quarta-feira, 26 de março de 2025

São Pedro da Vila de Terena - 1758

História e estórias do celebrado rio Guadiana e seus afluentes

5 - São Pedro da Vila de Terena - 1758

A descrição do rio Guadiana e seus afluentes, em resposta ao Inquérito do Marquês de Pombal, escrita pelo Prior Mathias Viegas da Sylva - Memórias Paroquiais de São Pedro da Vila de Terena, em  17 de Junho de 1758. 

É de salientar que, nesta data, o Concelho de Terena abrangia, além da Freguesia de São Pedro de Terena, ainda as Freguesias de Santiago Maior e de Santo António (Capelins), pelo que, este Pároco, escreveu sobre o rio Guadiana e seus afluentes ao nível do dito Concelho.

"Corre junto desta Vila uma Ribeira com o nome de Lucefece, termo divisório dos dois Termos (Concelhos) de Terena e Alandroal. 

Tem esta o seu nascimento numa lagoa que está no Sítio de Rio de Moinhos, Termo (Concelho) de Estremoz, e de outras águas que descem da Serra D'Ossa. 

Distante a dita lagoa desta Vila três léguas, e correndo pelas faldas da mesma Serra, paulatinamente vai engrossando suas correntes, passa pelos Termos (Concelhos) de três Vilas, Borba, Vila Viçosa e Alandroal, (e de Terena), correndo em giros sempre solitária até que se avizinha de Terena em distância para mais de dois foguetes, depois passa por Ferreira, Vila da Sereníssima Casa do Infantado, distante uma légua, (de Terena), depois correndo outra légua passa entre o Baldio do Roncão (neste caso, não está correto, aqui era/é a herdade do Roncão, o chamado Baldio do Roncão era no Roncanito junto ao Azevel) deste Termo (Concelho) e a herdade do Aguilhão, Termo (Concelho) do Alandroal, entra no Guadiana que menos agradecido depois de lhe receber as águas lhe tira o nome.

São cinco léguas do lugar onde nasce até ao Guadiana, onde morre. Corre do Norte para a parte acima do Sul, sómente conserva a sua corrente neste Termo (Concelho), enquanto as chuvas lhe formam as mesmas correntes, que no estio (Verão) se vêem extintas.

É o seu curso neste Termo (Concelho) moderado sem muita precepitação, por serem planicies os campos por onde passa.

É abundante em peixes que comumente há nas Ribeiras pequenas desta provincia. As mais frequentes pescarias que nela se fazem e que são livres, são no Inverno até aos fins de Abril. Fôra mais piscosa esta Ribeira se na sua foz não tivesse um açude alto e forte que lhe impede a subida dos peixes vindos do rio Guadiana para a do Lucefece, subindo muito sobre o dito açude, o qual, parece devia ser demolido, porque sempre o bem comum prevaleceu ao particular. (O dito açude, uma pequena barragem perto da foz, impedia a subida dos peixes do rio Guadiana para a Ribeira e, parece que, havia, descontentamento por o mesmo ali existir, devia garantir água às hortas ali existentes e, como sabemos este açude acabou por desaparecer, talvez, fosse desmoronado pelas cheias da Ribeira).

Nas suas margens neste Termo (Concelho) há poucos anos que se vê começaram a cultivar com hortas de melão e melancia, e os mais frutos que costumam andar juntos. (neste caso, os frutos que costumavam andar juntos seriam abóboras, feijão frade e pouco mais).

O arvoredo que se vê nas suas margens é de azinho, e o silvestre de alandros, de que é abundantíssimo ainda no interior da Ribeira.

É este mato infrutífero, e de tal qualidade, que das suas flores, que só são agradáveis à vista, se aproveita a Republica das abelhas para a misteriosa fábrica do seu trabalho.

Tem uma ponte muito capaz, que dá livre e segura passagem aos passageiros, e ainda às carruagens, composta de seis arcos, obra de cantaria que domina as suas mais sobidas e arrogantes inundações que começa neste Termo (Concelho) no sítio que vulgarmente chamam o carrascal, descansa na margem oposta do Termo (Concelho) do Alandroal na raiz de um outeiro, em cuja eminência se venera o glorioso mártir São Gens numa Ermida que é da Ordem de São Bento de Aviz. (a ponte começava/começa no carrascal do lado de Terena e acabava no Concelho do Alandroal, junto ao outeiro onde no alto estava a Ermida de São Gens).

Tem esta Ribeira no Termo (Concelho) desta Vila, dezasseis moinhos, e um lagar de azeite, a que chamam o Lagar da Ribeira, e no Guadiana dentro deste Termo (Concelho) ma Freguesia de Santo António (Capelins) se acham nove, e um na Ribeira de Azevel. (Assim, em 1758 a Freguesia de Santo António ainda não era de Capelins, porque, somente em 1793, passou a ter essa designação).

Entram nesta Ribeira, neste Termo (Concelho) seis (o Prior escreve sete, mas devem ser somente seis) Ribeiros de nome: O Ribeiro da Silveira, o do Alfardagão, o da Abergaria dos Al..dros?, o do Alcaide, e o do Carrão.

Terena em 17 de Junho de 1758

O Prior Mathias Viegas da Sylva 

 O Prior Mathias Viegas da Sylva fez uma excelente descrição da Ribeira de Luceféce (Lucefécit), porque era a mais próxima da Vila de Terena, mas nada descreve sobre os Ribeiros que nela entravam/entram, apenas indicou o seu nome. 

A sua informação abrangeu todo o Concelho de Terena, mas pouco se refere ao celebrado rio Guadiana, apenas escreveu que tinha nove moinhos na Freguesia de Santo António, mas nada refere sobre as caracteristicas deste rio, onde se situava em relação ao Concelho, onde nascia, onde morria, se era caudaloso e navegável, que espécies de peixes criava, se nele havia pescarias livres, e outras informações pedidas. É verdade que, o Pároco Manuel Ramalho Madeira da Freguesia de Santo António (Capelins) escreveu sobre isso, talvez os Párocos se tenham entendido nas respostas a escrever, e completaram a informação.

No ano de 1758, já existiam nove moinhos no rio Guadiana na Freguesia de Santo António: Azenhas D'El-Rei de dentro; Azenhas D'El-rei de fora; Cinza; Moinho Novo de Fora, Moinhola, Miguéns, Volta; Calvinos; e Gato, sendo construídos mais tarde, dois moinhos, chegando a 11 no rio Guadiana, e 11 nas Ribeiras de Lucefécit e do Azevel e alguns pezoins (estes, eram apenas um jogo de mós fixas debaixo de um resguardo tapado a mato, o qual, depois seguia nas cheias, ficando as mós no mesmo lugar, logo, só trabalhavam no Verão, se houvesse água corrente, parece que, no lugar do Moinho das Azenhas D'El-Rei de fora, antes, existiu um Pezoim).

Fim 

Correia Manuel 

Memórias Paroquiais de São Pedro de Terema - 1758 

Vila de Terena 




terça-feira, 25 de março de 2025

Vila e Concelho do do Alandroal - Memórias Paroquiais - 1758

História e estórias do celebrado rio Guadiana e de seus afluentes

3 - Vila e Concelho do do Alandroal - 1758
Respostas sobre o rio Guadiana e seus afluentes, do Prior Bento Ferrão Castelbranco, da Vila do Alandroal, ao Marquês de Pombal Sebastião José de Carvalho e Melo Secretário de Estado do Reino (Primeiro Ministro) do rei D. José I, em Abril de 1758, neste caso, a respostas são ao nível do Concelho do Alandroal, desse tempo, cujo espaço geográfico era diferente do atual, uma vez que, em 1836 recebeu os Concelhos de Juromenha e de Terena.
Rio Guadiana
"Está esta Vila e seu Termo (Concelho) situada entre um rio e uma Ribeira, o rio Guadiana a que os latinos chamavam Anas, de que trata Pompónio, e nasce no Reino de Espanha junto da serra de Alcaraz e depois de entrar neste Reino, e passar por algumas Terras chega ao Termo (Concelho) desta Vila em que entra no Moinho chamado dos Mocissos e sem entrar no interior dele (do Concelho) o vai costeando e dividindo, do castelo (castelo dos Mocissos) até ao sítio onde chamam o Aguilhão. (assim, parece que, nesse tempo, em termos do limite com o rio Guadiana, o Concelho do Alandroal iniciava junto ao castelo dos Mocissos e terminava no Aguilhão).
Com a água dele moem três moinhos situados neste Termo (Concelho) o primeiro chamado de Mocissos, o segundo é chamado do Padre Manuel Infante e o terceiro o moinho das Beatas.
Cria muito peixe de várias castas como são Tencas, Barbos, Eirozes, Escárpios, Bogas, Picões e Sarrelhos.
Tem a água deste rio a circunstância que não cria sanguessugas e se sucede ir o gado beber a ele e algum levar sanguessuga logo que bebe lhe cai e fica limpo. (parece que, esta era a qualidade das suas águas, no dito espaço geográfico).
Este rio corre para Sul e costeia este Termo (Concelho) pela parte do Nascente.
A Ribeira de Lucefece nasce no Termo (Concelho) de Estremoz na Freguesia de Rio de Moinhos de uma lagoa que aí há , corre para o Nascente e entra a costear este Termo (Concelho) no Sítio dos Galvões e vai dividindo todo o Concelho pela parte do Sul e mete-se no rio Guadiana onde se sepulta e perde o nome num Sítio chamado Aguilhão. Tem duas pontes, uma ao pé da Vila de Terena, outra no moinho chamado dos ouros, que é a estrada que vai para a Vila do Redondo, quando há cheia. (parece que, quando a Ribeira não ia cheia, havia caminho mais direto para o redondo, sem ir passar à dita ponte dos ouros).
No Sitio chamado castelo velho por onde passa a Ribeira há uma concavidade grande feita pela natureza que parece um edifício.
Tem esta Ribeira abundânia de peixe , é suposto que não tenha Tencas, tem todas as mais castas de peixe que produz o Guadiana, e além destes, tem também abundância de pardelhas, que são uns piscículos pequenos muito gostosos. (Parece que, não tinha Tencas, mas tinha todas as outras espécies de peixes que tinha o rio Guadiana).
Nesta Ribeira se mete a Ribeira do Alandroal que principia à Fonte das Freiras e se mete em Lucefece no Sítio de Entre as Águas, onde perde o nome, e nesta Ribeira do Alandroal se mete o Ribeiro dos Machos que principia no Pégo da Moura e se mete na dita Ribeira na Coutada onde perde o nome.
O Ribeiro da Serrada nasce no Sítio da herdade do Conjeito da Fonte de Pedra e mete-se na Ribeira do Alandroal no Sítio chamado da Retorta onde perde o nome.
O Ribeiro da Sovereira principia no Vale da Silveirinha e mete-se na Ribeira do Alandroal por cima do Pégo do Touril, onde perde o nome.
O Ribeiro de Pero (Pedro) Nunes nasce no Penedo do Macho Termo (Concelho) de Vila Viçosa e mete-se já neste Termo (Concelho) no Pégo da Maria Neves na Lucefece.
O Ribeiro de Bargados principia na herdade da Mota e mete-se na Lucefece por baixo do Pégo das Milharadas.
O Ribeiro do Negro principia na herdade da Pipa e mete-se na Lucefece ao pé da herdade da Barranca.
O Ribeiro da Churreira principia em Vale de Cágados ao pé do Monte do Oleiro e mete-se na Lucefece no Sítio da Águas Frias de Cima.
O Ribeiro dos Ardonhos principia na herdade do Soveral (Sobral) e mete-se na Lucefece no Sítio das Águas Frias de Baixo.
O Ribeiro de Alcalate principia no Sítio chamado das Bispas Termo (Concelho de Vila Viçosa, entra neste Termo (Concelho) ao pé da Horta Grande e mete-se na Lucefece ao pé da herdade da Barranca, onde perde o nome.
A Ribeira de Lucefece só tem um moinho neste Termo (Concelho) a que chamam o moinho dos Ouros.
A Ribeira de Pardais principia na Alagoa do mesmo nome, no Termo (Concelho) de vila Viçosa, num lugar chamado a Azenha de Pedra e vai dividindo o Termo (Concelho) de Vila Viçosa e Juromenha e mete-se no Rio Guadiana no Sítio do Azinhalinho, onde perde o nome.
A Ribeira de Pardais tem neste Termo (Concelho) um moinho chamado dos Azaboeiros. Tem mais quatro Azenhas a saber: De Valverde, do Boticário, dos Frades, e a da Rocha.
As pescarias que se fazem no Rio Guadiana e nestas Ribeiras que temos tratado, são livres e fazem-se tão só no Inverno, porém no Guadiana e na Lucefece todo o ano nos Pégos que têm fundura.
Só o Guadiana e as Ribeiras de Lucefece e Pardais correm todo o ano, mas o curso arrebatado tão só no Inverno no tempo que enchem por causa das chuvas.
Estas Ribeiras não são navegáveis não têm aptidão para isso, só o Rio Guadiana é navegável na latitude e não na longitude, porque de Inverno pela longitude é perigoso por ser arrebatado e de Verão não leva água com capacidade de nadarem embarcações e só nas péguias que conserva todo o ano são lugares certos onde andam as barcas que servem de transporte.
Alandroal, Abril de 1758
O Pior Bento Ferrão Castelbranco
Achamos uma excelente descrição do celebrado rio Guadiana e de seus afluentes, no espaço geográfico do então Concelho do Alandroal, acaba por englobar não só a Freguesia de Nossa Senhora da Conceição, como também, a Freguesia de Nossa Senhora do Rosário, neste caso, muito melhor do que o Pároco desta Freguesia.
São muito bem descritas as principais Ribeiras e Ribeiros que se encostam ou passam pelo interior do Concelho, ou seja, a Ribeira de Pardais a Ribeira do Alandroal e a Ribeira de Lucefécit, esta última, recebe as águas da anterior e, desagua no Rio Guadiana, no Pégo de Dona Catarina de Sousa, esposa de D. João Freire de Andrade, Senhor da Vila de Ferreira na centúria de 1400, ou seja, junto às herdades de Aguilhão na margem esquerda, e do Roncão na margem direita, sendo esta no Concelho de Terena e Freguesia de Santo António (Capelins).
A Ribeira de Pardais, também morre no rio Guadiana no Sítio do Azinhalinho.
Não foi transcrito à palavra.
Fim
Correia Manuel
Março de 2025
De: Memórias Paroquiais da Matriz do Alandroal - 1758
Respostas sobre o rio Guadiana e seus afluentes, do Prior Bento Ferrão Castelbranco, da Vila do Alandroal, ao Marquês de Pombal Sebastião José de Carvalho e Melo Secretário de Estado do Reino (Primeiro Ministro) do rei D. José I, em Abril de 1758, neste caso, a respostas são ao nível do Concelho do Alandroal, desse tempo, cujo espaço geográfico era diferente do atual, uma vez que, em 1836 recebeu os Concelhos de Juromenha e de Terena.
Rio Guadiana
"Está esta Vila e seu Termo (Concelho) situada entre um rio e uma Ribeira, o rio Guadiana a que os latinos chamavam Anas, de que trata Pompónio, e nasce no Reino de Espanha junto da serra de Alcaraz e depois de entrar neste Reino, e passar por algumas Terras chega ao Termo (Concelho) desta Vila em que entra no Moinho chamado dos Mocissos e sem entrar no interior dele (do Concelho) o vai costeando e dividindo, do castelo (castelo dos Mocissos) até ao sítio onde chamam o Aguilhão. (assim, parece que, nesse tempo, em termos do limite com o rio Guadiana, o Concelho do Alandroal iniciava junto ao castelo dos Mocissos e terminava no Aguilhão).
Com a água dele moem três moinhos situados neste Termo (Concelho) o primeiro chamado de Mocissos, o segundo é chamado do Padre Manuel Infante e o terceiro o moinho das Beatas.
Cria muito peixe de várias castas como são Tencas, Barbos, Eirozes, Escárpios, Bogas, Picões e Sarrelhos.
Tem a água deste rio a circunstância que não cria sanguessugas e se sucede ir o gado beber a ele e algum levar sanguessuga logo que bebe lhe cai e fica limpo. (parece que, esta era a qualidade das suas águas, no dito espaço geográfico).
Este rio corre para Sul e costeia este Termo (Concelho) pela parte do Nascente.
A Ribeira de Lucefece nasce no Termo (Concelho) de Estremoz na Freguesia de Rio de Moinhos de uma lagoa que aí há , corre para o Nascente e entra a costear este Termo (Concelho) no Sítio dos Galvões e vai dividindo todo o Concelho pela parte do Sul e mete-se no rio Guadiana onde se sepulta e perde o nome num Sítio chamado Aguilhão. Tem duas pontes, uma ao pé da Vila de Terena, outra no moinho chamado dos ouros, que é a estrada que vai para a Vila do Redondo, quando há cheia. (parece que, quando a Ribeira não ia cheia, havia caminho mais direto para o redondo, sem ir passar à dita ponte dos ouros).
No Sitio chamado castelo velho por onde passa a Ribeira há uma concavidade grande feita pela natureza que parece um edifício.
Tem esta Ribeira abundânia de peixe , é suposto que não tenha Tencas, tem todas as mais castas de peixe que produz o Guadiana, e além destes, tem também abundância de pardelhas, que são uns piscículos pequenos muito gostosos. (Parece que, não tinha Tencas, mas tinha todas as outras espécies de peixes que tinha o rio Guadiana).
Nesta Ribeira se mete a Ribeira do Alandroal que principia à Fonte das Freiras e se mete em Lucefece no Sítio de Entre as Águas, onde perde o nome, e nesta Ribeira do Alandroal se mete o Ribeiro dos Machos que principia no Pégo da Moura e se mete na dita Ribeira na Coutada onde perde o nome.
O Ribeiro da Serrada nasce no Sítio da herdade do Conjeito da Fonte de Pedra e mete-se na Ribeira do Alandroal no Sítio chamado da Retorta onde perde o nome.
O Ribeiro da Sovereira principia no Vale da Silveirinha e mete-se na Ribeira do Alandroal por cima do Pégo do Touril, onde perde o nome.
O Ribeiro de Pero (Pedro) Nunes nasce no Penedo do Macho Termo (Concelho) de Vila Viçosa e mete-se já neste Termo (Concelho) no Pégo da Maria Neves na Lucefece.
O Ribeiro de Bargados principia na herdade da Mota e mete-se na Lucefece por baixo do Pégo das Milharadas.
O Ribeiro do Negro principia na herdade da Pipa e mete-se na Lucefece ao pé da herdade da Barranca.
O Ribeiro da Churreira principia em Vale de Cágados ao pé do Monte do Oleiro e mete-se na Lucefece no Sítio da Águas Frias de Cima.
O Ribeiro dos Ardonhos principia na herdade do Soveral (Sobral) e mete-se na Lucefece no Sítio das Águas Frias de Baixo.
O Ribeiro de Alcalate principia no Sítio chamado das Bispas Termo (Concelho de Vila Viçosa, entra neste Termo (Concelho) ao pé da Horta Grande e mete-se na Lucefece ao pé da herdade da Barranca, onde perde o nome.
A Ribeira de Lucefece só tem um moinho neste Termo (Concelho) a que chamam o moinho dos Ouros.
A Ribeira de Pardais principia na Alagoa do mesmo nome, no Termo (Concelho) de vila Viçosa, num lugar chamado a Azenha de Pedra e vai dividindo o Termo (Concelho) de Vila Viçosa e Juromenha e mete-se no Rio Guadiana no Sítio do Azinhalinho, onde perde o nome.
A Ribeira de Pardais tem neste Termo (Concelho) um moinho chamado dos Azaboeiros. Tem mais quatro Azenhas a saber: De Valverde, do Boticário, dos Frades, e a da Rocha.
As pescarias que se fazem no Rio Guadiana e nestas Ribeiras que temos tratado, são livres e fazem-se tão só no Inverno, porém no Guadiana e na Lucefece todo o ano nos Pégos que têm fundura.
Só o Guadiana e as Ribeiras de Lucefece e Pardais correm todo o ano, mas o curso arrebatado tão só no Inverno no tempo que enchem por causa das chuvas.
Estas Ribeiras não são navegáveis não têm aptidão para isso, só o Rio Guadiana é navegável na latitude e não na longitude, porque de Inverno pela longitude é perigoso por ser arrebatado e de Verão não leva água com capacidade de nadarem embarcações e só nas péguias que conserva todo o ano são lugares certos onde andam as barcas que servem de transporte.
Alandroal, Abril de 1758
O Pior Bento Ferrão Castelbranco
Achamos uma excelente descrição do celebrado rio Guadiana e de seus afluentes, no espaço geográfico do então Concelho do Alandroal, acaba por englobar não só a Freguesia de Nossa Senhora da Conceição, como também, a Freguesia de Nossa Senhora do Rosário, neste caso, muito melhor do que o Pároco desta Freguesia.
São muito bem descritas as principais Ribeiras e Ribeiros que se encostam ou passam pelo interior do Concelho, ou seja, a Ribeira de Pardais a Ribeira do Alandroal e a Ribeira de Lucefécit, esta última, recebe as águas da anterior e, desagua no Rio Guadiana, no Pégo de Dona Catarina de Sousa, esposa de D. João Freire de Andrade, Senhor da Vila de Ferreira na centúria de 1400, ou seja, junto às herdades de Aguilhão na margem esquerda, e do Roncão na margem direita, sendo esta no Concelho de Terena e Freguesia de Santo António (Capelins).
A Ribeira de Pardais, também morre no rio Guadiana no Sítio do Azinhalinho.
Não foi transcrito à palavra.

Fim

Correia Manuel

Março de 2025

De: Memórias Paroquiais da Matriz do Alandroal - 1758

Igreja de Nossa Senhora da Conceição do Alandroal



segunda-feira, 24 de março de 2025

São Brás dos Matos - Mina do Bugalho - Juromenha - 1758

História e estórias do celebrado rio Guadiana e de seus afluentes

2 - São Brás dos Matos - Mina do Bugalho - Juromenha - 1758

Respostas sobre o rio Guadiana e seus afluentes, pelo Pároco Frei Manuel Dias Ribeiro, da Paróquia de São Brás dos Matos - Mina do Bugalho, Juromenha - ao Marquês de Pombal Sebastião José de Carvalho e Melo, Secretário de Estado do Reino (Primeiro Ministro) do rei D. José I, em 27 de Abril de 1758.

Rio Guadiana - 1758

"Entra nos limites desta Freguesia para o lado do Nascente, na herdade da Palmeirinha, o rio Guadiana e compreende este a distância de meia légua de comprido dentro do qual estão três moinhos com seis aferidos (cada moinho devia ter dois conjuntos de mós) e aquela parte do rio Guadiana que entra nesta Freguesia é abundante de peixes em especial as célebres iroses ou (eiroses) que se pescam no dito rio e os famigerados barbos pela sua grandeza (dimensão, parece que, neste rio, havia barbos que pesavam uma arroba, ou seja, 15 Kgs). 

Entra no circuito desta Freguesia a Ribeira chamada de Pardais, a qual tem o seu nascimento na herdade da Alagoa, Termo (Concelho) de Vila Viçosa, e entram as águas da dita Ribeira (nesta Freguesia) à Azenha chamada da Rocha onde naquela parte compreende o Termo (Concelho) de Vila Viçosa com as quais águas movem sete engenhos que se acham dentro desta Freguesia na dita Ribeira de Pardais, cuja Ribeira entra para a parte do Nascente no rio Guadiana na herdade chamada de Nateiras de Baixo." 

São Brás dos Matos, vinte e sete de Abril de mil setecentos e cinquenta e oito

O Pároco Frei Manuel Dias Ribeiro 

Destaca-se, apenas, a já conhecida Ribeira de Pardais.

São Brás dos Matos - Mina do Bugalho, no ano de 1758, quando o Marquês de Pombal fez este Inquérito a todas as Paróquias do Reino, pertencia ao Concelho de Juromenha, o qual, foi extinto em 06 de Novembro de 1836.

Neste Inquérito, entre outros pedidos, incluía os rios existentes na respetiva Freguesia, onde cada um nascia e, onde morria, como era o seu caudal, se criavam peixes e de que espécies, se faziam pescarias, se eram navegáveis, a qualidade das suas águas e outras caracteristicas. 

O Pároco Frei Manuel Dias Ribeiro, foi muito parco nas informações prestadas ao Marquês de Pombal, valha-nos as respostas que escreveram os vizinhos, Párocos da Matriz de Juromenha e da Freguesia de Vila Real, que muito informaram sobre toda esta região, que nem era a sua, porque, eram/são muitos os cursos de água que atravessam este território de São Brás dos Matos, e vão entrar no rio Guadiana.

O Pároco Frei Manuel Dias Ribeiro, confirma que, o celebrado rio Guadiana entrava na Freguesia de São Brás dos Matos no lado do Nascente, no Sítio chamado herdade da Palmeirinha, e percorria esta Freguesia na distância de meia légua.

O Pároco escreveu que, esta parte do rio Guadiana era abundante em peixes, mas apenas indicou que pescavam as eirós, grandes barbos e nada mais escreveu.

Nessa data, existiam três moinhos no Rio Guadiana nesse espaço geográfico, com seis aferidos, decerto dois conjuntos de mós cada um, mas não escreveu os seus nomes.

Quanto à Ribeira de Pardais, o Pároco escreveu o principal, ou seja,  onde nascia, por onde passava, quantos moinhos tinha na Freguesia, onde entrava na Freguesia e no rio Guadiana, mas não escreveu se era caudalosa, sobre a qualidade das suas águas, o nome dos moinhos, se era navegável, que espécies de peixes criava, e se nela havia pescarias livres.

Sabemos que, o rio Guadiana aqui não tinha barca, decerto, teria só os pequenos barcos de pesca, porque, existia, não muito distante a barca de Juromenha que fazia os transportes entre as duas margens do rio, e um pouco a juzante, assim que a corrente do rio o permitia, era colocada uma ponte de madeira desmontável, que permitia a passagem para um e outro lado, uma vez que, toda a região do Concelho de Olivença, até à Ribeira de Tálega, era/é portuguesa, embora com administração espanhola desde 1801, onde existiam/existem as localidades de: Vila Real, (esta Freguesia pertencia ao Concelho da Vila de Juromenha), Olivença, São Domingos de Gusmão, São Jorge de Olôr, São Bento da Contenda e Tálega.

As restantes respostas, sobre o rio Guadiana, que não foram dadas por este Pároco, conseguimos imaginá-las, através das que foram escritas pelos ditos Párocos das Freguesias vizinhas.

Fim 

Correia Manuel

Março de 2025

De: Memórias Paroquias de São Brás dos Matos - 1758 

São Brás dos Matos





sábado, 22 de março de 2025

A lenda da mãe de todas as cheias, em 1876

 A lenda da mãe de todas as cheias, em 1876


Foram várias as cheias históricas do celebrado rio Guadiana, mas nenhuma como a da horrível, tenebrosa e inolvidável noite de 6 para 7 de Dezembro de 1876 que, deixou marcas, não só nos campos agricolas, como em todas as localidades ribeirinhas de além e daquém Guadiana.
A cidade de Badajoz foi toda inundada e devastada, de tal forma que, o seu Alcaide julgou que, o Oceano tinha subido o rio Guadiana e ali estava pregado, apressando-se a enviar um telegrama ao seu Ministro em Madrid que dizia o eguinte: " El Guadiana se fué, há llegado el Oceano", ou seja, o Guadiana desapareceu, chegou o Oceano.
A mãe de todas as cheias, naturalmente, passou pelas terras de Capelins, levando os seus moradores, consternados pela devastidão, aos outeiros das margens do rio Guadiana para, verem com os seus olhos o que tinham ouvido dizer, e o que eles viram ficou registado numa lenda que conta essa tragédia, mas também conta uma situação hilariante, quando os moradores da Freguesia de Capelins estavam boaquiabertos a comentar e a olhar para a grande cheia, surgiu na corrente uma grande almiara, ou seja, uma serra de palha, muito direitinha e sem nenhuma beliscadura, porque a palha de centeio que a tapava não a deixava desmoronar, mas, ficaram ainda mais abismados quando avistaram em cima dela, um grande e lindo galo empoleirado no ponto mais alto, sempre a cantar, e passou sem ninguém conseguir deitar-lhe a mão, conforme a lenda, parece que, a viagem desse galináceo terminou em Monsaraz, onde o apanharam.
Esta grande cheia arrasou uma parte da Vila de Mértola, fazendo desabar muitas casas num instante, devido a serem de taipa e à força da corrente, mas também, pelo embate de grandes massas de lenhas, árvores completas e tudo o que a corrente arrastou.
A Vila de Alcoutim, situada nas margens do rio Guadiana, também não escapou à fúria desta cheia que, abateu cerca de sessenta casas na Vila e Montes e, fez pelo menos onze mortos, além de ter provocado grandes prejuízos, irreparáveis, a todos os moradores, ficando esta desgraça gravada na memória das suas Gentes, sendo transmitida de geração em geração.
A Vila de Alcoutim, era próspera, mas nunca mais foi a mesma, embora, tenha havido alguma ajuda na reconstruão das casas e aos agricultores mais prejudicados.
Em ambas as Vilas, assim como, na cidade de Vila Real de Santo António, lá está a marcação do ponto alcançado pelas águas, da mãe de todas as cheias, do celebrado rio Guadiana.

Texto: Correia Manuel

Fim

De: Consulta na internet, a vários artigos, sobre a dita cheia.
Igreja da Misericórdia - Alcoutim, com a placa do sítio alcançado pelas águas, e está situada a mais de cinquenta metros de distância do rio Guadiana
De: Algarve marafado

(Foto de: José Carlos Eusébio)




Nossa Senhora do Loreto - Vila de Juromenha - 1758

História e estórias do celebrado rio Guadiana e de seus afluentes

1 - Nossa Senhora do Loreto - Vila de Juromenha - 1758

Respostas do Prior Frei Gaspar Mendes Fragoso, da Paróquia de Nossa Senhora do Loreto - Vila de Juromenha, ao Marquês de Pombal Sebastião José de Carvalho e Melo Secretário de Estado do Reino (Primeiro Ministro) do rei D. José I, em 08 de Abril de 1758.
"O rio que se acha nas vizinhanças desta Vila de Juromenha e muito próximo a ela é o celebrado Guadiana.
Dizem os que melhor notícia dele têm, que este rio tem seu nascimento em Espanha, entre duas serras de Aragão e que nasce de duas fontes que juntas formam este caudaloso rio e que no mesmo Reino entra por baixo da terra sete léguas, dizem outros que cinco, o certo é que no nosso Reino de Portugal, se vê a corrente à superfície.
Não há dúvida que caudaloso parece o seu nascimento, porque impetuosa é a sua corrente, principalmente de Inverno, no que se vê nas memoráveis grandes cheias, que servem de admiração. Em todo o ano, não deixa de correr, mas de verão com pouca abundância, que sucede passarem-no a pé descalço, dizem alguns que isso sucede por causa de lhe tomarem as águas para regarem, naqueles campos lá na Castella o que é preciso regar-se, outros dizem que a multidão de gado que baixam de várias terras lhe diminuem as águas, (ou seja, a seca no verão era porque a multidão de gado lhe bebia a água). O certo, é que de Verão se vâ o rio de águas muito empobrecido, sendo no inverno tão enriquecido delas.
Neste rio, em distância de tiro de espingarda, se mete a Ribeira de Mures, e em distância, de quase meia légua a Ribeira da Asseca, isto é, junto a esta Vila que em distâncias maiores se metem outras Ribeiras e Ribeiros, neste Termo (Concelho) só a Ribeira de Pardais na distância de uma légua, e três Ribeiros de menos qualidade, em distância de meia légua ou menos, como são o de Fatalão desta parte de cá do rio e da outra o de Vila Real e o de Freixial.
É navegável este rio Guadiana, e as suas embarcações não excedem a Barca (de Juromenha) e os seus barquinhos e não me parece que pode admitir outras e são as que nele vi e não ouvi o contrário.
Parece-me que o seu curso todo é o mesmo em todo o rio, arrebatado mais no Inverno pelas impetuosas águas que mais o faz enfurecer e de verão muito pacífico e quieto pela diminuição delas e bom sossego, e isto me parece, lhe sucede em toda a sua corrente, porque o contrário não me consta.
Este celebrado rio tem sua corrente do Nascente para o Poente.
Cria este rio muitos peixes, de vários nomes e de diversas espécies, uns são barbos, outros cumbos, outros beissudos, outros verceiros, estes são os de maior qualidade, há barbos que chegam a pesar de dois, vinte e trinta arrates, há também outra qualidade de peixes de menos grandeza e que se chamam escárpios, e pencas, os maiores pesam quatro, cinco, seis arrates, fora desta qualidade há eirozes, (ou iroses) que são como as enguias do mar, há muito peixe miúdo, bogas, bordalos, saralosas, pardelhas e outros. Neste rio há um celebrado pégo chamado Pégo do Lima que pelos especiais escárpios e pencas que o enriqueciam nele se faziam grandes e célebres pescarias de Verão pela abundância de água que lhe ficava, hoje se acha sem péguios, e só conserva a água no tempo do Inverno e já estas pescarias têm sessado por esta causa.
A foz da Mures e da Asseca que no dito Rio entram como já disse, em qualquer delas, se fazem pescarias, de toda a qualidade de peixes, e os principais, e em mais abundância, bogas e bordalos.
As pescarias que há neste rio, mais vistosas se fazem no verão, com redes e moscões, com que se pescam os mais, e mais nobres peixes.
Não consta que as pescarias deste rio seriam captivas, nem de pessoa particular, mas livres, para todas as pessoas e não sei que se pratique o contrário.
Ás águas deste rio, lhe não conheço virtude particular, só ouço dizer que é bom beber a água pelo pau da tarrafeira que no dito rio há muita e que esta água pelos copos da tal tarrafeira é boa para desfazer a obstrução (obstipação?). Eu não a experimentei.
O dito rio Guadiana, não sei que tenha outro nome neste Reino, ou fora dele, mas antes nas histórias onde se fala deste rio, sempre com o mesmo nome.
Este rio morre e finda no mar, junto à Vila de Serpa, onde chamam o Salto do Lobo, digo Mértola.
É certo que este rio por todo ele tem muitos açudes e moinhos, e por isso não se pode em toda a parte navegar, mas tão somente nas partes desimpedidas.
Não tenho notícia que este rio no nosso Reino, tenha mais de uma ponte, em distância desta Vila uma légua, na Freguesia da Senhora da Ajuda, Termo de Elvas, que se acha demolida a principal parte dela, que se não passa, e é de cantaria.
Não sei das léguas que o rio tem, nem as povoações por onde passa, só algumas no nosso Reino. De Badajoz para este Reino, passa pelo Termo (Concelho) de Elvas, Termo (Concelho) de Olivença e por esta Vila de Juromenha e pelas vizinhanças de Monsaraz, Mourão, Moura, não sei se passa por Serpa ou Beja.
O Prior Frei Gaspar Mendes Fragoso"
O nosso objetivo principal, é conhecer um pouco da história e eventuais estórias do Rio Guadiana na centúria de 1700 e, ninguém melhor do que os Párocos das povoações ribeirinhas para as contar, vamos, assim, comparar o que cada um, dos 10 Párocos das Paróquias entre a Vila de Juromenha e a Vila de Mourão, escreveram sobre o celebrado rio Guadiana e seus afluentes, nesse ano de 1758.
Vamos fazer uma viagem, recuando mais de 260 anos, pelas localidades ribeirnhas do celebrado rio Guadiana, desde a Vila de Juromenha, até à Vila de Mourão, passando pela Freguesia de São Brás do Matos - Mina do Bugalho, Freguesia de Nossa Senhora do Rosário - Aldeia do Rosário - Alandroal, Freguesia de Nossa Senhora da Conceição, Vila do Alandroal, Freguesia de São Pedro da Vila de Terena, Freguesia de Santo António de Capelins, Freguesia de São Tiago - Vila de Monsaraz, Freguesia de Nossa Senhora da Lagoa - Vila de Monsaraz, e Freguesia de Nossa Senhora das Candeias - Vila de Mourão.
Os padres destas Paróquias ou Freguesias, deixaram-nos este legado através das Memórias Paroquiais de 1758, na resposta ao Inquérito do Marquês de Pombal e, neste caso, no que se refere às informações sobre o rio Guadiana e seus afluentes, conseguimos ficar com uma ideia, como eram naquela data, e fazer a comparação com as eventuais mudanças em mais de 260 anos.
Todos sabemos que, a principal mudança na região abrangida, foi a Albufeira de Alqueva, de tudo o resto pouco mudou, a não ser a situação de Vila Real e todo o Concelho de Olivença ficar sobre domínio espanhol desde 1801 e nada se resolveu, sobre os limites oficiais da verdadeira fronteira entre os dois países.
São descritas as características do dito rio, como o conhecemos, muito caudaloso no Inverno, com grandes cheias, e quase seco no verão.
Conhecemos os seus principais afluentes, Ribeiras e Ribeiros, onde se situavam, onde nele entravam, as espécies de peixes que existiam em cada Ribeira e no Guadiana e que se faziam grandes pescarias.
Quanto aos seu lugar de nascimento o Prior de Juromenha achava que, era entre duas serras de Aragão a partir de duas fontes que juntas formavam este caudaloso rio e ainda naquele Reino de Aragão metia-se por baixo da terra sete léguas, ou cinco, ou fossem as que fossem, o certo é que quando entrava no Reino de Portugal já corria à superficie.
Sabemos que, os conhecimentos geográficos de então, eram muito limitados e, por vezes os lugares não eram bem identificados, neste caso, quanto ao lugar do nascimento do rio Guadiana, ainda hoje não existe consenso quanto ao sítio certo.
Encontramos em diversos artigos e livros que o seu nascimento é nas lagoas da Ruidera na província espanhola de Cidade Real, porém, existem outras versões, como a seguinte:
"A lenda de um rio que desaparece e reaparece sobreviveu até ao século XX. Ainda hoje se aceita como referência em alguns livros, além da tradição popular.
No entanto, não existe nenhum curso subterrâneo, como também, não parece que sejam as lagoas de Ruídera, o ponto de origem do rio Guadiana, ou pelo menos, somente nestas lagoas, a juzante delas, as águas infiltram-se através das rochas porosas, reaparecendo no lugar dos olhos do Guadiana, pelo que, aceita-se o seu nascimento neste lugar, nos Ojos del Guadiana.
Voltando às Memórias Paroquiais de 1758 dos Párocos desta região, podemos verifcar que, quase todos, assim como os moradores das povoações ribeirnhas, achavam que a foz deste celebrado rio, era no Oceano junto a Mértola, talvez, por ouvirem dizer que, nesse lugar, já existia influência das marés, porém, o Prior da Vila de Juromenha, achava que a foz ainda era mais acima, ou seja, no Salto do Lobo, (Pulo do Lobo), Mértola.
Era muito natural haver algumas confusões, porque, nesses tempos de 1700, era difícil viajar e, apenas era conhecido o que os povoadores e viajantes que chegavam a estas terras vindos dessas regiões aqui contavam, ou seja, as notícias vinham por boca, e muitas vezes eram incompletas.
É de salientar que, este Prior de Juromenha, o designava por "celebrado rio Guadiana", uma forma de o engrandecer e, mostrar ao Marquês de Pombal que este rio era um bem comum, porque ajudava a comunidade, se mais não fosse, com o seu bom peixe que, matava a fome a muita gente, porque, por vezes, os pescadores doavam o peixe que nele pescavam, ou vendiam-no a preços simbólicos.
A escrita do dito Prior é perfeita, mas há palavras que não é fácil transcrever, embora raras, e nesses casos, fomos procurar o sentido da frase, logo a transcrição não está à palavra.
Como sabemos, o rio Guadiana, nesta região e não só, sofreu algumas mudanças, em mais de 260 anos, já não tem barcas, os moinhos já não moem e, devido à Albufeira de Alqueva, a maioria deles estão submersos, porém, surgiram outras estruturas, como as diversas praias nas margens do Grande Lago e, como escreveu o Alcaide de Badajoz no telegrama ao seu ministro, na grande cheia de 1876: "o Guadiana desapareceu, chegou o Oceano".
O rio Guadiana, deixou muitas saudades, aos que o frequentavam, pela sua magia, pelas memoráveis cheias, pelos cheiros da flora das suas margens e ilhas, pelos banhos em águas selvagens e pelas festas nas pescarias que nele se faziam.
É caso para escrever: Até sempre, celebrado rio Guadiana.

Fim

Correia Manuel

Março de 2025

Vila de Juromenha



sábado, 1 de março de 2025

Memórias do Chiquinho de Capelins, quando se foi confessar

Memórias do Chiquinho de Capelins, quando se foi confessar

O Chiquinho de Capelins, quando andava na Escola de Instrução Primária, nunca faltava às missas na Igreja de Santo António, porque, era obrigado a acompanhar as professoras, a Dª Eva, a Dª Amélia sua irmã, professora na Aldeia dos Orvalhos, mas vinha ter com a irmã, aos fins de semana, e a Neca, a empregada da casa delas, embora, fosse contrariado, porque havia rapaziada que o criticavam, mas não tinha outro remédio.

Em meados do decénio de 1960, o padre da Paróquia de Santo António de Capelins era o mesmo da Paróquia de Santiago Maior, onde morava numas casas desta Paróquia ao lado da Igreja de Nossa Senhora dos Remédios, na Aldeia dos Marmelos, mas não se descuidava da Paróquia de Santo António, onde rezava a missa aos Domingos e visitava a Escola Primária em qualquer dia da semana e alguns compadres como o ti Xico Paulino, na sua taberna, onde comia sempre uns amendoins, enquanto se ia inteirando da vida dos seus paroquianos se andavam dentro da linha e, se havia alguma novidade do seu interesse.
Na Escola Primária, assim que o padre Silva entrava, a rapaziada corria a fazer uma fila e, à vez iam todos e todas a pedir a sua benção e a beijar-lhe a mão, coisa que alguns rapazes detestavam, devido a boatos, que ele não lavava as mãos e mexia aqui e ali e outras coisas piores, por isso, uma vez um aluno em vez de a beijar cuspiu-lhe para a mão, depois teve sorte, ficar com as orelhas, a professora não perdoava.
Em alguns Domingos no final da missa, o padre Silva, fazia as confissões, mas avisava antes na Escola para a rapaziada serem preparados como se fossem fazer um exame, logo, tinham de levar decorados os episódios dignos de ser punidos pelo padre depois da confissão, senão, não iam lá fazer nada, então, as conversas entre a rapaziada nos dias antes, eram todas sobre o que iam dizer ao padre na confissão.
Assim, no Domingo marcado para a confissão, a Igreja de Santo António estava cheia, com os habituais devotos e com a rapaziada da Escola, familiares, e professoras, quando o padre deu o sinal começaram a ir um a um ao confessionário e quando chegou a vez do Chquinho, foi todo lampeiro, ajoelhou-se e ficou à espera que o padre dissesse alguma coisa, porque não o via, nem sabia onde ele estava, tinham de falar para a janelinha, por fim, ele perguntou-lhe que pecados queria confessar? Ele não se lembrava de nada e respondeu:
Chiquinho. Não sei! Não me lembro de fazer nada mal!
Padre. Não sabes? Mau, mau! Então não sabes o que fizeste de mal? O que não devias ter feito?
Chiquinho: Ah! Isso sei!
Padre: Então se sabes diz lá, que é para receberes o perdão de Nosso Senhor Jesus Cristo!
Chiquinho: Olhe, a minha mãe mandou-me ir aventar uma bacia de água prá rua e eu não a aventei!
Padre: Ora aqui temos um pecado, e muito grave, sebes porquê?
Chiquinho: Sei, sei! A água não podia lá ficar pra sempre! A bacia tinha de levar água nova!
Padre: Não é nada disso, a água até podia lá ficar!
Chiquinho: Ah podia?
Padre: Poder, podia! Mas o pecado é outro! Ora, diz lá os 10 Mandamentos!
O Chiquinho começou a dizer os 10 Mandamentos e, quando chegou ao quarto o padre fez-lhe alto e mandou repetir:
Chiquinho: Honrar pai e mãe!
Padre: Estás a ver? Tu pecaste por teres faltado ao respeito à tua mãe, logo não a honraste, meu filho! Vais ter de rezar muito e pedir perdão a Nosso Senhor Jesus Cristo, e nunca mais faltes ao respeito à tua mãe! Está entendido?
Chiquinho: Está, está! Não falto, não! Nunca mais! Vou sempre aventar as bacias de água que a minha mãe me mandar!
Padre: Vá, mais!
Chiquinho: Mais o quê?
Padre: Mais pecados que cometes-te! O que havia de ser?
Chiquinho: Ah, pois! Então, a minha mãe mandou-me à cabana da mula a ver se havia lá ovos das galinhas e eu fui brincar pro meio da Aldeia e nunca mais me lembrei!
Padre: Outro pecado grave, meu filho, é igual ao outro! Já sabes o que tens de fazer! Tens de rezar muito meu filho e pedir perdão a Nosso Senhor Jesus Cristo! Outro, vamos embora!
Chiquinho: Ora, outro? Agora não me lembro de mais nenhum, só se for o de bater nas raparigas lá na Escola!
Padre: Ai valha-me Deus! Tu fazes uma coisa dessas? Que pecado tão grave!
Chiquinho: Só lhe bato às vezes, quando elas me chamam nomes e também me batem!
Padre: Mas quando isso acontecer vais dizer à professora e não bates em ninguém! Na nossa doutrina está lá que, se alguém nos bater numa face oferecemos a outra! Isso quer dizer que, nunca podemos responder à violência com violência! Vais ter de rezar muito meu filho! Vais, vais! Vá, vai lá, e rezas três Pai Nossos e três avé Marias! E nunca mais faltes ao respeito à tua mãe e não bates nas raparigas na Escola, senão, ainda tens de rezar muito mais!
Chiquinho: Está bem! Está bem! Nunca mais faço isso!
O Chiquinho estava em pulgas para que a confissão acabasse, porque, se o padre Silva pedisse mais pecados, já não se lembrava de inventar mais nada e, se tivesse de entrar no campo da verdade, decerto, levava grande desanda, ficava com as orelhas a arder e, nunca mais acabava de rezar, mas não foi tão mau como chegou a pensar e, mais tarde percebeu, a importância dessas lições de moral do padre Silva.
Fim
Texto: Correia Manuel

Igreja de Santo António de Capelins




quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

A Vila de Terena Romana

 A Vila de Terena Romana

Como sabemos, a Vila de Terena, antigamente, antes de 1314, até ao reinado de D. Dinis, ficava situada no ângulo formado pela Ribeira de Lucefécit e o Ribeiro do Alcaide, junto ao atual Santuário de Nossa Senhora da Boa Nova, porém desconhecíamos que a dita Vila foi antecedida pela Mansio de "Aturnea", uma corruptela de Ad Adrum Flumen, seria esta a designação original, conforme consta no Tomo IV (pp. 99-100) Mario Saa.
O que era uma Mansio?
Mansio, no plural mansiones, era, na Roma Antiga, um edifício, mansão ou pousada, as vezes fortificada, propriedade do Estado, situado ao longo das vias romanas, destinado a albergar funcionários do Estado em viagem (funcionários civis e militares, do Curso público (Correios) e de particulares munidos duma licença diplomata dada pelo imperador). Essas pousadas disponibilizavam gratuitamente aos viajantes e seus acompanhantes comida e dormida assim como forragens e cortes para os animais ou troca desses se for necessário.[3]
FUNCIONAMENTO
Como as grandes vias do Império eram usadas para o transporte de fundos públicos ou de minério precioso, provisões, armas e outros bens, nas mansiones, havia não só cavalos de disponíveis, mas também carroças de vários tipos, burros, bois para as necessidades dos correios e dos outros vários transportes do estado. Por isso nas mansiones havia sempre quarenta cavalos de reserva (lei 3, Código de Teodósio do Curso Público). Para a alimentação, estes locais eram abastecidos com palha, feno e aveia (lei de annona et tributis Cód. de Teodósio), e o mancipes era encarregado para ter sempre alguns animais de reserva (lei 35, lei 40 do cursu publ. Cód. Teod., Lei 8, Código Justiniano). Os stratores eram os escudeiros sob as ordens dos mancipes. Abaixo deles havia o catabulen que carregava e descarregava as carruagens, cargo ocupado muitas vezes por criminosos condenados a este tipo de servidão. Os muliones ou hippocomi eram os palafreneiros e enfim havia os (mulomedici) para cuidarem da saúde dos animais.[4]
As mansiones situavam-se ao longo das estradas, depois de dois ou três mutationes conforme se vê no Itinerário Antonino.[5] A distância entre duas mansiones correspondia à uma jornada de viagem com os meios de transporte da época. Esta distância era de mais ou menos 30 quilómetros, dependendo do tipo de via e do estado em que se encontrava. Cada mansio correspondia ao ponto final da jornada, sendo a Mutatio uma paragem intermédia de muda de animais com serviço de taberna.[6]
Sempre que se reuniam as condições mínimas, as mansiones tendiam a converter-se em cabeceiras de civitates, por forma a facilitar tanto a administração local, como para nelas instalar os centros comerciais do território, assim como armazéns - horrea - alguns dos quais, como os destinados a produtos de primeira necessidade como o sal, eram imprescindíveis.[6]
No latim literário da Roma Antiga, o termo tinha o significado de "morada" e "habitação", assim como de "hospedaria". Esta acepção da palavra continuou nas línguas românicas, de que é exemplo a "mansão" do português semi-erudito, com o significado de "habitação sumptuosa".[7] Wikipédia.
Assim, se o estudo do escritor, pensador e historiador Mario Saa, (1893-1971) estiver correto, e depois de lermos sobre o que é uma Mansio romana, imaginamos o grande centro comercial que seria a Vila de Terena Romana, por isso, quando foi conquistada e reconquistada aos Mouros era uma grande Vila, popularmente chamada Vila Longa, mas não entendemos, porque não tinha um Castelo ou uma Fortaleza nesse lugar da Vila.

Vila de Terena Romana
"As Grandes Vias da Lusitânia"
Do livro "Itinerários Romanos do Alentejo" de André Carneiro"
(...) "O troço seguinte está menos documentado no terreno. Não devemos esquecer que o objetivo estratégico deste percurso seria o de servir as pedreiras de mármore; mas existe um outro ponto de passagem quase obrigatório, e que consistia no Santuário Endovélico em São Miguel da Mota. (105. Não deixa de ser curioso notar que nesta área regional "Mário Saa" faz depender o itinerário romano, não do Santuário de Endovélico, mas do Santuário medieval de Nossa Senhora da Boa Nova em Terena, onde no Tomo IV pp. 99-100, vai situar a mansio de "Aturnea" uma corruptela de Ad Adrum Flumen. Sendo a sua base de estudo para esta zona essencialmente a documentação medieval, criou-se um anacronismo evidente para o estudo dos caminhos romanos).
A passagem da Ribeira de Lucefécit deveria ser feita na base do Santuário à sombra, do genius loci, acentuando a sua evidente função protetora e quase paternal sobre os viajantes/peregrinos; mas no terreno não têm sido encontrados grandes rastos do caminho. De qualquer forma entre os vários itinerários que Mário Saa vai indicando, há um que parece o mais plausível: "A Ribeira de Lucefécit era, imediatamente transposta defronte do Santuário (de Endovélico), para o Monte do Barranco de Baixo. A Via, no seu estado natural ainda, corta a foz do Ribeiro de Alcalate, afluente da Ribeira de Lucefécit, e avança para Nordeste, por entre matas de azinheiras, pelos Montes, do Pigeiro, Tojoso, Calvino, Boavista, Ferrarias, Mina do Bugalho, Pão Mole, Galvões, Pocinho, Várzea, Mimosa, Bacêlos, Juromenha (...).
Do livro: "Itinerários Romanos do Alentejo" de André Carneiro.
Sendo assim, se a Vila de Terena foi a Mansio "Aturnea" Romana, decerto, foi um grande Centro Comercial, visto ser um entreposto com estalagens, restaurantes e outros comércios. 
Sendo resultados de estudos de especialistas, como Mário Saa e outros, embora conhecendo o terreno, nada podemos acrescentar.

Por: Correia Manuel
Santuário de Endovélico em Terena 

Foto da net



Os tradicionais tarros de cortiça, na Freguesia de Capelins

Os tradicionais tarros de cortiça, na Freguesia de Capelins  O tarro é uma vasilha tradicional feito de cortiça que se usava na Freguesia de...