terça-feira, 19 de setembro de 2023

Resenha histórica da Vila de Terena e de suas Gentes

 Resenha histórica da Vila de Terena e de suas Gentes

Lembrar é homenagear!
Físicos e Médicos da Vila de Terena
Conforme documentos Régios constantes no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, é no reinado de D. Manuel I, que encontramos a nomeação feita por esse rei, de vários Físicos (Médicos) nestas terras da Raia, desde Juromenha, Alandroal, Terena e Monsaraz, como já algumas vezes aqui foi publicado.
No caso da Vila de Terena, também encontramos nos Registos Paroquiais de São Pedro os nomes e indicação de vários Médicos e Parteiras após aquela data até ao Dr. Joaquim Galhardas, já no século XX, neste caso, é este Médico que os Amigos de Capelins desejam lembrar, logo, prestar uma singela homenagem, através da presente publicação e, reconhecer a sua dedicação aos doentes da Freguesia de Capelins, onde se deslocava a qualquer hora do dia ou da noite, fizesse chuva, frio ou sol, em qualquer transporte que estivesse à sua disposição.
Mais tarde, ao serviço da Casa do Povo de Terena e Capelins, deslocava-se periodicamente ás Aldeias de Ferreira de Montes Juntos e aos Montes da Freguesia, para fazer consultas aos doentes sócios daquela Instituição, e no caso de não serem sócios, ia a casa dos doentes, mediante pagamento, ou não, da respetiva consulta.
Ainda o conhecemos, pessoalmente, mas passados tantos anos, não podemos adiantar muito, além do pouco que ficou em memória e o que as pessoas que, com ele conviveram, nos contaram, por isso, tomamos a liberdade de transcrever a seguinte publicação do Blogue AL TEJO:
COLABORAÇÃO - LUÍS FERNANDO
Tratamento Natural

Joaquim Cardoso Galhardas, alandroalense convicto, licenciou-se em Coimbra, vindo a exercer medicina em Terena, sua terra de adoção.
Para acudir a um doente, em certos montes com caminhos manhosos, o transporte era uma égua.
Entre dois automóveis, conheci-lhe uma motorizada. Um dia decidiu limpar-lhe o motor…, e foi desmontando peças. Ao fazer o sentido inverso da operação, recolocando o material, constatou que sobravam várias. Mas a motorizada pegou à primeira: grande máquina… disse!
O que aqui escrevo é uma homenagem ao avô de minha mulher e bisavô de minha filha.

Domingo acordo cedo com o cantarolar lançado pela garganta bem treinada do galo residente no quintal do vizinho. Tenho vontade de uma madrugada destas lá ir, incógnito, calar-lhe o pio. O safado dá o concerto da alvorada mesmo arrimado à janela do meu quarto, interrompendo-me o sono reconfortante do dia de descanso.
Começa outra chinfrineira que oiço este ano pela primeira vez – um bácoro anuncia que está de malas aviadas para o outro mundo. É a matança do porco, ritual milenar por estas bandas – aqui não há intolerância que proíba a comezaina.
O vento ajuda ao desassossego, atirando-se com assobio estridente contra tudo o que apanha pela frente. Do lado da serra chegam os primeiros frios. Acendem-se as lareiras em casa de quem as tem, tornando o ambiente acolhedor.
Do sino do convento ecoam as matinas à procura de fregueses para as orações da manhã. Perscruto os passos dos frades que percorrem os claustros, num vaivém que só eles entendem. Diz-se que levam vida austera.
Passa um carro lançando estampidos pelo escape, arremedando intensa fuzilaria. Os que ainda dormem acordam, de certeza, atordoados com o estouro.
Alguém bate à porta. Finjo não ouvir, abafando a cabeça debaixo das mantas. O toque insiste, empurrando-me para fora da cama, aos tropeções.
–Quem será que tão cedo me vem dissipar definitivamente o merecido repouso dominical? Abro a janela às apalpadelas e logo tenho que cerrar as pálpebras pela intensidade da soalheira matinal. Reconheço a voz do Sebastião Enjeitado, mais conhecido pelo Salta Léguas – assim crismado pelo característico modo de andar aos saltos – nome que lhe assenta que nem uma luva na profissão de moço de telegramas e recados que exerce no posto público e de correio, único local de onde é possível comunicar com o exterior, o que o faz andar o dia inteiro numa roda viva. Tem umas pernas enormes e uns membros superiores diminutos, fisionomia que, associada ao saltitar, me faz lembrar um canguru. Vive em casa de D. Mariazinha, proprietária da pensão Estrela, onde, a troco de cama, mesa e roupa lavada, ajuda no que é necessário, quando os telegramas e recados lhe deixam tempo livre.
–O que temos hoje tão cedo, Salta? O posto está encerrado e tu fazias bem em estar ainda em vale de lençóis – a ver se eu consigo passar um pouco mais pelas brasas.
«Queixe-se da patrulha da Guarda, senhor doutor, foram eles que passaram por casa de D. Mariazinha e deram recado para o avisar que no monte da Fonte Limpa precisam de si para o velho Busca, há três dias tão doente que foi à cama – e se é rijo o cabrão do velho!»
–E a Republicana não te disse do que se queixa o... –não importa, seja o que for que atormente o Busca, tenho que lá ir e adiar o passeio alinhavado com a família.
«Parece ser mal de barriga, senhor doutor» – largou em voz esganiçada o Sebastião Enjeitado, quando já batia em retirada, aos saltos.
O dia que tinha amanhecido sorridente toldou-se por completo, sendo eu acompanhado no destino para o monte da Fonte Limpa, onde ia consultar o enfermo, por forte trovoada que me encharcou até aos ossos e manteve em constante sobressalto a minha égua baia.
Finalmente chego. Um rapaz toma conta do animal e a mulher do Busca, ti Maria Cosme, faz-me entrar na cozinha do monte.
Com mil lamentos pelo meu estado deplorável, introduz-me na grande chaminé para que me seque: «uma molha assim é meio caminho andado para doenças ruins e outras que se apanham com o enregelamento…, isto, senhor doutor, sem querer estar a ensinar o pai nosso ao padreca.»
Agrada-me o tom jocoso que mete na conversa. Sabe-me bem o calor do lume.
Ti Maria Cosme observa-me de soslaio e compreende, pelas voltas que o meu nariz dá, que capto o cheiro que empesta os quatro cantos da casa. Ri-se, comprometida. Logo desembucha: «o doente, graças a Deus, está melhor e não merecia a pena o senhor doutor apanhar esta carga de água, se eu adivinhasse que vinha aí uma trovoada…»
Supu-la incomodada por me ter desabado em cima a quase metade do firmamento e confirmei: –quando esta manhã o Salta Léguas foi bater-me à porta, disse que é da barriga que ele se queixa; talvez coisa estragada que tenha comido…, adiantei convicto.
«O contrário, senhor doutor, o contrário…, alvitrou a ti Cosme com acento abertamente de gracejo. O mal, a meu ver, foi estar oito dias sem sujar…, com sua licença senhor doutor, que assim percebe logo. Tinha a barriga inchada…, que nem o bucho de um boi enfartado...».
Dá gargalhadas soltas, ao mesmo tempo que um rubor súbito lhe invade a face. «Deus sabe que é modo de conversar..., que sempre fui uma mulher séria..., as duas últimas noites não me deixou pregar olho com ais!, uis! e outras coisas que tenho vergonha de dizer diante do senhor doutor. Felizmente a trovoada foi remédio santo. O “velhaco dum raio” tem medo delas desde pequeno. Quando hoje trovejou, aqui mesmo em cima do monte, fez pelos oito dias que esteve sem desenvolver».
De regresso a casa anotei, na agenda das mezinhas caseiras e tradições medicinais populares, este eficaz remédio para o “embaraço intestinal”, de que tomei conhecimento no monte da Fonte Limpa.
AC

(Dr. Galhardas - foto familiar)  


sábado, 16 de setembro de 2023

Resenha histórica do Monte ou Aldeia de Calados, em Capelins

Resenha histórica do Monte ou Aldeia de Calados, em Capelins 

Com o fim do sistema senhorial na Vila de Ferreira no ano de 1698, dez das doze herdades que a constituíam, foram divididas cada uma em duas e vendidas aos lavradores e seareiros, mas no caso da herdade do Seixo foram feitos mais dois cortes, sendo um limitado a Norte pela herdade da Defesa de Ferreira, a Este pela nova herdade da Ramalha, antes, era herdade da Zorra, a Oeste pela nova herdade do Monte Real, antes do Seixo, e a Sul pela mesma herdade do Monte Real, o outro corte foi desde a Portela até ao Sul do Monte do Pinheiro, entre as herdades da Defesa de Ferreira e a nova do Monte Real, neste caso, chamadas courelas do Monte Novo. 

A primeira faixa de terra aqui descrita foi dividida em pequenas courelas e vendidas a particulares, os quais, fizeram hortas, tapadas, ferragiais, currais e outras instalações para a agro pecuária, como também, construíram alguns Montes que ficaram conhecidos pelos nomes dos seus donos, mas mais tarde algumas toponímias foram alteradas para outros nomes de famílias que neles habitaram, como o Monte das Serranas, mais tarde encontramos aqui a família "Serranas", com este apelido registado, ou o Monte Real, que ficou com o apelido da família "Real" que, eram lavradores em várias herdades no Concelho de Terena, compraram a nova herdade do Monte Real e construíram o seu Monte designado "Monte do Real" ficando todos os outros, ao lado ou em redor, no mesmo aglomerado, com igual toponímia, passando o Monte de Calados pela mesma situação. 

Já encontramos a Família "Calado" em Santiago Maior em 18 de Janeiro de 1667, Ficheiro 53 - Manuel Calado, casado com Maria Godinho, como também, encontramos esta linhagem na Vila de Terena, por isso, a família "Calado" estava pelo Termo/Concelho de Terena, desde muito cedo.

Assim, o Monte ou Aldeia de Calados, surgiu nesta faixa de terra nos primeiros decénios de 1700, sabemos que, já existia antes de 1728, mas ao contrário dos Montes anteriores, somente mais tarde, aqui encontramos a família "Calado" registada, mas não é de estranhar, porque se o dito apelido veio de uma mulher, como elas  não tinham, oficialmente direito ao apelido da família, podia aparecer nas gerações seguintes, nos filhos ou netos, mas o povo não deixava de lhe chamar o apelido de família, mesmo sem estar registado.

Existem indícios de que este "sítio dos Calados", foi habitado pelo menos desde a época romana, sendo um lugar atraente à fixação de seres humanos, talvez, pela existência de energias, ou correntes telúricas que, conforme escrevem os especialistas nestas matérias, são um conjunto de correntes eletromagneticas provenientes da própria Terra, antigamente chamadas serpentes da Terra, que influenciam os comportamentos dos seres vivos, onde os humanos, encontram muita serenidade espiritual e muita paz, bem estar, devido ao equilíbrio gerado pelas boas energias intrínsecas e as ditas, como também, aqui pode existir um ponto telúrico, isto é, o cruzamento das forças emitidas pela própria Terra segundo trajetorias horizontais com as forças cósmicas segundo trajetorias verticais, não sabemos se é isso, mas sabemos que este sítio é povoado desde tempos remotos, como provam as sepulturas talhadas na rocha que, com base do que ouvimos a capelinenses de antigamente, com alguma experiência nessa área, serão da época romana.

 Este Monte, em 08 de Fevereiro de 1733, já se denominava "Calados", decerto, até muito antes, mas só temos a prova no Registo Paroquial de Óbitos nessa data, Ficheiro número 8, dos Registos Paroquiais de Santo António e, já aqui moravam várias famílias, entre elas, a Família "Dias", de António Dias e Isabel Caeira, uma família muito numerosa.

Devido ao aumento populacional neste Monte, verificamos que, no dia 20 de Janeiro de 1741, Ficheiro 26, num Registo Paroquial de nascimento, o Pároco de Sano António, Miguel Gonçalves Galego, escreveu que, António Dias e Isabel Caeira, ele natural de Vale Mourisco - Sortelha - Guarda e ela natural da Freguesia de Nossa Senhora da Lagoa - Vila de Monsaraz, que eram moradores na Aldeia de Calados, os quais, contribuíram para ser Aldeia com imensos filhos, porém, finalizaram, porque ele faleceu em "Calados" no dia 18 de Março de 1749, para onde tinham ido morar quando casaram, no dia 03 de Janeiro de 1728. 

Parece-nos que, esta família em termos de trabalho, tinha ligação ao Monte da Ramalha, pelo que consta no seguinte Testamento feito no dia 26 de Agosto de 1745, que se encontra no Arquivo Distrital de Portalegre: "Testamento com que faleceu Josefa Maria, moradora que foi da Vila de Terena, viúva que ficou de João Charrua Frade, Capitão-Mor que foi da mesma Vila". Neste testamento foram beneficiados alguns filhos de António Dias, moradores no Sítio dos Calados e na herdade da Ramalha, pelo que, pensamos ter sido esta herdade a principal causa do surgimento e crescimento do Monte dos Calados, mas também, por ser um lugar estratégico junto ao principal caminho entre a Vila de Terena e o Porto da Cinza no Rio Guadiana, chamada estrada de  Cheles, com muito movimento. 

Além da dita família "Dias" nos anos 30/40 de 1700, também aqui moravam as seguintes famílias, entre outras: 

- Salvador Dias e Joana Ribeira; 

- Domingos Fernandes e Maria Josefa; 

- Manuel Caeiro e Maria Pouzoa; 

- António Alvares e Brites Maria.

No dia 03 de Novembro de 1747, também o Pároco de Santo António,  António de Sousa e Sylva, Ficheiro 133 - Óbitos, escreveu que, Manuel Caeiro e Maria Pouzoa moravam na Aldeia de Calados, além de outros moradores neste decénio de 1740, assim, sendo a Paróquia a autoridade máxima da Freguesia, nessa época, se os ditos Párocos e talvez outros, entenderam que neste aglomerado populacional existia população suficiente para ser uma Aldeia, assim a registaram na Paróquia de Santo António e, "Calados" foi uma Aldeia nesse espaço temporal. 

Como nessa época as famílias eram muito numerosas, prevê-se que, o Monte ou Aldeia de Calados  tivesse muita população nos ditos anos, por isso, os diversos Párocos de Santo António, atribuíram-lhe  a condição de Aldeia. 

Ao longo destes três séculos, muitas famílias moraram no Monte ou Aldeia de Calados, onde, no século XX funcionou o Posto do Registo Civil de Capelins, em casa e a cargo do senhor Inácio Moreira Correia onde se realizavam registos de batismos e de casamentos.

Nos últimos decénios do século XX, cerca dos anos 60/70, o Monte de Calados, além das famílias fixas ou tradicionais que, não enunciamos  aqui para não ficar alguma esquecida, foi um entreposto de aproximação à Aldeia de Ferreira, ou seja, as pessoas que, por algum motivo deixavam de morar nos Montes mais afastados, das herdades ou nas suas propriedades, antes de se fixarem na Aldeia, quase sempre, ficavam algum tempo a morar no Monte de Calados, ou vizinhos, mais tarde, algumas decidiam mudar-se para a Aldeia, pelo que, passavam por um período de estágio ou adaptação à grande mudança nas suas vidas, uma vez que, normalmente só se dirigiam às Aldeias para fazer compras ou vendas, aos bailes, festas, alguns às tabernas, ou a visitar familiares. 

O Monte de Calados, não sendo hoje uma Aldeia, continua revigorante e a teimar em desempenhar a sua missão de vanguarda, embora, com outras famílias e com outros imóveis urbanos ou reconstruidos. 

Não se esgota aqui, a história do Monte de Calados, pelo que, quando surgirem novos documentos que, sabemos da sua existência, mas agora que fazem falta não se encontram, esta resenha poderá ser atualizada.

Fim 

Texto: Correia Manuel 

Calados - Capelins 




sexta-feira, 15 de setembro de 2023

Resenha histórica da vida de José Diogo do Monte das Serranas em Capelins

Resenha histórica da vida de José Diogo do Monte das Serranas em Capelins 

O Pároco de Santo António de Capelins, António Luciano Máximo, escreveu o seguinte: 

Aos catorze dias do mês de Fevereiro do ano de 1803, nesta Freguesia de Santo António de Capelins, na sua Paroquial Igreja, baptizei e pus os Santos Óleos a José Diogo, filho do primeiro matrimónio de João Diogo e de Joaquina Curva, ele natural desta Freguesia e ela da Freguesia de São Tiago do Termo/Concelho de Monsaraz. 

José Diogo, nasceu no Monte do Real em Capelins, na dita data, aqui foi criado e, no dia 10 de Dezembro de 1827, então com 24 anos, casou com Justina Maria, natural de Capelins, na Igreja de Santo António de Capelins e foram morar para o Monte das Serranas, onde no dia 31 de Dezembro de 1828 nasceu a primeira filha, chamada Maria, assim como, a segunda filha que nasceu no dia 20 de Fevereiro de 1832, e foi chamada de Clemência, o mesmo nome da avó materna, natural da Freguesia de Santiago Maior, porém, esta menina faleceu no dia 03 de Março desse ano, com 12 dias de vida. 

No ano de 1828 agravou-se a tensão entre os apoiantes dos Liberais Constitucionalistas de D. Pedro IV e dos Absolutistas aliados do seu irmão D. Miguel, desencadeando uma guerra civil que, só terminou em 1834 com a assinatura da Convenção de Évoramonte, deixando o país arrasado em termos económicos e sociais.

Como o Clero apoiava D. Miguel, os padres foram os arautos da desgraça, diziam que no caso da vitória de D. Pedro IV, matavam toda gente, porque eram muito maus e praticavam brutalidades, assim, convenceram os lavradores e os fregueses a apoiar o Rei D. Miguel, principalmente com bens, cereais, palha e outros, e também com homens para a guerra e foi assim que, o capelinense José Diogo, foi recrutado para as fileiras do exército realista de D. Miguel que, reuniu mais de oitenta mil homens, alguns mal preparados como foi este caso. 

O José Diogo despediu-se da família, dos amigos e do seu Monte das Serranas em Capelins no primeiro ou segundo trimestre de 1832, onde nunca mais voltou,  desconhecemos a razão que o convenceu a partir para a guerra, talvez a morte recente da filha Clemência, ou foram promessas de uma vida melhor, parece-nos que foi morto pouco depois de chegar ao Porto, talvez, alguns dias após o dia 8 de Julho de 1832, porque foi neste dia que D. Pedro IV, vindo dos Açores, desembarcou as suas tropas na praia dos ladrões, depois, chamada praia da memória, no Mindelo, entricheirando-se na cidade do Porto no dia 09 de Julho, onde foram, imediatamente cercadas pelas tropas de D. Miguel, e durante alguns dias, sucederam-se vários recontros, nos quais, foram mortos muitos homens de ambos os lados, e no dia 10 os realistas de D. Miguel retiraram em debandada até Oliveira de Azeméis, mas no dia 18 de Julho deu-se o primeiro ataque muito violento dos realistas, sem êxito, por isso, pensamos que foi entre estas datas, senão neste dia, que ocorreu a morte de José Diogo, também porque, a viúva Justina Maria em 1834 já estava envolvida com Salvador Gonçalves, também viúvo, uma vez que, tiveram uma filha no dia 08 de Julho de 1835 e só casaram no dia 11 de Outubro de 1835 e, decerto, como era habitual nessa época, respeitaram algum tempo dos lutos.

O capelinense José Diogo, sacrificou a sua vida em defesa de uma causa que o obrigaram a acreditar ser justa e, ficou para sempre abandonado no Porto, mas como lutou ao lado dos vencidos, também ficou esquecido na Freguesia de Capelins, onde seria justo ter o seu nome, na rua do seu Monte das Serranas. 


Fim 

Texto: Correia Manuel 

Monte das Serranas - Capelins 





terça-feira, 29 de agosto de 2023

Resenha histórica da Freguesia de Capelins

 Resenha histórica da Freguesia de Capelins 

A Freguesia de Santo António do Termo da Vila de Terena já existia no ano de 1551, a par da Freguesia de Santiago Maior, talvez exista desde meados da centúria de 1500.

No ano de 1793 a Freguesia começou a designar-se: Santo António de Capelins. 

A partir de 01 de Janeiro de 1941, conforme consta nos documentos do Registo Civil do Alandroal, a sua designação passou a ser: Capelins (Santo António). 


Legislação sobre as alterações da divisão administrativa do Concelho do Alandroal desde 1835.

Alandroal 

Em meados da década de 1830, o concelho do Alandroal englobava 2 freguesias — Nossa Senhora da Conceição; e Nossa Senhora do Rosário — ambas com sede no Alandroal. 

Por Decreto de 18 de Julho de 1835, o Concelho do Alandroal passou a pertencer ao distrito de Évora, então criado. 

Por Decreto de 6 de Novembro de 1836:

• Foi extinto o concelho de Ferreira de Capelins, sendo a localidade que o compunha — Ferreira de Capelins — integrada no concelho de Alandroal; 

• Foi extinto o concelho de Juromenha, sendo as 2 freguesias que o compunham — Juromenha; e São Brás dos Matos — integradas no concelho do Alandroal;

• Foi extinto o concelho de Terena sendo as 3 freguesias que o compunham — Capelins; Santiago Maior; e Terena — integradas no concelho do Alandroal. 

Pelo Decreto-Lei n.º 27424 de 31 de Dezembro de 1936:

 • A freguesia de Nossa Senhora do Rosário do Alandroal foi integrada na freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Alandroal;

 • A freguesia de São Brás dos Matos foi integrada na freguesia de Juromenha;

• O concelho do Alandroal passou a fazer parte da província do Alto Alentejo, então criada.

O Decreto-Lei n.º 42536 de 28 de Setembro de 1959 extinguiu as províncias do Continente. 

Pelo Decreto-Lei n.º 48905 de 11 de março de 1969, o concelho do Alandroal passou a fazer parte da região do Sul sub-região do Alentejo.

Pelo Decreto-Lei n.º 494/79 de 21 de dezembro de 1979, o concelho do Alandroal passou a fazer parte da região do Alentejo. 

Pela Lei n.º 51/84 de 31 de dezembro de 1984, a freguesia de São Brás dos Matos (Mina do Bugalho) foi separada da freguesia de Juromenha.

Pelo Decreto-Lei n.º 46/89 de 15 de fevereiro de 1989, o Concelho do Alandroal passou a fazer parte da sub-região do Alentejo Central. 

No início de 2013, o concelho do Alandroal englobava 6 freguesias: Alandroal (Nossa Senhora da Conceição); Capelins (Santo António); Juromenha (Nossa Senhora do Loreto); Santiago Maior; São Brás dos Matos (Mina do Bugalho); e Terena (São Pedro). 

Pela Lei n.º 11-A/2013 de 28 de janeiro, o concelho do Alandroal passou a englobar 4 freguesias: Capelins (Santo António); Santiago Maior; Terena (São Pedro); e União das Freguesias de Alandroal (Nossa Senhora da Conceição), São Brás dos Matos (Mina do Bugalho) e Juromenha (Nossa Senhora do Loreto). 

Pela Lei n.º 75/2013 de 12 de Setembro, o concelho do Alandroal passou a fazer parte da Comunidade Intermunicipal do Alentejo Central. 


Como, por várias vezes esclarecemos, o Concelho de Ferreira de Capelins, pertencia à Comarca de Elvas, era constituído por: Alcaide, Procurador, Escrivão, Juiz, Vereadores e Lavradores, tinha uma Coutada da Câmara, hoje Colmeadas, Gomes, Cebolal, sendo extinto em 06 de Novembro de 1836. 

O Concelho de Ferreira de Capelins, não era Concelho Régio, uma vez que, a Freguesia de Santo António de Capelins pertencia ao Concelho de Terena, assim, o Concelho de Ferreira de Capelins, era um Concelho dentro de um Concelho Régio (do Reino) era um Concelho Comunitário (tipo Comissão de moradores), servia para resolver os conflitos entre a comunidade, quanto à divisão de terras, pastagens, caminhos, águas, bolota, e outros casos, também ajudava os moradores a resolver diversas situações e, fazia os funerais aos indigentes, aos pedintes ou sem família que faleciam na sua área geográfica, aplicava multas, por incumprimento de diversas regras e outras finalidades, mas tudo o resto era tratado na sede do Concelho do Reino, que era na Vila de Terena ou em Elvas. 

Por Decreto de 06 de Novembro de 1836, o Concelho de Ferreira de Capelins foi extinto, como o de Terena e a Vila de Ferreira que existia desde 1262 e, era quase todo o espaço geográfico da atual Freguesia de Capelins, também foi extinta, passando as duas Aldeias de Capelins de Cima e de Capelins de Baixo a designarem-se por: Aldeia de Ferreira, na Freguesia de Capelins.  


https://files.diariodarepublica.pt/1s/1936/12/30600/17731873.pdf?fbclid=IwAR3nNLSOp-aTrgMrfp8KD5c9UMiQqRQd7EQxHkaUQk7AUD39Qc5pAZs5Lx0








segunda-feira, 28 de agosto de 2023

Memórias do Chiquinho de Capelins, quando foi colher grãos de madrugada

Memórias do Chiquinho de Capelins, quando foi colher grãos de madrugada 

O grão de bico, é uma leguminosa da família das fabáceas, fundamental na alimentação da comunidade capelinense de outros tempos, quase todos os dias, as famílias faziam as tradicionais sopas de grãos com carne ou de azeite, à noite punham os grãos de molho em água com sal, era um punhado por pessoa, depois, eram cozidos com a carne, toucinho  e alguns produtos hortícolas, geralmente numa panela de barro, no lume de chão, durante três ou quatro horas, só mais tarde apareceram as panelas de pressão que, coziam, rapidamente, mas ficavam menos saborosos. 

Os lavradores e seareiros de Capelins, semeavam uma seara de grãos e alguns, também de chícharos, não só para consumo de casa, mas para vender, sendo uma ajuda à fraca economia agrícola dos seareiros.

O grão de bico era semeado no mês de Abril e, não precisava de muitos cuidados até à sua colheita, feita na segunda quinzena do mês de Agosto e, davam-se, dão-se, em quase todas as terras, embora, fossem mais, ou menos produtivos e saborosos, conforme a terra onde eram criados.

A colheita dos grãos, devido à sensibilidade das suas vagens que, facilmente podiam cair e perder-se, tinha de ser feita na parte mais fresca do dia, a partir das quatro ou cinco horas da madrugada, o mais cedo possível, desde que se conseguissem ver e, acabava pelo meio dia ou treze horas, obrigando os participantes a levantarem-se ao cantar dos galos da Aldeia.

O pai do Chiquinho de Capelins era seareiro, o mesmo que pequeno agricultor e, também semeava a sua seara de grãos, cerca de meio hectare, sendo a colheita feita pela família, assim, um ano quando chegou a altura, o Chiquinho foi mobilizado para esse trabalho.

Na primeira madrugada quando a mãe o foi chamar à cama, custou-lhe muito a levantar-se e pensou que já o sol ia alto, mas quando chegou à rua ficou admirado e perguntou à mão o que iam fazer lá para os grãos aquela hora, uma vez que, não se via um palmo à frente dos olhos, e ela respondeu que, quando lá chegassem já se via bem e a colheita tinha de ser feita muito cedo, senão as vagens dos grãos caiam todas. 

Como os grãos estavam semeados no ferragial grande, em frente à Escola Primária a uns trezentos metros de casa, foram a pé, e o Chiquinho foi andando e dormindo até lá, e quando chegaram continuava a não se ver nada, a mãe abanou-o para o acordar e começou a explicar-lhe como devia fazer, apanhar o pé ou os pés das ramas dos grãos junto à terra e depois com jeito, torcer para um ou outro lado para partirem, também podiam ser arrancados, mas não convinha para não levarem terra agarrada para a eira, depois quando tivesse a mão cheia juntava-os com cuidado e punha-os numa paveia (pequeno monte) e quando a paveia tivesse trinta ou quarenta centimetros de altura carregava-a com uma pedra ou um torrão, para não serem arrastadas pelo vento, enquanto não fossem  transportadas para a eira para serem debulhados, mas isso, para já fazia a mãe.

O Chiquinho pouco ouviu o que a mãe lhe disse, o sono era muito, mas tiveram de começar e com a ajuda da mãe, a pouco e pouco, quase sem ver nada, foi colhendo uns granitos, e quando se começou a ver começou a melhorar e mais rápido, depois pararam para  o almoço (pequeno almoço), sempre com pressa, porque o sol estava cada vez mais intenso, mais havia alguma aragem fresca que ajudava a disfarçar o calor e pouco passava do meio dia foi recebida ordem de paragem e de voltar para casa, estava feito o primeiro dia de grãos do Chiquinho.

Depois de chegarem a casa, a mãe fez uma sopa de tomate com batatas e ovos e jantaram (almoçaram) e a mãe disse-lhe que iam todos dormir a sesta, porque, na madrugada seguinte, o relógio despertava à mesma hora, mas o Chiquinho disse-lhe que não conseguia dormir de dia e, assim que apanhou os pais a dormir a sesta foi dar uma volta à Aldeia de Ferreira e, passou a tarde na brincadeira, depois, à noite estava cansado e adormeceu cedo. 

Na madrugada seguinte, quando a mãe o foi chamar à cama, zangou-se e disse-lhe que tinha acabado de adormecer e que nesse dia não ia aos grãos, porque estava muito cansado e cheio de sono, mas a mãe disse-lhe que, ou se levantava já, ou vinha o pai a buscá-lo por uma orelha, deu logo um salto da cama e ficou em pé ainda a dormir e lá foi com a mãe, lavou a cara e os olhos com as pontas dos dedos e ficou mais desperto. 

O dia de colheita de grãos foi em tudo igual ao anterior, com a diferença que o Chiquinho já tinha mais prática e deu mais produtividade do que no dia anterior, e depois do jantar (almoço) a mãe tornou a dizer-lhe para ir dormir a sesta, mas ele disse que não conseguia dormir de dia e foi até Capelins de Baixo à procura das brincadeiras. 

A colheita dos grãos continuou cerca de uma semana, sempre igual, mas cada dia que passava, mais cansado o Chiquinho andava e à noite, depois da ceia (jantar) o Chiquinho ficava a dormir sentado na cadeira até que a mãe o acordava e ia a correr  para a cama. 

O Chiquinho gostava de colher grãos, também, porque em troca ganhava mais liberdade para ir às suas brincadeiras, mas não gostava de se levantar tão cedo e, se não era rapaz para dormir sesta, não era rapaz para colher grãos e poucas vezes repetiu esse trabalho.

Fim 

Texto: Correia Manuel  

Courela do Gomes - Capelins 





domingo, 27 de agosto de 2023

Memórias do Chiquinho de Capelins, quando achou o ninho de "cutevia"

Memórias do Chiquinho de Capelins, quando achou o ninho de "cutevia" 

Num dia do mês de Maio de um ano dos finais da década de 1960, o Chiquinho de Capelins foi prender as suas cabras na pastagem da courela do Gomes e como fazia sempre que tinha tempo foi ver como estavam os seus ninhos, quantos ovos ou passarinhos tinham e aproveitou para espiolhar as oliveiras em redor para tentar encontrar mais algum ninho. 

Como se aproximava a hora do ajuntamento da rapaziada para as brincadeiras em Capelins de Baixo, nem tomou muita atenção e meteu-se a caminho pela courela abaixo, porém, quando chegou a um altinho levantou-se a voar uma cotovia, quase debaixo dos seus pés que o deixou desconfiado que ela tinha por ali o ninho e começou a procurá-lo, mas olhava, olhava para ele e nem o via, porque estava bem disfarçado e não passava de uma covinha na terra com uns pastinhos, junto a umas ervas altas, o Chiquinho ficou muito contente e gritou: Mais um! Dezoito! E depois de ver que tinha três ovos, deduziu que a cotovia ainda estava a pôr, por norma seria mais um ovo e, depois começava a chocar, agora era marcar o azimute, bem tirado, ou seja, a direção para Norte, Sul e Oeste e não precisava de mais. 

O Chiquinho ficou muito contente e foi falando sozinho até Capelins de Baixo, fazendo as contas dos ninhos e muito orgulhoso com ele próprio por ser dono de tantos ninhos e quando chegou junto da rapaziada não se conteve e disse-lhe: - É malta, tenho tanta sorte que nem preciso de procurar os ninhos, até os acho debaixo dos pés, mesmo agora achei um de "cutevia"! 

Os rapazes ficaram cheios de inveja, por ele ser o maior proprietário de ninhos na Aldeia de Ferreira e alguns concordaram que ele tinha muita sorte com os ninhos e, agora tinha mais um, ainda por cima de "cutevia" que quase ninguém achava! 

O Manel estava calado, mostrando cara de pouco amigo, com inveja, e como não tinha por onde descaldeirar, pegou pela "cutevia" e disse: 

Manel: Mas desde quando é que se diz "cu te via? Não conheço esses pássaros! Não foi assim que aprendemos na escola, foi: "cu tu via"! 

Chiquinho: No livro da escola não está "cu tu via", vai lá ver que está lá: "co to via"com dois ós! Mas a gente cá na Aldeia não diz como está no livro, temos de falar como as outras pessoas de cá e elas dizem todas: "cu te via"! 

Manel: Pronto, está bem, mas dizem mal,  porque no livro pode estar escrito: "co to via", com dois ós, mas diz-se "cu tu via", com se fossem dois us! 

Estava a discussão armada, nenhum rapaz duvidava que no livro escolar estava "co to via", mas tinham de falar à moda da Aldeia de Ferreira e neste caso era: "cu te via" ou algumas pessoas também diziam "cu tu via"! 

Quando os rapazes estavam em grande discussão ia passando o ti Miguel e perguntou-lhe o que era aquilo ali? Pareciam galinhas escarapantadas na capoeira a fazer tanto barulho! 

O João aproveitou a deixa do ti Miguel e perguntou-lhe: 

João: Olhe lá ti Miguel, como é que a gente aqui na Aldeia dizem, "cu te via" ou "cu tu via"? 

Ti Miguel: Não tenho vagar! Que pergunta é essa rapaz? Estás a mangar comigo? Então o que é que vocês andam a fazer na escola? A aprender o que não devem! Uns galhavanos com esta idade não sabem fazer nada, quando eu tinha a sua idade já trabalhava ombro a ombro com os homens e não ficava para trás! 

João: É ti Miguel, deixe lá isso agora, a gente sabe como se escreve na escola, mas como é que as pessoas dizem aqui na Aldeia? 

Ti Miguel: Não tenho vagar! Então como é que haviam de dizer? Como o meu avô, o meu pai e antes deles já diziam, é uma "cu te via"! 

João: Obrigado ti Miguel, era só para sabermos isso! 

Ti Miguel: Não tenho vagar! Tenho muita pena de vocês, não sabem fazer nada e quando eu pensava que andavam a aprender alguma coisa de jeito lá na escola vêm perguntar-me uma coisa destas, a mim, que não sei ler nem escrever! Não dou nada por esta rapaziada de agora! Não sabem fazer nada! Vou-me lá que eu não tenho vagar! 

Rapazes: Vá, Vá, ti Miguel, está-se a fazer tarde! 

Ti Miguel: Não tenho vagar! Então, que horas são já? 

Rapazes: É muito tarde ti Miguel! Já é perto de meio dia! 

Ti Miguel: Não tenho vagar! Então tenho de ir, ainda tenho as sopas ao lume! 

Rapazes: Até logo ti Miguel, vá depressa ver das sopinhas! 

O ti Miguel seguiu o seu caminho e os rapazes continuaram a discussão sem chegarem a entendimento se era "cutevia" ou "cutuvia". 

No ninho da cotovia criaram-se três cotoviozinhos que o Chiquinho visitava quase, diariamente, sem se aproximar muito, para a cotovia não enjeitar o ninho, afinal ele era o seu dono, mas um dia quando foi fazer a visita, já lá não estavam, tinham partido atrás dos pais a conhecer o mundo de Capelins. 

Fim 

Texto: Correia Manuel 

Colmeadas - Capelins




sábado, 26 de agosto de 2023

Memórias do Chiquinho de Capelins, quando bebeu o aniz a caminho de Montejuntos

Memórias do Chiquinho de Capelins, quando bebeu o aniz a caminho de Montejuntos 

No decénio de 1960, os bailes de Natal na Aldeia de Ferreira, eram realizados na noite de Natal 24 de Dezembro, nos dois casões dos bailes que, ficavam apinhados de gente, começavam pelas 22 horas e não tinham hora marcada para acabar, podia ser às três ou quatro horas da madrugada, dependia da disposição das mães das raparigas, porque, quando as últimas davam a ordem de recolha a casa, acabava-se o baile. 

Quando os bailes acabavam, as mães e filhas iam para casa, mas alguns homens e rapazes, formavam grupos e mesadas para petiscar frangos assados, porque de madrugada a fome já apertava, mas assim que acabavam os petiscos a taberna fechava e a rapaziada arranjavam umas feixas de lenha e iam para o início da rua principal de Capelins de Baixo, faziam um lume, porque estava sempre muito frio e continuavam a falar, a cantar e a beber algumas bebidas, das quais se tinham prevenido e, aí continuavam até que abrisse a primeira taberna para darem continuidade à Festa de Natal. 

Numa madrugada de Natal, dos finais de 1960, depois do baile acabar e da taberna fechar, um grupo de rapazes, do qual fazia parte o Chiquinho de Capelins, levaram umas feixas de lenha e fizeram um lume no dito lugar, quase em frente às escadinha do Pinheiro, começaram a cantar e a falar e iam bebendo uns tragos de licor de aniz escarchado de uma garrafa que tinha calhado ao Chiquinho numa rifa durante o baile e, com o calor do lume alguns rapazes começaram a bocejar e a dizer que estavam cheios de sono, e que estavam a pensar em ir à procura da cama, e o Chiquinho disse-lhe que não era boa ideia, porque, assim passavam o dia de Natal metidos na cama, era um desperdício e propôs-lhe irem a Montejuntos a pé, e como lá o café abria cedo, ou nem fechava, bebiam uns cafés com aguardente ou licor e quando voltassem à Aldeia de Ferreira já alguma taberna estava aberta e continuavam a festejar o Natal e todos concordaram com a proposta. 

Pelas seis horas da manhã, em pleno inverno, ainda estava escuro e muito frio e a rapaziada partiram para Montejuntos com um resto de aniz na garrafa que se acabou antes de chegarem ao Ribeiro do quebra e, quando iam à curva, devido ao frio, todos pediam uma pinguinha de aniz, e o Chiquinho respondeu que, já não havia, mas em Montejuntos compravam meio litro de aguardente para juntar ao aniz cristalizado, depois de bem batida ficava muito bom, mas ainda estavam muito longe de Montejuntos e, alguns lembraram-se que em vez da aguardente podiam meter água na garrafa, depois batiam-na e dava uma pinga para cada um, mas ali, só havia água da chuva e lembraram-se que podiam encher a garrafa num regatinho, nesse tempo toda a gente bebia neles e, a água era muito boa e o Chiquinho saiu da estrada e entrou na herdade do Seixo à procura de um regato, mas ainda havia pouca luz e ele assim que viu uma poça de água não procurou mais e começou a encher a garrafa, mas naquele lugar pastava o rebanho de ovelhas do ti Xico e, por azar, a água estava cheia de caganitas das ovelhas, algumas moles e grandes que, depois de mexidas com os movimentos da garrafa desfizeram-se e deixaram a água amarelada, quando o Chiquinho se apercebeu já era tarde, já estava a garrafa mais de meia, ainda pensou em a deitar fora, mas como os rapazes já se estavam a lamber e a dar pressa, não o perdoavam, bateu bem a água dentro da garrafa, levou-a ao nariz e cheirava bem a aniz, então, passou-a para todos beberem uma pinguinha e, à medida que iam bebendo todos diziam que estava muito bom, uma delícia, alguns ainda disseram que estava muito amarelo, muito turvo, e o Chiquinho apressou-se a dizer que era dos cristais de açúcar amarelo e do ramo da flor do aniz natural que era castanha e que depois de bater a água na garrafa tinha ficado turva e, bebeu a sua parte, mas não divulgou a causa do aniz escarchado ter ficado amarelado e tão saboroso. 

Com o licor de aniz escarchado com sabor a caganitas de ovelha, a rapaziada ganhou ânimo e, rapidamente chegaram a Montejuntos, beberam uns cafés, licores e aguardente e voltaram para a Aldeia de Ferreira e, como já estava uma taberna aberta continuaram a festejar o dia de Natal. 

Fim 

Texto: Correia Manuel 

Aniz Escarchado de Évora 




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