O dia do principio do fim do Mundo, em Capelins
A partir do ano de 1962, a todo o momento se ouvia na Freguesia de Capelins, e não só, que o Mundo ia acabar, devido à crise dos mísseis nucleares soviéticos na Ilha de Cuba.
Na quinta feira, dia 14 de Novembro de 1968, ao anoitecer, o céu iluminou-se como se fosse dia e, durante alguns segundos ouviu-se um silvo, ou assobio muito agudo, seguido de um grande estrondo que fez tremer a terra.
Alguns moradores da Aldeia de Ferreira de Capelins ficaram muito assustados e correram para o Largo da Aldeia a perguntar uns aos outros o que tinha sido aquilo? Cada um dizia o que lhe vinha à cabeça, uns diziam que tinha sido um tremor de terra, mas outros respondiam que não podia ser porque os tremores de terra não davam luz, talvez fosse algum avião ou dirigível em chamas e tinha caído ali perto da Ribeira, ou então, era alguma bomba atómica mandada pelos americanos, sendo esta, a versão mais aceite.
Daí a pouco tempo apareceu a ti Vitória, a única vizinha que tinha rádio, com passos lentas e de braços cruzados, algumas pessoas correram ao seu encontro e perguntaram-lhe: Então ti Vitória, o rádio já deu o que aconteceu? Ora pois tá agora a dar! Os vizinhos ficaram irritados, porque esperavam outra resposta, queriam saber o que tinha acontecido e os rádios informavam tudo, mas no caso da ti Vitória sempre que lhe perguntavam o que tinha ouvido no rádio sobre o tempo, se chovia ou fazia sol, a resposta era sempre a mesma: Ora pois tá agora a dar, e insistiram: Então, mas ainda não disseram nada sobre o que foi aquilo? Ora pois, disseram que era o principio do fim do mundo!
As mulheres ficaram aflitas e exclamaram em coro: Ai Jasus, o que será da gente aqui, se o mundo acabar! Naquele instante, chegou o Chico, estudante no Colégio do Alandroal, parou a sua motoreta e disse: Apanhei agora o maior susto da minha vida! Vinha ali nas curvas de Nabais, apareceu uma luz tão forte que me cegou, tive de fechar os olhos e quando os abri, com aquela iluminação, vi o cemitério mesmo na minha frente, pensei logo que já estava no outro mundo!
A rapaziada riram-se, aproximaram-se e meteram as mãos nos braços dele e disseram-lhe: É Chico, mas não morreste, pois não? Vocês são parvos, então se estou aqui, não morri!
Sabemos lá, podia ser a tua alma que veio aqui a ter na motoreta, tu sabes o que foi aquilo? Dizem que foi uma bomba atómica e que isto é o princípio do fim do mundo! Até já disseram isso, no rádio da ti Vitória!
Se fosse uma bomba atómica já estava tudo morto, eu acho que foi um meteorito que caiu em cima da Aldeia do Rosário e lá é que deve haver muita gente morta! Bem, antes que o mundo acabe vou encher a barriga, porque estou cheio de fome e com o susto, ainda fiquei com mais fome!
As pessoas continuaram por ali a falar, fizeram-se horas da ceia (jantar) e como o mundo nunca mais acabava, as pessoas foram recolhendo a suas casas, entretanto, quem tinha família na Aldeia do Rosário telefonaram-lhe e disseram-lhe que não tinha caído lá nada e estava toda a gente viva, mas algumas pessoas, nessa noite, pouco dormiram, esperando que o mundo acabasse.
No dia seguinte, sexta feira 15 de Novembro, pelo meio dia, já toda a gente sabia que tinha sido um bajôlo de ferro a arder, que tinha caído na Freguesia de S. Brás dos Matos, Mina do Bugalho, mas não havia mortos nem feridos, o mundo não tinha acabado e já não devia acabar.
Fim
Texto: Correia Manuel
Meteorito de São Brás dos Matos (Mina do Bugalho) 1968
Foto net
