A lenda da feiticeira do Monte de Capelins
Em Capelins contava-se que, o
ti Matias Frade e sua legítima mulher a ti Maria da Graça, moravam no Monte de
Capelins, situado entre a atual Aldeia de Ferreira e a Igreja de Santo António,
onde havia várias casas no altinho quase em frente ao Monte da Cruz de Cima,
eram naturais da Vila de Terena, como ele era seareiro aforou aqui umas
courelas e mudaram-se e mandaram construir ali o seu casebre.
O ti Matias e a ti Maria eram
felizes, mas havia um senão na sua vida, não tinham filhos e como a idade
avançava decidiram aperfilhar uma menina para depois cuidar deles e ser
herdeira dos seus bens e essa escolha recaiu numa sua afilhada de Terena,
pertencente a uma família muito numerosa, como eram todas nessa época, e que se
chamava Maria da Graça como a madrinha.
Depois de tudo tratado com os
padres de Terena e com os pais da menina, ela veio para casa dos pais adotivos
e era o seu ai Jesus, não lhe faltava nada para ser feliz e foi crescendo com
os seus mimos, fazendo a diferença das raparigas da sua idade, mais tarde ganhou
a fama de ser uma das raparigas mais bonita da Freguesia de Capelins, pelo que,
havia muitos rapazes a tentar namorar com ela, mas a sua missão era, no futuro,
tratar do ti Matias e da ti Maria, por isso, eram enxutados para bem longe
dela.
O tempo foi passando e um dia
a ti Maria da Graça caiu na cama muito doente, era bem tratada pela afilhada,
mas não melhorava nem falecia, estava num grande sofrimento, depois entrou em
agonia e gritava dia e noite, dizendo a mesma coisa: “Quem é que os quer?” A
Maria da Graça não percebia o significado, mas uma madrugada que estava à sua
cabeceira experimentou dizer baixinho: “Quero-os eu”, e naquele momento a ti
Maria faleceu.
Não passou muito tempo para a
Maria da Graça perceber o que tinha acontecido, a madrinha era feiticeira e não
podia falecer sem alguém tomar o seu lugar, ou seja, ficar com os novelos, e
neste caso, tinha sido ela a herdeira dos novelos, ficando feiticeira, mas não
se importou muito, porque começou logo a ter experiências boas que não
imaginava, como ir aos grandes bailes das feiticeiras em pêlo com a presença do
mafarrico e, logo que o ti Matias partiu dedicou-se a tempo inteiro à
feitiçaria, ficando uma das feiticeiras mais poderosa e mais bonita da
Freguesia de Capelins, porém, como tudo se sabe, começou a ser apontada pelo
povo e os rapazes que antes gostavam dela fugiam a rabo estendido, até que um
ano chegou a Capelins um rapaz pastor da transumância vindo do Vale do Rio,
Serra da Estrela, chamado José do Rio e, assim que se viram ficaram perdidos de
amor um pelo outro, algumas pessoas ainda o avisaram que ela era feiticeira,
mas diziam que ele era um bocadinho esparvoerado e, apenas se ria e dizia que não
acreditava nisso, e passados poucos meses já estavam casados.
O José do Rio e a Maria da
Graça ficaram a morar no Monte de Capelins, mas ele tinha a choça na Defesa de
Ferreira, onde passava a maior parte do seu tempo, por isso, ele fazia a vida
de pastor e ela a vida da feitiçaria, mas não fazia só mal, também fazia bem a
muita gente, e assim foram muito felizes, mesmo assim, tiveram tempo para criar
muitos filhos, existindo ainda, por aí alguns seus descendentes.
Março de 2026
Texto: Correia Manuel
Fotografia: Correia Manuel
Ferreira de Capelins
Sem comentários:
Enviar um comentário