quarta-feira, 16 de agosto de 2023

Memórias do Chiquinho de Capelins, quando viu a inauguração da ponte sobre o Tejo

Memórias do Chiquinho de Capelins, quando viu a inauguração da ponte sobre o Tejo 

Ouvia-se falar na Aldeia de Ferreira que andavam a construir uma ponte sobre o mar, (rio Tejo) iniciando-se a dita construção no dia 06 de Novembro de 1962, a qual, ligava Lisboa a outras terras, sem saberem ao certo quais eram, algumas pessoas diziam que devia ser à Madeira, outras aos Açores ou talvez a Angola e que era uma das maiores obras de engenharia, deste género, do mundo. 

A sua inauguração estava prevista para o dia 6 de Fevereiro de 1967, mas ficou pronta seis meses antes dessa data, e com grande pompa foi inaugurada no Sábado dia 06 de Agosto de 1966, sendo atravessada pelos automóveis das altas individualidades do país, o Presidente da Republica, o Presidente do Conselho o Cardeal Patriarca de Lisboa e outras, e foi transmitida em direto pela Rádio Televisão Portuguesa, (RTP), por isso, nesse dia, depois do jantar (almoço), o casão em Capelins de Baixo, onde existia um televisor encheu-se de gente a assistir à dita inauguração e o Chiquinho de Capelins com o seu avô Xico Alvanéu, não podiam faltar e também lá estavam.

Após os empolgantes discursos nacionalistas, cortaram a fita e, pouco depois, os automóveis iniciaram a marcha lenta, parecia que, iam com medo que ela caísse, mas não caía, estava bem segura, porque na televisão diziam que a ponte já tinha sido testada com a passagem para uma e outra margem por imensos camiões bem carregados e deu provas que estava bem firme, mas à medida que, os automóveis avançavam nas alturas sobre as águas do rio Tejo, algumas pessoas ali presentes ficaram aflitas e de mãos na cabeça, pressejando que, era impossível aquele emaranhado de arames aguentar-se com tanto peso sem ir abaixo, devia cair a qualquer momento e lá marchavam os presidentes Salazar e Américo Tomás água abaixo, dava-se uma grande perda, e continuavam convencidos que se não caísse naquele dia, não demorava em cair, e diziam que nunca na sua vida se atreviam a pôr-se em cima daquelas teias de aranha, mas estavam ali outras pessoas mais iluminadas que abanavam a cabeça em desaprovação, entre elas o ti Zé Domingos que disse: - Pois olhem, não lhe dou muito tempo e já lá estou a passar, o meu irmão sabe bem o que além está, e garantiu-me que é a ponte mais segura de Portugal, foi feita por engenheiros americanos, os melhores do mundo, feita lá à moda deles, igualzinha a uma que eles têm em S. Francisco onde há muitos tremores de terra e nunca caiu, nem cai, por isso, vou organizar uma excursão a Lisboa, vamos por Vila Franca de Xira e, depois voltamos, atravessando o rio Tejo por aquela grande obra! 

Os homens do contra riram-se e, responderam que não contasse com eles, decerto, não os apanhava na excursão, porque ainda não queriam morrer e, gerou-se confusão, com alguns a chamarem ignorantes aos outros.

O Chiquinho dava atenção ao que estava a ver na televisão, mas a ficar confuso, pelo que ali ouvia, sem saber em quem acreditar, mas olhava, olhava para a televisão e a ponte não caía e quando a reportagem televisiva sobre a inauguração da grande ponte chegou ao fim, o avô chamou-o para irem para casa e ele assim que chegou à rua, perguntou-lhe: 

Chiquinho: Avô, os homens dizem que a ponte vai cair, será que ainda cai hoje e a gente não vê? Ou só cai amanhã? 

Avô: Oh neto, a ponte não cai hoje, não cai amanhã, não cai nunca! 

Chiquinho: Mas os homens ali, quase todos dizem que os arames partem-se e aquilo vai cair tudo no rio Tejo! 

Avô: Oh neto, mas quais arames? A ponte está segura por muitos cabos de aço que não partem, deixa-os lá falar,  são sempre os mesmos, os teimosos e que não percebem nada daquilo, é só para moer os outros, ainda a gente caímos todos e a ponte fica lá! 

A partir daquele dia, sempre que o Chiquinho ouvia alguém dizer que a ponte sobre o Tejo abanava toda e podia cair, saía em sua defesa, e dizia que, o tabuleiro estava seguro por muitos cabos de aço que não partiam e nunca ia cair. 

Mais tarde, todas as vezes que o Chiquinho passava e passa pela dita ponte, recorda-se do presságio que ouviu na Aldeia de Ferreira no dia da sua inauguração e repete no pensamento: - Afinal, até hoje, ainda não caiu.

Fim 

Texto: Correia Manuel 

Ponte das Águas Frias em Capelins



segunda-feira, 14 de agosto de 2023

Memórias do Chiquinho de Capelins, quando foi ver o avião da monda com o tio Manel

Memórias do Chiquinho de Capelins, quando foi ver o avião da monda com o tio Manel 

Numa manhã do mês de Março, nos finais do decénio de 1950, o Chiquinho de Capelins brincava no quintal dos avós em Capelins de Baixo, quando apanhou um grande susto, ouviu, repentinamente um grande estrondo no ar e a terra parecia rasgar, as casas abanaram, correu para casa a tremer de medo e, quase se borrou todo, logo a seguir, ouviram-se gritos e grande alarido na rua, saiu de casa com a tia e a avó ao encontro das vizinhas que, estavam muito assustadas, algumas choravam e outras afirmavam que tinha sido um grande tremor de terra, porque a sua casa quase lhe tinha caído em cima, tinham terra por todo o lado que tinha caído do telhado de telha vã e diziam: - Ai raparigas, ainda tenho as pernas todas (as duas) a tremer, que nem varas verdes, isto foi uma coisa do outro mundo, porque não foi trabalho das feiticeiras, elas não tinham tanto poder para fazer uma coisa destas! Mas as invenções depressa acabaram, não só, porque, o barulho continuava a ouvir-se mais afastado e, ora se aproximava, ora se afastava e, chegaram quase, imediatamente algumas pessoas vindas rua acima a dizer que era uma avioneta ou um avião que tinha feito um voo rasante à Aldeia, porque  andava a fazer a monda com química, das searas de trigo da Casa Dias e aterrava e levantava voo na canada, porque ia encher o depósito de química líquida junto ao poço da malhada, ao lado dos eucaliptos e que já ia toda a gente da Aldeia a correr para lá para assistir ao espetáculo, nunca visto por estas bandas, era um grande avião, valia a pena ir ver e, logo a maioria das vizinhas, nem fecharam as portas das casas e partiram a correr, em grupos, pela Rua do Quebra abaixo, até ao poço da bomba e dali até à malhada, mas o Chiquinho e a avó recolheram a casa e ele continuou a brincar no quintal, mas assim que ouvia o avião a aproximar-se da Aldeia, fugia para dentro de casa com muito medo, mas mesmo com medo, começou a dizer à avó que queria ir lá ver, como foram os outros rapazes, e ela respondeu-lhe que não se importava de ir com ele até ali à parede ao Monte do Meio, de onde se avistava, mas se ele tinha tanto medo do avião, no fim ainda se borrava todo, mas ele continuava a chatear a avó, dizendo: - Oh avó, eu não tenho medo, eu não me borro todo, eu quero ir! E chorava e batia o pé no chão, fazendo uma birra.

Quando o Chiquinho estava com a birra a dizer à avó que queria ir ver o avião, chegou o tio Manel e, ao aperceber-se do que se estava a passar pegou nele sentou-o no suporte da bicicleta, e disse-lhe para se agarrar bem ao selim e partiram pela chapada abaixo na direção de Capelins de Cima e a avó ainda correu pelo quintal a saltar-lhe ao caminho de braços no ar e a gritar: - Não leves o gaiato, Manel, porque ele tem medo do avião! Mas o ti Manel passou por ela e ainda pedalou mais, mas nessa época o caminho entre as Placas e Montes Juntos ainda era só empedrado a bicicleta voava por cima das pedras e o Chiquinho já com o traseiro em brasa, quase não aguentava, mas não se importava, porque o espetáculo que ia ver, compensava as dores que sentia. 

O tio Manel só parou a bicicleta com o passageiro sentado no suporte junto ao poço, onde estavam dois ou três homens, criados da Casa Dias, a fazer as arrumações dos depósitos e utensílios que tinham sido utilizados para misturar a química com água e para encher o depósito do avião, não havia mais ninguém por ali, o tio perguntou aos homens onde estava o avião, e eles responderam que já devia ir chegando a Montoito, onde ia fazer o mesmo trabalho que tinha feito ali, o Chiquinho de certa forma ficou aliviado, porque queria e não queria ver o avião, mas o tio não gostou da resposta e de alguns comentários e zangou-se com um dos homens, esteve o caso sério, porque tinha feito a viagem em vão, não percebia porque se tinha ido embora tão depressa, decerto que não tinha acabado, e os homens afirmaram que tinha acabado a monda ali e havia outras searas à espera do mesmo serviço, para os lados de Montoito.

O Chiquinho e o tio ainda ali estiveram alguns minutos, na esperança do avião voltar, mas não, já tinha levantado voo de Capelins e não voltava, a eles, restava-lhe voltar para casa, onde os esperava a avó com o seu sermão, dizendo que, não devia ter levado o gaiato porque ele estava todo borrado com medo do avião e sabe-se lá o que podia ter acontecido e mais isto e mais aquilo, mas isso para o tio era música para os seus ouvidos e pouco respondeu, o Chiquinho ainda adiantou que, com o tio não tinha medo de nada, e como já vinha com muita fome, sentou-se à mesa, bateu o jantar (almoço) e passou a tarde a brincar descansado, porque, sabia que a avião não voltava para derrubar as casas da Aldeia, uma vez que, já andava a assustar as pessoas de Montoito. 

Fim 

Texto: Correia Manuel 

À direita da malhada, fica o lugar de aterragem da avioneta da monda




domingo, 13 de agosto de 2023

Memórias do Chiquinho de Capelins, quando foi em romaria a Nossa Senhora da Boa Nova

Memórias do Chiquinho de Capelins, quando foi em romaria a Nossa Senhora da Boa Nova 

Em meados do decénio de 1960, com a guerra no ultramar em progressão, os rapazes ao chegarem à volta dos vinte anos de idade, eram mobilizados e partiam para as colónias, deixando as famílias ansiosas, porque podiam perder lá a vida, ou passados dois anos voltar com mazelas da guerra, mas como tinham muita fé nas diversas Santidades, entregavam os seus filhos, netos, sobrinhos e amigos à sua guarda, fazendo promessas de doações de bens, orações, velas e outros sacrifícios, em troca da sua proteção e, quando os rapazes voltavam da guerra sãos e salvos, eles e as famílias, dirigiam-se às Igrejas ou aos Santuários dos respetivos patronos, a acertar as contas, ou seja, a pagar o que tinham prometido, as graças que tinham recebido, acontecendo o mesmo, contra todos os males que atingissem a vida quotidiana das famílias, incluindo a proteção das searas e dos animais. 

Nesta região, do Concelho do Alandroal, a Santidade a que mais recorriam a pedir a sua proteção, além dos oragos das suas localidades, era Nossa Senhora da Boa Nova, cujo Santuário fica junto à Vila Medieval de Terena, a qual, todos os crentes diziam, que não desamparava nenhum militar que lhe fosse entregue, por isso, no dia da sua celebração, na Segunda Feira de Pascoela, eram imensos os romeiros que lá se deslocavam a fazer os seus agradecimentos pelas graças recebidas, ou seja, a pagar as suas promessas.  

O Chiquinho de Capelins não tinha promessas a pagar a Nossa Senhora da Boa Nova, nem noção do que isso era, mas num dos anos da referida década, no dito dia, também foi romeiro, porque a família decidiu fazer a romagem à dita Santidade, logo, ele também foi, mas como era dia de escola, esteve em dúvida de ir, mas o pai foi pedir à professora para autorizar a sua ausência, porque a falta na escola tinha de ser justificada. 

Da Aldeia de Ferreira até junto do Monte da Vila Velha de Terena, onde ficavam as carroças, charretes, churriões, cavalos e burros, demoraram cerca de uma hora, por isso, a partida foi entre as oito e as nove horas da manhã, foram por Faleiros, Folhinha, Ribeiro do Alcaide e Vila Velha, estacionaram a carroça num espaço do lado direito do pequeno ribeiro da Vila Velha, junto de familiares e vizinhos, deixaram as comidas do jantar (almoço) bem guardadas em cestas em cima da carroça, tapadas com uma manta, o pai prendeu o macho junto à carroça a comer palha que levou num saco de serapilheira e, depois de tudo arrumado, passaram o dito ribeiro pertinho do Santuário e seguiram, na companhia de muita gente, a pé, até lá acima à Vila de Terena e, ficaram parados logo à entrada à espera da chegada da procissão de Nossa Senhora da Boa Nova que saiu da Igreja Matriz de São Pedro pelas onze horas, para onde tinha sido levada em procissão ao cair da noite anterior com o Padroeiro São Pedro que foi ao seu encontro à cruz que está perto do Santuário. 

Quando a procissão chegou junto deles, com os pendões à frente, logo que houve espaço, entraram nas fileiras, com velas acesas, rezando e cantando conforme as indicações dos os padres e com muita devoção, foram em passo lento até ao Santuário onde chegaram cerca das treze horas, mas a Senhora da Boa Nova só chegou depois e, junto da porta do Santuário, antes de entrar, deram a volta ao andor e, começou a entrar muito devagarinho com a Imagem de Nossa Senhora da Boa Nova virada para os romeiros que rezavam, choravam, agradeciam de mãos postas, pediam graças, cantavam e faziam adeus a Nossa Senhora com lenços brancos, sendo um momento muito emotivo.

Já passava das treze horas, quando os romeiros voltaram à Vila Velha e, as mulheres começaram a estender mantas e lindas toalhas de mesa no chão, em cima das ervinhas, a abrir as cestas das comidas e a colocar, estrategicamente, pratos, travessas, copos, talheres e as boas comidas e bebidas, sentaram-se todos em volta do repasto e, pouco depois toda a gente estava a comer e a beber, regaladamente aquilo que só comiam em dias de festa e a partilhar entre vizinhos e familiares. 

O pic nic, acabou tarde, porque iam comendo devagar e, falando entre todos, por fim, recolheram tudo, e voltaram a guardar na carroça e partiu toda a gente a ver as barracas onde vendiam, marroquinaria, utensílios, doces, brinquedos e outros, subiram e desceram o caminho até perto da cruz várias vezes, e fizeram algumas compras, principalmente de torrão branco (torrão de alicante), não podia faltar, porque tinham de levar para oferecer um bocadinho aos vizinhos e familiares que não puderam ir à Festa, foram ao Bazar ver os animais, cabritos , borregos, leitões, frangos e outros, que lá estavam, vindos do pagamento de promessas, para rifar, compraram alguns bilhetes das rifas e, assim, depressa passou o dia e chegou a hora da partida para a Aldeia de Ferreira, onde chegaram ao pôr do sol, mais ricos, espiritualmente e com muitas novidades para contar aos vizinhos e rapaziada, ficando esta romaria marcada na vida do Chiquinho de Capelins.

Fim 

Texto: Correia Manuel 




sexta-feira, 11 de agosto de 2023

Memórias do Chiquinho de Capelins, quando foi azeitoneiro

Memórias do Chiquinho de Capelins, quando foi azeitoneiro 

Quando chegaram as férias escolares de Natal, cerca do dia 20 de Dezembro de um ano da década de 1960, o Chiquinho de Capelins, por ser pobre e mal fadado, teve de ir colher azeitona com os pais nos seus olivais no Gomes. 

Como os dias em pleno inverno eram muito pequenos em termos de luz solar, o trabalho tinha de começar o mais cedo possível, quando ainda estava um frio de rachar, mas como era por sua conta a mãe fazia um lume e só de verem o fumo, ficavam mais aliviados do frio, mas também dava para aquecer as mãos até o sol começar a despertar, se não fosse dia de nublados ou de chuva. 

Nesse trabalho, depois de apanharem alguma azeitona que estava no chão, por baixo das oliveiras, começavam por estender os panos feitos de sacos de serapilheira abertos e ligados uns aos outros com linhas fortes, para receberem a azeitona colhida da respetiva oliveira. 

O Chiquinho já tinha andado na colheita da azeitona noutros anos, mas nessa altura passava parte do dia a brincar e só quando lhe apetecia, levando como brincadeira, subia um ou dois degraus de uma escada ou à própria oliveira e, com muito vagar ia colhendo algumas azeitonas, uma a uma, mas desta vez era diferente, não havia tempo para brincar, e foi-lhe ditado pelo pai, que estava em idade de aprender a arte de ripar azeitona, porque, não era fácil para um principiante pegar num ramo da oliveira e deslizar a mão quase fechada por ele, movimentando os dedos sem apertar muito, até ao fim do mesmo, e as azeitonas iam caindo da mão para o dito pano que as esperava em baixo, os pais diziam que na idade dele já faziam azeitonadas do principio ao fim, fizesse chuva, frio ou sol e, em olivais distantes da Aldeia, cujo percurso para lá e volta era feito a pé e de noite.

O aprendiz de azeitoneiro, o Chiquinho, começou muito devagar, debaixo de olho dos pais que, começaram a dar-lhe as primeiras lições, o básico, mas como não tinha prática nenhuma, de início não podia subir mais do que dois ou três degraus da escada, devia colocar os pés direitos e não os mexer, para não escorregarem nos degraus e cair, enquanto não se conseguisse equilibrar na escada devia segurar-se com uma das mãos e ripar a azeitona com a outra, quando descesse da escada tinha de ver bem onde punha os pés em cima dos panos, para não pisar e esmagar as azeitonas e acabar com elas, porque, assim deixariam ali desperdiçado parte do azeite que deviam dar no lagar, ao ripar não devia apertar muito as azeitonas nas mãos para não as esmagar, não podia ser ele a mudar a escada de um lugar para outro, tinha de ser o pai, para a encaixar nos ramos das oliveiras e ficar bem segura e mais isto e mais aquilo, uma grande lição, era de mais, para a primeira vez, mas as horas foram passando e, a meio da manhã pararam uns minutos para uma bucha, nada mau, e ao meio dia o jantar (almoço), foi um pic nic que muito agradou ao Chiquinho, já tinha fome, e mal acabaram de comer já estavam pendurados das oliveiras a colher azeitona, andavam sempre com pressa, porque os dias eram muito pequenos, mas o dia foi passando sem ele dar por isso e, pouco passava das dezasseis horas receberam ordem de paragem, estava na hora de levantar os panos, juntar os sacos com a azeitona colhida durante o dia para fazerem a sua limpeza, ou seja, separar a azeitona das folhas e dos ramos, foi armado o alimpador com uma escada na horizontal, a cabeceira coberta com um dos panos e, foram colocados panos no chão entre a dita cabeceira e o lugar de onde o pai atirava a azeitona ao vento com uma pá de ferro para a dita cabeceira, onde ela chegava com poucas folhas e ramos, que eram tirados à mão pela mãe e pelo Chiquinho, por fim, a azeitona limpinha foi ensacada em sacos de serapilheira e carregada na carroça já ao anoitecer e levada dali, diretamente para um dos depósitos onde a recebiam para seguir para um lagar de azeite.  

Este trabalho repetia-se, diariamente e o Chiquinho não andava nada contente, tudo lhe corria mal, não melhorava a técnica mais um dia do que outro, e era um trabalho que não gostava de fazer, passava os dias a pensar nas brincadeiras com a rapaziada, estava a desperdiçar o tempo da infancia, mas, mesmo sem produzir quase nada, não era dispensado, sendo obrigado a continuar naquele martírio, porque, o pai dizia que com o tempo, ia aprender a ripar azeitona, se todos aprendiam, ele também aprendia, mas ele não queria aprender e, assim que descia da escada pisava as azeitonas todas, parecia um lagar, as azeitonas atraiam aos pés dele, porque ele olhava bem e não estava lá nenhuma, mas quando os mudava era só tchoc tchoc, azeitonas esmagadas, sem ele perceber de onde tinham aparecido, e não adiantava chorar, nem dizer que a culpa não era dele, o mal estava à vista.

Um dia o Chiquinho andava empoleirado na escada e chegou o vizinho António à procura de umas lérias, começou por gabar o Chiquinho, dizendo que já andava na azeitona, assim é que se faziam os homens e tinha jeito para azeitoneiro, mas ele ficou em brasa, porque não concordava, não tinha jeito nenhum, mas foi o pai que respondeu, que ele tinha pouco jeito, colhia pouca azeitona e depois ainda a pisava toda, mas estava a aprender, e o vizinho António disse-lhe: - Olha que o serviço do menino é pouco, mas quem não o aproveita é louco! Ora, isso ainda irritou mais o Chiquinho, assim, é que não era dispensado daquele trabalho, mas teve de ficar calado e continuou a trabalhar, zangado com o vizinho António.

Quando, no início de Janeiro, recomeçou a escola, o Chiquinho pôs as mãos a Deus em agradecimento, por a escola recomeçar e, a partir desse ano, nunca existiu uma boa amizade entre ele e a colheita de azeitona.  

Fim 

Texto: Correia Manuel 

Lugar dos olivais - Gomes




quinta-feira, 10 de agosto de 2023

Memórias do Chiquinho de Capelins, quando caiu da bicicleta no ribeiro ao poço da estrada

Memórias do Chiquinho de Capelins, quando caiu da bicicleta no ribeiro ao poço da estrada 

Nos meados dos anos de 1960, o Chiquinho de Capelins começou a andar de bicicleta, não era numa bicicleta para crianças, nem existia nenhuma na Aldeia de Ferreira, era na do pai, muito grande e pesada, porque tinha o quadro em ferro e as rodas eram número 28, e como ele era, fisicamente pequenino, era muito difícil de chegar do selim aos pedais, por isso, ao aprender e nos primeiros tempos, tinha de meter uma perna por dentro do quadro para poder pedalar e, numa posição incómoda percorria muitos quilómetros pela Aldeia e arredores, mesmo sem se poder sentar no selim nunca se cansava, dava muitos trompaços, até partiu um braço, mas depois de melhorar continuou a pedalar. 

Um dia, a mãe do Chiquinho foi tratar de uns assuntos à Vila do Alandroal e encontrou lá umas pessoas com origem de Capelins, onde, ainda residiam alguns familiares, no Monte da Talaveirinha e pediram-lhe para dar um recado ao vizinho Zé, que todos os dias lá passava, para dizer lá no dito Monte, que eles não podiam ir visitá-los no Domingo conforme estava combinado, mas iam no Domingo seguinte, assim, até a galinha a sacrificar ganhava mais oito dias de vida. 

Como o vizinho Zé, chegava a casa já de noite e abalava de madrugada, a mãe do Chiquinho achou por bem não ir bater à porta do homem, no dia seguinte, quando estavam a almoçar (pequeno almoço) disse-lhe que, tinha de ir dar um recado, mas era longe, por isso, tinha de ir de bicicleta e começou com o sermão habitual, para ir devagar, porque podia cair e ficar mal e mais isto e mais aquilo e o Chiquinho escutava e respondia: - Está bem! Está bem! A mãe continuava a dizer-lhe para ir pela estrada das oliveiras a que passava acima do poço da bomba, pelo chaparral, na herdade da defesa da casa Dias, porque era o melhor caminho e ele respondia: - Está bem! 

O Chiquinho ficou entusiasmado com a volta que ia dar e comeu à pressa, tomou conta do recado, repetiu algumas vezes para não se enganar, montou na bicicleta, desceu a rua de Capelins de Cima, mas ao contrário do que a mãe lhe disse, virou para Capelins de Baixo, porque tinha de ir saber as novidades do dia e, se pudesse, ainda brincava um bocado, porque depressa ia ao Monte da Talaveirinha a dar o recado, e teve sorte, quando chegou estava um grupo de rapazes a organizar o jogo dos escondarêlos, arrumou a bicicleta ao lado da loja do Monte da Figueira e juntou-se a eles e, quando se lembrou do recado já tinha passado mais de uma hora, correu para a bicicleta, saltou-lhe para cima e começou a descer a chapada do Monte da Figueira e, como já estava atrasado quase voava em velocidade descontrolada, conseguiu contornar o poço da estrada e, logo a seguir o caminho atravessava o ribeiro, onde fazia um desnível e afundava, a bicicleta entrou no barranco, mas não saiu a rodar, esbarrou na barreira em frente e mandou o Chiquinho ao chão. 

O Chiquinho ficou atarantado, mas foi-se levantando devagar, confirmando que não tinha nenhum osso partido, mas começou a sentir uma massa pegajosa nas mãos, com mais abundância na mão e no braço direito, no qual, com o impacto da queda, entrou-lhe aquela massa pela manga da camisola até ao cotovelo, pensou que, era apenas lama, levantou a bicicleta e afastou-se para junto da erva e da água para limpar e lavar a suposta lama, mas começou a sentir um cheiro nauseabundo e quando teve a certeza o que era, ficou desolado, estava cheio de cocó de porco, porque era naquele lugar que algumas mulheres de Capelins de Baixo iam lavar as tripas dos porcos no dia das matanças, começou a pensar como se podia livrar daquilo e, principalmente do mau cheiro e decidiu lavar-se no ribeiro, mas quanto mais se lavava, mais mal cheirava, limpou tudo, até no peito, mas teve de despir a blusa, lavou-a e limpou tudo o melhor que podia, mas como estava atrasado, teve de continuar, porque já era tarde, depois com a deslocação da bicicleta na descida do malhão a blusa foi secando, mas o mau cheiro a cocó sêco era cada vez mais e o Chiquinho quando chegou ao Monte da Talaveirinha chamou as pessoas, mas teve de manter alguma distância, enquanto deu o recado e, quando o chamaram para lhe darem alguma melhadura, talvez algum queijo de ovelha ou umas passas de figos ou amêndoas, respondeu que não tinha vagar nenhum, despediu-se à pressa, montou na bicicleta e voltou para a Aldeia de Ferreira pelo caminho que a mãe lhe tinha recomendado e, quando chegou a casa, por sorte a mãe não estava, foi a correr lavar-se com sabonete lux e esfregou, esfregou, quase gastou um sabonete e o mau cheiro disfarçou, mas estava metido no nariz e ficou entranhado nas mãos durante algum tempo, por isso, essa aterragem forçada da bicicleta no ribeiro ao poço da estrada, ficou na memória do Chiquinho para a sua vida.

Fim 

Texto: Correia Manuel 


Junto ao poço da estrada, em Capelins 




terça-feira, 8 de agosto de 2023

Memórias do Chiquinho de Capelins, quando era dono dos ninhos

Memórias do Chiquinho de Capelins, quando era dono dos ninhos 

No decorrer da década de 1960, a vida económica e social na Freguesia de Capelins, começou a melhorar, já não era como em tempos anteriores, mas a maioria da rapaziada, em termos materiais, continuavam a não ter quase nada de seu, poucos ou nenhuns brinquedos, roupas, calçado, guloseimas e outras coisas básicas, por isso, inventavam formas de empoderamento do que estivesse ao seu alcance e que a natureza lhe oferecia, como os ninhos das aves que, nidificavam nas oliveiras, azinheiras e outras árvores dentro da Aldeia e nos arredores, todos os ninhos tinham dono e não eram as respetivas aves, embora durante algum tempo fosse a sua casa e dos seus filhos, os donos era a rapaziada que disputava cada novo ninho para somar ao seu património, quantos mais tinha de seus, mais importantes se achava e, diariamente na escola primária eram nomeadas as quantidades de ninhos que cada um tinha e, de que aves eram, porque, havia alguns, como os das rolas, perdizes ou outras aves graúdas, que valiam por dois ou três, dos de milheirinha ou pintassilgo, mas esses ninhos não eram para destruir, antes pelo contrário, ficavam protegidos pelos seus donos, até que os passarinhos novos os deixassem se, eventualmente existisse algum caso maléfico, não era a norma. 

Por vezes, as ditas disputas, levavam a desentendimentos entre os rapazes e raparigas na escola, quando o mesmo ninho era reivindicado por dois ou três donos, principalmente os que se situavam nas oliveiras junto à estrada nova  por onde todos passavam para a escola e achavam o mesmo  ninho, depois quem era o seu dono ou dona? Algumas vezes decidia-se através de um tribunal popular em que os mais influentes acabavam por decidir a quem pertencia o ninho, fazendo perguntas sobre a data da descoberta, em que fase estava o ninho, ou seja, se os pássaros o andavam a fazer, se já estava feito, se já tinha ovos, quantos tinha, se já tinha passarinhos novos, tudo isso somava pontos e, fazendo fé nas respostas de cada candidato a dono do ninho, assim seria atribuído, com aceitação, ou não, por todos, mas a maioria das vezes ficava resolvido. 

O Chiquinho de Capelins era dono de muitos ninhos, porque depois de sair da escola, deixava a mala dos livros e cadernos em casa e partia para os montados e olivais a passar o arvoredo a pente fino e nem precisava de tomar notas, porque ficava tudo na cabeça, onde era, de que ave era e em que estado estava o ninho. 

Um dia o Chiquinho ia com a irmã para a escola e disse-lhe para esperar por ele, ia só ver quantos ovos tinha o seu ninho na primeira oliveira a seguir ao muro do Monte Grande junto à estrada nova, e a irmã respondeu-lhe que aquele ninho não era dele, era da Ana, porque ela o tinha achado quando os pássaros o andavam a fazer! O Chiquinho ficou furioso e afirmou que era dele e ninguém lhe o tirava, muito menos a Ana e que, se a visse em cima daquela oliveira a mandava de lá abaixo e pediu à irmã para lhe dizer que o ninho era dele, porque o tinha achado só com dois ou três pastinhos.

À tardinha quando o Chiquinho chegou da escola a irmã já o esperava para lhe contar a conversa com a Ana sobre o ninho e disse-lhe que ela afirmava que o ninho era dela e quando vinham da escola ela subiu à dita oliveira para ver quantos ovos tinha, mas escorregaram-lhe os pés na pernada da oliveira e só não bateu com as costas no chão, porque ficou pendurada pelas cuecas! O Chiquinho ficou abismado e perguntou: 

Chiquinho: A Ana ficou pendurada da oliveira pelas cuecas? E como é que as cuecas não rasgaram? 

Irmã: Não rasgaram, não, porque são muito grandes e esticaram, devem ser da mãe, ou alguém lhe as deu, foram a sorte dela! Mesmo assim, ela não desiste do ninho, diz que é dela! 

Chiquinho: Não desiste do ninho? Então vais ver se não desiste, é só eu apanhá-la lá em cima da oliveira, nem as cuecas a salvam! 

Irmã: Não lhe faças mal, coitadinha! Deixa-a ficar com o ninho, ela não tem nada, ou então, fica para os dois! 

Chiquinho: Estás parva? Ou fazes-te? Onde é que tu já viste um ninho com dois donos? O ninho é meu e acabou a conversa! 

Mas não foi bem assim, como o horário escolar do Chiquinho e da Ana eram diferentes, ela saía mais cedo e de passagem subia à oliveira a espreitar o ninho, depois, mais tarde vinha o Chiquinho, subia à oliveira a ver o ninho e nunca se encontravam no lugar do ninho, pelo que, foi passando o tempo, o pássaro fêmea pôs os ovos, os passarinhos nasceram, os pais criaram-nos e, um dia quando o Chiquinho subiu à oliveira já lá não estavam, tinham voado e deixaram o ninho vazio, sem nada, aos seus dois donos.

Fim 

Texto: Correia Manuel 

Aldeia de Ferreira em Capelins 





segunda-feira, 7 de agosto de 2023

Memórias do Chiquinho de Capelins, quando foi picado pelas vespas

Memórias do Chiquinho de Capelins, quando foi picado pelas vespas 

Numa manhã de um dia de verão nos meados da década de 1960, o Chiquinho de Capelins brincava, sentado no chão, com um carrinho feito de uma lata das conservas das sardinhas com umas mulas feitas de cortiça, que puxavam a sua suposta carroça para carregar com terra e pedras de um lado para outro, quando ouviu alguns zumbidos em volta das orelhas, abanou a cabeça para afastar os inconvenientes insetos e continuou a brincar, mas de vez em quando, os ditos insetos faziam uns voos rasantes à cabeça que o assustavam, até que, levantou os olhos para o beiral do telhado da cabana do macho e viu um grande vespereiro, levantou-se do chão e foi a correr chamar a mãe para lhe mostrar o que tinha achado. 

A mãe do Chiquinho andava a tratar da casa e respondeu-lhe que não tinha vagar para ir ver fosse o que fosse, mas perante a sua insistência dizendo que estava ali um enxame, lá foi com ele e, ao ver um vespereiro tão grande, disse-lhe que não se aproximasse mais dali, porque as vespas eram tantas que o mais certo era ser picado e podia ser um caso sério, se fosse alérgico até podia morrer e que  ela na madrugada seguinte logo tratava delas, porque tinha de ser muito cedo quando elas ainda estavam frias devido à baixa temperatura da noite e não tinham força para espetar o ferrão na gente e mesmo assim, o melhor era deitar-lhe uma panela de água a ferver por cima, mas para isso, tinha de empinar ali uma escada, assim o melhor era derrubar o vespereiro com o esborralhador do forno de cozer o pão, um pau comprido, e depois de o apanhar no chão, despejar-lhe a água a ferver em cima e acabavam-se ali as vespas, pelo menos naquele vespereiro. 

O Chiquinho pegou no carrinho de lata e afastou-se daquele sítio e a mãe entrou para casa para continuar a fazer o que antes estava fazendo e ele foi brincar debixo de uma oliveira que estava no meio do quintal, mas sempre a pensar no vespereiro, na maneira de se adiantar à mãe, ou seja, na forma de o derrubar do beiral sem ser ferrado pelas vespas, calculou quantos quilómetros corria à hora e achou que, corria mais do que as vespas voavam, por isso, podia derrubá-lo com o esborralhador e fugir, que as vespas nunca o apanhavam, e se bem o pensou, melhor o fez, deixou a brincadeira, espreitou a mãe e foi calcular a distância entre o esborralhador e o vespereiro para o derrubar e dar à sola, depois de tudo bem planeado e bem medido foi buscar o esborralhador e, pé ante pé, foi-se aproximando do alvo, onde já tinha os olhos postos e bem abertos para no caso de ver algum movimento suspeito estar à defesa, mas parece que, as maganas das vespas também já estavam com o olho nele, porque ainda estava distante e sofreu um ataque inesperado, nem se apercebeu de onde elas apareceram, começou a ouvir muitos zumbidos em volta e, nem teve tempo para se defender, começou logo a ser picado em todo o lado, em volta dos olhos, nos sobrolhos na testa, nas mãos e por aí, atirou com o pau e correu desorientado pela tapada abaixo, até esbarrar na parede lá ao fundo onde foi obrigado a parar a corrida, foi então que teve a certeza que estava todo picado, com imensas dores, começou a chorar alto para a mãe ouvir e acudir-lhe e a mãe, ouviu aquele berreiro e apareceu logo a perguntar-lhe o que tinha acontecido, mas não foi preciso ele responder, porque a mãe viu o esborralhador no chão por baixo do vespereiro e comentou: - Ah malandro, então tu foste espicaçar as vespas a uma hora destas? Agora, tens aí o resultado, anda cá, temos de pôr aí terra molhada senão vais inchar todo! 

O Chiquinho pulava, estrebuchava e chorava baba e ranho, e não se aproximava lá para os lados do vespereiro, a mãe disse-lhe para fazer xixi para cima da terra para ficar molhada, porque era muito melhor do que se fosse molhada com água e, depois começou a pôr-lhe compressas de terra em cima das picadas, mas foi um processo muito doloroso, porque ele não a deixava tocar nos sítios das picadas e, só passadas algumas horas começou a aliviar, ainda inchou um pouco em volta dos olhos, mas graças à mezinha da terra molhada com xixi, durante o dia foi melhorando e à noite estava capaz de outra capeia às vespas. 

O Chiquinho ficou com medo de vespas, mas nunca desistiu de as provocar nas horas que elas tinham pouca força para espetar o ferrão, ou seja, de manhãzinha e mesmo assim, ainda foi picado mais algumas vezes, mas sabia a mezinha a aplicar na picada e, quando isso acontecia tratava-se a ele próprio. 

Fim 

Texto: Correia Manuel 

Lugar da contenda com as vespas 





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