa condiçon que ben e conpridamente den A mjn. e a todos meus suscessores esse quinto do pan. e das outras cousas que deus hi der a ssaluo come dicto e En testemuynho desto e) Ihi dei esta carta. Dante en lixbõa prostumeiro dia de Julho El Rey o mandou per Domingos paaez. ouvidor dos seus fectos e da portaria Airas femandiz a ffez. Era. M. C. C. C.. e sasseenta e. iiij a. Anos. Domingos paaez ,
"A data neste documento é 01 de Julho de 1364 na Era de César, a qual, corresponde a 1326 na Era de Cristo, esta só começou a ser usada no Reino de Portugal no reinado de D. João I, causando confusões a algumas pessoas."
Calvinos - Capelins 



O lugar de Ferreira (atual Neves) envolvido nas traições ao Rei D. Fernando.

O lugar de Ferreira (atual Neves) envolvido nas traições ao Rei D. Fernando.

Como podemos confirmar os Lugares de Terena e de Ferreira pertenciam à Infanta Dª Beatriz de Castro, pensamos que, desde 1359, depois do falecimento da sua avó Beatriz, esposa do rei D. Afonso IV, embora em 24 de Março de 1376 tivessem sido doados à Inafanta Dª Beatriz filha do rei D. Fernando, parece que, a doação não se concretizou nessa data, por efeitos do Tratado de Santarém, no qual ele perdoava a traição daqueles que conspiraram para a sua morte, desde que fossem portugueses e que tinham dado apoio ao inimigo castelhano, assim como, lhe devolvia todos os bens, eventualmente confiscados. Nesses traidores estavam envolvidos os seus meio irmãos o Infante Dinis e a Infanta Beatriz de Castro, pelo que, somente em 28 de Agosto de 1379, quando D. Fernando redigiu o seu testamento, os acusou da traição com justificação e os deserdou, assim, por carta de 19 de Dezembro de 1378, transferiu bens da sua meia irmã Beatriz de Castro para Fernando Afonso de Albuquerque, sendo esses bens os Lugares de Terena e de Ferreira, mas em 03 de Novembro de 1379, estes Lugares passaram para a posse da Infanta Beatriz, filha do rei D. Fernando, casada com D. João I de Castela e continuou a confusão.
"(...) Ora, em 28 de agosto de 1378, D. Fernando faz seu testamento e nele clarifica as traições de que fôra objeto, justificando suas coações aos traidores do reino português. Acusa o Pacheco, alguns naturais do reino e seus meio-irmãos, Infantes Dinis 61 e Beatriz de Castro de terem conspirado para sua morte 62, aproveitando para deserdá-los da sucessão do reino 63. Acusação suficiente para não devolver os bens confiscados do Pacheco e do Infante Dinis. Tal menção testamentária indica-nos, também, que a tentativa de regicídio deve ter ocorrido antes de meados de 1378. A Chancelaria fernandina corrobora tal hipótese através de quatro cartas. A primeira, datada de 19 de dezembro de 1378, na qual transfere-se bens da Infanta Beatriz de Castro a Fernando Afonso de Albuquerque, sem menção direta a traição 64.
64 - Recebe os lugares de Terena e Ferreira (TT, ChancDF, l. II, f. 36v).
(Revista da Faculdade de Letras 263 ESTRATÉGIAS DE LEGITIMAÇÃO LINHAGÍSTICA EM PORTUGAL NOS SÉCULOS… HISTÓRIA Porto, III Série, vol. 7, 2006, pp. 263-284)
"Fátima Regina Fernandes*" 

Era aqui o Lugar de Ferreira de 1262 - (atual Neves) 


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