sábado, 28 de março de 2026

A lenda da feiticeira do Monte de Capelins

 

A lenda da feiticeira do Monte de Capelins

Em Capelins contava-se que, o ti Matias Frade e sua legítima mulher a ti Maria da Graça, moravam no Monte de Capelins, situado entre a atual Aldeia de Ferreira e a Igreja de Santo António, onde havia várias casas no altinho quase em frente ao Monte da Cruz de Cima, eram naturais da Vila de Terena, como ele era seareiro aforou aqui umas courelas e mudaram-se e mandaram construir ali o seu casebre.

O ti Matias e a ti Maria eram felizes, mas havia um senão na sua vida, não tinham filhos e como a idade avançava decidiram aperfilhar uma menina para depois cuidar deles e ser herdeira dos seus bens e essa escolha recaiu numa sua afilhada de Terena, pertencente a uma família muito numerosa, como eram todas nessa época, e que se chamava Maria da Graça como a madrinha.

Depois de tudo tratado com os padres de Terena e com os pais da menina, ela veio para casa dos pais adotivos e era o seu ai Jesus, não lhe faltava nada para ser feliz e foi crescendo com os seus mimos, fazendo a diferença das raparigas da sua idade, mais tarde ganhou a fama de ser uma das raparigas mais bonita da Freguesia de Capelins, pelo que, havia muitos rapazes a tentar namorar com ela, mas a sua missão era, no futuro, tratar do ti Matias e da ti Maria, por isso, eram enxutados para bem longe dela.

O tempo foi passando e um dia a ti Maria da Graça caiu na cama muito doente, era bem tratada pela afilhada, mas não melhorava nem falecia, estava num grande sofrimento, depois entrou em agonia e gritava dia e noite, dizendo a mesma coisa: “Quem é que os quer?” A Maria da Graça não percebia o significado, mas uma madrugada que estava à sua cabeceira experimentou dizer baixinho: “Quero-os eu”, e naquele momento a ti Maria faleceu.

Não passou muito tempo para a Maria da Graça perceber o que tinha acontecido, a madrinha era feiticeira e não podia falecer sem alguém tomar o seu lugar, ou seja, ficar com os novelos, e neste caso, tinha sido ela a herdeira dos novelos, ficando feiticeira, mas não se importou muito, porque começou logo a ter experiências boas que não imaginava, como ir aos grandes bailes das feiticeiras em pêlo com a presença do mafarrico e, logo que o ti Matias partiu dedicou-se a tempo inteiro à feitiçaria, ficando uma das feiticeiras mais poderosa e mais bonita da Freguesia de Capelins, porém, como tudo se sabe, começou a ser apontada pelo povo e os rapazes que antes gostavam dela fugiam a rabo estendido, até que um ano chegou a Capelins um rapaz pastor da transumância vindo do Vale do Rio, Serra da Estrela, chamado José do Rio e, assim que se viram ficaram perdidos de amor um pelo outro, algumas pessoas ainda o avisaram que ela era feiticeira, mas diziam que ele era um bocadinho esparvoerado e, apenas se ria e dizia que não acreditava nisso, e passados poucos meses já estavam casados.

O José do Rio e a Maria da Graça ficaram a morar no Monte de Capelins, mas ele tinha a choça na Defesa de Ferreira, onde passava a maior parte do seu tempo, por isso, ele fazia a vida de pastor e ela a vida da feitiçaria, mas não fazia só mal, também fazia bem a muita gente, e assim foram muito felizes, mesmo assim, tiveram tempo para criar muitos filhos, existindo ainda, por aí alguns seus descendentes.

Março de 2026

Texto: Correia Manuel

Fotografia: Correia Manuel

Ferreira de Capelins





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