sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Os tradicionais tarros de cortiça, na Freguesia de Capelins

Os tradicionais tarros de cortiça, na Freguesia de Capelins 

O tarro é uma vasilha tradicional feito de cortiça que se usava na Freguesia de Capelins, assim como, em todo o Alentejo, para transportar ou conservar os alimentos quentes ou frescos sem sofrerem alterações na temperatura durante algum tempo.

O tarro tinha isolamento térmico natural, devido à estrutura da cortiça, que é formada por uma quantidade de pequenas células fechadas, ocupadas, principalmente com gás, leve, elástica, pouco permeável e transmite mal o calor quando comparada com outros materiais e nas paredes das células encontra-se, entre outros componentes, a suberina, substância que contribui para a sua impermeabilização e resistência.

Um tarro, não era fácil de fazer, porque era feito à mão, com cortiça escolhida e preparada por um artesão, ou por um ganadeiro que tivesse habilidade para o fazer.

Para fazer um tarro começavam por cortar uma folha ou faixa de cortiça à medida do tamanho do tarro que queriam construir e como o corpo era curvado, uma vez que, a sua forma era redonda, ou seja, circular, não podia partir, sendo depois as duas partes ajustadas, a cortiça era cozida, descascada e lixada para ficar lisa, e voltava a ser cozida para se tornar maleável, as duas extremidades eram cortadas com uma navalha, de alto a baixo, com os cortes em sentido contrário, um por fora, outro por dentro, para ficarem sobrepostas ao mesmo nível e eram fixadas com uma faixa ou tira de cortiça e ao longo da junção de ambas, apanhadas por cavilhas feitas de madeira, geralmente  de esteva, por ser muito resistente, o fundo era desenhado à medida por dentro para ser fixado com as ditas cavilhas e a  tampa era medida por fora e depois cortada em volta desnivelada para com a elasticidade da cortiça encaixar e ficar ajustada e podia ter um pequeno puxador ao centro para se abrir com mais facilidade, a asa era feita de madeira leve e resistente que o artesão sabia ser a melhor para suportar o peso do tarro cheio de comida, e era fixada ao corpo com as mesmas cavilhas de madeira, as quais, se fossem bem feitas serviam de ornamento, e não existiam metais na sua estrutura. 

Havia tarros de todos os tamanhos e capacidades, que podiam levar a comida para uma pessoa ou para grandes grupos de trabalhadores no campo, acompanhavam os ganadeiros pelos campos, com a asa enfiada no braço, ou se andavam a de comer, antes do meio dia iam os ajudas ao Monte da herdade a buscar a comida no tarro, mas também existiam nas casas nas Aldeias e nos Montes das herdades para guardar pão, queijos, bolos e outros alimentos, ou para o escamel levar a comida aos ranchos de homens e mulheres que trabalhavam nas herdades a de comer, e a comida chegava ao campo em melhores condições.

O tarro, também era muito usado pelos seareiros da Freguesia de Capelins, porque saiam cedo a trabalhar para as suas courelas e as sopas de grão, feijão ou couve, ficavam a cozer na panela ao lume em casa, depois antes do meio dia, eram arredadas do lume e metidas dentro do tarro, para ao meio dia alguém da casa, estar com elas na courela ainda quentinhas, graças ao tarro de cortiça.

Alguns tarros tinham trabalhos decorativos, a cortiça era entalhada à navalha, formando motivos geométricos, rosetas, estrelas, padrões repetidos, nomes, iniciais, datas e outros.

Durante muito tempo, os tarros transportaram comida pelos campos, hoje, transportam memórias e, neste caso, a história etnográfica da Freguesia de Capelins. 

Fim 

Texto: Correia Manuel 

(Fotografia do museu Municipal de Estremoz)




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