segunda-feira, 9 de outubro de 2017

348 - Amigos de Capelins 
História da Vila de Terena escrita pelo Prior Mathias Viegas da Sylva, em Memórias Paroquiais de 17 de Junho de 1758  Villa de Terena
Villa de Terena Comarca de Elvas 
He a Villa de Terena huma das mais antigas da Provincia de Alem Tejo, sita na raya, duas legoas distante do Guadiana termo (Concelho) dos dous reinos, a Lusitania e a Hespanha.
Pertence ao Arcebispado de Evora e à Comarca de Elvas. He Terra hoje da Coroa, antigamente teve Donatário chamado D. Gil Martins.
Tem a Villa e seo contiguo arrabalde 272 visinhos (fogos) e 497 pessoas; exceptuando os menores que ainda não têm lugar no rol das confissões, (os menores de sete anos).
Está situada em huma eminencia que tem mayor subida pelo Poente, e Nascente: e pela parte do Norte há menos declives, por esta corre a mayor parte dos seos edificios.
Tem proprio termo (Concelho), e no desta Freguezia so tem a aldeya chamada das Hortinhas, meya legoa distante desta Villa, que se compõe de 30 visinhos (fogos) e 70 pessoas.
Desta Villa se descobrem as Villas de Monsaras distante três legoas; a de Chelles do Reyno de Castella duas legoas, e mais a de Alconchel no longe de quatro legoas; célebre pelo forte e cerrado do seo Castello, e digno de memória pelas repetidas vezes que se tem visto so gasto pelas armas Portuguezas.
A sua Paróquia, ou Matriz se ve logo da estrada da Villa, e a ella contigua, pela parte do poente, para onde respeita a porta principal da mesma.
Venerão por seo Orago ao Principe dos Apostollos São Pedro, cuja Imagem se ve collocada no Altar Mayor de hua parte, e da outra a da Senhora da Conceição. Tem mais quatro Altares postos a face da Igreja: hum do Santo Nome de Jesus; os outros três de São Miguel, Nossa Senhora do Rozário e de São Francisco. Tem as Irmandades do Sacramento; De São Pedro, que he de Echlesiasticos; de São Miguel e Almas, e do Rozario. A renda da Capella do Santo Nome administra o Prior com hum Escrivão, e Thezoureiro. Sendo todas da jurisdição Real, por serem leigas as Irmandades. Tem São Francisco Sua Ordem Terceira, de que he Comissário o Reverendo Comissário dos Terceiros dos Religiosos observantes do Convento de São Francisco da Villa de Olivença.
He este Templo de huma só nave, e de muito suficiente capacidade para o numero de freguezes por cujo zelo de poucos annos se acha reedificalo.
Tem esta Igreja Matriz um Prior, e dous Beneficiados curados que propriamente são coadjutores do Prior. São da appresentação Real, por serem inteiramente do seo Padroado. Tem de renda o Prior trezentos mil réis; e cada hum dos Beneficiados sincoenta.
Há neste termo (Concelho) duas Parochias: de San Thiago Mayor e de Santo António (Capelins), distantes huma legoa da Villa: creadas para mais fácil, e cómoda administração dos Sacramentos que não poderia haver da Igreja Matriz, por causa da distancia. São estes dous curados da appresentação do Excellentissimo Ordinario; e as Igrejas suffraganeas da matriz, por cujo motivo pagam por titulo de reconhecimento, cada hum dos curas 400 réis annuais ao Prior da Matriz. A sua congrua (imposto que por meio de contribuição ou derrama Paroquial se dá a Curas, Párocos ou Cónegos, para viverem nas Freguesias onde não há os dízimos eclesiásticos) he constituída pelos seus Parochianos, cuja importância com melhor averiguação exporão os ditos curas. 

Não Logra esta Villa ou o seu termo (Concelho) a ventura de ter Convento de alguma família Religiosa. Tem uma caza, a que chamam Hospital, aonde se recebem os pobres passageiros, tão pobres que bem se parece com os mendigos que hospedam. 
Foi frustrada toda a diligencia, que se pôs na indagação dos principios da Caza da Misericórdia desta Villa. Sempre foi timbre dos antigos o empenhar ser mais no obrar, que no escrever. As Cazas da Misericórdia foram constituídas para o exercício da charidade, e obras de Misericórdia nas esmolas, que quotidianamente nellas se dispendem; e o fundador desta Caza talvez accomodandoas com o preceito do Evangelho para que a sem escrito as esmolas, sua mão esquerda não soubesse o que a direita obrava não quiz entregar à memória, deixando-nos em escrito as esmolas, que fazia, na Caza da Misericórdia que fundava. 
A sua renda de cento e quarenta até cento e sinquenta mil réis.
Fora desta Villa em muito pequena distância há duas Ermidas; a de S. Sebastião que pertence à Camera e a de Santo António que pertence ao Prior, como annexa que he da Matriz. Huma e outra têm Cappelão: o de S. Sebastião tem obrigação sommente de Missa nos Domingos; o de Santo António de Missa quotidiana. Tem a Ermida de Santo António três Altares. No principal estão as Imagens de Santo António titular da Caza, São Gregório, e São Bento, que tem sua Confraria. No Altar collateral está a Senhora do Carmo, que tem Irmaons do Bentinho; e outro he de São Vicente Ferrer.
Na distância de oitocentos passos pouco mais ou menos está o antigo Templo da Senhora da Boa Nova, especial Patrona desta Villa. Foi este fundado, [se damos credito aos Autores que assim o escrevem] por Marhabal capitão carthagines, e dedicado a Cupido formado de  fina prata, e a aljava, e o Arco de ouro puro, três mil e seiscentos e três annos depois da Criação do Mundo, e trezentos e sincoenta e nove annos antes do Nascimento de Christo, como consta do Santuário Mariano 66 e da coronica de Fr. Bernardo de Britto. 
He a architetura deste Templo por modo de huma torre Capella de pedra parda na forma de cruz, coroado de ameyas. Alem do Altar Mor, em que está a Imagem da Senhora, tem dous collateraes: hum de Santa Catarina Mártir, e o outro de São Bras. Tem seo Capellão, a quem dá a Comenda que anda na Caza do Conde de Villa Nova (de Portimão) moyo e meyo de trigo, e seis mil réis em dinheiro. Os (?) desta Igreja, e o mais que pertence ao culto divino são obrigaçoens da Comenda. He esta Igreja da Ordem de São Bento de Avis.
A principal festa desta Senhora he no dia, em que a Igreja cellebra a da Senhora dos Prazeres com grande concurso dos pares em roda. São os Pastores desta terra e das circunvizinhas os Mordomos da festa; trazendo em sollene procissão na véspera, depois do sermão, a Sagrada Imagem da Senhora para a Igreja Matriz, e no dia pela manhã com a mesma correndo primeiro as ruas principais da Villa a acompamhão à sua Caza aonde prosseguem os cultos da Sua solene Festa. 
O Senado da Camera desta Villa costuma festejar a mesma Senhora no dia vinte e sinco de Março e oito de Setembro. Em o primeiro Domingo de Mayo he a Festa do Senado de Jeromenha. A Camera do Landroal também festeja a mesma Senhora, porem não tem dia determinado. Os moradores da Freguesia de São Bras, e os da Ribeira de Pardaes vindo em romagem fazem a sua festa à mesma Senhora; aquelles no Domingo do Espirito Santo, e estes na primeira oitava da mesma solenidade. E nos demais tempos do anno são muitas as pessoas, que em romagem visitão a mesma Senhora.
Sabemos por tradição, que foram muitas as visitas, que os Sereníssimos Duques de Bragança fazião a este Sagrado Templo: e em memória desta sua Pia e jenerosa devoção ainda hoje ardem as suas alampadas huma às expensas da ditta Sereníssima Caza.
Foi o ditto Templo, como consta do sobredito Santuário Mariano, consagrado a Maria Santissima com o titulo de Boa Nova pela Rainha Dª Maria molher Del Rey Afonso 11 de Castella no tempo da invasão dos Mouros na Hespanha, filha Del Rey D. Affonso 4º de Portugal, por receber naquelle lugar a nova, que o ditto seu Pay D. Affonso 4º lhe concedia o socorro pedido contra os Mouros, que antes lhe tinha negado.


Os frutos da terra, que em mayor abundancia recolhem os moradores desta Villa são trigo, cevada e senteyo: e de arvores são abundantes os que ressebem do arvoredo de azinho: porque possuem os sobreditos moradores do seo termo (Concelho) sete Erdades, juntas e humas separadas a que chamão Baldios, de montados de azinho, alguas das quaes nos forão deixados pelo seo antigo Donatário D. Gil Martins, para os poderem desfrutar e comer com os seos gados sem que nos ditos possão entrar gados de pessoas de fora: com obrigação porem de suprirem os gastos da Camera, aonde não chegarem as próprias rendas: com o privilegio porem de se não tirar a Terça Real (doação que o Concelho fazia ao Rei da terça parte das suas rendas para que com esse montante o monarca provesse à manutenção das fortalezas do reino) das quantias dadas pelos moradores, como consta de algumas sentenças registadas nos livros da mesma Camera.
Além dos ditos Baldioas ha neste termo (Concelho) sete Defezas (grandes herdades) e trinta e seis Erdades de montados de azinho; pelo que são abundantes os fruttos deste arvoredo.
Teve Juízes Ordinários esta Villa até ao anno de 1753, e o primeiro Juiz de Fora (Presidente da Câmara), que a petição de alguns seos moradores, lhe foi concedido, tomou posse em 8 de Outubro do sobredito anno. Tem Camera sem sojeição a outras justiças.
Tem feira três dias, franca, que tem principio no dia oitavo de Setembro com os mesmo privilégios da feira de S. João de Évora, ainda que pela pequenez do povo dura só hum dia até dois.
Não tem  correyo mas sim hum estafeta posto pela Camera ha seys annos , e pela mesma satisfeito; sendo conduzidas as cartas ao presente da Villa do Redondo distante duas legoas; e chegão na quinta feira por noite e voltão na sexta feira de tarde. O correyo é de Estremoz distante quatro  legoas, donde parte a quinta feira pelo mesmo dia pelo estafeta do Redondo. 
Dista esta Villa de Evora cidade capital do Arcebispado sete legoas, e da Corte de Lisboa vinte e sete. 
Têm os moradores desta Villa e termo (Concelho) o privilégio de não pagarem direito de Portagem, como consta pelo Foral concedido pelo Senhor Rey D. Manoel aos dez de Outubro de 1514, que se acha tombado (arquivado) na torre do Tombo. Também pelo mesmo Foral, lhe he concedido a isenção de tributo algum das carnes ou (?) que se (?) no (?) de Terena ainda sendo pessoas de fora excepto o real da fortificação, que chamão o real de agoa.Tem esta Villa seo castello que se diz ser obra do senhor Rey D. Dinis. Dos edificios interiores, e particulares só se achão vestígios, e os poucos que existem se achão arruinados.
No Terremoto de 1755 cahirão algumas partes superiores do dito castello, são notáveis; e a sua torre grande recebeo algumas aberturas; e a abobeda da mesma que já tinha principio de ruina cahio toda trazendo consigo precipitada huma pequena caza  em que estava recluzo o Relógio governo desta Villa, sem o qual se acha até ao prezente, sem ter experimentado reparo algum, o qual pertence ao Alcaide Mor.
A Ermida de S. Sebastião pertence ao Senado da Camera, como dito está, experimentado algumas aberturas nas suas paredes se julgou conveniente deslançar em terra o seu tecto para que com o seo pezo não fosse mayor a ruína e agora se acha esperando por reparo.
A Igreja Matriz, e a Ermida de Santo António, que pelo Terremoto se virão com algumas aberturas, se achão inteiramente reparadas.

Corre junto desta Villa huma ribeira com o nome de Luçafece, termo divisório dos dous termos (Concelhos) de Terena e Landroal. Tem esta seo nascimento em huma Lagoa que está no sitio de Rio de Moinhos, termo (Concelho) de Estremoz, e de outras agoas, que descem da Serra doça, distante a dita Lagoa desta Villa três legoas: e correndo pelas faldas da mesma Serra, paulatinamente vai engrossando suas correntes: passa pelos termos (Concelhos) de três Villas, Borba, Vila Viçoza e Landroal, correndo em (?) gyros sempre solitária até que se avisinha de Terena em distância para mais (?) daqui passa junto à Ferreira Villa da Sereníssima caza do Infantado, distante huma legoa; depois correndo outra legoa entre o Baldio do Roncão deste termo (Concelho) e a Erdade do Aguilhão, termo (Concelho) do Landroal, entra no Guadiana (?) menos agradecido depois de lhe receber as agoas tira-lhe o nome.
São sinco legoas do lugar aonde nasce até o Guadiana onde morre. Corre do Norte para a parte acima do Sul: Somente conserva a sua corrente neste termo (Concelho), enquanto as chuvas lhe formão as mesmas correntes, que no estio se veem extintas. He o seo curso neste Pais moderado (Clima moderado) sem muita precipitação, por serem planicies os campos por onde passa. He abundante dos peixes, que comummente há nas ribeiras pequenas desta provincia. As mais frequentes pescarias que nela se fazem [que são livres] são no Inverno até aos fins de Abril. Fora mais piscoza esta ribeira se na sua foz não tivera hum açude alto e forte, que lhe impede a subida dos peixes do Guadiana com a do Luçafece subindo muito sobre o dito açude; o qual parece devia ser demolido; porque sempre o bem comum prevaleceo ao particular.
As suas margens neste termo (Concelho) há poucos annos que se vê começarão a cultivar com hortas de melão, e melancia, e os mais frutos, que costumão andar juntos. O arvoredo, que se vê nas suas margens he de azinho, e o silvestre de alandros, de que he abundantissimo ainda no interior da ribeira. He este mato infrutifero, e de tal qualidade, que das suas flores, que só são agradaveis à vista, se não aproveita  a Republica das abelhas para a misterioza fábrica do seo trabalho.
Tem huma ponte muito capaz, que da livre e segura passagem aos passageiros, e ainda às carruagens, composta de seis arcos, obra de cantaria que continua que domina as suas mais sobidas e arrogantes inundações; que começão deste termo (Concelh o) no sitio que vulgarmente chamão o carrascal, descansa na margem opposta  do termo do Landroal na raíz de hum outeiro, em cuja eminência  se venera o gloriozo Martir São Gens em huma Ermida que he da Ordem de São Bento de Aviz.
Tem esta ribeira no termo (Concelho) desta Villa dezasseis Moinhos, e hum Lagar de azeite, a que chamão o Lagar da ribeira: e no Guadiana dentro do mesmo termo, na Freguezia de Santo António (Capelins), se achão nove, e hum no Ribeiro do Azavel.
Entrão na dita ribeira no mesmo termo (Concelho) sette ribeiros de nome; o ribeiro da Silveira, o de Alfardagão, o da Albragaria, dos (?)adros; o Alcayde, o Garrão, (Carrão)  e o Azavel.
No Baldio a que chamão Malhada Alta. há uma fonte, de pouca agoa, a qual chamão santa; pois se tem visto, que bebendoa muitos enfermos especialmente os que padecem de terçons, tiveram remédio nas suas queixas; o que atribuem a favor de huma Imagem de N. Senhora da Conceição, que está pintada na fonte, e não a especial virtude da sua agoa; por cujo motivo he visitada de muitos enfermos.
Esteve fundada esta Villa, ao longo da ribeira por cuja causa só estava a Villa longa, da qual era Matriz e se chamava a Igreja da Senhora da Boa Nova que ainda hoje conserva a Pia Baptismal depois ou por insconstancia dos tempos ou por ser menos saudável pela mismia vizinhança da dita ribeira, pela corrupção das suas agoas.
No tempo do estio, se passou para a eminência aonde se acha; e deixando o nome de Villa Longa (Nunca se conheceu nenhum documento de prova que tivesse oficialmente esta toponimia) tomou o de Terena. Dizem que por clamar neste sitio o postilhão: Ter, ter, à Rainha D. Maria de Castella, que se retirava de Portugal, para lhe dar a nova do subsidio, que já lhe concedia contra os Mouros, como acima fica dito". 




Terena 17 de Junho de 1758

O Prior mathias Viegas da Sylva


Nosso comentário: 
Pensamos que, esta ultima parte escrita pelo Sr. Prior Mathias Viegas da Sylva, não está correta, porque a Vila quando estava situada junto à ribeira de Lucefécit já se designava Terena, assim consta em vários documentos e, nos versos do Rei Afonso X o Sábio, do Reino de Castela. Enquanto Terena foi junto à dita Ribeira, a Matriz era de Santa Maria, conforme provam vários documentos e também os mesmos versos daquele Rei, que foram feitos cerca de 1265/1270!  





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