sábado, 11 de novembro de 2023

Memórias do Chiquinho de Capelins, quando foi a banhos ao Rio Guadiana

Memórias do Chiquinho de Capelins, quando foi a banhos ao Rio Guadiana 

Os rapazes da Aldeia de Ferreira, quando estavam de férias e aqueles que não tinham nada para fazer, juntavam-se, diariamente logo de manhã, numa das tabernas, ou à esquina do lagar do Monte Grande ou ainda, debaixo de uma oliveira na ex Aldeia de Capelins de Baixo, depois da troca de algumas ideias sobre o que fazer ao longo do dia, partiam à aventura. 

Num dia de verão, que se adivinhava muito quente, em meados do decénio de 1970, o grupo juntou-se debaixo da oliveira, foram contando peripécias da sua vida nos lugares por onde andavam, o tempo foi passando e a rapaziada começaram a queixar-se do calor que já sentiam e ainda nem eram onze horas, decerto, ia chegar aos quarenta ou quarenta e dois graus, e alguns rapazes começaram a dizer que era um dia para passar dentro de água e comentaram: 

- Não acham que era melhor a gente ir tomar um banho à Guadiana? Depois já passávamos o dia mais fresquinhos! 

- Até podíamos ir tomar um banhito à Guadiana, mas como vamos sem transporte para todos? Respondeu o João! 

A bicicleta do Manel estava encostada ao poial de pedras, olharam todos para ela e comentaram: - Aqui, está o transporte para dois, por isso, podemos arranjar mais duas bicicletas e está o caso resolvido. 

Os rapazes deram várias ideias para arranjar mais duas bicicletas, mas não conseguiram, porque, elas eram o transporte para o trabalho e não estava nenhuma ao dispor, então o João exclamou: - Querem mesmo ir a banhos à Guadiana? Então vamos embora, todos numa bicicleta! 

O Chiquinho quando ouviu o João, começou a rir e perguntou-lhe como é que uma bicicleta carregava com cinco ou seis rapazes? Então o João explicou à rapaziada que, a bicicleta carregava só com um de cada vez, mas esse rapaz percorria uns quinhentos ou seiscentos metros nela, depois deixava-a encostada à roda do caminho e continuava a andar, depois outro dos rapazes dos que seguiam a pé, quando chegassem junto dela, montava-se e fazia os mesmos metros e por ordem faziam todos isso, assim, no máximo em meia hora, estavam todos a tomar banho nas Azenhas del-Rei com a ajuda de uma única bicicleta.

Muito bem pensado e nem hesitaram, meteram-se a caminho do Rio Guadiana, mas quando lá chegaram, já iam todos brigados, porque, alguns ultrapassaram a distância a que tinham direito na bicicleta, até tinham contado os passos, por isso, não havia dúvidas que tinham abusado, por isso, depois de acesa discussão, deram uns mergulhos no pégo abaixo do Moinho das Azenhas del-Rei de fora, em cuecas, depois enxugaram um pouco ao sol, porque nem toalhas tinham levado, vestiram-se e voltaram à Aldeia de Ferreira, mas palmaram o caminho à pata galhana, porque só o Manel, o dono da bicicleta a usou de volta, e como era a hora de mais calor, depois de uma hora de caminhada, pelo Ribeiro do Carrão acima, pela Zorra e Ramalha, quando chegaram à Aldeia já tinham a visão turva, vinham desidratados, cheios de sede e brigados uns com os outros, mas à tardinha quando voltaram a juntar-se na taberna, já estava tudo esquecido, no entanto, essa aventura, nunca mais se repetiu, porque se tinham muito calor antes de partir para o rio Guadiana, quando voltaram vinham a arder por dentro e por fora e o banho não os arrefeceu. 

Fim 

Texto: Correia Manuel 


Moinho das Azenhas del-Rei




Memórias do Chiquinho de Capelins, quando comeu a caldeta sem peixes

Memórias do Chiquinho de Capelins, quando comeu a caldeta sem peixes 

Num dia de verão dos primeiros anos do decénio de 1970, um grupo de rapazes da Aldeia de Ferreira decidiram ir fazer uma paródia ao rio Guadiana, começaram por escolher o dia e surgiram discórdias, uns queriam que fosse num Sábado ou Domingo, e outros queriam que fosse numa Sexta-Feira, porque no fins de semana havia lá muita balbúrdia e como uns estavam de férias e outros não tinham nada para fazer, concordaram que seria numa Sexta-Feira. 

Depois de escolhido o dia da paródia, passaram para o rol das coisas que tinham de levar, azeite, alhos, sal, cebola, tomates, pão, farinha, talheres, pratos, copos, um tacho e uma frigideira, um balde, fósforos, vinho e cervejas e, os  peixes que seriam lá pescados. 

Depois disso  acertado, faltava assegurar os peixes e, logo alguns rapazes disseram que os peixes estavam por sua conta, não era preciso comprar, porque conheciam umas lapas onde havia sempre muito peixe, ficavam por baixo do açude  das Azenhas D' El-Rei, era só meter a mão nos buracos e tirar os que quisessem, por isso, estava tudo acertado, enquanto uns iam pescar os peixes ás lapas, os outros iam adiantando a caldeta e, à hora de almoço estavam todos a dar ao dente e a beber uns bons copos de vinho. 

A partida da Aldeia de Ferreira foi marcada para as oito horas da manhã, uma vez que, em pouco mais de uma hora chegavam ás Azenhas D' El-Rei, mas no dia marcado já passava das nove horas quando conseguiram partir, porque ao conferir o que tinham de levar, faltava sempre alguma coisa e, quando chegaram ao destino, alguns já iam cheios de fome. 

A base foi o Moinho das Azenhas D' El-Rei de fora, chegaram, descarregaram os sacos de serapilheira onde levavam as coisas e os pescadores apanharam uns sacos e correram para as lapas a apanhar os peixes com a promessa que em menos de meia hora estavam ali com o peixe para a caldeta e com algum mais miúdo para fritar. 

O João ficou em terra firme a comandar a cozinha, mandou dois rapazes a buscar lenha, porque havia ali alguma, mas não chegava, e acendeu logo o lume no sítio onde toda a gente o fazia, já estava tudo ajeitado, com umas pedras a servir de trempe para apoiar os tachos e uma cavidade para a lenha arder e disse ao Chiquinho para pegar no balde e ir à água, para quando os temperos estivessem refogados juntar a água, depois, quando eles voltassem com os peixes era só arranjá-los, meter um pouco de sal, esperar um pouco para tomarem do sal e metê-los dentro do tacho e depressa coziam. 

O Chiquinho pegou no balde e foi a correr à Fonte em frente ao Moinho, mas o João gritou-lhe a perguntar onde ia à água? 

O Chiquinho ficou atarantado e respondeu-lhe que ia à Fonte, onde havia de ir? Mas o João disse-lhe: - Volta lá para trás, porque a água para a caldeta é ali do correntão, não há água como a do rio para as caldetas! 

O Chiquinho voltou contrariado, e lembrou o João que os esgotos da cidade de Badajoz desaguavam no rio Guadiana, mas o João respondeu que aquele correntão era da água que vinha da Ribeira do Lucefécit, por isso, era muito boa para as  caldetas.

O João fez o lume, meteu o azeite no tacho e pouco depois, os temperos já estavam a refogar no tacho e os rapazes continuaram a ajudar, e um foi buscar uns ramos de hortelã da Ribeira.

Depois do refogado o João adicionou a água, derreteu duas ou três colheres de farinha de trigo em água e juntou para fazer o caldo grosso, só faltavam os peixes e já tinha passado mais de uma hora e os dois pescadores não apareciam, deixando a rapaziada inquieta, alguns rapazes puseram a hipótese de se terem afogado e começaram a chamá-los aos gritos e aos assobios, mas não havia resposta e foram procurá-los, mas o tempo passava e os peixes não apareciam e estava a fazer-se tarde, porque ainda tinham de os arranjar e coser, esperaram, esperaram e tiveram de arredar a caldeta do lume, por fim, lá apareceram os quatro rapazes com uma cara assustadora e os pescadores muito envergonhados, sem um único peixe, dizendo que parecia uma coisa do demónio, nunca na sua vida isso tinha acontecido, então lembraram-se de recorrer ao Ti Venâncio e comprar alguns peixes, como tinha a choupana ali do lado de baixo do Moinho, não demoraram a voltar de braços caídos, porque não havia sinais dele, devia ter ido a Montes Juntos, e agora? Perguntaram todos!

Os rapazes começaram a dizer que tinham muita fome já nem viam, por isso, decidiram comer o pão com vinho, mas o João fez-lhe alto e disse: - Está aqui uma sopa de tomate já feita, por isso, miguem lá o pão nos pratos e comemos a sopa de tomate, alguns rapazes responderam que aquilo era uma mixórdia, ou uma caldeta falida, porque nunca tinham comida sopa de tomate com hortelã da Ribeira e farinha, mas não tinham alternativa e encheram os pratos com pequenas fatias de pão e quando começaram a comer todos comentavam o mesmo: - A mixórdia estava muito boa, só faziam faltam uns figos para acompanhar, dispensava os peixes, e diziam que nunca tinham comido uma caldeta tão boa, e sem peixes, devia ser porque a fome era muita, ou porque estava mesmo muito boa, por ter hortelã da Ribeira, água do rio Guadiana e algum segredo do João.

Quando à tardinha voltaram à Aldeia de Ferreira, pelo caminho, combinaram não abrir o bico, porque, ninguém podia saber que tinham comido uma caldeta sem peixes, senão, seriam gozados por toda a gente, e todos juraram que não diziam nada, e ficou no segredo dos deuses. 

Fim 

Texto: Correia Manuel 


Moinho das Azenhas del-Rei - Capelins 



quarta-feira, 8 de novembro de 2023

Memórias dos jogos tradicionais, em Capelins

 Capelins - história, lendas e tradições 

O jogo do alquerque, em Capelins

Todos os jogos são viciantes e, um dos jogos de outros tempos que mais viciaram a comunidade capelinense e não só, foi o jogo do alquerque, o dos três, dos nove e dos doze, ainda hoje, podemos ver os tabuleiros desenhados nas lajes dos assentos à porta da Igreja de Santo António de Capelins, porém, ao longo dos séculos foram surgindo outros jogos, como foi o caso do jogo do xito, que se jogava nas tabernas, onde existia uma laje, preparada para esse efeito, em cima da qual era empinado um xito, um invólucro ou cartuxo metálico de uma bala, que os jogadores tinham de derrubar, atirando-lhe com umas moedas antigas e tinham de cumprir as devidas regras, somando pontos, com a finalidade de ganhar o jogo e ao ganhar dois jogos, primeiro do que os adversários ganhava a partida, e nesse caso, ganhavam um copo de vinho, uma cerveja ou outra bebida, paga por aqueles que perdiam.
O jogo do xito, também era viciante, alguns homens passavam dias e noites a jogar e a beber, chegando por vezes, à situação de bebedeira, existindo uma cantiga tradicional nas terras de Capelins que ilustrava essas situações, chamada: Maria dos Anjos! Assim, alertamos que, qualquer semelhança com casos reais, é pura coincidência.
Tem uns pontos diferentes dos que cantavam em Capelins, em rodas de bailes do Carnaval, mas parece que, esta é a cantiga original, mas estamos disponíveis para corrigir:
Cantiga da Maria dos Anjos
I
Onde vais Maria dos Anjos?
Onde vais tu a chorar?
(bis)
Ai ai ai vou buscar o meu marido
Ai ai ai que está na Venda a jogar.
(bis)
II
Que está na Venda a jogar,
Com uma grande bebedeira
(bis)
Ai ai ai se eu casei p'ra trabalhar
Ai ai ai mais valia estar solteira.
(bis)
III
Mais valia estar solteira
Lá em casa do meu pai
(bis)
Ai ai ai meu marido é um malandro
Ai ai ai trabalhar é que não vai.
(bis)
IV
Trabalhar é que não vai
Trabalhar é que não quer
(bis)
Ai ai ai o malandro do meu marido
Ai ai ai não quer saber da mulher.
(bis)
(Venda= Taberna)
Fim
Texto: Correia Manuel 

Aldeia de Ferreira de Capelins



domingo, 5 de novembro de 2023

História da vida de Manel Fernandes, de Capelins

 História da vida de Manel Fernandes, de Capelins 

Manel Fernandes, nasceu no ano de 1607, era filho de povoadores de Capelins, onde chegou ainda criança, aqui cresceu e começou muito cedo a aprender a profissão de ferrador de cavalos e de muares de trabalho, mas nessa época, um ferrador tinha conhecimentos de veterinária e tratava todos os males desses animais. 

O Manel Fernandes era apaixonado pela sua profissão e afamado por toda a região, sendo chamado muitas vezes para ferrar e tratar cavalos da fidalguia da Casa de Bragança, os quais, mais tarde lhe valeram. 

Quando chegou à idade casadoira, cerca do ano de 1632, encontrou a rapariga que o levou ao altar na Igreja de Santo António, chamada Maria Rita, e pouco depois, começaram a surgir os filhos, porém, já quase com trinta anos, o Manel Fernandes foi trabalhar para a Vila de Cheles, logo ali no outro lado do rio Guadiana, por isso, não levou a família, estava perto de casa, onde voltava quase todas as semanas, desde que as cheias do dito rio o permitissem, trazia algum dinheiro e visitava os pais, a mulher e os filhos, porque não existia qualquer fronteira, uma vez que, o Reino de Portugal estava sob o domínio de Castela. 

Devido à sua simpatia, aos seus feitos e dedicação à sua profissão, que era muito importante, o Manel Fernandes, depressa ganhou a admiração dos cheleiros, assim como, de pelo menos uma cheleira chamada Maria Pires, pela qual se perdeu de amores, mas ela não lhe permitiu avanços sem casamento e o Manel nem pensou na família que já tinha e onde se estava a meter, pensou que, podia  ter duas casas, duas famílias, uma além e outra aquém Guadiana, sem ninguém dar por isso, e casou com a Maria Pires. 

Durante algum tempo, foi conseguindo dar assistência ás duas mulheres, quando faltava aos compromissos com a Maria Rita, dizia-lhe que o trabalho em Cheles era muito, ou que a cheia do rio Guadiana não o tinha deixado passar e passava cada vez mais tempo sem aparecer a Capelins, e à Maria Pires de Cheles, dizia-lhe que tinha de ir ver os pais e a família a Capelins, mas a Maria Rita começou a desconfiar que não era bem assim, e um dia mandou os irmãos a Cheles averiguar a vida que o Manel por lá fazia e não foi preciso procurar muito para saberem que ele tinha lá casa posta e mulher e que era casado com ela, eles não queriam acreditar, mas perante as evidências, ficou tudo esclarecido. 

Esta descoberta foi um escândalo, que depressa se espalhou pelas terras de Capelins e num ápice chegou aos ouvidos da Santa Inquisição que, farejava toda a região, procurando os acusados de bigamia, judaísmo, heresia, apostasia, blasfémia, e pactos com o demónio, pelo que, o Manel Fernandes foi denunciado, decerto pelos padres, e no dia 13 de Novembro de 1636 já estava preso em Évora, acusado de bigamia, por ter casado com duas mulheres, sendo a primeira ainda viva, foi julgado num auto de fé no dia 14 de Junho de 1637, e recebeu a seguinte sentença: Ficar em corpo com uma vela acesa na mão e açoitado, publicamente sem derramamento de sangue e degredo de 6 anos para as galés, onde serviria ao remo, sem soldo, e ao pagamento dos custos. 

O Manel Fernandes era muito novo, tinha 30 anos, e em Capelins todos os moradores diziam que seria queimado vivo na Praça do Geraldo em Évora, mas não foi, no entanto, esta pena, era a sua sentença de morte, porque, decerto, não conseguia sair das galés com vida, onde tinha de remar nos porões durante seis anos, era muito esforço, seria mal alimentado e, com as doenças e a peste já não voltava, assim, apesar de ele se ter portado mal, a família e amigos uniram-se e com a ajuda de alguns fidalgos da Casa de Bragança, conseguiram novo auto de fé no dia 12 de Agosto de 1637, e foi-lhe comutado o mesmo tempo de degredo, mas no Couto de homiziados de Monsaraz, (prisão aberta, mas não podiam sair dos limites), onde ficou a desempenhar a sua profissão de ferrador, quase em casa, foi só passar a Ribeira do Azevel para lá, porque para cá, estava fora da prisão e sofria as consequências, era bem diferente do degredo nas galés, mas não se livrou das chibatadas em público, semi nu, ou em ceroulas e de vela acesa na mão, ficando com o sangue à flor da pele.  

O casamento com a pobre Maria Pires, de Cheles, naturalmente foi anulado, ela foi enganada pelo Manel, mas teve de prosseguir a sua vida e, mais tarde, a Maria Rita e os filhos, saíram de Capelins, passaram a Ribeira do Azevel e foram ter com ele e ficaram para sempre, nas terras de Monsaraz, a morar no Arrabalde que ficava dentro do Couto de homiziados.

Fim 

Texto: Correia Manuel 


Vila de Monsaraz - Arrabalde





sábado, 4 de novembro de 2023

Memórias do Chiquinho de Capelins, quando foi passar um dia à Vila de Cheles

Memórias do Chiquinho de Capelins, quando foi passar um dia à Vila de Cheles 

Num sábado, nos alvores do decénio de 1970, a rapaziada da Aldeia de Ferreira, antes das dez horas da manhã, já estavam juntos numa das tabernas da Aldeia, eram cinco ou seis e o João desabafou: 

- Pronto, aqui estamos neste céu caído, vejam lá o que temos de passar daqui até à noite, mas onde é que a gente vai?

Os rapazes concordaram com o João, e as cabecinhas começaram a imaginar alguma coisa de novo, mas não surgia nada, e o João continuou: 

- Olhem lá, e se fossemos passar o dia a Cheles? Aquilo lá é outro Mundo, até parece uma cidade, há coca cola, cuba livre, cerveja Aguila, Cruz Campo, Skol e outras e boa música, tipo discotecas, muita alegria e fica barato, porque a peseta vale menos de metade do nosso escudo. 

Não foi preciso insistir mais para convencer a rapaziada toda, porque se alguém ali ficasse sozinho, então é que o céu lhe caía em cima, de tanto tédio. 

Alguns rapazes perguntaram como iam dali até Cheles e onde podiam trocar escudos por pesetas, e depois de várias ideias decidiram ir a pé, passavam o rio Guadiana nas Azenhas D' El-Rei, por cima do açude dos Moinhos, era seguro, e quanto ás pesetas, podiam fazer lá o cambio. 

O Manel concordou com a rota até Cheles, mas alertou que lá em Cheles, eram os Biruta que cambiavam, mas devia ser a seis tostões, enquanto em Montes Juntos o Ti Tonico dispensava a cinco, ou menos, logo em cinquenta escudos fazia uma diferença de vinte pesetas, ou mais, dava para muitas bebidas, por isso, decidiram ir pelos Montes Juntos, e dali, como combinado,  seguiram pelas Azenhas D`El-Rei.

Passaram por dentro dos Moinhos, dos dois portugueses e do espanhol e seguiram por cima do açude até perto da margem de lá, onde o açude estava desmoronado e tiveram de descalçar sapatos e meias e despir a roupa toda, meteram-se a banho com tudo à cabeça, mas quando passaram o correntão estava muito forte, a água dava-lhe por baixo dos braços e estiveram vai não vai água abaixo, mas com alguma dificuldade lá passaram, enxugaram um pouco, vestiram-se e seguiram até Cheles. 

Quando chegaram, dirigiram-se aos cafés do centro, o primeiro foi em frente ao café dos Biruta, o que diziam, vendia mais barato, beberam umas bebidas e depois foram, então ao café dos Biruta e aqui lembraram-se que seria melhor informar o sargento da guarda civil que estavam ali, para divertimento e beber umas cervejas. 

Assim que a embaixada chegou ao quartel, informaram os guardas de serviço ao que iam, eles chamaram o sargento que apareceu espavorido a pensar que tinha acontecido alguma zaragata, depois ouviu a rapaziada, perguntou se eram de Montes Juntos e eles responderam que eram de Ferreira, mesmo ali ao pé, e o sargento disse que conhecia e sabia muito bem onde era, e que podiam ir a divertir-se, mas sem armar nenhuma desordem, os rapazes agradeceram e acrescentaram que nunca armavam desordens, porque eram das melhoras pessoas de Portugal e despediram-se. 

Como já estavam com fome, passaram por um café, ao qual, chamavam o Casino debaixo do arco e perguntaram o que tinham para comer? Eles enunciaram vários petiscos entre os quais, lagarto, o João disse que queria lagarto, era muito bom, mas o Chiquinho disse que não comia cobras nem lagartos, mas depois explicaram-lhe que não era o réptil, eram pedacinhos de carne de porco frita e todos aceitaram o lagarto, com pão muito fino e branquinho e beberam algumas cervejas. 

A farra em Cheles não parou ali, ainda nem tinha começado e depois de temperados desceram pela praça e foram ter a um café com boa música, tipo discoteca, alguns continuaram a beber cerveja e outros cuba livre e não demorou surgir o efeito das misturas, para grande admiração de todos, deram de caras com outro grupo de rapazes da Aldeia de Ferreira e de Montes Juntos e começaram a misturar-se a beber em boa harmonia, mas não foi por muito tempo, sem razão o Chiquinho pegou-se com outro rapaz do outro grupo e, começaram a oferecer moquinos um ao outro, valeu-lhe a intervenção do João que lhes lembrou que se armassem ali zaragata ficavam a dormir no quartel da guarda dentro de uns calabouços que pareciam uns chiqueiros e até podiam ir parar ao Tribunal de Badajoz e a situação acalmou um pouco. 

Quando chegou a hora da abalada, já era noite cerrada e o outro grupo disse que já tinham combinado com o "Pirim " para os passar no barco à Cinza, mas, decerto, levava a malta toda, porque o barco era muito grande e lá seguiram todos no mesmo grupo até à Cinza, cerca de dez, mais o barqueiro que foi dispondo a rapaziada dentro do barco, ficando o mesmo com pouco mais de um palmo acima de água e foram bem avisados para em caso algum se mexerem de onde estavam, senão iam todos parar ao fundo do pego do rio Guadiana, e lá foram todos encolhidos cheios de medo, mas não havia alternativa e como o barqueiro fazia aquela travessia várias vezes ao dia e noite, com grandes cargas de café camêlo no barco, foi fácil e rápido, depressa meteram os pés na terra firme de Capelins. 

Na Cinza o grupo apartou-se cada um seguiu o seu caminho, uns seguiram a pé, outros de motorizada, e dali a pé até à Aldeia de Ferreira, as conversas foram sobre a grande aventura, desde a partida, até à chegada à Aldeia, apesar de alguns contratempos, todos concordaram que tinha sido uma boa ideia ir passar aquele dia à Vila de Cheles, onde todos foram muito bem tratados e foi tema de conversas durante muito tempo. 

Fim 

Texto: Correia Manuel 

Vila de Cheles - Espanha 

(Foto net)





quinta-feira, 2 de novembro de 2023

Resenha histórica sobre a tradição do dia de Finados em Capelins

Resenha histórica sobre a tradição do dia de Finados em Capelins

A comemoração do Dia dos Fiéis Defuntos acontece a 2 de Novembro em todo o mundo.
A data também é conhecida como Dia dos Finados, Dia dos Mortos e Dia das Almas.
Este dia é celebrado tradicionalmente pela Igreja, um dia depois do Dia de Todos os Santos, 01 de Novembro.
Este dia, nunca passou despercebido nas terras de Capelins, algumas pessoas, acendiam velas em altares improvisados em suas casas e rezavam orações em memória dos seus familiares falecidos.
Neste dia, era rezada uma missa por todas as Almas, na Igreja de Santo António de Capelins.
A tradição deste dia remonta ao século V, quando a Igreja começou a dedicar um dia do ano para rezar pela alma de todos os falecidos, caídos no esquecimento, pelos quais ninguém rezava.
É um dia de celebração dos mortos, onde se realizam missas e se lembram os familiares e amigos que já partiram.
Há países, como o México, que o Dia dos Mortos é um grande acontecimento, com festas aguerridas, semelhantes ao Carnaval e recebendo turistas de todo o mundo para as coloridas celebrações.
Paz à Alma de todos os falecidos, que não são esquecidos.
As nossas tradições são a nossa identidade.
Santo António de Capelins 



quarta-feira, 1 de novembro de 2023

A tradição do dia de Todos os Santos nas Terras de Capelins

A tradição do dia de Todos os Santos nas Terras de Capelins 

As terras de Capelins, desde a sua reconquista aos mouros, cerca do ano de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil duzentos e trinta, recebeu povoadores de várias regiões do Reino, sendo em maior número das imediações da Serra da Estrela. 

Os povoadores traziam as tradições das suas terras, era a sua identidade que, tentavam manter vivas, mas nem sempre eram bem aceites pela população que já cá residia ou pelos que vinham de outros lugares, do Sul, ou do Reino de Castela e, a diversidade de tradições deu origem as outras, próprias de Capelins e da região, mais ao gosto de todos. 

No caso do dia de Todos os Santos, sendo uma festa da Igreja Católica, e não só, é natural que fosse orientada pelo Pároco de Santo António e, essa parte, não era muito diferente de outras regiões do Reino. 

Nos Registos Paroquiais de Capelins, não encontramos referências sobre a dita festa em honra de Todos os Santos, mas pelos dizeres que foram passando de geração em geração, nos séculos mais distantes, o povo capelinense não lhe dava muita importância, devido a vários fatores, por não terem muito para repartir com os que faziam o pedido dos Santos (o pão de Deus) e, por aqui perdurarem hábitos judaicos, no entanto, a Igreja cumpria a sua missão que, pensamos ser uma Missa nesse dia, para juntar os fiéis obrigados ao rol da confissão. 

Quanto à doação do pão de Deus, nessa época, era desconhecido da maior parte do povo, talvez fosse praticado pelos lavradores, ou seja, pelas pessoas mais abastadas, uma vez que, os pobres, eram muito pobres e não tinham nada para dar. 

Nos alvores do século XX, com a estabilização dos povoadores nas terras de Capelins, já com as famílias da segunda ou terceira geração, senão mais, o dia de Todos os Santos começou a ser diferente, principalmente para algumas crianças que se juntavam em pequenos grupos, geralmente, eram irmãos, primos ou vizinhos e percorriam algumas casas de familiares ou de vizinhos a pedir "os Santos" e, recebiam frutos da época, romãs, castanhas, marmelos, passas de figos, nozes, amêndoas e pouco mais, as avós ou bisavós, começavam por oferecer pão com azeitonas ou com queijo, que todos recusavam, não era isso que queriam, depois, elas davam-lhe alguns frutos, ou bolos caseiros que faziam em Capelins pela época dos Santos, a que chamavam roscas, mas os netos achavam sempre pouco e elas davam volta aos bolsos do avental de onde saiam uns tostões para rebuçados, quase sempre um cruzado que eram quatro tostões e davam para uma mão cheia de rebuçados de côco, de meio tostão. 

No fim do peditório, faziam-se as partilhas e, davam sempre molho entre a rapaziada, nunca era de acordo com todos, uns achavam que os outros ficavam melhor e, acabava em prantos que pareciam a música  de uma orquestra sinfónica, mas passava.

Assim, era o dia de Todos os Santos, nas terras de Capelins, onde as tradições são a nossa identidade.

Fim 

Texto: Correia Manuel 

Santo António de Capelins



A lenda da destruição dos painéis de Cristo na Igreja de Santo António de Capelins

A lenda da destruição dos painéis de Cristo na Igreja de Santo António de Capelins Conta-se que, a Igreja de Santo António de Capelins, mand...