quarta-feira, 7 de setembro de 2022

A lenda do bondoso, pastor de Capelins

 A lenda do bondoso, pastor de Capelins


Antigamente, existiam muitos pastores nas terras de Capelins, podemos constatar essa realidade nos registos Paroquias de Santo António. Entre eles, existia um rapaz dentro dos vinte anos que guardava as ovelhas na herdade da Talaveira e andava quase sempre perto da Ribeira do Lucefecit e do Moinho do Bufo. Um dia chegou à hora de almoço (jantar), pegou na alcofa da merenda e quando se preparava para comer apareceu uma velhinha a pedir que lhe desse alguma coisa para comer, porque andava cheia de fome e já não aguentava mais. O pastor era tão bondoso que não hesitou em lhe entregar a merenda, pensando que ela comia um pouco e lhe deixava algum bocadinho de pão com toucinho e azeitonas para ele, mas a velhinha comeu-lhe tudo, nem uma única azeitona lhe deixou, ficando ele cheio de fome até à hora da ceia (jantar), mas no fundo estava muito satisfeito por ter matado a fome à pobre velhinha. 

No dia seguinte, quase no mesmo sítio, à mesma hora, quando o pastor se preparava para almoçar (jantar), apareceu novamente a velhinha com as mesmas lamurias e ele não conseguiu negar-lhe a sua merenda e passou mais um dia cheio de fome. Esta situação repetiu-se vários dias, mudava de sítio, escondia-se no meio das estevas, mas a velhinha encontrava-o todos os dias. O pastor andava já muito fraco, porque à noite no Monte da Talaveira a comida era por conto e, não podia comer mais do que lhe cabia. Até que um dia, estava ele a preparar-se para comer, à mesma hora, apareceu a velhinha e disse-lhe: És uma pessoa muito bondosa, das melhores de Capelins, por isso, e pelo bem que fizeste a uma velha como eu, toma lá esta toalha e sempre que queiras comer estende-a em cima da ervinha, pensas em comidas que gostes, elas aparecem e podes comer tudo o que te apetecer e de seguida transformou-se numa linda mulher nova e desapareceu. A partir daquele dia, quando o pastor estendia a toalha e pensava em comidas boas e bebidas, apareciam, imediatamente e foi comer do bom e do melhor o resto da sua vida. 

Fim 

Texto: Correia Manuel 

Fotografia: Correia Manuel 

Vale da Ribeira de Lucefécit




A lenda da aparição de Nossa Senhora, na Ribeira de Lucefécit, em Capelins

 A lenda da aparição de Nossa Senhora, na Ribeira de Lucefécit, em Capelins

Conta a lenda que, num dia do mês de Abril de 1680, estava uma mulher chamada Joana Rosa, que morava no Lugar de Ferreira, no alto do Monte de Ferreira, a lavar a roupa da família na Ribeira de Lucefécit, num lavadouro que existia abaixo do Moinho na foz do Ribeiro das Neves e, tinha por companhia a sua filha mais nova, chamada Maria Rita, com seis anos de idade.
A ti Joana lavava a roupa e a pequenita brincava por ali, e de repente disse: 
Maria: Olha mãe! Olha, olha!
A Maria tinha nas suas mãos um lindo terço de ouro que brilhava como o sol.
Ti Joana: Ai valha-me Deus! Ai filha, onde achas-te isso? 
Maria: Foi uma senhora muito linda que me o ofereceu! 
Ti Joana: Mas como é que isso aconteceu? Eu não vi aqui ninguém! 
Maria: A mãe estava a lavar a roupa e não viu a senhora, mesmo agora! 
Ti Joana: E onde está a senhora? Para que lado foi?  
Maria: Foi-se embora por ali, e com o dedo indicador direito indicou o curto caminho entre a Ribeira de Lucefécit e o lugar onde está situada a Ermida de Nossa Senhora das Neves!
A ti Joana estava acabando de lavar a roupa, mas já não acabou, pegou na mão da Maria e seguiram naquela direção e, quando se aproximaram, viram a linda senhora que, era Nossa Senhora das Neves, exatamente no lugar onde a sua Ermida foi  construída. 
A linda senhora sorriu para ambas e disse-lhe que era naquele lugar que queria a sua Igreja e antes que a ti Joana pudesse dizer alguma coisa e devolver o terço de ouro, Nossa Senhora desapareceu, deixando como prova, o lindo terço de ouro nas mãos da Maria.
A ti Joana Rosa foi com a filha contar ao padre e aos comendadores, o que tinha acontecido e mostraram-lhe o lindo terço de ouro, eles reuniram e não tiveram dúvidas de que elas falavam a verdade e, como já tinham decidido que a nova Igreja seria construída, exatamente no lugar da Igreja anterior, mudaram, imediatamente o projeto e decidiram que a Igreja de Nossa Senhora das Neves seria construída no lugar onde hoje se encontra, ou seja,  perpendicular à antiga Igreja Matriz de Santa Maria de Ferreira, conforme o pedido de Nossa Senhora.
 
Fim 
Texto: Correia Manuel 

Fotografia: Correia Manuel 

Ermida de Nossa Senhora das Neves em Capelins




A lenda do pastor do Monte do Escrivão, de Capelins

 A lenda do pastor do Monte do Escrivão, de Capelins

Conta a lenda que, ao lado da atual Ermida de Nossa Senhora das Neves, em Capelins, no lugar onde está a necrópole, existia a Igreja Matriz de Santa Maria de Ferreira, mandada construir em 1262, pela família Riba de Vizela, Senhores de Santa Maria de Terena e destas terras.
A Igreja Matriz de Santa Maria de Ferreira, entrou em ruínas nos últimos decénios da centúria de 1600, não sendo possível recuperá-la, visto as paredes serem de taipa, e já estava muito destruída pelo passar dos anos, com pouca manutenção, pelo que, entre o padre e os comendadores foi escolhida a opção de construir uma nova Igreja, com invocação a Nossa Senhora das Neves (a mesma Santa Maria, Nossa Senhora). 
Foi logo feito o peditório em toda a região e, assim que angariaram o dinheiro suficiente, começaram a construir a nova Igreja, ainda na década de 1680, mas quando menos esperavam, acabou-se o dinheiro, os devotos acharam muito estranho e, surgiram conversas que difamavam a comissão, chegando ao ponto de quando foram fazer novo peditório, ninguém deu nada, diziam que não podiam dar mais nada, e foram obrigados a para a obra, e começaram a dizer que já ficava assim, não havia nenhuma solução para poderem acabar a dita Igreja. 
Um dia, andava um pastor a guardar as suas ovelhas perto do Monte do Escrivão e passou um morador do Lugar de Ferreira nas Neves, onde era o sítio da Igreja, chamado Bento Rosa, cumprimentaram-se, e o pastor perguntou-lhe se a Igreja de Nossa Senhora das Neves já estava quase pronta, ao que o ti Bento respondeu:
Ti Bento: A obra está parada, então não tem ouvido o que dizem por aí?
Pastor: Essa, agora! Não, não ouvi nada, ando aqui na minha vida e passo muito tempo sem falar com ninguém! Então, a obra está parada porquê? Não tinham já o dinheiro todo?
Ti Bento: Pois, pensavam que tinham, mas não chegou e devido a conversas que por aí houve, já ninguém ajudou mais e, agora dizem que vai ficar já assim, abandonada! 
Pastor: Já ninguém pode ajudar mais? Posso eu, e vou já hoje tratar disso! Não quero saber dessas conversas! Nossa Senhora é que não pode ficar sem a sua casinha!
O pastor foi saber quem era o alvanéu que estava a construir a Igreja e, depois foi ter com ele e perguntou-lhe quanto dinheiro faltava para acabar a Igreja, incluindo tudo o que fosse necessário para ficar pronta, para Nossa Senhora lá entrar e serem rezadas missas. 
Depois de saber quanto dinheiro era preciso, apartou vinte ovelhas das melhores que tinha e foi vendê-las a quem já as tinha procurado, entregando, todo o dinheiro, conforme tinha combinado com o alvanéu da obra.
Esta boa notícia, não demorou em se espalhar por toda a região, deixando toda a gente muito comovida, também, por ser o pastor que tinha menos ovelhas e dos mais pobres, no entanto, foi ele que se prontificou a pagar o resto da construção da Igreja de Nossa Senhora das Neves, ficando sem as suas ovelhas. 
A obra continuou e, assim que a Igreja ficou pronta foi benzida pelo Arcebispo de Évora, D. Frei Domingos de Gusmão, havendo uma festa muito bonita, com missa, crismas e procissão, estando o pastor presente e, foi muito agraciado pelos romeiros, pela comissão e pelos clérigos, porque se não fosse ele, talvez nunca acabassem a Igreja.
Na madrugada seguinte, como sempre, o pastor foi soltar as ovelhas para as levar para a pastagem, sabia que tinha menos as que tinha vendido, mas pareceu-lhe que o rebanho estava como antes e decidiu contar as ovelhas, ficando espantado ao verificar que tinha o mesmo número de antes e, contou, novamente, dando o mesmo resultado, então, pensou que as ovelhas a mais, deviam ser de outro pastor da região e que, se tinham juntado ás dele, e quanto ao número ser o mesmo, só  podia ser coincidência, mas ainda nesse dia e nos seguintes andou de rebanho em rebanho a perguntar aos pastores se lhe faltavam ovelhas, mas todos negaram e, nunca foram reclamadas, não deixando dúvidas ao pastor, e a quem teve conhecimento, de que tinha sido um milagre de Nossa Senhora das Neves que, lhe tinha devolvido o mesmo número de ovelhas, pela sua bondade e pelo bem que tinha praticado.


Fim 

Texto: Correia Manuel 

Fotografia: Correia Manuel 

Monte do Escrivão de Capelins




A lenda do lobisomem do Monte da Negra, de Capelins

 A lenda do lobisomem do Monte da Negra, de Capelins


Conta-se que, nos tempos de outrora, existia um lobisomem no Monte da Negra, nas terras de Capelins e que era um rapaz ainda novo, com cerca de 20 anos de idade, que costumava transformar-se em diversos animais, mas essa transformação tinha de ser feita nos cruzamentos de estradas, ou seja no lugar onde duas estradas se cruzavam formando uma cruz. 
Assim, uma noite, o rapaz transformou-se num chibo no cruzamento das estradas no Roncão, nesse momento, vinha um jornaleiro que trabalhava no Roncão e morava no Monte do Escrivão, viu o chibo ali perdido e pensou em o levar para casa, depois se aparecesse o dono logo o entregava, ou então podia ficar com ele. O chibo não era pequeno, então tirou o cinto das calças, atou-lhe as patas e levou-o às costas, mas antes de chegar ao Monte do Escrivão o chibo pesava cada vez mais, até que, devido ao cansaço, o jornaleiro teve de o colocar no chão para descansar, mas mal chegou ao chão o animal deu-lhe um forte esticão que o fez cair de costas e fugiu. 
No dia seguinte, o jornaleiro foi logo cedo para o trabalho no Roncão de Capelins e encontrou um rapaz que morava no Monte da Negra e que era seu amigo, fizeram um grande cumprimento, mas ao mesmo tempo o jornaleiro reparou que ele trazia à cintura o seu cinto, com o qual ele tinha atado as patas do chibo, o jornaleiro paralisou e apanhou o maior susto da sua vida. 
O rapaz lobisomem percebeu e seguiu caminho a rir e aos saltinhos como os chibos. 

Fim 

Texto: Correia Manuel

Fotografia: Correia Manuel




A lenda do tesouro do Pego das Barcas no rio Guadiana, em Capelins

 

A lenda do tesouro do Pego das Barcas no rio Guadiana, em Capelins

Conta-se que, há cerca de 2.000 anos, instalou-se no Outeiro do Pombo (a montante do lugar da Cinza), na margem direita do rio Guadiana, uma tribo, que trouxe o seu gado, com bons conhecimentos de agro-pastoril. 
As terras de Capelins, no vale do rio Guadiana eram procuradas, porque eram boas para a pastorícia de gado caprino e tinham a alternativa da pesca e água em abundância, pelo que, construíram um Castelo no ponto mais alto do dito outeiro  para defesa de eventuais ataques de invasores e dos animais selvagens que existiam nas redondezas. 
Começaram por juntar pedras, algumas de grandes dimensões, talhadas para assentarem umas sobre as outras, para construir paredes robustas, logo, muito largas, mas essas pedras tiveram de ser transportadas de lugares distantes e para o topo do outeiro, sendo um trabalho muito duro. 
Quando colocavam as pedras umas sobre as outras na parede, uma muito grande deslizou pela encosta  e caiu no pego das barcas, um dos mais fundos nesta área do rio Guadiana. 
A pedra ficou tão bem colocada, que parecia nivelada, e que tinha sido ali colocada por mão humana, o pego era fundo, mas nos anos de grande seca, os mais aventureiros conseguiam mergulhar até ao fundo, acabando por descobrir a pedra que já lá estava há cerca de 3.000 anos e que devido ao seu formato e como estava disposta começou a despertar atenção, não demorando a ser tema de falatório e invenções sobre a descoberta. 
Depressa se espalhou a fama que, debaixo daquela pedra estava um tesouro, constituído por muito ouro e prata, deixado por uma tribo Celta, a mesma que construiu o Castelo e cada vez se ouvia mais pelas terras de Capelins, até que um dia os lavradores dos Montes, da Talaveira, Negra e Amadoreira, encontraram-se por coincidência perto do Moinho das Azenhas D' El-Rei e, conversa puxa conversa, foram ter ao cobiçado tesouro. 
O Lavrador da Negra apresentou a ideia dos três tirarem o tesouro do fundo do pego, dividi-lo e saírem de Capelins, porque aquele tesouro era uma fortuna tão grande que daria para construir vários palácios e nunca mais faziam nada. 
Os lavradores, muito entusiasmados, concordaram  em tirar o tesouro e  combinaram como fazer, o lavrador da Talaveira banhava melhor que um peixe, seria ele a mergulhar ao fundo do pego, atava as cordas à pedra que tapava o tesouro e depois a junta de bois do lavrador da Amadoreira que era a melhor, puxava a pedra para o lado e ele voltava a mergulhar e trazia o tesouro para cima. 
Os lavradores tinham de enganar o povo, para não terem de dividir o tesouro, ou no caso do tesouro já lá não estar, ninguém podia saber senão eram alvo de chacota e eles perdiam a sua honra e o respeito de toda a gente, pelo que, decidiram fingir que faziam uma paródia no rio Guadiana, para isso, levavam um garrafão de vinho, pão, queijos, chouriças e um bocado de toucinho.
No dia marcado, foram muito cedo, estava um lindo luar que trespassava as águas do pego das barcas, ficaram pasmados, porque o que estavam a ver de certeza era o brilho do ouro e da prata, que se devia ter escapado do tesouro e transmitia aquela luz através das águas do rio Guadiana. era a prova de que o tesouro existia, logo estavam muito ricos.
Os lavradores levaram a carreta (carroça), puxada pela junta de bois do lavrador da Amadoreira, até junto ao pego das barcas, a qual carregava os instrumentos necessários ao trabalho que iam realizar, cordas, paus, madeiros para servirem de rolamentos para apoio das cordas, sacos e grandes panos para tapar o tesouro. 
Com muito cuidado, evitando fazer barulho e alertar alguém que por ali andasse, começaram a descarregar a carreta, para ao romper da aurora estar tudo pronto, mas naquela hora da madrugada no rio Guadiana até se ouviam respirar os peixes, logo, o som daquela azáfama depressa chegou aos ouvidos apurados de um ganadeiro que andava por perto, o qual, com receio não fossem invasores para roubar o gado, foi a correr perguntar ao ajuda se tinha visto ou ouvido passar alguém para aquelas bandas? O ajuda respondeu que não visto nem ouvido ninguém. 
O ganadeiro não estava descansado e foi ver o que se passava. Esteve a observar, sem ser visto, e confirmou o que os lavradores estavam a fazer. Voltou apressado até onde estava o ajuda e disse-lhe que fosse, imediatamente, dizer a toda a gente das redondezas o que se estava a passar, porque o tesouro era de todos. E não tinha passado muito tempo já havia gente de todo o lado, até de Cheles, a espreitar, em cima de azinheiras, atrás de moitas, de rochas e de estevas, muito pertinho dos lavradores que, com o entusiasmo, não davam por nada.
Já se via bem, com um palmo de sol e tudo preparado, as cordas estendidas, passando por cima dos madeiros e com uma laçada para passar pelos lados da pedra que tapava o tesouro e a junta de bois em posição de a puxar e abrir o tesouro. O lavrador da Talaveira, bom banhista, mergulhou e levou as cordas por debaixo dos braços, chegou ao fundo do pego, ligou-as bem à pedra e veio à tona de água a dizer que a junta de bois já podia entrar em ação.
Estava tudo preparado, as cordas ligadas à canga da junta de bois e os lavradores dos Montes da Negra e da Amadoreira colocados em frente dos bois deram a ordem para os animais puxarem a pedra com quanta força tinham e era muita, mas eles pararam e a pedra não mexeu. Ficaram pasmados e decidiram picar os bois que avançaram imediatamente como se não estivessem em esforço e foi difícil de os parar. O arranque dos animais foi tão brusco que a pedra foi arrastada e ficou virada a alguns metros de distância do lugar onde se encontrava, porque, não era tão grande como parecia, devido ao efeito da água. A seguir, o lavrador do Monte da Talaveira mergulhou com muito medo, porque não imaginava o que ía encontrar, com cautela, olhando em sua volta foi-se aproximando do lugar onde antes estava a pedra a tapar o suposto tesouro, mas não viu nada, procurou até aguentar o fôlego, quando veio à tona de água deixou os outros perplexos, porque não trazia nada. Então o tesouro compadre? Perguntaram os dois ao mesmo tempo! Não vejo lá nada! Respondeu o lavrador da Talaveira! Não pode ser, deve estar metido na rocha de fundo! Leva lá a enxada para tirares a areia e o lodo, que de certeza o tesouro está lá! Disseram-lhe os dois lavradores! O lavrador da Talaveira nadou para baixo, para cima, para cima, para baixo, usou as ferramentas todas, para escavar na areia, para bater nas rochas e tentar encontrar alguma saliência e ainda mergulhou com ele algumas vezes o lavrador da Negra, viram o fundo da pedra, podia ter alguma cavidade com o tesouro, mas nada! Andaram neste trabalho mais de duas horas até se convencerem que não existia nenhum tesouro no fundo do pego das barcas.
A pouca distância, continuavam escondidos os observadores, que assistiram a tudo e, também já estavam convencidos que o tesouro não existia, mas estava prometido que não iam perdoar os lavradores pelo seu atrevimento de tentarem roubar o tesouro que era de todos, por isso, o pior ainda estava para vir.
Os lavradores dos Montes, da Negra, Talaveira e Amadoreira estavam convencidos de que não existia nenhum tesouro no fundo do pego das barcas e carregaram as cordas, os paus, madeiros e as ferramentas, na carreta (carroça) dos bois e partiram para os seus Montes muito tristes e amargurados que nem comeram a merenda, nem beberam o vinho que tinham levado. 
Os observadores voltaram ao seu trabalho, outros foram para os seus montes, mas jurando que não esqueceriam o que os ditos lavradores tinham feito, podiam ter ficado com o tesouro que se considerava ser do povo de Capelins. Os que assistiram ao trabalho dos lavradores encarregaram-se de espalhar por toda a região a novidade e sempre foram acrescentando mais alguns pontos, passaram uns dias e não se falava noutra coisa por todo o lado. Os lavradores começarem logo a desconfiar que as pessoas sabiam alguma coisa, porque quando passavam, ficavam a cochichar e a rir, e até os seus criados andavam diferentes. Alguns ganadeiros e jornaleiros, quando os cumprimentavam já nem lhe tiravam o chapéu, o mesmo é dizer que não lhe tinham respeito e começaram a surgir as piadas. Então compadre, já lá tem tesourinhos ou a "tesoura" ainda está a chocar os ovos no pego das barcas? E muitas outras. Foram uns tempos muito difíceis para estes lavradores, que durou, durou.
Quanto ao tesouro, toda a gente continuou a dizer que está lá, muito perto do Castelo das barcas e que um dia há-de aparecer! Há-de, há-de! E nesse dia, dá-se o esplendor nas terras de Capelins.


Fim 

Texto: Correia Manuel 

Fotografia: Correia Manuel 

A lenda do Manel Pastor e de sua amada Catarina, de Capelins

A lenda do Manel Pastor e de sua amada Catarina, de Capelins

Conta a lenda que no início do ano de mil e oitocentos, existiu uma grande paixão amorosa entre um pastor chamado Manel Dias, conhecido por Manel Pastor, filho da transumância, e uma menina muito bonita, chamada Catarina de Jesus, filha do Moleiro do Moinho do Roncão na Ribeira de Lucefécit, que moravam numa das casas desse Moinho. 
O Manel pastor perdeu-se de amores pela Catarina e, depois de quase um ano de namoro decidiram casar-se na Igreja de Santo António de Capelins e ficar a morar numa choupana junto ao Monte do Roncão de Capelins, mas para o casamento se realizar o padre pediu-lhe os papéis de estilo corrente que, eram emitidos pelo Pároco da Freguesia onde eles tinham sido registados, no caso dele, seria da Paróquia de São Martinho da Póvoa Nova na encosta norte da Serra da Estrêla, onde o Manel tinha de ir tratar dos ditos papéis, ver a família, e a contar-lhe que ia casar.
Na semana seguinte, depois de deixar tudo tratado, o Manel partiu a pé numa madrugada, muito entusiasmado, porque ficou combinado que casariam logo que voltasse, com a promessa da Catarina que acontecesse o que acontecesse, ela esperava por ele até ao fim da sua vida.
Quando o Manel Pastor, chegou à sua aldeia, encontrou a sua mãe muito doente com a previsão de ter poucos dias de vida, deixando-o muito triste, pelo que, prometeu à mãe  que ficava a seu lado até ela estar curada, contou-lhe que estava noivo de uma menina de Capelins chamada Catarina, que era muito bonita e gostava muito dela, e disse a mãe que tinha de se pôr boa para ir ao seu casamento. 
Devido à alegria de ver o filho e de ouvir a novidade sobre o casamento, a ti Joaquina melhorou muito e o Manel cumpriu o que prometeu, de ficar a seu lado, e os dias foram passando, e já passava mais de um mês, começando o Manel Pastor a ficar preocupado com o que a Catarina devia estar a pensar, então decidiu mandar escrever uma carta a contar-lhe o que se estava a passar e pedia-lhe que esperasse por ele, porque a mãe estava a melhorar e, assim que voltasse com os papéis, casavam, imediatamente. 
A carta seguiu, mas nunca chegou ao Moinho do Roncão de Capelins, onde já se falava da má sorte da Catarina, era mais uma noiva abandonada, uma viúva antes de casar, sendo tanto o falatório que, já sem esperança do Manel voltar, a Catarina entrou em depressão e, sem tratamento, não aguentou a pressão, e uma noite saiu de casa sem ser vista, desceu a Ribeira de Lucefecit e atirou-se à corrente do rio Guadiana, deixando algumas peças de roupa pendurada num freixeiro, junto à água, e desapareceu, quando acharam a sua falta, procuraram rio abaixo, rio acima, mas nunca mais foi encontrada. 
Depois de enviar a carta, o Manel Pastor ficou mais descansado, pensando que, a Catarina já estava informada do motivo da sua demora e seria uma questão de mais um ou dois meses para ir ter com ela a Capelins.
O tempo foi passando e já estava na Póvoa Nova, havia mais de três meses, até que, um dia a mãe do Manel Pastor fechou os olhos e partiu, depois de tratar de tudo, como não podia fazer mais nada, pediu os papéis para o casamento ao Pároco, despediu-se dos familiares e na madrugada seguinte partiu a pé para Capelins, seguindo o caminho, das caravanas da transumância, pelas canadas que já conhecia. 
O Manel queria chegar a Capelins o mais depressa possível e, nos primeiros dias de viagem pouco descansava, até que o cansaço o venceu e começou a andar, diariamente cada vez menos léguas, mas nos últimos dias de viagem, dos dez dias que levou, já pouco descansou, quando chegou a Estremoz, encostou-se duas ou três horas e depois  já não parou até Capelins, caminhou toda a noite, chegando ao Moinho do Roncão ao nascer do sol. 
Assim que chegou, o Manel foi a correr à casa da sua amada, mas achou estranho não estar ninguém em casa, pensou que, estavam todos no Moinho, que ficava um pouco mais abaixo, e dirigiu-se lá, mas assim que avistou a família de Catarina, vestidos de luto, sentiu um arrepio e pressentiu que alguma coisa tinha acontecido, porque, só faltava ela, mas não imaginava o pior. 
O Manel cumprimentou a família da Catarina que, pouco lhe ligaram, porque achavam que ele era o culpado da tragédia, depois perguntou por ela e contaram-lhe debaixo de grande pranto o que tinha acontecido e o motivo do seu suicídio. Ele não queria acreditar, ficou muito chocado e, contou-lhe, porque se tinha demorado e que tinha enviado a carta a contar o que se passava.
O Manel foi para a sua choupana e chorou a morte de Catarina durante muitos dias, não falava com ninguém e, quase não comia, debaixo de grande tristeza. 
Uma manhã, levantou-se da tarimba, saiu da choupana e começou a procurar a sua noiva Catarina pelas margens do rio Guadiana, na esperança de a encontrar viva, percorreu a distância entre as Azenhas D' El-Rei e o Gato, vezes sem conta, de dia e de noite, andando vários anos nesse percurso, por matos de estevas, giestas e tojos, abrindo vários caminhos no sul da Freguesia de Capelins, junto ao rio Guadiana, mas nunca mais houve sinais da sua amada Catarina. 
Contava-se que, o Manel Pastor ficou parvinho, até que, um dia, quando andava pelos seus caminhos no vale do rio Guadiana, caiu para o lado e partiu, acabando-se o seu martírio.

Fim 

Texto: Correia Manuel 

Fotografia: Correia Manuel





A Lenda do Milagre de Nossa Senhora das Candeias, no Gato, em Capelins

 


A lenda do Milagre de Nossa Senhora das Candeias no Gato, em Capelins

Numa noite de 2 de Fevereiro, seguia um almocreve a caminho de sua casa em Mourão, vindo de uma feira de Elvas, onde tinha vendido azeite e comprado outros produtos procurados na sua terra. Passou pela Vila de Juromenha, mas não fez qualquer negócio, seguiu pelas Aldeias da Mina do Bugalho, Rosário e passou a Ribeira do Lucefécit no porto romano das Águas Frias de Baixo, desceu as terras de Capelins, onde já existiam caminhos conhecidos, confirmados por arqueólogos,  desde há 5.000 anos, em direção ao Moinho do Gato, onde o Concelho de Mourão cumprimenta a nossa Freguesia de Capelins e, nesse lugar, sempre conseguiram passar o rio Guadiana, principalmente nos anos de seca, como era esse. 
A noite escura como breu não deixava ver um palmo à sua frente, mas como o almocreve conhecia bem o porto de passagem, meteu-se à água com os seus burros, no sítio errado, caindo num fundão de onde não conseguia sair nem ver nada, muito assustado, começou a gritar por Nossa Senhora, por ajuda, mas naquele lugar e hora tardia, ninguém o podia ajudar. 
Quando o almocreve estava a perder a esperança de se salvar surgiu uma linda Senhora com uma luz muito brilhante, que o alumiou, ajudou a sair do fundão e o acompanhou até à entrada da Vila de Mourão. 
Quando chegaram, antes de o deixar, pediu-lhe para não contar a ninguém o que se tinha passado, porque as pessoas não iam acreditar nele e seria alvo de chacota. 
O almocreve, não se conteve e, assim que entrou na Vila, começou a contar a toda a gente o que lhe tinha acontecido, estando salvo graças a um milagre da Senhora das Candeias e, perante o seu aspeto, molhado e ferido, ninguém duvidou do que ele lhe contou, toda a gente acreditou, e decidiram, imediatamente, construir uma Capela em sua homenagem, sendo tanta a fé dos mouranenses por Nossa senhora das Candeias que, passado pouco tempo, foi eleita a padroeira da Vila de Mourão.

Fim 

Texto:Correia Manuel 

Nossa Senhora das Candeias







A lenda da destruição dos painéis de Cristo na Igreja de Santo António de Capelins

A lenda da destruição dos painéis de Cristo na Igreja de Santo António de Capelins Conta-se que, a Igreja de Santo António de Capelins, mand...