domingo, 5 de novembro de 2023

História da vida de Manel Fernandes, de Capelins

 História da vida de Manel Fernandes, de Capelins 

Manel Fernandes, nasceu no ano de 1607, era filho de povoadores de Capelins, onde chegou ainda criança, aqui cresceu e começou muito cedo a aprender a profissão de ferrador de cavalos e de muares de trabalho, mas nessa época, um ferrador tinha conhecimentos de veterinária e tratava todos os males desses animais. 

O Manel Fernandes era apaixonado pela sua profissão e afamado por toda a região, sendo chamado muitas vezes para ferrar e tratar cavalos da fidalguia da Casa de Bragança, os quais, mais tarde lhe valeram. 

Quando chegou à idade casadoira, cerca do ano de 1632, encontrou a rapariga que o levou ao altar na Igreja de Santo António, chamada Maria Rita, e pouco depois, começaram a surgir os filhos, porém, já quase com trinta anos, o Manel Fernandes foi trabalhar para a Vila de Cheles, logo ali no outro lado do rio Guadiana, por isso, não levou a família, estava perto de casa, onde voltava quase todas as semanas, desde que as cheias do dito rio o permitissem, trazia algum dinheiro e visitava os pais, a mulher e os filhos, porque não existia qualquer fronteira, uma vez que, o Reino de Portugal estava sob o domínio de Castela. 

Devido à sua simpatia, aos seus feitos e dedicação à sua profissão, que era muito importante, o Manel Fernandes, depressa ganhou a admiração dos cheleiros, assim como, de pelo menos uma cheleira chamada Maria Pires, pela qual se perdeu de amores, mas ela não lhe permitiu avanços sem casamento e o Manel nem pensou na família que já tinha e onde se estava a meter, pensou que, podia  ter duas casas, duas famílias, uma além e outra aquém Guadiana, sem ninguém dar por isso, e casou com a Maria Pires. 

Durante algum tempo, foi conseguindo dar assistência ás duas mulheres, quando faltava aos compromissos com a Maria Rita, dizia-lhe que o trabalho em Cheles era muito, ou que a cheia do rio Guadiana não o tinha deixado passar e passava cada vez mais tempo sem aparecer a Capelins, e à Maria Pires de Cheles, dizia-lhe que tinha de ir ver os pais e a família a Capelins, mas a Maria Rita começou a desconfiar que não era bem assim, e um dia mandou os irmãos a Cheles averiguar a vida que o Manel por lá fazia e não foi preciso procurar muito para saberem que ele tinha lá casa posta e mulher e que era casado com ela, eles não queriam acreditar, mas perante as evidências, ficou tudo esclarecido. 

Esta descoberta foi um escândalo, que depressa se espalhou pelas terras de Capelins e num ápice chegou aos ouvidos da Santa Inquisição que, farejava toda a região, procurando os acusados de bigamia, judaísmo, heresia, apostasia, blasfémia, e pactos com o demónio, pelo que, o Manel Fernandes foi denunciado, decerto pelos padres, e no dia 13 de Novembro de 1636 já estava preso em Évora, acusado de bigamia, por ter casado com duas mulheres, sendo a primeira ainda viva, foi julgado num auto de fé no dia 14 de Junho de 1637, e recebeu a seguinte sentença: Ficar em corpo com uma vela acesa na mão e açoitado, publicamente sem derramamento de sangue e degredo de 6 anos para as galés, onde serviria ao remo, sem soldo, e ao pagamento dos custos. 

O Manel Fernandes era muito novo, tinha 30 anos, e em Capelins todos os moradores diziam que seria queimado vivo na Praça do Geraldo em Évora, mas não foi, no entanto, esta pena, era a sua sentença de morte, porque, decerto, não conseguia sair das galés com vida, onde tinha de remar nos porões durante seis anos, era muito esforço, seria mal alimentado e, com as doenças e a peste já não voltava, assim, apesar de ele se ter portado mal, a família e amigos uniram-se e com a ajuda de alguns fidalgos da Casa de Bragança, conseguiram novo auto de fé no dia 12 de Agosto de 1637, e foi-lhe comutado o mesmo tempo de degredo, mas no Couto de homiziados de Monsaraz, (prisão aberta, mas não podiam sair dos limites), onde ficou a desempenhar a sua profissão de ferrador, quase em casa, foi só passar a Ribeira do Azevel para lá, porque para cá, estava fora da prisão e sofria as consequências, era bem diferente do degredo nas galés, mas não se livrou das chibatadas em público, semi nu, ou em ceroulas e de vela acesa na mão, ficando com o sangue à flor da pele.  

O casamento com a pobre Maria Pires, de Cheles, naturalmente foi anulado, ela foi enganada pelo Manel, mas teve de prosseguir a sua vida e, mais tarde, a Maria Rita e os filhos, saíram de Capelins, passaram a Ribeira do Azevel e foram ter com ele e ficaram para sempre, nas terras de Monsaraz, a morar no Arrabalde que ficava dentro do Couto de homiziados.

Fim 

Texto: Correia Manuel 


Vila de Monsaraz - Arrabalde





sábado, 4 de novembro de 2023

Memórias do Chiquinho de Capelins, quando foi passar um dia à Vila de Cheles

Memórias do Chiquinho de Capelins, quando foi passar um dia à Vila de Cheles 

Num sábado, nos alvores do decénio de 1970, a rapaziada da Aldeia de Ferreira, antes das dez horas da manhã, já estavam juntos numa das tabernas da Aldeia, eram cinco ou seis e o João desabafou: 

- Pronto, aqui estamos neste céu caído, vejam lá o que temos de passar daqui até à noite, mas onde é que a gente vai?

Os rapazes concordaram com o João, e as cabecinhas começaram a imaginar alguma coisa de novo, mas não surgia nada, e o João continuou: 

- Olhem lá, e se fossemos passar o dia a Cheles? Aquilo lá é outro Mundo, até parece uma cidade, há coca cola, cuba livre, cerveja Aguila, Cruz Campo, Skol e outras e boa música, tipo discotecas, muita alegria e fica barato, porque a peseta vale menos de metade do nosso escudo. 

Não foi preciso insistir mais para convencer a rapaziada toda, porque se alguém ali ficasse sozinho, então é que o céu lhe caía em cima, de tanto tédio. 

Alguns rapazes perguntaram como iam dali até Cheles e onde podiam trocar escudos por pesetas, e depois de várias ideias decidiram ir a pé, passavam o rio Guadiana nas Azenhas D' El-Rei, por cima do açude dos Moinhos, era seguro, e quanto ás pesetas, podiam fazer lá o cambio. 

O Manel concordou com a rota até Cheles, mas alertou que lá em Cheles, eram os Biruta que cambiavam, mas devia ser a seis tostões, enquanto em Montes Juntos o Ti Tonico dispensava a cinco, ou menos, logo em cinquenta escudos fazia uma diferença de vinte pesetas, ou mais, dava para muitas bebidas, por isso, decidiram ir pelos Montes Juntos, e dali, como combinado,  seguiram pelas Azenhas D`El-Rei.

Passaram por dentro dos Moinhos, dos dois portugueses e do espanhol e seguiram por cima do açude até perto da margem de lá, onde o açude estava desmoronado e tiveram de descalçar sapatos e meias e despir a roupa toda, meteram-se a banho com tudo à cabeça, mas quando passaram o correntão estava muito forte, a água dava-lhe por baixo dos braços e estiveram vai não vai água abaixo, mas com alguma dificuldade lá passaram, enxugaram um pouco, vestiram-se e seguiram até Cheles. 

Quando chegaram, dirigiram-se aos cafés do centro, o primeiro foi em frente ao café dos Biruta, o que diziam, vendia mais barato, beberam umas bebidas e depois foram, então ao café dos Biruta e aqui lembraram-se que seria melhor informar o sargento da guarda civil que estavam ali, para divertimento e beber umas cervejas. 

Assim que a embaixada chegou ao quartel, informaram os guardas de serviço ao que iam, eles chamaram o sargento que apareceu espavorido a pensar que tinha acontecido alguma zaragata, depois ouviu a rapaziada, perguntou se eram de Montes Juntos e eles responderam que eram de Ferreira, mesmo ali ao pé, e o sargento disse que conhecia e sabia muito bem onde era, e que podiam ir a divertir-se, mas sem armar nenhuma desordem, os rapazes agradeceram e acrescentaram que nunca armavam desordens, porque eram das melhoras pessoas de Portugal e despediram-se. 

Como já estavam com fome, passaram por um café, ao qual, chamavam o Casino debaixo do arco e perguntaram o que tinham para comer? Eles enunciaram vários petiscos entre os quais, lagarto, o João disse que queria lagarto, era muito bom, mas o Chiquinho disse que não comia cobras nem lagartos, mas depois explicaram-lhe que não era o réptil, eram pedacinhos de carne de porco frita e todos aceitaram o lagarto, com pão muito fino e branquinho e beberam algumas cervejas. 

A farra em Cheles não parou ali, ainda nem tinha começado e depois de temperados desceram pela praça e foram ter a um café com boa música, tipo discoteca, alguns continuaram a beber cerveja e outros cuba livre e não demorou surgir o efeito das misturas, para grande admiração de todos, deram de caras com outro grupo de rapazes da Aldeia de Ferreira e de Montes Juntos e começaram a misturar-se a beber em boa harmonia, mas não foi por muito tempo, sem razão o Chiquinho pegou-se com outro rapaz do outro grupo e, começaram a oferecer moquinos um ao outro, valeu-lhe a intervenção do João que lhes lembrou que se armassem ali zaragata ficavam a dormir no quartel da guarda dentro de uns calabouços que pareciam uns chiqueiros e até podiam ir parar ao Tribunal de Badajoz e a situação acalmou um pouco. 

Quando chegou a hora da abalada, já era noite cerrada e o outro grupo disse que já tinham combinado com o "Pirim " para os passar no barco à Cinza, mas, decerto, levava a malta toda, porque o barco era muito grande e lá seguiram todos no mesmo grupo até à Cinza, cerca de dez, mais o barqueiro que foi dispondo a rapaziada dentro do barco, ficando o mesmo com pouco mais de um palmo acima de água e foram bem avisados para em caso algum se mexerem de onde estavam, senão iam todos parar ao fundo do pego do rio Guadiana, e lá foram todos encolhidos cheios de medo, mas não havia alternativa e como o barqueiro fazia aquela travessia várias vezes ao dia e noite, com grandes cargas de café camêlo no barco, foi fácil e rápido, depressa meteram os pés na terra firme de Capelins. 

Na Cinza o grupo apartou-se cada um seguiu o seu caminho, uns seguiram a pé, outros de motorizada, e dali a pé até à Aldeia de Ferreira, as conversas foram sobre a grande aventura, desde a partida, até à chegada à Aldeia, apesar de alguns contratempos, todos concordaram que tinha sido uma boa ideia ir passar aquele dia à Vila de Cheles, onde todos foram muito bem tratados e foi tema de conversas durante muito tempo. 

Fim 

Texto: Correia Manuel 

Vila de Cheles - Espanha 

(Foto net)





quinta-feira, 2 de novembro de 2023

Resenha histórica sobre a tradição do dia de Finados em Capelins

Resenha histórica sobre a tradição do dia de Finados em Capelins

A comemoração do Dia dos Fiéis Defuntos acontece a 2 de Novembro em todo o mundo.
A data também é conhecida como Dia dos Finados, Dia dos Mortos e Dia das Almas.
Este dia é celebrado tradicionalmente pela Igreja, um dia depois do Dia de Todos os Santos, 01 de Novembro.
Este dia, nunca passou despercebido nas terras de Capelins, algumas pessoas, acendiam velas em altares improvisados em suas casas e rezavam orações em memória dos seus familiares falecidos.
Neste dia, era rezada uma missa por todas as Almas, na Igreja de Santo António de Capelins.
A tradição deste dia remonta ao século V, quando a Igreja começou a dedicar um dia do ano para rezar pela alma de todos os falecidos, caídos no esquecimento, pelos quais ninguém rezava.
É um dia de celebração dos mortos, onde se realizam missas e se lembram os familiares e amigos que já partiram.
Há países, como o México, que o Dia dos Mortos é um grande acontecimento, com festas aguerridas, semelhantes ao Carnaval e recebendo turistas de todo o mundo para as coloridas celebrações.
Paz à Alma de todos os falecidos, que não são esquecidos.
As nossas tradições são a nossa identidade.
Santo António de Capelins 



quarta-feira, 1 de novembro de 2023

A tradição do dia de Todos os Santos nas Terras de Capelins

A tradição do dia de Todos os Santos nas Terras de Capelins 

As terras de Capelins, desde a sua reconquista aos mouros, cerca do ano de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil duzentos e trinta, recebeu povoadores de várias regiões do Reino, sendo em maior número das imediações da Serra da Estrela. 

Os povoadores traziam as tradições das suas terras, era a sua identidade que, tentavam manter vivas, mas nem sempre eram bem aceites pela população que já cá residia ou pelos que vinham de outros lugares, do Sul, ou do Reino de Castela e, a diversidade de tradições deu origem as outras, próprias de Capelins e da região, mais ao gosto de todos. 

No caso do dia de Todos os Santos, sendo uma festa da Igreja Católica, e não só, é natural que fosse orientada pelo Pároco de Santo António e, essa parte, não era muito diferente de outras regiões do Reino. 

Nos Registos Paroquiais de Capelins, não encontramos referências sobre a dita festa em honra de Todos os Santos, mas pelos dizeres que foram passando de geração em geração, nos séculos mais distantes, o povo capelinense não lhe dava muita importância, devido a vários fatores, por não terem muito para repartir com os que faziam o pedido dos Santos (o pão de Deus) e, por aqui perdurarem hábitos judaicos, no entanto, a Igreja cumpria a sua missão que, pensamos ser uma Missa nesse dia, para juntar os fiéis obrigados ao rol da confissão. 

Quanto à doação do pão de Deus, nessa época, era desconhecido da maior parte do povo, talvez fosse praticado pelos lavradores, ou seja, pelas pessoas mais abastadas, uma vez que, os pobres, eram muito pobres e não tinham nada para dar. 

Nos alvores do século XX, com a estabilização dos povoadores nas terras de Capelins, já com as famílias da segunda ou terceira geração, senão mais, o dia de Todos os Santos começou a ser diferente, principalmente para algumas crianças que se juntavam em pequenos grupos, geralmente, eram irmãos, primos ou vizinhos e percorriam algumas casas de familiares ou de vizinhos a pedir "os Santos" e, recebiam frutos da época, romãs, castanhas, marmelos, passas de figos, nozes, amêndoas e pouco mais, as avós ou bisavós, começavam por oferecer pão com azeitonas ou com queijo, que todos recusavam, não era isso que queriam, depois, elas davam-lhe alguns frutos, ou bolos caseiros que faziam em Capelins pela época dos Santos, a que chamavam roscas, mas os netos achavam sempre pouco e elas davam volta aos bolsos do avental de onde saiam uns tostões para rebuçados, quase sempre um cruzado que eram quatro tostões e davam para uma mão cheia de rebuçados de côco, de meio tostão. 

No fim do peditório, faziam-se as partilhas e, davam sempre molho entre a rapaziada, nunca era de acordo com todos, uns achavam que os outros ficavam melhor e, acabava em prantos que pareciam a música  de uma orquestra sinfónica, mas passava.

Assim, era o dia de Todos os Santos, nas terras de Capelins, onde as tradições são a nossa identidade.

Fim 

Texto: Correia Manuel 

Santo António de Capelins



quinta-feira, 26 de outubro de 2023

Resenha histórica da Aldeia da Venda - Santiago Maior

 Resenha histórica da Aldeia da Venda - Santiago Maior

A Freguesia de Santiago Maior, Termo/Concelho da Vila de Terena, já existia no ano de 1551, conforme consta no artigo "Questom Judaicas: Felgueiras, logo, nessa data, já tinham de existir aglomerados populacionais na dita Freguesia e com base em diversos documentos Régios e Paroquiais, parece-nos que, o primeiro foi a Aldeia da Venda, situada no Baldio da Venda, a maioria das Aldeias desta região surgiram dentro de Coutadas ou Baldios, propriedades das Câmaras, ou em grandes herdades onde os donos ou donatários, construíam ou deixavam construir casas para os seus trabalhadores, como foi o caso da Aldeia do Passo, na herdade do Passo do Conde de Vila Nova, em Santiago Maior.
O documento que publicamos, produzido no ano de 1707, além de nos contar o que aconteceu com o António Dias Marques, natural da Aldeia da Venda - Santiago Maior - Concelho de Terena, a morar em Luanda, no auto de fé da Santa Inquisição do dia 30 de Junho de 1709, já com dois anos de prisão, acusado de bigamia, foi açoitado publicamente e condenado ao degredo para as galés durante cinco anos!
Assim, sabemos, oficialmente notícias, embora não boas, da Aldeia da Venda no ano de 1707.
Vejamos:

PROCESSO DE ANTÓNIO DIAS MARQUES

Documento composto Documento composto NÍVEL DE DESCRIÇÃO
PT/TT/TSO-IL/028/06150 CÓDIGO DE REFERÊNCIA
Formal TIPO DE TÍTULO
1707-11-16 A data é certa a 1710-02-06 A data é certa DATAS DE PRODUÇÃO
153 fl.; papel DIMENSÃO E SUPORTE
Estatuto social: cristão-velho

Idade: 33 anos

Crime/Acusação: bigamia

Cargos, funções, actividades: tratante

Naturalidade: aldeia da venda, freguesia de Santiago, termo de Terena, arcebispado de Évora

Morada: Luanda, Angola

Pai: Bernardo Dias "o Mel", lavrador

Mãe: Catarina Rodrigues

Estado civil: casado

Cônjugue: Beatriz Mendes

Data da prisão: 16/11/1707

Sentença: auto-da-fé de 30/06/1709. Abjuração de leve, açoitado publicamente, degredo por cinco anos para as galés, penitências espirituais, pagamento de custas.ÂMBITO E CONTEÚDO
Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Lisboa, proc. 6150COTA ATUAL
Arquivo Nacional da Torre do Tombo
É devido a um "marrano" natural de Felgueiras, mas morador na Freguesia de Santiago Maior do Termo/Concelho de Terena que, é possível provar que a Freguesia de Santiago Maior, já existia no ano de 1551.
(...) "Ainda que muito provavelmente tenham havido mais Autos de Fé contra os judeus de Felgueiras, no tomo V das memórias de Abade de Baçal apenas um é referenciado. Terá sido o Auto de Fé de 2 de agosto de 1551 pola Inquisiçom de Évora a Lourenço Luís, trabalhador, viúvo de Apolónia Maria, natural de Felgueiras e morador na freguesia de S. Tiago, termo da vila de Terena (distrito de Évora), acusado de ser culpado por reincidências de curas e bênçãos supersticiosas."
Como sabemos que, a Freguesia de Santo António (hoje Capelins) foi criada na mesma data da Freguesia de Santiago, logo, sabemos que a dita freguesia, também já existia nessa data.
"Foi preciso ir a Felgueiras, a saber o que tanto aqui procurávamos." 




domingo, 15 de outubro de 2023

Resenha histórica da Villa de Terena - Concelho entre 1262 e 1836 A demarcação do Termo/Concelho de Terena

Resenha histórica da Villa de Terena - Concelho entre 1262 e 1836 

A demarcação do Termo/Concelho de Terena

Ninguém duvida que a Villa de Terena é histórica, porque isso é evidente em algum património e pelos boatos que foram passando de geração em geração, porque as provas documentais continuam a ser ignoradas por quem de direito e não só!
Temos publicado aqui, embora não seja o lugar mais adequado para isso, imensos documentos régios e históricos, sobre a verdadeira história da Villa de Terena, que pouco interessam, no entanto, não desistimos, porque dá pena ver este abandono, por isso, hoje publicamos a primeira demarcação conhecida do Termo/Concelho de Terena, escrevemos conhecida, porque, decerto foi feita a inicial quando o mesmo foi doado a D. Gil Martins, a presente, foi efetuada no ano de 1537, a mando do Rei D. João III, o Piedoso.
"Arquivo Nacional da Torre do Tombo"
1537
página 101 - 10 folhas, incluindo as duas iniciais. 
Ficheiro 207




















































terça-feira, 19 de setembro de 2023

Resenha histórica da Vila de Terena e de suas Gentes

 Resenha histórica da Vila de Terena e de suas Gentes

Lembrar é homenagear!
Físicos e Médicos da Vila de Terena
Conforme documentos Régios constantes no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, é no reinado de D. Manuel I, que encontramos a nomeação feita por esse rei, de vários Físicos (Médicos) nestas terras da Raia, desde Juromenha, Alandroal, Terena e Monsaraz, como já algumas vezes aqui foi publicado.
No caso da Vila de Terena, também encontramos nos Registos Paroquiais de São Pedro os nomes e indicação de vários Médicos e Parteiras após aquela data até ao Dr. Joaquim Galhardas, já no século XX, neste caso, é este Médico que os Amigos de Capelins desejam lembrar, logo, prestar uma singela homenagem, através da presente publicação e, reconhecer a sua dedicação aos doentes da Freguesia de Capelins, onde se deslocava a qualquer hora do dia ou da noite, fizesse chuva, frio ou sol, em qualquer transporte que estivesse à sua disposição.
Mais tarde, ao serviço da Casa do Povo de Terena e Capelins, deslocava-se periodicamente ás Aldeias de Ferreira de Montes Juntos e aos Montes da Freguesia, para fazer consultas aos doentes sócios daquela Instituição, e no caso de não serem sócios, ia a casa dos doentes, mediante pagamento, ou não, da respetiva consulta.
Ainda o conhecemos, pessoalmente, mas passados tantos anos, não podemos adiantar muito, além do pouco que ficou em memória e o que as pessoas que, com ele conviveram, nos contaram, por isso, tomamos a liberdade de transcrever a seguinte publicação do Blogue AL TEJO:
COLABORAÇÃO - LUÍS FERNANDO
Tratamento Natural

Joaquim Cardoso Galhardas, alandroalense convicto, licenciou-se em Coimbra, vindo a exercer medicina em Terena, sua terra de adoção.
Para acudir a um doente, em certos montes com caminhos manhosos, o transporte era uma égua.
Entre dois automóveis, conheci-lhe uma motorizada. Um dia decidiu limpar-lhe o motor…, e foi desmontando peças. Ao fazer o sentido inverso da operação, recolocando o material, constatou que sobravam várias. Mas a motorizada pegou à primeira: grande máquina… disse!
O que aqui escrevo é uma homenagem ao avô de minha mulher e bisavô de minha filha.

Domingo acordo cedo com o cantarolar lançado pela garganta bem treinada do galo residente no quintal do vizinho. Tenho vontade de uma madrugada destas lá ir, incógnito, calar-lhe o pio. O safado dá o concerto da alvorada mesmo arrimado à janela do meu quarto, interrompendo-me o sono reconfortante do dia de descanso.
Começa outra chinfrineira que oiço este ano pela primeira vez – um bácoro anuncia que está de malas aviadas para o outro mundo. É a matança do porco, ritual milenar por estas bandas – aqui não há intolerância que proíba a comezaina.
O vento ajuda ao desassossego, atirando-se com assobio estridente contra tudo o que apanha pela frente. Do lado da serra chegam os primeiros frios. Acendem-se as lareiras em casa de quem as tem, tornando o ambiente acolhedor.
Do sino do convento ecoam as matinas à procura de fregueses para as orações da manhã. Perscruto os passos dos frades que percorrem os claustros, num vaivém que só eles entendem. Diz-se que levam vida austera.
Passa um carro lançando estampidos pelo escape, arremedando intensa fuzilaria. Os que ainda dormem acordam, de certeza, atordoados com o estouro.
Alguém bate à porta. Finjo não ouvir, abafando a cabeça debaixo das mantas. O toque insiste, empurrando-me para fora da cama, aos tropeções.
–Quem será que tão cedo me vem dissipar definitivamente o merecido repouso dominical? Abro a janela às apalpadelas e logo tenho que cerrar as pálpebras pela intensidade da soalheira matinal. Reconheço a voz do Sebastião Enjeitado, mais conhecido pelo Salta Léguas – assim crismado pelo característico modo de andar aos saltos – nome que lhe assenta que nem uma luva na profissão de moço de telegramas e recados que exerce no posto público e de correio, único local de onde é possível comunicar com o exterior, o que o faz andar o dia inteiro numa roda viva. Tem umas pernas enormes e uns membros superiores diminutos, fisionomia que, associada ao saltitar, me faz lembrar um canguru. Vive em casa de D. Mariazinha, proprietária da pensão Estrela, onde, a troco de cama, mesa e roupa lavada, ajuda no que é necessário, quando os telegramas e recados lhe deixam tempo livre.
–O que temos hoje tão cedo, Salta? O posto está encerrado e tu fazias bem em estar ainda em vale de lençóis – a ver se eu consigo passar um pouco mais pelas brasas.
«Queixe-se da patrulha da Guarda, senhor doutor, foram eles que passaram por casa de D. Mariazinha e deram recado para o avisar que no monte da Fonte Limpa precisam de si para o velho Busca, há três dias tão doente que foi à cama – e se é rijo o cabrão do velho!»
–E a Republicana não te disse do que se queixa o... –não importa, seja o que for que atormente o Busca, tenho que lá ir e adiar o passeio alinhavado com a família.
«Parece ser mal de barriga, senhor doutor» – largou em voz esganiçada o Sebastião Enjeitado, quando já batia em retirada, aos saltos.
O dia que tinha amanhecido sorridente toldou-se por completo, sendo eu acompanhado no destino para o monte da Fonte Limpa, onde ia consultar o enfermo, por forte trovoada que me encharcou até aos ossos e manteve em constante sobressalto a minha égua baia.
Finalmente chego. Um rapaz toma conta do animal e a mulher do Busca, ti Maria Cosme, faz-me entrar na cozinha do monte.
Com mil lamentos pelo meu estado deplorável, introduz-me na grande chaminé para que me seque: «uma molha assim é meio caminho andado para doenças ruins e outras que se apanham com o enregelamento…, isto, senhor doutor, sem querer estar a ensinar o pai nosso ao padreca.»
Agrada-me o tom jocoso que mete na conversa. Sabe-me bem o calor do lume.
Ti Maria Cosme observa-me de soslaio e compreende, pelas voltas que o meu nariz dá, que capto o cheiro que empesta os quatro cantos da casa. Ri-se, comprometida. Logo desembucha: «o doente, graças a Deus, está melhor e não merecia a pena o senhor doutor apanhar esta carga de água, se eu adivinhasse que vinha aí uma trovoada…»
Supu-la incomodada por me ter desabado em cima a quase metade do firmamento e confirmei: –quando esta manhã o Salta Léguas foi bater-me à porta, disse que é da barriga que ele se queixa; talvez coisa estragada que tenha comido…, adiantei convicto.
«O contrário, senhor doutor, o contrário…, alvitrou a ti Cosme com acento abertamente de gracejo. O mal, a meu ver, foi estar oito dias sem sujar…, com sua licença senhor doutor, que assim percebe logo. Tinha a barriga inchada…, que nem o bucho de um boi enfartado...».
Dá gargalhadas soltas, ao mesmo tempo que um rubor súbito lhe invade a face. «Deus sabe que é modo de conversar..., que sempre fui uma mulher séria..., as duas últimas noites não me deixou pregar olho com ais!, uis! e outras coisas que tenho vergonha de dizer diante do senhor doutor. Felizmente a trovoada foi remédio santo. O “velhaco dum raio” tem medo delas desde pequeno. Quando hoje trovejou, aqui mesmo em cima do monte, fez pelos oito dias que esteve sem desenvolver».
De regresso a casa anotei, na agenda das mezinhas caseiras e tradições medicinais populares, este eficaz remédio para o “embaraço intestinal”, de que tomei conhecimento no monte da Fonte Limpa.
AC

(Dr. Galhardas - foto familiar)  


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