quinta-feira, 22 de junho de 2023

Memórias do Chquinho de Capelins, quando fez a açorda sem azeite

Memórias do Chquinho de Capelins, quando fez a açorda sem azeite

Nos alvores dos anos de 1960, num dia como tantos outros, o Chiquinho de Capelins, arrumou-se, foi tratar do gado que tinha a seu cargo e partiu para Capelins de Baixo, para se juntar ao grupo de rapazes das brincadeiras, assim que chegou, já o esperavam e começaram a brincar às escondidas até cansar, depois, passaram para outros jogos que não exigiam corridas, como o jogo do pião, do berlinde e outros, até que, as barrigas começaram a anunciar que estava na hora do jantar (almoço).
O Chiquinho, nesse dia, tinha ficado sozinho em casa e a mãe na noite anterior disse-lhe que tomasse tato na cabeça e não levasse gaiatos a brincar lá para casa e que ao meio dia, quando tivesse fome, fizesse uma açorda, era só coser os ovos que quisesse, colher uns poejos no quintal, lavá-los, cortá-los com um dentinho de alho aos bocadinhos, pôr um pouco de sal, e numa tigela, pisar tudo bem pisadinho com o pisador que ficava em cima da mesa, depois acrescentar duas ou três colheres de azeite e vazar a água bem quente para escaldar o azeite, meter o pão migado e ficava pronta a comer!
O Chiquinho respondeu que, era mestre de culinária, sabia muito bem, fazer açordas, sopas de grão ou de feijão, e até sabia estrelar ovos e fritar batatas, não precisava de tanta explicação! E a conversa com a mãe, ficou por ali, para não levar algum sopapo nas orelhas!
Quando a rapaziada começou a debandar para suas casas à procura do jantar (almoço), o primo disse-lhe para ir comer com ele, mas que ainda era cedo, a mãe dele só tinha a comida pronta lá para a uma e tal, e devia ser uma sopa de tomate com ovos, podiam ficar ali mais um bocado e depois iam comer os dois, mas o Chiquinho disse-lhe que não, porque ia fazer uma açorda, conforme a mãe lhe disse, e sendo assim, era melhor dizerem à mãe dele que iam os dois comer a Capelins de Cima, e assim fizeram.
Quando chegaram à casa do Chiquinho, ele começou logo os preparativos da açorda, ligou o fogão a gás para a água ferver e coser dois ovos para cada um, pisou os poejos com alho e sal, migou o pão para um prato e quando achou que os ovos estavam cosidos, tirou-os para arrefecerem e para os descascar, deitou a água em cima dos temperos e não demorou já estavam a comer uma boa açorda, mas durante a comesana, olhavam um para o outro com vontade de dizer alguma coisa, mas nenhum dizia nada e continuavam a comer, até que, quase no fim, o Chiquinho perguntou ao primo:
Chiquinho: Olha lá primo, tu achas que a açorda está boa?
Primo: Boa? Está muito boa, bem salgadinha, bom sabor, mas na verdade não está bem igual ás que a minha mãe faz!
Chiquinho: Ora aí está, mas está melhor, ou está pior, do que as da tua mãe?
Primo: Olha, até parece que está melhor, talvez por ter mais sal, mas não deve estar!
Chiquinho: Pois é, também acho que há aqui qualquer coisa esquisita! Será que lhe falta alguma coisa? Mas tem poejos, tem alho, tem sal! Então, tem tudo!
Como não estavam convencidos que a açorda tivesse tudo, levantaram-se das cadeiras a olhar para dentro da tigela para verem bem se estavam lá os temperos todos e foi naquele momento que, exclamaram ao mesmo tempo: - Não tem azeite! E agora?
Como já estavam acabando de comer, já não dava para acrescentar o azeite e concordaram em acabar a açorda como estava, sem azeite, mas a partir desse dia, o Chiquinho nunca mais fez uma açorda sem conferir se tinha lá o azeite.
Quando acabaram a açorda, o Chiquinho perguntou ao primo se queria um bocado de pão com queijo, ou com outro conduto, mas ele apressou-se a responder que, com aquela barrigada de açorda, já não conseguia comer mais nada e acrescentou: - Ainda nunca tinha apanhado uma barrigada de açorda sem azeite! E começaram os dois a rir, o caso não era para menos, e a mãe do Chiquinho nunca soube do acontecimento, senão, o mestre de culinária levava grande desanda.
Fim
Texto: Correia Manuel

Ferreira de Capelins

Antiga Capelins de Cima



terça-feira, 20 de junho de 2023

Memórias do Chiquinho de Capelins, quando ficou entalado numa oliveira

Memórias do Chiquinho de Capelins, quando ficou entalado numa oliveira

Num Domingo à tardinha, no início da década de 1960, o Chiquinho de Capelins estava a brincar, fazendo estradas e paredes com terra e pedras na rua principal de Capelins de Baixo, quando o avô saiu de casa e começou a descer a dita rua, o Chiquinho perguntou-lhe onde ia e ele respondeu que ia à taberna e acrescentou que se ele quisesse podia ir, o Chiquinho levantou-se, pegou na mão do avô e lá foram os dois!
Quando chegaram à taberna o avô pediu duas laranjadas, o que desagradou ao Chiquinho, porque gostava muito de pirolitos, mas o avô dizia-lhe que os pirolitos faziam-lhe mal à barriga, porque eram feitos de água com gás e açúcar, enquanto as laranjadas eram feitas das laranjas, das laranjeiras das ruas de Vila Viçosa, que o Senhor Xico Zé comprava para fazer delas a dita bebida, o Chiquinho dizia que as laranjadas amargavam e não gostava delas, mas quem mandava era o avô e tinha de aceitar.
A televisão que se encontrava no casão, estava a transmitir um filme do Tarzan dos Macacos e o Chiquinho foi a correr sentar-se e ficou maravilhado com as imagens do Tarzan dos macacos e da selva, não imaginava que aquilo existisse, mas o que mais admirava era o grito do Tarzan e os saltos de árvore em árvore pendurado das lianas e começou a imaginar que podia, muito bem, fazer igual.
Quando o filme acabou o avô chamou-o para irem embora, a ver da ceia (jantar), no caminho para casa as cenas do filme do Tarzan não lhe saiam da cabeça e experimentou o célebre grito, mas não passou de um berro que assustou os cães da Aldeia que começaram todos a ladrar, quando chegaram à curva de Capelins de Baixo o Chiquinho disse ao avô:
Chiquinho: Avô, já sei o que quero ser quando for grande!
Avô: Eu também sei, já me disseste muitas vezes que queres ser alvanéu, como eu!
Chiquinho: Não, não avô, já não quero, a minha mãe disse-me que esse trabalho custa muito!
Avô: Mau, mau, estava a contar com um ajudante, agora mudaste de ideia?
Chiquinho: Mudei, mudei avô, agora quero ser Tarzan!
Avô: Mas isso, não é profissão, é uma personagem do filme!
Chiquinho: Seja lá o que for, é isso que eu quero ser e vou já começar a treinar, a saltar de árvore em árvore!
Avô: Mas a treinares o quê? Para caíres de cima de algum chaparro ou oliveira e partires um braço ou uma perna, tu tens é de estudar a ver se és alguém!
Chiquinho: Avô, eu já sei subir às árvores, agora é só treinar com umas cordas para saltar de umas para as outras, como faz o Tarzan, não acho nada difícil e posso ser alguém!
Avô: Pronto, está bem, se queres ser Tarzan, serás Tarzan, mas só quando fores grande!
O Chiquinho ficou muito contente por ter a aprovação do avô e não esquecia o que tinha visto no filme, e no dia seguinte, assim que teve oportunidade, começou a tentar subir às oliveiras, chaparros, amendoeiras e todas as árvores que estivessem à mão, até que, um dia, enquanto a mãe andava na lida da casa, subiu a uma oliveira no quintal em Capelins de Cima, mas quando foi para saltar, ficou entalado entre duas pernadas, a cerca de um ou dois metros do chão e começou a espernear, mas quanto mais se mexia mais entalado ficava e começou a sentir-se muito apertado com dificuldade em respirar e sem conseguir falar para pedir ajuda, piava cada vez mais fino, e começou a chorar a pensar que era o adeus à vida presente, mas a irmã que andava ali a brincar apercebeu-se que ele estava aflito e foi a correr chamar a mãe que, ao saber que ele estava empoleirado em cima de uma oliveira sem conseguir descer, respondeu: - Deixa-o lá estar para ele aprender, a toda a hora lhe digo para não subir às oliveiras, mas agora apanhou essa mania e anda sempre empoleirado em tudo o que apanha! Mas a irmã tanto insistiu, dizendo que ele estava a morrer entalado na oliveira, que a mãe foi a correr e salvou-lhe a vida, mas não se livrou de levar uma grande desanda, e ele justificou-se, dizendo que andava a treinar para ser Tarzan, sabia lá a mãe o que isso era, mas livrou-se de levar uma tareia, porque estava muito fraquinho, nem se segurava nas canetas, ou seja, nas pernas.
O Chiquinho apanhou grande susto e andou muito tempo sem trepar às oliveiras nem aos chaparros, tinha medo, via-os como seus inimigos, mas com o passar do tempo esqueceu o acontecimento e começou, novamente, mas nunca mais imitou o Tarzan, porque não havia condições, faltavam as lianas e o sonho do Chiquinho ficou adiado.
Fim
Texto: Correia Manuel




sábado, 17 de junho de 2023

Memórias do Chiquinho de Capelins, quando foi achar tesouros

Memórias do Chiquinho de Capelins, quando foi achar tesouros

Depois do jantar (almoço) num dia do mês de Junho na década de 1960, quando o Chiquinho de Capelins chegou junto ao Lagar da Casa Dias, na rua principal de Capelins de Cima, já lá estavam os rapazes do grupo das brincadeiras e, alguns reclamaram, por ele chegar atrasado, mas ele não deu resposta e perguntou:
Chiquinho: Então malta, hoje ao que vamos a brincar?
Alguns rapazes encolheram os ombros, e foi o Manel que respondeu:
Manel: Não sei, são sempre as mesmas brincadeiras, isto já cansa, aqui não há nada de novo, estou farto disto, um dia abalo daqui e nunca mais cá volto, mas onde é que nós vamos, se nem dinheiro temos para nada!
Chiquinho: Tens toda a razão, isto parou no tempo, já estamos todos cansados das mesmas coisas, não há aqui nada para fazer!
Manel: Pois não! Mas eu hoje estou cá com uma ideia, porque a semana passada ouvi uma conversa aqui neste sítio, entre os mais velhos, a dizerem que aí na Defesa, lá para as minas e na Vila dos romanos estava cheia de tesouros! O que é que vocês acham se nós fossemos a ver disso?
Chiquinhol: Eu acho que é uma boa ideia, mas como é que nós achamos algum tesouro, se andam aí homens e mulheres a trabalhar e outros a guardar o gado há tantos anos e nunca acharam aí nada? O ti Manel João anda aí com as vacas, conhece isso como as palmas das mãos, e eu um dia perguntei-lhe se tinha econtrado aí algum tesouro e ele disse-me que nunca aí encontrou a ponta de um corno!
Manel: Sim! E tu achas que se ele encontrasse algum tesouro ia dizer-te? Calava-se bem caladinho e ia procurar outro! Era assim que eu fazia!
Chiquinho: Isso também é verdade, o meu avô contou-me que uns homens acharam aí uma panela cheia de moedas de ouro, era uma fortuna e ficou para o dono da terra e também acharam outras coisas que eram dos romanos que eram muito ricos, até tinham minas de ouro para lá da ribeira!
Manel: Isso é tudo verdade, ainda hoje nas minas dos romanos há ouro e outros minérios que valem muito dinheiro, só que as pessoas aqui da Aldeia não conhecem, por isso, nós podíamos ir passar as minas a pente fino e trazíamos tudo que lá brilhasse, depois cá logo víamos o que se aproveitava, as pepitas de ouro os diamantes as jóias e outros minérios!
Chiquinho: A ideia é boa, mas não há nada como as moedas de ouro, era mais fácil acharmos alguma por lá perdida, onde moravam os romanos, aí de certeza que há muitas, isso é que era a nossa salvação, para darmos à sola daqui!
Manel: Lá isso era, eu até sei onde as podemos vender, é numa ourivesaria em Vila Viçosa, e não enganam ninguém, contaram-me que têm comprado grandes paneladas de moedas de ouro e de prata, levadas daqui, da nossa Freguesia!
Chiquinho: Então se acharmos algumas panelas de moedas de ouro, vamos vendê-las a Vila Viçosa, não é? E depois onde escondemos o dinheiro?
Manel: Acha lá primeiro as panelas cheias de moedas de ouro e não te preocupes com o resto, o dinheiro divide-se em irmandade, em partes iguais, e cada um faz o que quiser com a sua parte, eu da minha já tenho ideia do que vou fazer com ela!
Chiquinho: Eu não tenho ideia nenhuma, só a de abalar daqui para Lisboa, porque lá é que a vida é boa!
Manel: Dá cá a mão, já somos dois, eu com a minha parte compro uma barraca, além de Lisboa para lá, porque já lá estive e gostei do sítio, já lá conheço alguma coisa!
Chiquinho: Nem a propósito, é o meu sonho, comprar lá uma barraca, mas ali ao pé do aeroporto, para me sentar à porta a ver levantar e aterrar os aviões a toda a hora, sem pagar nada!
Cada um dos rapazes disse o que fazia com a sua parte do tesouro e acabaram todos por comprar uma barraca em Lisboa, um rapaz ainda alvitrou se não seria melhor comprar um andar, mas o Manel respondeu que isso era uma gaiola e se não sabia o que acontecia aos pintassilgos quando os metiam numa gaiola, morriam de tristeza, e se era isso que ele queria! Com esse exemplo, acabaram-se logo os andares, e alguns rapazes decidiram comprar as barracas junto ao aeroporto e outros de Lisboa para lá, mas combinaram juntarem-se todos, para passear por Lisboa, irem até ao Jardim Zoológico, ao Campo Pequeno, ao Castelo de S. Jorge, ao Rossio, ao Terreiro do Paço, a Belém, aos bailes no Parque Eduardo VII, ao Cinema, ao Teatro, e a ver o mar, havia tanto, tanto, para ver e fazer em Lisboa.
Os rapazes planearam a volta para achar os tesouros e decidiram seguir pela estrada do Rosário, mas pelo Monte do ti Zé "Anão", pelo Gomes e depois era só descer pela Defesa na direção da Ribeira de Lucefécit, mas antes viravam para o Outeiro Alto, onde se situava a primeira mina a ser inspecionada.
Os rapazes partiram muito animados, com a certeza que voltariam ricos, como planeado, antes da Ribeira de Lucefécit, viraram à direita na direção do outeiro alto, que subiram a custo devido à grande chapada e ao calor e quando chegaram ao topo estavam exaustos e sentaram-se à sombra de um chaparrinho, a descansar e a apreciar a paisagem, tinham a Aldeia do Rosário quase a seus pés e quando comentavam as belas vistas o Chiquinho disse que o nome de outeiro alto, estava mal posto, porque devia ser, outeiro das belas vistas, todos concordaram, mas já estava batizado, e não eram eles que podiam mudar-lhe o nome.
Assim que descansaram o Manel levantou-se e disse que estava na hora de começar o trabalho ali na mina do outeiro alto, cuja abertura estava virada para a Aldeia do Rosário, por isso, era só descer um pouco naquela direção e ficavam na boca da mina, mas o Chiquinho disse que nem pensar em ir para aquele lado, porque sabia que estavam homens mortos lá dentro e a mina era uma armadilha, tinha uma entrada triunfal e depois fazia um poço fundo e foi aí que os tais homens morreram e ainda lá estavam, o Manel tentou desvalorizar o caso, disse que também tinha ouvido isso, mas já que estavam ali, podiam ir lá ver, com cuidado! Os outros rapazes responderam que também não iam, porque o poço devia ser uma armadilha para guardar a mina, e fizeram finca pé, o Manel ainda se zangou, dizendo que assim, não iam encontrar nenhum tesouro, mas não quis ir sozinho, adiantou que havia outros sítios, onde tinham de procurar bem, como no outro outeiro ao lado, para sul, nas casas onde moraram os romanos, e seguiram à procura de tesouros nesse sítio.
O grupo de rapazes desceu o outeiro alto, na direção da fonte do castelo, porque estavam cheios de sede, quando chegaram queriam beber todos ao mesmo tempo e quase houve zaragata, por fim, lá se entenderam, combinaram que primeiro bebiam uma lata cheia de água cada um e começava pelomais velho, assim, mesmo que a fonte se fosse abaixo, já todos tinham bebido, depois já podiam encher a barriga se houvesse água! Começaram a beber e feitos garganeiros a tentar secar a fonte, embora o nascente se visse a correr, vindo da rocha que estava por cima, a sede era muita e a água na fonte estava cada vez mais baixa e alguns rapazes ficaram convencidos que conseguiam secá-la, mas não, quase rebentaram com beber água e não a secaram.
Depois de bem bebidos, os rapazes subiram a direito ao outeiro dos castelinhos ao sítio do forte romano, porque era nesse lugar que diziam que havia muitos tesouros, mas o Manel avisou para não fazerem barulho e falar baixinho, porque andavam por ali almas penadas dos romanos e eram perigosas, então os rapazes a partir dali apenas sussurravam e quando se aproximaram da parede mais alta, que restava do Forte, com dois a três metros de altura, iam pé ante pé, viram na sua frente uma grande cobra, como nunca tinham visto, com as cores muito garridas, os rapazes correram a pegar em paus e pedras para a matar, mas o Manel deu um salto para a frente dos rapazes e disse-lhe que não estavam bons da cabeça, porque queriam matar a galinha dos ovos de ouro! Os rapazes ficaram impavidos e responderam que era sempre assim, nenhuma cobra lhes escapava, e perguntaram-lhe o que tinha aquela cobra a ver com as galinhas e com ovos de ouro? Então não eram moedas?
Então, o Manel teve de contar por alto, à rapaziada, o conto da galinha dos ovos de ouro e acrescentou que, todos os tesouros eram guardados por uma cobra, por isso, aquela cobra tão diferente das outras, só podia ser a guardiã de um tesouro que estava por ali e seria ela a dizer-lhes onde ele estava, se a matassem nunca mais achavam o tesouro, por isso, deviam estar quietinhos e ver onde ela se metia e depois era só tirar o tesouro!
Os rapazes concordaram, estava bem visto, deixaram cair os paus e as pedras que tinham nas mãos e ficaram todos a observar onde a cobra se metia e não demorou o bicho com medo dos intrusos começou a sumir-se para dentro das pedras junto à dita parede e exclamaram todos: - Já sabemos onde está o tesouro! Mas o Manel adiantou que, estava muito fundo, a mais de dois metros debaixo daquelas pedras todas e da parede, porque a cobra tinha quase dois metros e tinha-se sumido a pique, por isso, tinham de pensar, muito bem, na maneira de tirar dali o tesouro.
Depois de muitas ideias sem sentido, os rapazes não tiveram coragem de tirar dali pedra sobre pedra, debaixo de um sol que queimava por cima da roupa e, porque era muito perigoso, uma vez que, ao tirar as pedras que estavam encostadas à parede ela podia cair-lhe em cima e ficavam lá entaipados para sempre, porque os tesouros tinham sempre artimanhas, e também as cobras que os guardavam podiam ser venenosas, por isso, se fossem mordidos não chegavam vivos à Aldeia! Depois de grande debate sobre a maneira de tirar dali o tesouro, decidiram voltar outro dia com ferramentas, agora que já sabiam onde ele estava, era mais fácil, iam à ribeira, traziam uns paus e especavam a parede, depois já podiam tirar as pedras e lá estaria o tesouro à sua espera.
Depois desse plano aprovado por todos, andaram por ali à procura de alguma moeda de ouro perdida, mas não encontraram nada e o Chiquinho ainda propôs irem ao porto das Águas Frias de baixo, onde passava uma estrada romana e nesse pégo devia haver muitas moedas, porque os romanos atiravam moedas à água para que os deuses os protegessem nas viagens ou na volta a casa, mas decidiram deixar isso para mais tarde, quando tivesse menos água e foram para a mina romana que fica mais acima, desceram até ao fundo e andaram a inspecionar as paredes para ver se viam alguma pedrinha brilhante, mas cansaram-se de procurar e não encontraram nenhum brilhante, mas não desistiram, o Manel disse-lhe que ainda havia mais duas minas para inspecionar e o sítio junto às duas casinhas no cimo do outeiro em frente da mina romana, uma casinha maior onde os homens deixavam as ferramentas e a outra mais pequena era a casinha do fogo e aí, decerto, havia algum tesouro, mas esse, que estava certo, ficaria para o fim.
Os rapazes dirigiram-se à outra mina a sul da mina romana (atual Algar de água) e depois da inspeção que resultou em nada, seguiram para outra em frente na base do outeiro e que apresentava uma entrada pouco convidativa e como já estavam a pensar que no cimo do outeiro é que estava um tesouro, depressa subiram, sentaram-se a observar as casinhas das minas e a ouvir o Manel a dizer que deviam procurar desníveis no terreno, porque era aí que estava o minério que os mineiros traziam escondido nos bolsos das calças e das ceroulas, quando no fim do dia, vinham entregar as ferramentas que ficavam guardadas na casinha e como trabalhavam de sol a sol, faziam a entrega das ferramentas já de noite e como tinham de estar em fila, uns iam, disfarçadamente abrindo covas no terreno, outros metiam lá o minério roubado, e os de trás iam enterrando e pisando bem a terra para os capatazes não darem por nada, depois mais tarde iam outros, combinados com eles tirar o minério e vendê-lo aí pela Espanha dentro e o dinheiro era para todos, mas disseram-me que quando isto acabou, os mineiros foram-se embora daqui e ficou aí muito minério enterrado, desse que vale muito dinheiro, por isso, começamos uns daquele lado e outros deste, e como lhe disse, se verem que o terreno não está todo parelho, todo igual, gritem logo, depois só temos de o desenterrar e estamos ricos.
Os rapazes andaram horas de joelhos, a esgaravatar com a unhas, com paus, até cair para trás de cansados e não apareceu nada, decidiram ir embora para a Aldeia de Ferreira e concordaram, voltar quando chovesse e que a terra estivesse mais mole, porque o minério estava muito fundo!
Chegaram à Aldeia de Ferreira, cheios de fome e pareciam autênticos mineiros, com o suor e enterreados, metiam medo, mas continuavam cheios de esperança que, um dia ainda iam encontrar um tesouro, uma vez que, a herdade da Defesa estava cheia deles.
Passou esse verão e outros, mas só chovia no tempo de escola, pelo que, o tempo foi passando e os sonhos sobre os tesouros e as barracas em Lisboa, foram ficando adiados, e até hoje, nenhum se concretizou, mas os tesouros continuam lá à sua espera.
Fim
Correia Manuel

Vila Romana de Ferreira em Capelins




sexta-feira, 16 de junho de 2023

Memórias do Chiquinho de Capelins, quando foi atacado pela rapaziada da tribo

Memórias do Chiquinho de Capelins, quando foi atacado pela rapaziada da tribo

Na década de 1960, ainda passavam e acampavam nas terras de Capelins, muitas caravanas de pessoas que viviam da mendicidade, ou da venda de peças de artesanato feitas em folha de flandres, (lata), ou outros materiais, úteis à vida diária dos moradores, como: quartilhos, cântaros, potes, almotolias, formas e tabuleiros para cozer bolos, pás, e pincéis para caiar, e gateavam peças de barro, amolavam facas e tesouras e prestavam outros serviços.
As mulheres que se dedicavam à mendicidade andavam de porta em porta, com duas ou três crianças escarranchadas nos quadris e mais algumas atrás, pedindo alimentos, roupas usadas e, muitas vezes iam deitando a mão ao que podiam, enquanto os artesãos, de outras famílias diferentes, limitavam-se a oferecer o seu trabalho e a vender os seus utensílios, algumas vezes, em troca de pão e de outros alimentos.
Alguns moradores da freguesia de Capelins confundiam estas duas comunidades, porque ambas eram nómadas, estavam sujeitas às mesmas regras de permanência de, no máximo três dias em cada lugar onde ficavam, tinham ambas imensos filhos e paravam nos mesmos lugares, demarcados pelas respetivas autoridades locais.
Na Aldeia de Ferreira, as duas comunidades instalavam-se, geralmente a sul de Capelins de Baixo, entre o Monte do Marco e a estrada de Montejuntos, mas não se misturavam, enquanto uns instalavam as tendas de lona em redor e debaixo de um chaparro com o nome dos que lá acampavam, a outra comunidade acampava do lado esquerdo, separados pelo caminho de terra batida entre a dita estrada e o ribeiro que entra na tapada do Monte do Marco e, era este caminho que ficava ao meio que não podia ser percorrido por rapazes ou raparigas, se não fossem acompanhados por adultos, senão estavam sujeitos a levar uma tareia da rapaziada que ficava do lado direito ao descer, sem intervenção dos adultos que se limitavam a assistir.
O Chiquinho de Capelins tinha uma tia que morava no Monte Real, onde ele ia muitas vezes, passar horas ou o dia, a brincar com as primas, e era esse o seu percurso, mas depois de apanhar alguns sustos, foi obrigado a alterar o trajeto e seguir pelo caminho que começava/terminava na chamada curva de Capelins de Baixo até ao Monte do Marco, depois, ia encostado à parede da tapada desse Monte até à Forja e, como era muito pequenino nem era avistado pelas sentinelas de serviço, passando despercebido, até ao dia em que uma das comunidades, começou a acampar ao lado da Forja, no espaço entre o curral das vacas e a tapada do Monte Real, quando o Chiquinho passou para o Monte Real andavam dois ou três pequenos a brincar junto ao caminho e, assim que ele se aproximou foi barrado, mas ele deu um empurrão em cada um que os fez sentar no chão e começaram todos a chorar, pareciam uma buzinas para chamar auxílio, ele começou a correr e escapou ileso, mas o problema estava na volta, no entanto, pensou que ia demorar-se, assim, podia ser esquecido e safar-se, mas não, quando voltou, à tardinha, foi-se aproximando com cautela e como não via sinais de perigo avançou mais descontraído, mas assim que chegou ao final da parede da tapada do Monte Real, caiu numa emboscada, foi cercado por um grande grupo de rapazes e raparigas em posição de ataque, todos de velas acesas, ou seja, com o muco amarelo pendurado das duas narinas e, na sua frente estava um rapaz da sua altura com os olhos a brotar raiva, de cabelos eriçados, a barrar-lhe o caminho e, sem dizer uma palavra deixou-o aterrorizado, com a certeza que ia levar uma grande tareia, mas ao sentir-se encurralado, reagiu impulsivamente e deu um murro na cara do grande guerreiro, que lhe apagou as velas, limpou-lhe o muco e, imediatamente partiu em corrida, surpreendendo o grupo que, estava convencido que o tinha nas suas mãos e, quando o perseguiram a correr atrás dele com gritos de guerra, pareciam os índios nos filmes, já era tarde, ainda correram até ao ramal para o Monte das Serranas, mas desistiram, porque o Chiquinho parecia um cavalo de corrida e só parou quando entrou na rua principal de Capelins de Baixo, com as pernas a tremer que nem varas verdes e se lhe tapassem a boca dava um estouro e, a partir daquele dia, durante alguns anos, nunca mais passou sozinho, pelo caminho da Forja para o Monte Real.
Fim
Texto: Correia Manuel

Lugar do acampamento da tribo




sexta-feira, 9 de junho de 2023

Memórias do Chiquinho de Capelins, quando foi ás boletas para o magusto de S. Francisco

Memórias do Chiquinho de Capelins, quando foi ás boletas para o magusto de S. Francisco 
O Chiquinho de Capelins nasceu na antiga Aldeia de Capelins de Cima, atual Aldeia de Ferreira, mas antes de entrar na Escola Primária fazia a sua vida em Capelins de Baixo, na casa dos avós maternos, logo, era aí que tinha os seus amigos das brincadeiras, incluindo um primo mais velho, com o qual, passava muito tempo. Um dia, no início do mês de Outubro da primeira metade da década de 1960, como habitualmente, à meia da tarde, o Chiquinho desceu a rua principal de Capelins de Baixo para se juntar ao grupo das brincadeiras e, quando chegou ao lugar onde, geralmente se encontravam, ouviu os rapazes a combinar que no dia seguinte tinham de ir ás boletas (bolotas), porque tinham de manter a tradição do primeiro magusto no dia de S. Francisco. O Chiquinho vibrou de contente, porque ouvia contar aos mais velhos que o magusto de S. Francisco era uma festa, mas não entendia o que envolvia além das boletas assadas, assim, seria a primeira vez que ia participar, mas ao manifestar-se que também ia com o grupo ás boletas, o primo disse-lhe que nem pensar nisso, porque o chaparro onde iam apanhar as boletas era muito longe e podia estar lá o guarda com algum cão e se tivessem de fugir, ele não os conseguia acompanhar e podia ser apanhado, por isso, ele trazia mais umas boletas que davam para todos e depois o Chiquinho podia ajudar a fazer o lume e o magusto. O Chiquinho ficou irritado e bateu o pé, bateu o pé, até que o primo acabou por ceder, mas disse-lhe que só ia se pedisse à avó e tinha de estar ali naquele sítio no dia seguinte depois do jantar (almoço), se não estivesse, não esperavam por ele, e ele ficou aliviado e a pensar a forma de escapar à avó, porque se lhe pedisse, já sabia que a resposta era não. No dia seguinte, 04 de Outubro, antes da hora marcada, já o Chiquinho estava à porta do primo que lhe perguntou se tinha pedido à avó, e ele prontificou-se a mentir e respondeu que sim, e quando chegaram os outros rapazes do grupo, partiram encobertos pela parede da tapada do ti Franco, por uma vereda até ao Monte do Marco, depois desceram junto ao pequeno ribeiro até ao poço da estrada e, continuaram ao lado da horta, pelo ribeiro abaixo, o Chiquinho já ia cansado, mas nem pensar em dar parte de fraco, a rapaziada faziam grande barulho, falando muito alto e os mais velhos diziam para se calarem, porque iam tão contentes que parecia que iam para a Festa dos Prazeres, e assim, até os ouviam lá no Monte da Ramalha, em cuja propriedade se situava o célebre chaparro das boletas temporãs, calavam-se, mas não demorava e o barulho era igual, até que, pararam todos e eles disseram: - Ou vocês se calam ou quem piar daqui para a frente, volta logo para trás! O resto do grupo não tiveram tempo de responder, porque naquele momento saíu um homem detrás de umas moitas de junqueiras da margem do ribeiro, com calças muito largas, desfraldado, com um grande chapéu, a gritar e a manejar um grande pau com gestos agressivos a chamar ladrões, malandros, rufias e outros nomes à rapaziada, e a dizer que já tinha o azeite a ferver num caldeirão para os fritar vivos! O susto foi tão grande que a rapaziada nem se certificaram se ele corria atrás deles, nem se tinha o azeite a ferver no caldeirão, rodopiaram e pareciam cavalos de corrida na direção do poço da estrada, mas o Chiquinho ficou para trás, porque quanto mais patinava nas margens do terreno, menos corria, parecia estar sempre no mesmo sítio, por isso, ouvia bem o que o guarda da bolota dizia e já estava esperando que não demorava em ser frito no caldeirão, mas lutou, lutou e quando deu por si já estava no poço da estrada, olhou para a frente mas já não viu nenhum dos outros rapazes, já tinham subido a chapada do Monte da Figueira a correr e desaparecido, deixatram-no sózinho, mas ele foi correndo e acabou por chegar ao lugar da partida. Quando o Chiquinho chegou muito cansado, já não viu por ali nenhum dos rapazes, mas como sabia o lugar das brincadeiras do primo, foi lá ter e ele quando o viu disse-lhe: Primo: Então, já aqui estás? Eu já estava a pensar que tinhas sido frito no caldeirão para a merenda do homem! Eu bem te disse que não era pêra doce, mas és teimoso, não sei como te safaste desta! Chiquinho: Então aquilo era um homem? Primo: Não, aquilo era uma mulher! Chiquinho: Não é isso que eu quero dizer, não era um espantalho? Primo: Era, era um espantalho tão moderno que até falava e dizia que nos fritava vivos! Chiquinho: Ah pois! Assim não era! Então e agora, como fazemos o magusto? Primo: Qual magusto? Achas que apanhámos um susto pequeno? Quem é que tem vontade de boletas assadas, só se fores tu! Cheira aqui mal, pisaste alguma bosta? Ou és tu? Chiquinho: Não, não, não cheiro mal! Primo. Eu estava a brincar contigo! Olha, vai lá dizer à tua avó que já cá estás e que o chaparro ainda não tinha as boletas arraiadas, este ano está atrasado! O Chquinho lembrou-se que, não tinha pedido à avó e apressou-se a subir a rua, polindo as esquinas e observando como estava o ambiente, quando chegou perto da casa da avó começou a construir uma estrada com uma ponte romana com terra e umas pedrinhas e logo a seguir ouviu a avó à porta a dizer: Ah estás aí? Não abales daí! Ele abanou a cabeça em sinal afirmativo, mas a pensar, mal pensa ela onde eu já andei! O magusto de S. Francisco, ficou esquecido, não se cumpriu a tradição, mas o Chiquinho nunca mais esqueceu o acontecimento, porque por pouco era frito em azeite num caldeirão e a partir daquele dia, nunca mais achou graça aos magustos de boletas.

 Fim 
 Texto: Correia Manuel 



sexta-feira, 2 de junho de 2023

Memórias do Chiquinho de Capelins, quando caçava perdizes, em corrida

Memórias do Chiquinho de Capelins, quando caçava perdizes, em corrida

Nos meados do decénio de 1960, as maiores herdades da Freguesia de Capelins eram coutadas de caça, mas entre uma e outra era obrigatório existir um espaço para caça livre, chamada "faixa", onde todos os caçadores legalizados podiam caçar.
Sem explicação, era nesse lugar que as espécies cinegéticas eram mais abundantes, mesmo muito caçadas por caçadores da Freguesia, da região e lisboetas, havia sempre muitas lebres e perdizes que teimavam em sair das coutadas, onde eram protegidas e tinham comida e água debaixo dos chaparros, em diversos lugares.
Nessa época, não havia queixas por falta de caça, quando da abertura, fosse a das rolas, patos e outras espécies miúdas no dia 15 de Agosto, ou a das lebres, perdizes e coelhos no dia 5 de Outubro, havia fartura para todos, até para os chamados azelhas que falhavam muitos tiros e, para os caçadores de pau.
As perdizes eram tantas que durante o verão, depois de criados os perdigotos, andavam em grandes bandos e até se aproximavam das Aldeias, pela hora de mais calor, viam-se e ouviam-se cantar às sombras das oliveiras, no Gomes, Colmeadas e por aquela região, mas, não era seguido o provérbio: "em Agosto, espingardas ao rosto" e, só naquela data abria a caça às perdizes.
Num dia do mês de Agosto, um vizinho do Chiquinho de Capelins, chamado Francisco António, mas conhecido pelo Xico António, dois anos mais velho, perguntou-lhe se não via e ouvia as perdizes nos ditos lugares, eram bandos e bandos, havia anos em que eram mais abundantes, tinha a ver com o tempo ter vindo a favor da criação, e o Chiquinho respondeu que sim, então não havia de ver e ouvir! Pois olha, uns homens mais velhos, disseram-me que as podemos apanhar quase todas, comentou o Xico!
Chiquinho: Essa agora! E como é que as apanhamos? Com armadilhas? Com uma rede? Com umas gaiolas? Diz lá, com o quê?
Xico: Não é com nada disso! É a correr!
Chiquinho: Oh Xico, ainda és mais parvo do que eu, ou caíste de algum chaparro e bateste com a cabeça no chão?
Xico: Mau, mau, queres já acabar a conversa e ficas sem saber o truque? Olha que eu calo-me já e não ficas a saber o que me ensinaram!
Chiquinho: Eh pá, pronto, pronto, diz lá!
Xico: Agora já não te devia dizer, estás armado em parvo, mas vá lá, vou explicar, mas ouve bem que eu só conto uma vez!
Chiquinho: Se quiseres contas, se não quiseres não contas, nunca vi ninguém apanhar uma perdiz a correr, só se estiver ferida ou cansada, senão aventa um voo e lá se vai!
Xico: Ora aí está, é mesmo o que tu disseste, se estiver cansada, é só apanhá-la e depressa vai para a panela das sopas!
Chiquinho: Eu continuo a não perceber, como é que nós cansamos um bando de perdizes que estão além descansadinhas à sombra das oliveiras?
Xico: Então tu não me deixas acabar! É mais fácil do que tu imaginas, quando chegas além ao Gomes vais devagarinho e consegues vê-las e se te aproximares, o que é que elas fazem?
Chiquinho: Então o que hão-de fazer? Levantam voo e vão pousar noutro altinho a mais de quinhentos metros!
Xico: Bem dito, é isso mesmo, vão pousar num altinho onde podem ver se alguém se aproxima, não vão pousar numa cova! Agora diz-me lá, se lá nesse altinho já estiver uma pessoa bem escondida ou por perto e, assim que elas pousam aparece, e espanta-as, elas levantam voo outra vez, não vão para o sítio de onde as espantaram, mas vão para o mesmo lado, porque a pessoa que estava lá no altinho as encaminha, mas quando voltam, esbarram com o outro que, entretanto já se mudou, tornam a levantar voo e, pode nem sempre dar certo, mas muitas vezes dá, e agora no mês de Agosto, pela hora de mais calor, não são precisos muitos voos para ficarem cansadas, umas só conseguem três, outras quatro, depois é só cair-lhe de barriga em cima, e são nossas, era assim que aqueles homens faziam, antigamente, grandes caçadas!
Esta explicação deixou o Chiquinho desconfiado e disse ao Xico que devia ser alguma aldrabice como a de apanhar gambuzinos, devia ser para nos fazerem correr que nem doidos pela pior hora de calor e depois não apanhavámos nenhuma perdiz, mas perante o entusiasmo do Xico, aceitou fazer um teste e debaixo de grande calor lá foram até ao Gomes, escolheram o alvo e seguiram as regras que lhe tinham ensinado e correu muito bem, ao segundo ou terceiro voo, ficou uma perdiz no chão a cacarejar, o Xico apanhou-a e foram-se embora, já não perseguiram as restantes, porque ainda havia coisas a afinar, mas combinaram que no dia seguinte, mais cedo, lá estariam, só os dois, porque aquilo era ilícito e perigoso e podia aparecer o guarda florestal e da caça e se fossem apanhados podiam ser presos.
No dia a seguir, lá foram o Xico e o Chiquinho até às Colmeadas, muito sorrateiramente para ver onde estavam as perdizes a acampar, ficaram surpreendidos por não as ouvir, mas não foi necessário esperar muito para começarem a ouvi-las cantar, como conheciam bem toda a área, facilmente identificaram os lugares onde elas estavam, traçaram o plano de ataque, era preciso correr muito, o Chiquinho daria uma grande volta por detrás de um outeiro para ficar do lado de lá de onde estavam os bandos de perdizes, tinha de entrar no couto da casa Rendeira, era perigoso, mas seguro, decerto que o guarda florestal àquela hora estava a dormir a sesta no Monte da Defesa, então lá foi correr e espantou as perdizes para o lado onde já estava o Xico escondido em cima de uma oliveira, por ali andaram numa grande correria de lado para o outro, até que, o Xico lhe gritou a dizer que as perdizes já estavam cansadas, podia vir para ajudar a apanhá-las e quando o Chiquinho estava a chegar em frente a um pequeno Monte, já o Xico se atirava de barriga para cima de uma perdiz e outras que não conseguiam voar corriam desorientadas cacarejando em grande aflição, quando o Xico se levantou do chão com a perdiz pendurada pelo pescoço, mostrando o troféu, apareceu o ti António à porta do dito Monte, ainda ensonado, descalço, com as calças desabotoadas e caídas abaixo da cintura, com um olho fechado e outro aberto, a tempo de ver a perdiz nas mãos do Xico e zangado por ter sido acordado da sua bela sesta e por andarem a apanhar perdizes, sem licença e fora do tempo da caça, começou a dizer que ia participar aos guardas da venatória e acrescentou que, além de uma grande multa iam passar uns tempos na prisão do Redondo.
Depois dos rapazes pedirem, encarecidamente para o ti António não fazer queixa deles, ele acalmou-se e disse-lhes que, às abas de ainda serem parentes, dessa vez não fazia queixa, mas só se eles lhe prometessem que nunca mais faziam aquele serviço, porque apanhar perdizes fora do tempo da caça e sem licença era injusto para quem, como ele, tinha de pagar a licença de caça, dos cães e as bagagens, a pólvora, o chumbo e os cartuxos, tão caros, e depois os outros comiam-lhe as perdizes, não era justo, não.
Os rapazes prometeram ao ti António que nunca mais cansavam as perdizes, para as apanhar em corrida e, com a perdiz escondida debaixo da blusa, regressaram à Aldeia, a lamentarem-se do azar que tinham tido, com o aparecimento do ti António, mas dando graças por não irem parar à prisão do Redondo, por apanhar perdizes a correr.
Fim
Texto: Correia Manuel



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