Os tradicionais cochos de cortiça, na Freguesia de Capelins
O cocho era um utensílio tradicional feito de cortiça que se usava na Freguesia de Capelins, tal como em todo o Alentejo, para beber água, em vez dos copos, tendo os cochos de cortiça grande importância etnográfica e histórica nesta Freguesia.
Um cocho, ou cocharro, como também lhe chamavam em alguns lugares do Alentejo, não era fácil de fazer, porque era feito à mão, apenas com uma navalha, puro artesanato, geralmente eram feitos por ganadeiros, enquanto guardavam o gado, ou por outras pessoas com habilidade e tempo para os fazer, a partir de um pedaço de cortiça grosso, cuja escolha do artesão era crucial, se tivesse um nó era mais adequada para dar origem a um cocho resistente e duradouro, nessa cortiça faziam uma concavidade semelhante à mão humana semi fechada, ou a uma concha, com uma pequena parte direita atrás, para lhe pegarem sem as mãos mergulharem na água, porque os trabalhadores do campo, que os usavam nas Fontes, por vezes tinham as mãos cheias de terra ou de lama.
Antigamente, havia cochos de cortiça em quase todas as casas da Freguesia de Capelins, não havia copos de vidro, nem de plástico, quase toda a gente bebia a água por um cocho ou, mais tarde, por uma caneca de alumínio, à qual chamavam um quartilho.
Os ancestrais contavam que, noutros tempos, em todas as Fontes de água da Freguesia de Capelins, existia um cocho de cortiça, alguns estavam pendurados nas paredes das Fontes lá dentro, onde espetavam uma pequena estaca de madeira para prender o fio que o apanhava na pega passado num furinho que lhe faziam, outros estavam pendurados de uma árvore junto da Fonte ou apoiados em cima da parede, se a houvesse, ou de alguma pedra envolvente, ou em qualquer outro apoio dentro da Fonte, toda a gente tinha respeito e cuidado em o proteger para não se partir, porque tinha de servir quem ali chegasse com sede, e se alguém o partisse sem querer, por estar muito usado, tomava logo medidas para, rapidamente ser reposto.
O cocho de cortiça, também estava pendurado junto às pipas, uns barris com a capacidade de duzentos litros ou mais, feitos em madeira, assentes na estrutura de uma carroça que existiam nos Montes das herdades, debaixo de um alpendre a que chamavam arramadão e, abastecia o Monte, dava de beber aos criados e a quem chegava ou passava, diziam que não se podia negar um cocho de água a ninguém, porque dava azar na vida e, da pipa, também bebiam os animais domésticos como, galinhas, perus, patos, cães, gatos e outros, mas bebiam na pia que ficava por baixo da torneira da pipa, a qual, apanhava a água que se escapava quando a abriam, assim, não se desperdiçava água.
Quando os ranchos de homens e mulheres andavam nos trabalhos do campo, nas sementeiras, alqueve, monda, ceifa, debulha e outros, a água para eles beberem era transportada desde as Fontes ou poços pelos aguadeiros em cântaros de barro e quando pediam água, era-lhes servida num cocho de cortiça e bebia toda a gente pelo mesmo, porque existia a crença que, nenhuma doença se pegava, devido à ação da cortiça.
O cocho de cortiça, é uma herança, um símbolo da identidade cultural desta região rural raiana, neste caso, da comunidade capelinense, e está associado a cenários de narrativas do imaginário popular, como lendas relacionadas com feiticeiras que, bebiam água nas Fontes pelos cochos e neles deixavam o mal, mas a cortiça não permitia a passagem de nada, o seu poder era mais forte que o das feiticeiras e todas as pessoas bebiam pelos cochos, sem nenhum receio de contágio ou malefício.
Fim
Texto: Correia Manuel
Cocho de cortiça
(Fotografia do blogue recordando velhos tempos)

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