domingo, 22 de março de 2026

A lenda da ti Maria Açorda, de Capelins

 A lenda da ti Maria Açorda, de Capelins
Contavam que, a ti Maria Rosa de Capelins, era uma mulher de meia idade, mas solteirona, nunca se soube o motivo porque nunca quis casar, morava sozinha na sua pequena casa e trabalhava, sazonalmente nos trabalhos do campo, fazia a azeitonada que começava nos finais de Novembro e acabava em Janeiro, a seguir fazia a monda das searas até Março, e nos finais de Maio começava a ceifar até finais de Junho, depois, fazia as caianças, pintura com cal, e as grandes limpezas de verão nos Montes dos lavradores e, entretanto, fazia outros trabalhos esporádicos, e assim se governava.
A ti Maria Rosa era muito estimada por toda a gente e, nos dias que não trabalhava percorria as casas quase todas da Aldeia, era o noticiário das novidades, embora não fosse considerada bisbilhoteira, porque era muito cautelosa a contar o que sabia, não contava tudo o que ouvia, nem dizia mal de ninguém, antes pelo contrário, rematava sempre que para ela todas as pessoas eram boas, e nas suas voltas, dava pequenas ajudas nos trabalhos domésticos e em troca recebia coisas que repartiam com ela.
Como a ti Maria Rosa andava sempre de casa em casa, não fazia comidas que exigissem tempo a fazer e, como a maioria das pessoas nessa época, as suas refeições eram à base de sopas de grão, de feijão de couve ou repolho com carne ou de azeite e de açordas de tudo, mas mais de alho, havendo pessoas que comiam uma açorda de alho ao pequeno almoço a que chamavam almoço, outra ao almoço que era o jantar e outra ao jantar que era a ceia, acompanhadas com umas azeitonitas, sendo a ti Maria uma dessas pessoas, embora por vezes a ceia fosse um bocadinho de pão com queijo de ovelha ou com um pedacinho de toucinho cozido ou de chouriça das sopas do meio dia, ou umas sopinhas de leite.
A rapaziada, ouviram que a ti Maria quando lhe perguntavam o que ia fazer para comer, respondia sempre a mesma coisa, era uma açorda com umas azetonitas, mesmo que não fosse, isso caiu-lhe em graça e, assim que a apanharam a jeito, tentaram a sua sorte e perguntaram-lhe: Ti Maria, espere lá, então já fez a comida para hoje? Ainda não filhos, ainda é cedo! Então o que vai fazer para comer? Hoje vai ser uma açorda com umas azetonitas! A resposta caiu-lhe no goto e riram, riram, porque já esperavam essa resposta!
Ora, os gaiatos são como são, e a pergunta começou a ser feita todas as vezes que a ti Maria passava pela rua adiante, e a resposta era sempre a mesma, fossem as horas do dia que fossem, sendo uma grande paródia para a rapaziada que, depressa lhe deram a alcunha de ti Maria Açorda e, assim que ela aparecia gritavam todos em coro: Vem aí a ti Maria açorda, e preparavam-se para fazer a pergunta habitual, e ela entrava na rambóia com eles, dando sempre a mesma resposta: Hoje vai ser uma açorda com umas azetonitas, a rapaziada achavam muita graça e ficavam a rir e muito felizes.
Março de 2026

Texto: Correia Manuel

Fotografia: Correia Manuel

Aldeia de Ferreira de Capelins










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