terça-feira, 5 de setembro de 2017

A Serração da Velha - Capelins

A Serração da Velha
A Serração da Ti Guilhermina em 1965, em Capelins de 
Cima

Ao aproximar-se a noite da “serração da velha” que era na noite de 17 de Março, o João e o seu grupo habitual, estavam em Capelins de Baixo e ele lembrou-se que tinham de combinar as coisas para a “serração da velha”! O ajuntamento do grupo tinha de ser no cabanão do pai, perto de Capelins de Cima, porque não convinha serem vistos juntos a cochichar, senão inventavam logo que estavam a tramar alguma e ainda se estragava tudo antes de começar! Sim! Porque está na hora de escolhermos as velhas que vamos serrar e temos de combinar bem as coisas, porque todos os anos temos problemas, falha sempre alguma coisa, disse o João! Não foi preciso muito tempo para se entenderem, prontificaram-se logo a ir ter ao cabanão do pai do João! Não! Disse ele, vocês ficam além ao Muro, ao Monte Grande e eu vou lá ao cabanão ver se o meu velho lá está, ele ia para o Guadiana, mas sei lá, pode não ter ido, depois se o caminho estiver livre eu levanto o braço e vão indo um de cada vez! Todos concordaram e em poucos minutos estavam reunidos no cabanão, eram: o João I, o primo Manuel, o António, o José e o João II! Chegamos bem os cinco, senão quantos mais são, pior é, disse o João I e continuou:
João I: Bem! Eu já tenho tudo na cabeça! A serração da velha é na quarta-feira à noite, agora, só temos de acertar quais as velhas que vamos serrar, combinar quem vai falar e responder pelas velhas e lembrar as lengas lengas! Alguém tem alguma ideia brilhante nova para este ano? Eh pá, para não ser sempre a mesma coisa!
António: O que podia ser diferente eram os versos, porque o resto faz tudo parte da serração, não podemos mudar nada, senão não é serração, já no tempo do meu avô era assim!
Manuel: Bem dito! Mas qual de nós consegue fazer outros versos diferentes? Somos todos burros, para isso não damos!
João II: Pois! Tens razão” Nenhum de nós sabe fazer versos! Mas há aí muita gente que sabe! E se pedíssemos para nos fazerem uns versos novos?
João I: Tu estás parvo? Ou estás maluco? Pedíamos para nos fazerem uns versos novos e depois íamos-lhe a serrar a mãe ou a sogra! E ninguém nos fazia isso, porque depois tudo se sabe e esse é que ficava nos cornos do touro!
Isso é verdade, responderam em coro!
João I: E então? Como fazemos?
José: Fazemos como no ano passado e nos outros anos, os versos, são os que são e mais nada! Nem a gente consegue aprender mais nenhum! Esses dois que sabemos, já temos que andar agora oito dias a estudá-los e mesmo assim nos enganamos sempre, por isso, por mim fica assim!
Então fica assim! Responderam todos!
João I: Agora vamos para o ponto 2, quem fala para as velhas? E quem responde com a falinha delas?
Imediatamente, apontaram todos o João I e o Manuel e, disseram: Tu, João, falas para as velhas, apontas os defeitos e o Manuel responde com a fala delas!
João I: Quais defeitos? O que é que eu digo às velhas?
António: Dizes o mesmo do ano passado: “Oh avozinha vossemecê é muito má, é maluca, já é muito velha, está na hora de calçar as botas e ir a caminho de Santo António e deixar-me tudo o que tem, e chega isso! Depois, se nos lembrarmos logo dizemos outras coisas! Não te esqueças que cada vez que lhe disseres uma coisa destas, logo a seguir tens de perguntar: “Oh avó, o que deixa ao neto?” E o Manuel responde com a fala dela: “O buraco do cu aberto” ou “ o penico aviado” e o José está sempre passando o serrote pela tábua, depois, no fim o João II diz os versos e nós vamos todos ajudando! Perceberam?
Sim! Responderam todos! Agora é só treinarmos!
João I: Ainda falta escolhermos as velhas para serrar! A tradição diz que têm de ser as mais velhas da aldeia, mas se não forem, não são! Quantas são este ano?
António: Eh pá! Não podem ser mais que três ou quatro, porque sempre leva algum tempo! Embora possa falhar alguma, porque não se esqueçam do perigo do penico aviado que algumas tê preparado para nos atirar com o presente acima, pelo postigo! Temos de ter muito cuidado com os postigos!
Os rapazes do grupo escolheram as idosas que seriam serradas, entre elas, a mais velha da aldeia, já com idade muito acima dos oitenta anos, a Ti Guilhermina que, morava em Capelins de Cima! Combinaram acertar ainda alguns pontos até à dita noite e como estava tudo tratado a reunião foi dada como terminada! Foram saindo do cabanão um de cada vez e juntaram-se novamente a caminho de Capelins de Baixo!
Chegou a noite da serração da velha e, o grupo estava preparado para cumprir a tradição, esperaram que toda a aldeia se metesse nos lençóis e pelas 23:00 horas, acharam que estava na hora certa, para não acabarem muito tarde, pegaram no serrote, numa tábua e foram direitinhos à porta da Ti Guilhermina, porque era a mais próxima dali, depois, logo seguiriam até à casa da última velha!
A Ti Guilhermina tinha fama de ser muito rabugenta e dona de grande esperteza, mal pensavam eles que ela já há muito tempo estava sentada atrás da porta com o penico aviado e o postigo encostado, para quando eles viessem a serrá-la, como sempre faziam, abria o postigo e levavam com o produto pelas ventas e depois fossem queixar-se onde quisessem!
Os rapazes chegaram à porta com muita cautela, chiu, chiu, que a velha é esperta, dizia o João I, eles eram cinco, havia pedras soltas na rua, era impossível aproximarem-se sem a Ti Guilhermina não dar por isso! Assim que os ouviu a cochichar a Ti Guilhermina pegou no penico com uma das mãos e com a outra agarrou o fecho do postigo para o abrir, o João I ia começar a lenga lenga quando reparou que o postigo estava a abrir-se, calculou logo o que se ia passar, ainda lhe deitou a mão e puxou-o para fora, não deixando passar o penico e a Ti Guilhermina puxou-o para dentro para o abrir, arranjou-se ali uma contenda até que o postigo saiu do lugar e saltou pelo ar estatelando-se no chão da casa de fora e a Ti Guilhermina gritava: “socorro, acudam, acudam”! Os rapazes começaram a ouvir as portas dos vizinhos a abrir e alguns a gritar: “malandros, deixem a velhota em paz”, os rapazes não tiveram outra solução senão fugir, desorientados, foram cada um para seu lado, uns pela talisca abaixo, outros para os lados do Monte da Cruz, outros para os lados do Monte Grande e só já se juntaram na tarde do dia seguinte! Os vizinhos da Ti Guilhermina foram chamar um sobrinho porque ela estava muito nervosa e sem postigo, depois com a luz da candeia viram que estava todo partido! Como a Ti Guilhermina conheceu o João I, na manhã seguinte o sobrinho estava à porta do pai dele a contar-lhe o que o filho tinha feito na noite anterior ao postigo da sua tia! O pai do João I, ainda exclamou: O que é que eu posso fazer? Não dou conta dele! Olhe, como vossemecê é carpinteiro, arranje lá o postigo e depois diga-me quanto é, que eu pago! A seguir puxou as orelhas ao João e ficou por ali, porque, afinal ele estava apenas a cumprir uma tradição de Capelins!
Nesse ano, a serração da velha, foi mal sucedida e, no ano seguinte, na respetiva noite, parece que, a Ti Guilhermina dormiu sentada numa cadeira atrás da porta, com o penico aviado, à espera que a fossem serrar, mas não apareceu lá ninguém! A partir daí, ainda houve algumas serrações de velhas e velhos, também com maus resultados, por isso um pouco mais tarde essa tradição desapareceu nas terras de Capelins!
Este caso foi verídico, com mais ou menos estes acontecimentos, só não garantimos se o ano foi exatamente 1965, mas foi por aí, alguns nomes dos rapazes do grupo da serração da velha, hoje reformados, foram alterados e outros não foram mencionados porque facilmente seriam identificados!
Bem Hajam! Quanto à Ti Guilhermina, P.A.S.A.


Fim 



domingo, 3 de setembro de 2017

A Serração da Velha - Capelins

A Serração da Velha em Capelins

Esta tradição, muito antiga e de origem pagã, realizava-se na noite de quarta-feira antes do terceiro domingo da Quaresma, chamado domingo "laetare"!
A serração da velha pretendia renovar a vida! Grupos de rapazes iam a meio da noite às portas de mulheres idosas e apontavam-lhe os defeitos, verdadeiros ou imaginários, intimando-as a deixarem-lhe os seus bens! 
As idosas eram consideradas como bodes expiatórios e eram serradas para darem o lugar aos novos, por isso eram escolhidas as mais velhas das aldeias. Esta tradição secular assinalava o meio da Quaresma e acabava com o enterro da velha, representando o fim do tempo de penitência.
Nas terras de Capelins, um grupo de rapazes escolhia as idosas consideradas mais rabugentas e, que se encontravam mais indefesas, porque a serração da velha, muitas vezes acabava mal, mas havia algumas idosas que colaboravam e levavam isso como brincadeira e até contribuíam com alguns produtos para no fim da noite fazerem um petisco! Outras, ficavam muito ofendidas! As idosas deitavam-se muito cedo e a meio da noite começava a serração, simulavam serrar a velha com um serrote numa tábua e sempre com grande "lamúria", um elemento do grupo falava para a idosa e outro com voz semelhante à dela ia respondendo! Após cada defeito apontado, repetiam a frase: "Oh avó! O que deixa ao neto?" Outro elemento do grupo ou a idosa respondia: " O buraco do Cu aberto" e sempre a serrar na tábua! Muitas vezes eram os vizinhos que se zangavam, precisavam de dormir, porque tinham de se levantar de madrugada para trabalhar! A serração da velha era sempre uma grande paródia para os rapazes das terras de Capelins!
Era uma tradição pouco aceitável, mas este ato estava ligado à Igreja, celebrada sob a forma cristianizada da "Queima do Judas"!


Algumas quadras da Serração da Velha:

Estamos no meio da Quaresma,
sem provarmos o café.
Vamos serrar esta velha
para o altar de S. José."

"Estamos no meio da Quaresma,
sem vermos nado do teu amor.
Vamos serrar esta velha
para o altar de Nosso Senhor."

"Digo-te adeus, minha avozinha,
nesta noite tão lembrada.
Não tens nada que nos dar,
damos-te uma chocalhada." 



segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Capelins e a Guerra Civil de Espanha - 1936 - 1939

Capelins e a Guerra Civil de Espanha - 1936 - 1939

A Guerra Civil Espanhola foi um conflito bélico deflagrado após um fracassado golpe de estado de um setor do exército, contra o governo legal e democrático da Segunda República Espanhola. A guerra civil teve início após um pronunciamento dos militares rebeldes, entre 17 e 18 de Julho de 1936, e terminou em 01 de Abril de 1939, com a vitória dos militares e a instauração de um regime ditatorial de caráter fascista, liderado pelo general Francisco Franco.
Desde sempre, ouvimos contar os tristes episódios passados junto à fronteira de Portugal e Espanha, ou seja, às portas da Freguesia de Capelins, não só, a tomada de Badajoz e o massacre de grande parte da população dentro da praça de touros, mas também, outras situações de atrocidades entre as várias partes em conflito.
Quanto ao envolvimento na ajuda aos grupos de mulheres e crianças, estas, passavam o rio Guadiana, cheios de fome, vinham pedir esmola, alimentos para eles e para levarem para Espanha, andavam por Montes e Aldeias desta Freguesia e vizinhas, tentando de todas as formas, voltar à sua Terra com alguma comida para os que lá tinham deixado, crianças e idosos. Uma situação muito triste, à qual, a população de Capelins e vizinhos assistiram e, a maioria de alguma forma se envolveram, em termos da prestação de ajuda a essas pessoas.
Ainda conhecemos algumas pessoas que vieram de Espanha, em crianças, onde já não tinham Família próxima e ficaram a residir aqui para sempre, sendo ajudadas pela maioria da população desta Freguesia, como o Sr. Angelo, (Ti Muchaco) veio para Capelins durante a guerra, com 6 anos, aqui ficou, casou e, viveu toda a sua vida, falecendo em Terena já nos anos 80. 
Passaram-se muitos episódios, relacionados com essa guerra civil, as pessoas apareciam cheias de fome mal vestidas, a algumas, sem justificação, tinham-lhe assassinado a familia, e, sem esperança no futuro próximo, com o país destruído, conseguiam esconder os seus desgostos, esquecer o ódio, aparentemente, bem dispostos, cantando e ensinando as suas cantigas e, organizando bailes acompanhados pelas suas cantigas, nas aldeias e Montes por onde passavam, talvez em agradecimento pela forma como eram recebidos e tratados.
Na Freguesia de Capelins e vizinhas, existia muita humanidade, quase todas as pessoas ajudavam os pedintes, mulheres e crianças, até na questão da perseguição pela guarda portuguesa, foi diferente de outras regiões, embora se tivessem de esconder em almiaras de palha, matos e casas de moradores. No entanto, também existiram abusos e aproveitamento por parte de pessoas sem escrúpulos, principalmente, na falsificação de produtos alimentícios que contrabandeavam para Espanha mas, as guerras são a desgraça de muitos, com benefício para alguns.
Nos Concelhos de Mourão, Moura, Reguengos de Monsaraz e outros, a guarda, cumprindo as ordens do governo de Salazar, prendiam as pessoas que passavam a fronteira e, eram encerradas nas praças de touros, depois, levadas em camiões para Espanha, onde muitas, eram assassinadas. Alguns guardas, que faziam serviço na fronteira, nesse tempo, confirmaram a veracidade desses factos.
Na aldeia de Ferreira, apareciam constantemente a Ti Júlia, a Ti Casimira e outras mulheres espanholas, de Cheles, muito simpáticas, faziam soalheira e serões com as moças desse tempo e, a ti Júlia dizia: "tu fazeres malha muito depressa, como a minha filha, a minha filha faz: pum, pum, pum, depois engana-se e faz, terrum, terrum, terrum", por isso, ainda nos dias de hoje, em Ferreira, quando alguma senhora faz malha e se engana, logo dizem as outras: "olha, agora tens que fazer, terrum terrum terrum, como a Ti Júlia.
A Ti Júlia dormia sempre na casa da Bisavó Jacinta, em Capelins de Baixo, não era no quintal, era com ela dentro de casa e, as crianças, algumas já mocitas, dormiam na casa Dias, onde eram bem tratadas, tendo em conta a situação e, os tempos do fascismo. Algumas dessas pessoas, tinham familiares em Espanha, uns presos, outros escondidos e, havia crianças, sem pais, nem irmãos.
É de salientar, a ajuda prestada a essas pessoas, por uma senhora chamada Belmira, do Monte de Santa Luzia e de outras, que coziam pão, propositadamente para lhe matar a fome mas, como a senhora Belmira de Santa Luzia não se conheceu situação igual, ignorava tas regras impostas por Salazar e ajudava todas as vítimas dessa guerra que por lá apareciam.

Devemos ter orgulho nos então moradores, de Capelins e vizinhos, nos nossos antepassados e naqueles que ainda estão entre nós, porque, nos enriqueceram com mais esses valores de solidariedade e altruísmo e, mesmo sobre a ameaça do regime político Salazarista, ajudaram muitas vítimas inocentes dessa guerra, de Cheles e de localidades vizinhas. 



Resenha histórica da Ribeira do Lucifer/Lucefécit

Resenha histórica da Ribeira do Lucifer/Lucefécit

As traições de Lucifer/Lucefécit

A nossa Ribeira, foi sempre um obstáculo para quem precisava de a atravessar, fosse por motivo do seu trabalho se desenvolver no outro lado, ou por se deslocarem ao Rosário, Mina do Bugalho, Juromenha ou Elvas.
Quando o Sr. Martins, proprietário da herdade da Defesa de Bobadela (Monte da Travessa), nos anos 60, arrendou a herdade de Santa Luzia, do lado de lá da Ribeira, deparou-se com a dificuldade de, os trabalhadores, tratores e outros veiculos, que precisavam de circular entre as duas herdades, uma de um lado e, a outra do outro, durante o inverno, correrem grande risco na passagem da Ribeira. Assim, teve que suportar os custos do arranjo com pedra e cimento, do porto das Águas Frias de Cima, para onde estava direcionada a estrada de Ferreira - Rosário, já empedrada, essa obra, permitia maior segurança, porque, o caudal da Ribeira distribuía-se ao longo do pavimento de cimento e, perdia a agressividade.
Num dia de inverno, um amigo de Ferreira (não posso mencionar o seu nome, porque, ele, não gosta que se fale nisso), vinha na sua motorizada e, ao chegar ao referido porto, parou para avaliar a corrente, como não achou nada de anormal e conhecia bem o trajeto, meteu-se à água, logo a seguir sentiu um enorme empurrão e, não deu mais conta do que lhe aconteceu, foi levado por uma forte corrente, coisa do demónio, só dando por si, fora do leito da Ribeira e, livre de perigo, apanhando um enorme susto, sendo, a motorizada encontrada mais tarde no fundo de um pego. Mais uma vez, a nossa Ribeira salvou a vida de um Capelinense. 
(caso verídico)

Águas Frias 



Memória das façanhas e da morte do Rabilongo de Capelins

Memória das façanhas e da morte do Rabilongo de Capelins

O rabilongo era um dos cães de guarda do Monte Grande, da Casa Dias, ou seja, do Monte da herdade da Defesa de Ferreira, que está integrado no casario da Aldeia de Ferreira de Capelins. 
Nunca soube qual a raça, mas era um cão de corpulência média alta, ou assim parecia, em proporção ao nosso físico de crianças da escola primária. 
O rabilongo, era o terror das crianças e de alguns adultos da Aldeia, sendo um dos temas diários das conversas na escola, cada um/a contava o que lhe tinha acontecido ou a alguém que tinha passado em frente ao portão do dito Monte e, teve que correr à frente do rabilongo, contando sempre as situações de forma a torná-las mais empolgantes e, destacavam-se sempre os mais valentes afirmando que não tinham qualquer medo do rabilongo, e diziam: "logo quando sairmos da escola vou lá passar mesmo rente ao portão sem fugir, logo vêem o que lhe faço se ele aparecer" mas quando chegava a hora da saída nunca estavam disponíveis, ou porque não moravam para aquele lado, ou porque já estavam à sua espera em casa para fazer qualquer tarefa que não podia esperar muito tempo. Aqueles que, eram obrigados a passar em frente ao portão do Monte Grande desenvolveram estratégias para enganar o rabilongo, uma delas era aproximar-se da área da sua investida, muito devagarinho, sem ruído e colados à parede da casa em frente, quando se atingia o limite de proximidade do portão, era correr o mais que podia e, quando o rabilongo aparecia a correr e, a rosnar de forma assustadora, já era tarde para ele que, parecia não estar interessado em apanhar a presa, porque, não tivemos conhecimento que alguma vez mordesse em alguém, apesar do grande movimento de trabalhadores no Monte Grande, talvez o rabilongo soubesse quem pertencia à casa, ou então, era um divertimento para ele, assim, chegou a noite fatal, ao fazer a sua habitual investida, sobre um transeunte que por ali passava, munido de uma espingarda de caça, não gostou da brincadeira e disparou, matando-o com um tiro certeiro. Não o vi morto, porque, logo de manhã, veio a Guarda Nacional Republicana, tomou conta da ocorrência e, foi mandado recolher, pelo feitor da Casa Dias, o senhor Louro, para enterrar, ficando ali a marca do sangue. Durante muito tempo, foi o principal tema de conversa na aldeia: quem foi? como foi? porque foi? onde foi? e, mesmo a medo do regime, foi lugar de romaria. Foi assim, o fim do rabilongo, que deixou um vazio, alguma saudade daquela correria e, da oportunidade da rapaziada lá na escola, mostrar a falsa valentia. 

Rafeiro Alentejano


Os Bonecos de Santo Aleixo em Ferreira de Capelins

Um dos acontecimentos mediáticos de grande relevo em Ferreira de Capelins, em meados do século passado, era a chegada e atuação dos Bonecos de Santo Aleixo (Monforte). Algum tempo antes da data prevista da sua chegada, já não se falava noutra coisa, os miúdos, porque não se cansavam de ver vezes sem conta o "auto da criação" e outros, embora, muitos já o soubessem de cor. Os graúdos, também gostavam de ver as marionetas, as danças, ouvir as música e cânticos inerentes. O espetáculo, para os pequenos começava logo no dia da chegada da carroça que transportava as marionetas e o pessoal que as manipulavam, e que tocavam, falavam e cantavam, mas, muitos dos pequenitos pensava-mos que eram os bonecos que faziam isso tudo, as pessoas vinham para os trazer e só para tocar o tambor pelas ruas e pelo alto do Monte do Pinheiro. A atuação dos Bonecos de Santo Aleixo envolvia a maioria dos espetadores, aqueles que se destacavam em alguma coisa, boa ou menos boa, durante o ano. Existia um informador na aldeia que, antes dava a conhecer ao Mestre Salas, as peripécias que tinham acontecido durante o último ano, de interesse da população, desde, namoros mal sucedidos, negócios falhados ou não, situações engraçadas, para algubs. Depois, durante a atuação era anunciado um nome, quando os espetadores se apercebiam quem era o contemplado, começavam logo todos a rir, porque, como já conheciam a situação, sabiam que vinha aí divertimento. Muitas vezes, a pessoa visada não gostava de ser nomeada e, de se rirem, nesse caso, a cena não tinha o fim esperado, mas, quem se apresentava a ver o espetáculo, era porque não se importava, uma vez que não passava de uma brincadeira e muitas vezes colaboravam com motes, para as décimas que eram feitas pelos Mestres, Salas e Chanca, no fim da brincadeira, tinham que dar uma contribuição monetária, mas até chegar ao fim, levavam algum tempo. O Mestre Salas, mandava um rapaz de serviço a buscar a contribuição e, a pessoa enviava beatas de cigarros, outras vezes, um ou dois tostões dentro de uma caixa de fósforos. Assim, enquanto não fosse enviada uma quantia razoável, o Mestre Salas fazia versos de escárnio e maldizer a essa pessoa, o resultado, era tudo a rir. Por fim, quando se entendiam, eram feitos versos ou décimas de grande elogio.
Os Bonecos de Santo Aleixo, atuavam duas noites seguidas em Ferreira de Capelins, no casão do Ti Xico Violantinho (falecido), o recinto ficava cheio as duas noites, daqui, seguiam para Montejuntos, Cabeça de Carneiro e por aí adiante, mas, havia rapazes que os acompanhavam por essas terras, não se cansavam de ver e ouvir a mesma coisa vários dias. Alguns diziam que não andavam atrás dos bonecos, mas, sim, de umas bonecas do elenco, primas ou sobrinhas do Mestre Salas.
Agora, os Bonecos de Santo Aleixo estão no CENDREV - Teatro Garcia de Resende em Évora, mas o Mestre Salas, Mestre Chanca e companhia desse tempo, não estão.

Bonecos de Santo Aleixo 



Singela homenagem dos amigos de Capelins a São Bento da Contenda - Olivença

Singela homenagem dos amigos de Capelins a São Bento da Contenda - Olivença

São Bento da Contenda (em castelhano San Benito de la Contienda) é uma aldeia do município de Olivença, território disputado por Espanha Portugal. Situa-se a 7,5 km a sul de Olivença, a uma altitude média de 220 m, possuindo cerca de 588 habitantes, de acordo com dados de 2007. Sob a administração espanhola, encontra-se integrada na Província de Badajoz.
Como nas restantes aldeias, o património mais significativo é a igreja paroquial, dedicada a S. Bento, também de acusada influência portuguesa, mais parecendo uma ermida, dadas as suas reduzidas proporções e os traços populares da sua arquitectura, a qual inclui mármores de Estremoz/Borba/Vila Viçosa . Na fachada frontal, apresenta-se um atraente pórtico, sob o qual chama a atenção a preciosa porta trilobada. O interior é uma nave única, abobadada, e cabeceia quadrangular. Sobre a porta, figura a data de 1776. Constitui um conjunto de arquitectura popular, também alentejana, de notável valor etnográfico. No século XVII, era atribuída a capacidade de fazer milagres à imagem de São Bento, presente na igreja, chegando os próprios duques de Bragança a visitá-la, assim como numerosos outros devotos.
Em 1613, houve uma grande seca no Rio Guadiana, que levou os habitantes de Olivença a fazerem uma procissão a São Bento da Contenda, invocando o auxílio do santo na vinda da chuva, numa oração ad petendam pluviam .
No início do século XVIII, a aldeia possuía cerca de 100 habitantes, prestando homenagem todos os anos a São Lourenço, em sumptuosas celebrações, numa ermida dedicada ao santo .
Segundo várias versões, o nome de São Bento da Contenda deriva das permanentes disputas em que a aldeia se envolvia com povoados castelhanos vizinhos. Numa destas versões, a contenda é apresentada como resultando de uma pretensão castelhana de que a fronteira passasse no meio da igreja da aldeia, razão pela qual existiria ainda no início do século XVIII um arco com as armas de Castela, na capela mor da mesma. Outra interpretação liga o nome ao topónimo que designa os campos em que assenta.
Esta localidade, de início chamou-se só São Bento, ou São Bento Abade. Como foi referido, em 1510/1511, os espanhóis de Alconchel quiseram delimitar a fronteira com Portugal junto da Ribeira de São Bento, traçando uma linha que dividiu a Igreja entre os dois países e deu-se uma contenda, porém a coroa portuguesa conseguiu que a Espanha recuasse a fronteira, novamente até à Ribeira de Táliga (Tálega), Alconchel. A povoação tal como as vizinhas Vila Real e São Domingos de Gusmão, apresenta características alentejanas, como a cor branca das casas, as chaminés, os pisos térreos os "piais" e os rodapés.
A devoção a São Bento passava para cá do rio Guadiana, organizavam-se procissões de Juromenha, Capelins, e Rosário e, logo que o Guadiana o permitia era montada uma ponte de madeira, junto ao Monte da Estacada, nos Mocissos, onde os habitantes destas localidades e os de São Bento da Contenda passavam para ambos os lados, existindo grande amizade entre estes povos, então, todos portugueses!

Igreja de São Bento da Contenda 



A lenda da destruição dos painéis de Cristo na Igreja de Santo António de Capelins

A lenda da destruição dos painéis de Cristo na Igreja de Santo António de Capelins Conta-se que, a Igreja de Santo António de Capelins, mand...