sábado, 20 de julho de 2019

570 - Terras de Capelins 
A lenda da linda Princesa Atília, no Castelo de Monsaraz 
Cerca do ano de 1151 o reino Mouro de Badajoz foi conquistado pelos Almóadas, obrigando à fuga do rei e dos principes e princesas para vários lugares do reino, na esperança de um dia poderem voltar à sua Corte em Badajoz! 
Um dos principes, filho do rei Sabur fugiu para Monsaraz com a família por ficar perto e, por ser um lugar seguro, não sendo fácil a sua conquista pelos inimigos! 
O principe  Abdalá, tinha uma filha muito linda que, o acompanhou até Monsaraz, lugar que ela muito gostava, porque, quase se avistava a sua cidade de Badajoz! 
A sua beleza era tanta que, todos os principes mouros dos reinos mais próximos a pretendiam e, faziam romagem a Monsaraz, trazendo-lhe presentes valiosos para lhe conquistar o amor! A bela princesa moura, a todos atendia, tendo o cuidado de não distinguir nenhum, mantendo-lhe acesas as pretensões, pois tinha interesse em os ter como aliados na luta contra os cristãos e contra os almóadas que lhe ocupavam a sua cidade! 
O tempo foi passando e, a lista de pretendentes já era extensa, começando a haver impaciência por parte dos pretendentes! 
A sua cidade continuava ocupada pelos almóadas e, por outro lado, o exército de D. Afonso Henriques e os bandoleiros do Geraldo o Sem Pavor estavam cada vez mais perto, então, não podia esperar mais para dar a conhecer o principe eleito pelo seu coração! 
Devido às ameaças dos inimigos em várias frentes, o seu pai decidiu pedir auxílio ao rei de Sevilha, onde se deslocou para explicar a situação e convencê-lo de que, se os cristãos conquistassem as terras da Extremadura, rapidamente chegariam ao seu reino de Sevilha, mas essa viagem, desde Monsaraz era muito longa e, a linda princesa Atília, começou a ficar desesperada devido às más notícias que chegavam a todo o momento a Monsaraz! 
Quando a princesa anunciou que, ia decidir quem era o escolhido, os pretendentes dirigiram-se a Monsaraz, com luxuosas embaixadas, porque, todos ansiavam por esse momento decisivo, cada um albergava dentro de si a esperança de ser o eleito, sabiam que, o mesmo, seria invejado e admirado, ao conquistar o coração daquela mulher que, todos enfeitiçava com a sua beleza!
A princesa era informada de tudo o que se passava, quem chegava, o que trazia, transmitiam-lhe todos os pormenores, porém, estava a chegar a hora da sua decisão e, não lhe anunciavam a chegada daquele que ela tinha escolhido para seu noivo! A princesa chamou a ama e perguntou-lhe: 
Princesa: Oh Samira, porque motivo ainda não me anunciaram a chegada do principe Saíd de Myrtilis (Mértola)? 
Samira: Minha princesa, ainda não anunciaram a chegada do principe Saíd, porque ele ainda não chegou e dizem-nos que, ainda não está por perto, ou então, pode ter sido apanhado pelos cristãos que andam por perto!
Princesa: Alá o ajude! E nós o que podemos fazer para o ajudar? 
Samira: Minha princesa, sabemos que ele vem de Sudoeste, de Myrtilis,  pode sempre enviar alguns bons cavaleiros ao seu encontro, ou a saber o que lhe aconteceu! Talvez se tenha atrasado! 
Princesa: Então, transmite isso ao mestre de guerra, capitão Almir, para organizar um bom grupo de guerreiros e ir ao seu encontro, porque, sem a sua presença eu não vou anunciar o escolhido!
Decorria, então, o ano de 1167 e, quis o destino que nessa manhã em que a princesa mandou os emissários ao encontro daquele que seria o noivo, a região de Monsaraz já estava cheia de cristãos disfarçados de mercadores e infiltrados nas embaixadas dos visitantes! Quando o grupo de guerreiros mouros saíram do Castelo de Monsaraz foram travados pelos homens de Geraldo Sem Pavor e envolveram-se numa sangrenta batalha às portas de Monsaraz! 
Os príncipes visitantes com os seus homens, acorreram em seu auxílio, mas os guerreiros de Geraldo Sem Pavor pareciam cães derramados e, os mouros começaram a fraquejar perante a sua furiosa investida! A luta já durava há longas horas, a princesa acompanhada por alguns atléticos guardas mouros dirigiu-se à Torre para dali observar a batalha ficando cheia de orgulho e alegria quando reparou que não só estava lá o seu preferido na peleja, como se destacava em atos de valentia! 
O exército cristão, não parava de crescer, ao contrário dos mouros que cada vez eram menos, estavam a cair por terra a todo o momento, até que chegou a vez do seu escolhido, caiu sobre a espada de um homem de Geraldo Sem Pavor e morreu, imediatamente! A princesa Atília, adivinhou o seu fim às mãos daqueles cães, recolheu aos seus aposentos muito desgostosa, sabia que a tomada de Monsaraz estava por horas, bastava os cristãos encostar as longas escadas e subir as muralhas onde não existiam homens para as defender, então, a princesa mandou retirar a bandeira em sinal de derrota, apanhou um punhal de estimação, com o cabo em prata e ouro e crivado de pedras preciosas e  cravou-o no seu coração! Os guardas, nada puderam fazer, deitaram-na no túmulo de pedra e cobriram-na com a bandeira do Castelo de Monsaraz!
Logo a seguir, os cristãos entraram no Castelo de Monsaraz, cansados, mas vitoriosos, os guerreiros saquearam a Vila, mas não foram autorizados por Geraldo Sem Pavor a entrar nos aposentos da princesa Atília! Depois de se informar do sucedido, deu ordens aos criados da princesa, para que fosse sepultada ali nos seus aposentos, com todos os costumes da sua crença, ficando, assim, a linda princesa Atília, sepultada no Castelo de Monsaraz com o punhal cravado no seu peito, o qual, parece que, até este momento, ainda não foi encontrado. 

Fim 




sexta-feira, 19 de julho de 2019

569 - Terras de Capelins 
História, lendas e tradições das terras de Capelins 
A peripécia da "Seventina" nas Férias do Manuel Savedra
No mês de Agosto do ano de mil novecentos e setenta e seis, o Manuel Savedra, com a vida de marinheiro, como habitualmente, foi passar uns dias de férias com a família a Ferreira de Capelins! Na tarde de Sexta-feira dia seis daquele mês o Manuel Savedra, saiu de casa, subiu a rua e dirigiu-se à taberna do ti Xico da Sina, porque, ali se juntavam os amigos à medida que chegavam do trabalho! Quando entrou, o ti Xico dormitava sentado num banco ao lado do balcão e, estavam dois clientes a fazer sala, sem beber nada, o ti Zé António e o ti António Zé, sentados à mesa, a única existente na taberna! O Manuel Savedra, deu a boa tarde e, antes de pedir alguma bebida, o ti Zé António apressou-se a interpelá-lo: 
Ti Zé António: O que é que queres beber, Manuel? 
Manuel: Vou beber uma cervejinha ti Zé, mas sou eu que vou pedir uma rodada, digam lá o que querem beber? 
Eu quero uma cerveja! Disse o ti António Zé! 
Ti Zé António: Não, não Manuel! Eu é que quero pagar, não me faças isso! 
Manuel: Está bem, ti Zé António! Olhe, então quero uma mini! 
Ti Zé António: Então, eu quero uma Seventina! 
Ti António Zé: Uma Seventina? Que raio de coisa é essa? Deves estar parvo! Não deves estar, estás, tu toda a vida tens sido parvo! Quantas vezes já te ensinei que não é assim que se diz, é uma 7 U Pê! Percebeste? 7 U Pê! Sabe lá o Xico o que é uma Seventina! Oh Xico traz lá uma 7 U Pê, para o Zé António!
O ti António Zé, ainda não tinha acabado de dizer a última palavra e já a tampa de "Seven Up" tinha saltado e, o ti Xico, batia com o fundo da garrafa na mesa, em frente do ti Zé António! 
Ti António Zé: Estás a ver? Se não fosse eu, não a chincavas! Sabia lá o Xico o que era uma Seventina! 
Ti Zé António: Oh Xico, traz lá umas abelhanas! 
Ti António Zé: Mas o que é isso? Quantas vezes já te ensinei que são ervelhanas? Oh Xico, traz lá umas ervelhanas! 
Quando acabou de pedir, já o ti Xico espalhava as ervelhanas pela mesa, porque sabia muito bem, o que eram abelhanas! 
A conversa à mesa, como sempre, encaminhou-se para uma viagem ao passado, ao que cada um tinha passado desde os cinco ou seis anos de idade, quando tinham começado a trabalhar como ajudas de porqueiro e que só terminou quando já não podiam com as botas!
Quando mandaram vir outra rodada, o ti Zé António já não aceitou outra Seventina, porque, com as abelhanas enchia muito e, logo a seguir meteu-se a caminho do seu Monte! 
Para o Manuel, a tarde continuou até à hora de jantar, que tinha hora marcada, tal como, para os companheiros! Depois, alguns ainda voltavam à taberna, outros, sentavam-se à porta ao fresco até à hora de deitar! 
No dia seguinte, quase à mesma hora, lá foi o Manuel para a taberna do ti Xico e foi encontrar, extamente o mesmo cenário do dia anterior! O ti Xico a dormitar e os mesmo dois clientes sentados à mesa, sem beber nada! O Manuel entrou, deu a boa tarde e antes que o ti Zé António se adiantasse pediu logo duas minis e uma Seven Up! O ti Zé António, muito agitado disse em voz alta: 
Ti Zé António: Eh lá, Manuel, eu não quero isso! 
Manuel: Então agora, ti Zé! Não quer a Seven Up? Quer outra bebida? 
Ti Zé António: Eu não posso beber essas bebidas modernas! Quero uma Seventina com umas abelhanas! 
Naquele momento, já o ti Xico tinha as bebidas todas, em cima da mesa e os amendoins! 
Manuel: Oh ti Zé, desculpe lá, cada um bebe o que gosta! 
Ti Zé António: E mais nada! 
O ti António Zé, só abanava a cabeça, em sinal negativo, sem fazer comentários! 
A partir daquele dia, enquanto o Manuel Savedra esteve em Ferreira de Capelins, não se falou mais em Seven Up, sempre que pediam alguma rodada, a mesma, era chamada de bebida do ti Zé António e, até outros clientes, começaram a pedir uma bebida do ti Zé António e, o ti Xico, não precisava de mais explicação, abria logo uma Seven UP, com abelhanas. 
Bem Hajam ti Zé António e ti António Zé! Já ambos partiram para o Lugar de Santo António, a Seven UP continua por aí, já com 90 anos de idade!

SEVEN UP como medicamento:
O refrigerante 7 Up nasceu em St. Louis, nos Estados Unidos em 1929. Criado por Charles Leiper Grigg, após ter passado dois anos testando fórmulas diferentes na busca por uma bebida refrescante.
Originalmente chamada de "Bib-Label Lithiated Lemon-Lime Soda", a marca de refrigerante “7 Up” nasceu em 1929 pelas mãos de Charles Leiper Grigg, que comercializava como um medicamento para “curar ressaca”.
Aos poucos, com o sucesso da "Bib-Label Lithiated Lemon-Lime Soda", o nome acabou sendo trocado para um de apelo mais comercialmente expressivo.
Em 1933, passou a ser chamada de “7 Up”.

Fim 



quinta-feira, 11 de julho de 2019

568 - Terras de Capelins
A lenda da princesa moura Alandra, de Faro e de Monsaraz
Dedicada ao Grupo Monsaraz A Caminhar
Os protagonistas desta lenda são, uma linda princesa moura de nome Alandra, filha do principe de al Harun, ou seja Faro e, a mais alta figura da nobreza portuguesa do reinado de D. Afonso III, D. João Peres de Aboim, nascido cerca de 1213 em Aboim da Nóbrega, uma povoação situada a sul de Ponte da Barca, no Minho!
D. João Peres de Aboim, era protegido do rei D. Afonso III, cresceram juntos, por o seu pai ser camareiro do então Principe e, estiveram ambos, cerca de dezasseis anos em França, por isso, tornou-se letrado, foi apoiante de D. Afonso III, contra o seu irmão D. Sancho II e, tinha liberdade para tomar algumas decisões sem o consultar! Foi conselheiro do rei, mordomo mor, Senhor de Portel, da Defesa do Esporão no Termo de Monsaraz e de muitas outras terras e Vilas! Faleceu em quinze de Março de mil duzentos e oitenta e cinco, estando sepultado no Mosteiro de Marmelar em Vera Cruz, Portel!
Após a reconquista das terras da raia do Alentejo aos mouros, D. Afonso III, sentiu o desejo de alargar os domínios do reino de Portugal! Assim, em Março de mil duzentos e quarenta e nove, acompanhado de D. João Peres de Aboim, de alguns nobres, bastardos e Ordens Militares, dirigiu-se ao Algarve, com o exército em marcha forçada até à "Terra de Todos", a Vila de Alportel, onde acamparam para dali preparar os ataques às diversas Praças mouriscas do Algarve!
Na Vila de Alportel, misturavam-se cristãos com mouros, sem represálias de parte a parte, era terra de mercadores que, no dia da feira, atraía pessoas de todas as localidades da região, incluindo principes e princesas!
Num desses dias, D. João Peres de Aboim, atravessava a feira envolvido numa acesa conversa com um grupo de fidalgos, quando deu por si, estava nos braços de uma linda mulher que, tinha a cara tapada por um turbante, mas com o encontrão ficou descoberta deixando ver-lhe além dos lindos olhos o seu lindo rosto!
O fidalgo ficou muito atrapalhado e pediu desculpa, mas a mulher, não respondeu, continuando o seu caminho com outras mulheres que a acompanhavam, mas a pouca distância virou-se e fitou o fidalgo, tocando-lhe o coração!
D. João Peres de Aboim ficou perturbado e perguntou aos mercadores que estavam ao lado e tinham assistido à situação, se sabiam quem era aquela mulher? Sendo imediatamente informado que, era a princesa "Alandra", filha do principe de al Harun (Faro)!
O nobre continuou o seu caminho, sempre com a princesa Alandra na sua mente e no seu coração, mas as reuniões do conselho de guerra com o rei eram constantes, para delinear como deviam fazer os ataques, obrigando-o a esquecer o caloroso encontro com a linda princesa Alandra!
Com a ajuda dos espiões, os portugueses foram sabendo quais as forças que os mouros dispunham em cada praça, e que não podiam ser auxiliados pelos exércitos da moirama, porque, também Castela atacava os mouros em todas as frentes, por isso, decidiram atacar a praça mais forte e importante, ou seja, al Harun, decerto as restantes, não ofereciam resistência!
No dia seguinte, o rei deu instruções a D. João Peres de Aboim para ir com os seus homens, montados nos melhores ginetes, bem treinados na arte da guerra, testar a resistência de al Harun, simulando um ataque surpresa, mas na verdade, não queriam entrar em luta com o inimigo! Partiram de Alportel e perto de Harun fizeram um pequeno acampamento, depois em grande correria, investiram contra a cidade, mas na sua frente surgiu uma figura agitando os braços no ar, obrigando-os a refrear a cavalaria! D. João Peres de Aboim, irritado, deu um salto para terra e ficou de espada em punho! A figura, tinha a cara tapada por um turbante, mas mostrou que estava desarmada e não estava ali para se bater com ele, o qual, depois de verificar que não era armadilha, que não havia movimento por perto, deu alguns passos em frente e perguntou? Quem és tu? O que quereres de mim? Então, ouviu uma vós trémula que lhe disse: Quero falar com o teu rei! D. João Peres de Aboim continuou: Se queres falar com o meu rei, porque te escondes atrás desse turbante? A figura respondeu: Bem sabes senhor, se viesse às claras, nunca me deixariam chegar até aqui, seria logo preso e eu tenho de falar com o teu rei!
Mas quem és tu? Pensas que te vou levar até junto do meu rei sem saber quem és? sabes que isso é impossível, respondeu D. João de Aboim!
Sou um guerreiro filho do principe de Harun que defenderá o seu senhor até à última gota de sangue, respondeu a figura!
D. João Peres de Aboim, deu mais um passo em frente e, num golpe de surpresa arrancou-lhe o turbante e aos seus olhos apareceu o rosto de uma jovem e linda mulher e exclamou: Alandra! És a princesa Alandra! O que fazes aqui?
Quero falar com o teu rei, respondeu Alandra!
D. João Peres de Aboim, delicadamente, encaminhou-a para um lugar mais afastado e seguro e perguntou-lhe o que queria falar ao rei, porque estando ele longe, quem tomava as decisões ali era ele!
Então a divina e bela Alandra disse-lhe:
Alandra: Senhor, queria que ele poupasse a vida das mulheres e crianças de Harun, nem que para isso, eu tenha de sacrificar a minha honra!
D. João Peres de Aboim: Princesa Alandra, nós não somos feras, prometo solenemente que, será cumprido o que deseja, sem que para tal, seja necessário qualquer sacrifício da sua parte!
A princesa Alandra baixou a cabeça e quando a reergueu tinha os olhos embaciados por lágrimas e continuou:
Alandra: Senhor, todos nós vivemos aterrorizados com o que tem acontecido na tomada das nossas terras, por isso, o senhor meu pai, principe de Harun quer entregar as chaves da cidade ao teu rei sem derramamento de mais sangue!
A princesa, levou as mãos ao rosto num jeito de assustada e as palavras saiam-lhe em soluços!
D. João Peres de Aboim, colocou a mão no ombro direito da princesa, com intenção de a acalmar, mas nesse momento sentiu nela um tremor tão forte que a retirou imediatamente e, apenas repetiu a promessa de que, as mulheres e as crianças seriam respeitadas em troca das chaves da cidade! A princesa Alandra tentou aproximar-se do fidalgo num gesto de entrega da honra, mas ele, afastou-a delicadamente e despediu-se!
No dia vinte e sete de Março de mil duzentos e quarenta e nove, o exército de D. Afonso III, estava pronto para atacar Harun, porém, de madrugada, o rei que, estava a par da situação, reuniu o conselho de guerra e pediu a D. João Peres de Aboim para falar! Então, ele disse: Senhor meu rei, sem a sua autorização prévia, já tratei de tudo, vamos tomar Harun sem derramamento de sangue, o principe vai entregar as chaves sem luta, mas por amor de Deus senhor meu rei, temos de respeitar as mulheres e as crianças, foi essa a condição que prometi, estou por penhor dessa condição que vale a minha honra!
D. Afonso III baixou a cabeça num gesto afirmativo, dando, assim, a devida autorização!
D. João Peres de Aboim: Então, senhor meu rei, deveis ir agora ao palácio do principe de Harun para que ele vos entregue as chaves da cidade!
D. Afonso III: O quê? Vou lá sozinho?
João Peres de Aboim: Não, senhor meu rei, de modo algum! Levais uma guarda de honra, constituída pelo Estevão Anes, Afonso Peres Farinha, Gonçalo Peres e eu próprio, além de ficar preparada, por precaução, uma força de intervenção constituída pelos melhores mestres de guerra, mas sei que, não vai haver luta!
Então, D. Afonso III, acompanhado da referida guarda de honra, dirigiu-se ao palácio do principe de Harun onde foram recebidos com cordialidade! Acertaram alguns acordos, foram assinadas as condições honrosas para os vencidos e ainda mais para os vencedores, depois o principe entregou as chaves da cidade na mão do rei!
As referidas negociações, demoraram mais do que se esperava e, os homens da força portuguesa que estava de prevenção, pensando que, alguma coisa tinha corrido mal, envolveram-se em luta com os guerreiros mouros no atual Largo de S. Francisco e foi D. Afonso III que teve de correr ao centro da contenda a mandar parar a luta e a mostrar as chaves de Harun que, a partir daquele momento começou a designar-se por Santa Maria de Farum!
Como a promessa foi cumprida, no dia seguinte, a princesa Alandra, com o rosto tapado pelo turbante, dirigiu-se aos aposentos de D. João Peres de Aboim, com um grande ramo de flores vermelhas! Assim que chegou, caiu-lhe nos braços e entregou-lhe a sua honra, mesmo sabendo que, não podiam ficar juntos, estiveram envolvidos algumas horas, até se esgotar o tempo razoável que, pudesse justificar a sua ausência do palácio!
A princesa, foi seguida por espiões da confiança do principe seu pai que, lhe foram contar tudo o que se passou entre sua filha e D. João Peres de Aboim!
O principe já tinha perdido a sua honra ao entregar as chaves de Harun sem luta, agora, era a sua linda filha a traí-lo entregando voluntariamente a sua honra a um cristão, mais nada lhe restava! Esperou a chegada da princesa, chamou-a ao jardim, trocaram algumas palavras, ele disse-lhe que tinha de a encantar, porque ambos tinham perdido a honra e mais nada lhe restava, ao entregar-se a João Peres de Aboim! A princesa compreendeu o pai e não reagiu foi, imediatamente morta e encantada ali no seu jardim!
D. João Peres de Aboim, tinha trinta e seis anos e casado, havia cerca de três anos com Dona Marinha Afonso de Arganil, mas naquele momento o seu casamento estava esquecido, porque, não controlava a sua paixão pela princesa Alandra!
No dia seguinte, a meio da manhã, D. João Peres de Aboim, estava agitado, pensando na princesa com um mau pressentimento, montou o seu cavalo e, acompanhado por alguns guardas, foi dar um passeio com a intenção de passar em frente ao palácio do principe e poder ver Alandra a espreitar por alguma janela, mas ao chegar viu tudo atarracado, sem movimento, avançou com o cavalo na direção de um grupo de homens mouros que estavam à porta do palácio em acesa conversa, os quais, começaram a correr assustados, mas ele gritou-lhe que não lhe fazia mal, só queria uma informação sobre o principe! Os homens pararam logo, eram os criados do palácio, alguns tinham assistido à morte da princesa e contaram como tudo se passou e que a seguir o principe e a família tinham fugido num barco para as terras da moirama, deixando-os ali abandonados à sua sorte!
D. João Peres de Aboim, ficou furioso e de cabeça perdida, tentou recrutar um grupo de homens para perseguir o principe, mas D. Afonso III, ao inteirar-se da situação, acalmou-o e demoveu-o da ideia!
Nos dias seguintes, foram tomadas as restantes praças do Algarve, Loulé, Albufeira, Porches, Aljezur e outras, quase sem luta! D. Afonso III apressou-se a entregá-las a alguns nobres que participaram na conquista, a Ordens Militares e aos bastardos que o acompanharam!
Depois de tudo sereno, o rei e os seus exércitos deixaram o Reino dos Algarves que, embora já português, só foi reconhecido por Castela através do Tratado de Alcanizes em 1297, antes era português mas o uso e fruto era de Castela!
D. João Peres de Aboim e alguns nobres acompanharam o rei, porém, antes da partida, o fidalgo mandou arrancar e envolver em terra as plantas todas do jardim do palácio do principe, das quais a princesa Alandra tinha colhido as flores que lhe tinha oferecido com a sua honra, para as transplantar nas suas terras!
O rei e o exército seguiram em conjunto até Beja, onde descansaram! Antes da partida, D. Afonso III reuniu-se com D. João Peres de Aboim e disse-lhe que tinha de seguir outro caminho, por Serpa, Moura, Mourão e Monsaraz, para fazer uma avaliação das terras para demarcação de alguns Termos (Concelhos) e verificar como estavam a ser administradas, uma vez que, existiam muitas queixas contra os Alcaides-mor, entregando-lhe uma carta com poderes régios!
D. João Peres de Aboim, partiu de Beja no dia seguinte, com um grupo dos seus homens, foi cumprindo as instruções do rei, acabando por chegar a Monsaraz quinze dias depois de sair de Beja, levando consigo os arbustos vindos de Faro!
Uma das missões de D. João Peres de Aboim, era avaliar as terras de Monsaraz para, a demarcação do seu Termo, como depois aconteceu em 1265, obrigando-o a demorar-se mais do que esperava e ainda tinha de fazer a avaliação das terras da herdade de Terena, para demarcação do seu Termo como aconteceu em 1262, só depois seguia para Évora!
Então, uma noite enquanto dormia começou a sonhar com os arbustos cheios de flores vermelhas ali em Monsaraz e, no meio deles, estava a princesa Alandra! Quando acordou, o sonho não lhe saía da mente, mas ao longo do dia, foi esquecendo! A partir daí, todas as noites tinha o mesmo sonho, até que, se fez luz, D. João Peres de Aboim, percebeu que, se isso acontecia, era porque a princesa Alandra queria os arbustos plantados em Monsaraz! Chamou um criado e disse-lhe para encontrar um bom lugar, tratar bem a terra e plantar lá os arbustos e tomar bons recados para que os mesmos fossem protegidos, porque, em caso algum se podiam perder!
O criado não andou muito, encontrou um espaço com boa terra perto da rua direita e da Igreja de Nossa Senhora da Lagoa, aí plantou os arbustos e, foi dizer ao fidalgo que o trabalho estava feito! Ele deslocou-se ao lugar, acariciou as flores muito comovido, o criado estava a assistir, pediu licença e perguntou-lhe que flor era aquela que o deixava assim tão triste? D. João Peres de Aboim respondeu: Alandra, Alandra! E foi assim que, aqueles arbustos, ficaram a chamar-se alandros ou alandroeiros!
Passados três dias, D. João Peres de Aboim partiu para Terena, mas antes, foi despedir-se das suas flores, ficou muito surpreendido, porque estavam tão lindas como, quando a princesa lhe as ofereceu! Deixou uma carta na Alcaidaria mor, na qual, a responsabilizava pelo tratamento e proteção daqueles alandroeiros, como sendo património da Vila de Monsaraz e partiu!
Na noite de vinte e quatro de Junho de mil duzentos e cinquenta, à meia noite, pela primeira vez foi vista a princesa Alandra a cantar uma linda cantiga mourisca e a pentear os seu longos cabelos negros com um pente de ouro, irradiando uma ténue luz, porque, ficou encantada nos Alandros do jardim do seu palácio em Faro, os mesmos que, D. João Peres de Aboim transplantou para Monsaraz, onde a princesa Alandra ainda continua encantada e pode ser vista por momentos à meia noite de vinte e quatro de Junho de cada ano e, é nesse instante que, pode ser desencantada com estas palavras:
Alandra de Faro e de Monsaraz
O teu encanto chegou ao fim
Estás livre, vai em paz
Juntar-te a João de Aboim

Ele está em Marmelar
No Convento de Vera Cruz
Se não quiseres cá ficar
Deixa-nos a tua luz

Se não quiseres abalar
Fica aqui neste recinto
E podes ir caminhar
Com o amigo Isidro Pinto.

Fim 



567 - Terras de Capelins
História, lendas e tradições das terras de Capelins
A lenda do ti Francisco António, do ti António Francisco e do Mestre Batista
O ti Francisco António e o seu irmão, o ti António Francisco, eram ambos seareiros, o ti Francisco residia em Capelins de Baixo e o ti António residia em Montejuntos!
O ti Francisco António, além de seareiro tinha um pequeno rebanho de ovelhas que, ajudavam muito na economia familiar, davam lã, borregos e leite, com o qual e com mais algum que comprava fazia "alavão", fabricando queijos e almeice!
O seu irmão, o ti António Francisco, tinha uma vida económica mais difícil, não tinha gado, semeava trigo, aveia, cevada, centeio, tremoços, favas e grão de bico, mas quando vinham maus anos agrícolas as colheitas eram tão fracas que não davam para pagar as despesas! Tinha umas oliveiras que lhe davam azeitona para trocar por azeite e, em alguns anos de melhor colheita, vendia alguns quilos de azeitona que ajudavam a equilibrar as contas, mas era o irmão, o ti Francisco António que lhe valia, estava sempre a emprestar-lhe dinheiro!
Decorria o ano de mil novecentos e sessenta e oito, um ano muito seco, logo, muito mau para os cereais, fizeram a ceifa, as eiras e venderam os cereais, os que podiam vender, porque tinham de guardar algum trigo para mandar fazer farinha e o pão que alimentava a família o ano todo e ainda algum trigo para voltar a semear em finais de Outubro!
O ti António Francisco, de Montejuntos, vendeu os cereais que podia vender e, o dinheiro mal deu para pagar as dívidas ao irmão, na mercearia e outras, como acontecia com a maior parte dos seareiros das terras de Capelins!
O ti António era muito aficionado e soube a composição do cartel da "corrida" de 15 de Agosto em Reguengos de Monsaraz, concluindo que não podia faltar! Uns dias antes da feira de Santa Maria, começou a dar voltas à cabeça como seria a maneira de pedir dinheiro emprestado ao irmão para poder ir à "corrida", lá pensou, foi ter com ele,cumprimentou-o e disse-lhe:
Ti António: Boa tarde irmão! Deus te abençoe!
Ti Francisco: Boa tarde irmão! A ti também! Então, o que andas fazendo?
Ti António: Olha, irmão, vinha falar contigo! Sabes, a minha Gertrudes não se anda a sentir bem e quero ir mostrá-la ao Dr. Jeremias lá a Vila Viçosa!
Ti Francisco: Oh diacho! Então, e do que é que ela se queixa?
Ti António: De dores, irmão, de muitas dores no corpo todo, mais nas cruzes, nem se consegue endireitar!
Ti Francisco: Olha lá, irmão, telefona lá para Vila Viçosa que ele vem cá a casa no carrinho dele!
Ti António: Não, irmão, isso não pode ser, não pode ser, porque ele não pode trazer o aparelho que tem lá na consulta, aquele que mete as pessoas lá dentro e vê logo o que elas têm!
Ti Francisco; Ah sim, irmão, tens toda a razão! Então e o que precisavas de mim?
Ti António: Oh irmão, tu sabes que o ano correu-me muito mal! Vá lá, ainda paguei as dívidas todas, mas fiquei limpinho, então precisava que me emprestasses quinhentos mil réis! Eu tenho os tremoços e alguns grãos para vender, assim que os vender pago-te logo!
Ti Francisco: Eh irmão, eu tenho algum dinheiro, mas tenho muitas despesas com as ovelhas, ainda mais com este ano tão seco, vê lá se te remedeias com duzentos ou trezentos mil réis!
Ti António: Não sei irmão, não sei, tenho de pagar o carro de praça do Alandroal, a consulta, as mezinhas e quem sabe o quê mais, tens de me emprestar os quinhentos mil réis!
Ti Francisco: Pronto irmão, se é isso que precisas, vamos lá a casa e já os levas!
Entraram em casa do ti Francisco, ele foi ao quarto buscar os quinhentos mil réis, entregou-os ao ti António, falaram mais um pouco e voltou para Montejuntos!
Antes da feira, alguns vizinhos do ti Francisco, também seareiros, começaram a dizer-lhe que tinha de ir com eles à feira de Santa Maria que, era na quinta feira dia 15 de Agosto, não podia faltar à "Corrida" (tourada), porque os toureiros eram o Mestre Batista e o seu "rival" Luís Miguel da Veiga! O ti Francisco dizia que não, porque já tinha ideia de ir à feira de Vila Viçosa, no dia 29 desse mês, mas de verdade era uma pena perder aquela "corrida", por isso, no dia anterior chamou o neto Francisco, com cerca de 15 anos, que já era grande aficionado e disse-lhe para se preparar que no dia seguinte, logo de madrugada, por causa do calor, iam até Reguengos de Monsaraz, à feira mas, principalmente à "corrida" que, começava às cinco da tarde! O neto Francisco, ficou doido de contente, já conhecia o cartel da corrida e, até já tinha sonhado com a mesma! Pensou, não havia um outro avô como aquele!
Às cinco da manhã do dia 15 de Agosto, conforme estava combinado com alguns vizinhos, seguiram pela estrada de Ferreira-Terena, mas logo a seguir ao Monte de Igreja, viraram para o lado do Monte da Sina, foram entrar na estrada de Reguengos ao cruzamento de Santa Clara para Cabeça de Carneiro! O neto Francisco, ainda passou pelas brasas e, já estavam passando Santiago Maior, quando se fez dia! Pelas oito horas da manhã estavam a entrar na Estalagem, onde deixaram a mula e a charrete!
Assim que arrumaram tudo, foram logo comprar os bilhetes para a "corrida", havia de vários preços, para a sombra, para o sol e sombra e, para o sol, estes eram os mais baratos! O ti Francisco, trocou impressões com o neto, se compravam bilhetes para o sol e sombra ou para o sol? A diferença dos preços ainda era grande, então, decidiram comprar bilhetes para o sol, se andavam sempre ao sol e a trabalhar, agora para um divertimento iam comprar bilhetes para a sombra? Estava decidido, como sempre, eram bilhetes para o sol! O neto, até gostava de ir para a sombra, mas não queria abusar, porque iam a quase todas as corridas das redondezas!
Pelas dezasseis horas, foram-se aproximando da Praça de touros, para ver os cavalos de toureio e todo aquele mundo, mas assim que as pessoas começaram a fazer ajuntamento às portas de entrada, lá foram eles, para arranjar um bom lugar e, acabaram por entrar mais cedo do que esperavam! Foram escolher o lugar, mas assim que se sentaram tiveram de se levantar imediatamente, porque, o assento estava em brasa, queimando-lhe as nádegas, era impossível estar ali debaixo daquele sol, deviam estar mais de 40 graus C, mas mesmo assim, não podiam deixar os lugares! O ti Francisco dizia ao neto:
Ti Francisco: Eh neto, onde nós nos viemos meter! A gente morremos aqui queimados!
Neto: Oh avô, temos andado sempre debaixo deste sol e aguentamos sempre! Daqui a pouco chega cá a sombra!
Ti Francisco: Chega, chega, neto, lá para as oito horas, quando acabar a "corrida" ! Olha, agora temos de aguentar, assim em pé estamos melhor e guardamos o lugar!
Neto: Eu aguento, avô, o que a gente aqui vai ver, compensa isto, nem vamos sentir o calor!
Ti Francisco: Não sentimos, não! Olha que se apanhamos alguma insolação acaba-nos com a cabeça, podemos ficar maluquinhos para sempre!
Neto: Veja lá avô, a gente temos chapéu, por isso, o sol não nos assenta na moleirinha!
Ti Francisco: Então, se não fosse o chapéu, decerto apanhavamos uma insolação e assim, deixa lá ver! Eh lá, eh lá, olha o que eu estou a vendo neto! Olha além o meu dinheirinho! Olha lá onde está o meu dinheirinho!
Neto: Oh avô da minha alma, esteja calado, olhe as pessoas a olhar, tem o chapéu bem posto na cabeça? Ou deu-lhe o sol na moleirinha?
Ti Francisco: Não me deu sol na moleirinha, não, neto! Mas olha lá onde está o meu dinheiro, não o vês, neto?
Neto: Oh valha-me Deus, avô! Está com insolação? Não vejo dinheiro nenhum, vejo os preparativos para a "Corrida" os forcados e os bandarilheiros a observar se está tudo em ordem na Praça!
Ti Francisco. Oh neto, não é dentro do redondel, olha lá em frente, além à sombra, no meio dos lavradores e dos endinheirados, não vês lá ninguém conhecido?
Neto: Ah, além em frente! Só vejo lavradores com os seus grandes chapéus à lavrador! Espere lá avô, espere lá! Parece-me que vejo lá o seu irmão António armado em lavrador! Pois é, é mesmo ele! Oh avô e o que tem isso a ver com o seu dinheinho?
Ti Francisco: Oh neto, é que ele foi pedir-me quinhentos mil réis emprestados para ir mostrar a ti Gertrudes ao Dr. Jeremias e foi tudo uma mentira! Vê tu bem aquele displante!
Neto: Deixe lá avô, ele paga-lhe! Se o gasta mal, é lá com ele! Vamos ver a corrida com atenção e não pense mais nisso!
Ti Francisco: Ah penso, penso! Caramba, uma pessoa ainda tem honra! Mesmo pagando, não deixa de ser um aldrabão! Quando a "corrida" acabar, logo o encosto à parede!
A tourada foi um espetáculo memorável, Mestre Batista, ou por estar na sua terra (Campo) ou por estar perante o seu "rival" ou as duas situações, toureou como nunca e, Luís Miguel da Veiga, não ficou atrás!
Assim que a tourada terminou, o ti Francisco e o neto sairam da Praça de touros e foram a correr para a porta da "Sombra", tiveram de contornar quase todo o movimentado redondel e, quando chegaram não viram sinais do ti António, perderam algum tempo a procurá-lo por ali, mas não o encontraram, desistiram e foram andando pela feira, encontraram pessoas conhecidas e procuraram se tinham visto o ti António, mas as respostas eram todas negativas! Encontraram uns vizinhos dele e fizeram a mesma pergunta, mas eles responderam que não o tinham visto por ali e nem o podiam ver, porque ele não tinha vindo à feira! Quando o ti Francisco comentou: " Ah pois, a minha cunhada está muito mal, tinha de ir ao Dr. Jeremias"! Os vizinhos, comentaram que devia haver algum engano, porque tinham falado com ela no dia anterior e ela andava muito bem!
O ti Francisco e o neto que, já estavam desconfiados se teriam apanhado alguma insolação e ambos tinham tido uma visão, a de ter visto o ti António na Praça de touros, armado em lavrador, mais desconfiados ficaram! Parecia impossível, como é que só eles o tinham visto? Despediram-se e continuaram apreciando a feira, mas deixaram de perguntar pelo ti António! Foram dali, para uma "Barraca de comes e bebes", mandaram vir um petisco, meio litro de vinho e uma gasosa, quando estavam na petisqueira chegaram umas pessoas conhecidas que os cumprimentaram e disseram-lhe que tinham estado a falar com o seu irmão o ti António! O ti Francisco, quase se engasgou e insistiu a perguntar, se seria mesmo o seu irmão António? Os outros, ficaram admirados com a pergunta e responderam: Caramba, ti Francisco, está a duvidar de nós? E continuaram: Ele veio já à última hora, sozinho, montado na mula, veja lá coitado, como veio tarde, já não havia bilhetes para o "sol" teve de comprar um bilhete de "Sombra" e ir para o meio dos lavradores e dos endinheirados, mas teve de ser, teve de ser! Assim que acabou a corrida, abalou logo para Montejuntos aí direito à Aldeia de Mato! O ti Francisco disfarçou dizendo: Ah, por isso é que não o vi!
O ti Francisco comentou com o neto: "Estás a ver neto, tivemos pressa em o julgar, afinal ele veio de tão longe, como não havia bilhetes para o sol, foi obrigado a ir para a sombra!
O neto, ainda comentou: "Pois é avô e nós que viemos de tão longe e tão cedo, fomos obrigados a ir para o sol! Este Mundo não se entende!
Mesmo assim, o ti Francisco não gostou de ter sido enganado pelo irmão e, quando ele lhe foi pagar a dívida, não conseguiu passar sem o admoestar! Ele, apenas lhe respondeu: "Tive vergonha de te pedir o dinheiro emprestado para ir ver o Mestre Batista"!
A mentira ficou esquecida e, a ti Gertrudes de boa saúde.

Fim 


domingo, 23 de junho de 2019

566 - Terras de Capelins 
História, lendas e tradições das terras de Capelins 
A lenda do ti Miguel Sem Vagar, das terras de Capelins 
Em meados da década de mil oitocentos e oitenta, chegou às terras de Capelins mais uma Família, proveniente da vizinha Freguesia de Santiago Maior, o ti António Frade, a sua mulher a ti Maria Gertrudes e cinco filhos e filhas que, ficaram a morar no Monte do Meio, onde já morava uma irmã da ti Maria Gertrudes! 
O ti António Frade, era seareiro em Santiago Maior, onde tinha duas courelas que vendeu e, com esse dinheiro comprou três courelas nas terras de Capelins, continuando a ser seareiro, semeando as suas courelas e as que conseguia arranjar ao terço e ao quarto! Com ele, trabalhavam alguns elementos da família! 
De entre os filhos, o mais novo, chamava-se Miguel Frade e, desde pequenino, já se destacava nos trabalhos, era frenético, queria ajudar em tudo, agarrava-se a sacos, molhos de cereais e outros apetrechos da lavoura, não podia, mas nunca desistia! Levantava-se sempre cedo e começava logo a trabalhar, pedindo ao pai para lhe dar tarefas a fazer! 
Antes de fazer dez anos de idade, já conduzia o carro da parelha de mulas da casa, com grande segurança e sabedoria, mas o Miguel sonhava com os trabalhos agrícolas, passava o tempo nas courelas, sempre a trabalhar, parecia que nunca se cansava! Quando o pai o mandava sentar-se a descansar, a resposta era sempre a mesma: "Não tenho vagar"! 
A situação, por vezes era preocupante, porque os pais achavam que o trabalho era muito pesado para ele, desde madrugada até cair na cama, mas não conseguiam demovê-lo e acabavam por comentar: "Isto são coisas de criança, depois passa-lhe"! 
Quando a família andava a trabalhar nas courelas, fosse a lavrar, juntar pedra, mondar, ceifar, ou debulhar os cereais na eira, chegava a hora do almoço, do jantar, da merenda ou da ceia, sentavam-se no chão, faziam uma roda e comiam as refeições, mas o Miguel, nunca se sentava, comia sempre em pé e, os pais comentavam: 
Ti António: Isto não é normal, a quem é que o gaiato sai? 
Ti Maria: Não sei, homem!  A mim não é de certeza! Sabe-me pouco bem sentar-me e comer descansada é só o bocadinho que descanso durante o dia! 
Ti António: Olha que a mim, é que ele não sai, também não dispenso um bom assento, nem que seja no chão! 
Ti Maria: Então, onde é que o gaiato foi apanhar isto? Eu não conheço ninguém na nossa família que tivesse isto! 
Ti António: Ah, não conheces? Então a tua tia Anna Sem Vagar? Já não te lembras dela? 
Ti Maria: Lembro homem! Mas isso, não sei se era verdade! Era o que as pessoas diziam lá em Santiago,  mas eu sempre a conheci sentadinha numa cadeira lá no lageado debaixo da parreira! 
Ti António: Sim mulher, ela passava os dias sentadinha debaixo da parreira! Mas quantas vezes a foram buscar lá abaixo dentro do ribeiro? Marchava de gatas para a courela, só que não conseguia passar o ribeiro! 
Ti Maria: Pois, coitadinha, isso aconteceu algumas vezes, quando já não estava boa da cabeça!
Ti António: Não era isso que as pessoas diziam lá na Aldeia! Até dizem que não queria abalar lá para o céu, de maneira nenhuma, porque não tinha vagar para morrer! 
Ti Maria: Não, não António, a minha falecida mãe, disse-me que se ficou que nem um passarinho! 
Ti António: Olha Maria, não sei, cá na minha família nunca se ouviu dizer que houvesse casos destes! Mas isto vai passar! O dia que começar a namorar já vai ter muito vagar! Vais ver! 
A conversa sobre a quem o Miguel Sem Vagar saía, ficou por ali! 
O Miguel foi crescendo, mas a sua atitude não mudava, era trabalhar, trabalhar, e quase nunca se sentava! Nunca tinha vagar!
Já era rapaz moço e não procurava rapariga para namorar, dizia que não tinha vagar! Porém, quando chegou aos vinte e quatro anos, atingiu a maioridade e a idade casadoira, era muito cobiçado pelas raparigas das terras de Capelins e, principalmente pelos pais delas, não que fosse grande figura física, mas por ter fama de muito trabalhador e muito honrado, as melhores qualidades desejadas pelos pais, para os maridos ou mulheres dos seus filhos!
Numa noite, de terça feira de Carnaval, o Miguel foi ao baile em Ferreira de Capelins, mesmo sem vagar e sem saber como, começou a falar com a Maria Joaquina! É verdade que, já existiam alguns recados, mesmo entre os familiares, mas ainda não tinham falado em namoro, porque, o Miguel não tinha vagar! 
Nessa semana, o Miguel foi pedir ao pai da Maria, se autorizava o namoro! O pai da Maria estava desejando em dizer logo que sim, mas existia um ritual que tinha de ser cumprido, sobre quais eram as suas intenções e para tomar atenção ao que ia fazer, porque se fosse para fazer pouco dela o melhor era pôr-se a andar dali! 
O Miguel prometeu que era para respeitar a Maria e vinha cheio de boas intenções, quando fizesse o namoro era para casar!
Ficou, então tudo combinado com o pai da Maria, o Miguel podia ir namorar com ela, à moda da Aldeia, ou seja, umas horitas nos Domingos à tarde e, tinha de ser empinado à janela pequenina, a que tinha duas barras de ferro ao meio, era mesmo assim, com todos os namoros! 
No Domingo seguinte, à hora combinada o Miguel passou em frente à janela da Maria, para o lado de baixo, para o lado de cima, para o lado de baixo, para o lado de cima, até que viu um aceno com um lencinho, então aproximou-se e disse: 
Miguel: Boa tarde Maria! Estava a ver que não era para hoje e eu sem vagar! 
Maria: Boa tarde Miguel! Já sabes que, enquanto a minha mãe não se despachar para nos guardar, não posso vir! 
Miguel: Está bem, Maria, está bem! Como sabes, eu não tenho vagar para isto, por isso, quanto mais depressa te ler o responso, mais depressa me vou embora! 
Maria: Oh Miguel, mas tu sabes que não pode ser assim, o namoro é para nos conhecermos e para irmos acertando as nossas ideias, para depois de casarmos nos darmos bem! 
Miguel: Ainda estamos a começar, olha já onde tu vais, no casar! Assim, ainda é mais depressa do que eu pensava! Ainda bem, porque eu não tenho vagar! 
Maria: Oh Miguel, não é assim tão depressa! Temos de fazer o namoro como toda a gente e só depois podemos casar!
Miguel: Está bem! Então, para começarmos o namoro diz-me lá o que andaste fazendo esta semana? 
Maria: Oh Miguel, então andei na monda na courela pegada à tua, todos os dias me vias, eu bem vi que olhavas para mim! 
Miguel: Ah sim, pois, pois, mas o que é que eu te perguntava? Olha, faz de conta que não sabia! E fizeste mais o quê, depois da monda? 
Maria: Olha, ajudei a minha mãe a fazer a comida, a lavar a loiça, fazer lume, varrer a casa, tratar das galinhas, cozer e pôr remendos na roupa de todos, só te digo que não parei nem um bocadinho! 
Miguel: Ora, é mesmo isso que eu gosto de ouvir! Não podemos parar nem um bocadinho! Não há vagar para isso!
Maria: Oh Miguel, mas também não pode ser assim, não somos de ferro, temos de descansar algum bocadinho, senão até podemos ficar doentes! 
Miguel: Então, e não descansamos a noite toda? Olha que passamos muitas horas na cama, dá bem para descansar! Muito descanso só faz é mal! 
Maria: Olha Miguel, tenho ouvido sempre dizer que algumas pessoas precisam de mais horas de descanso do que outras! 
Miguel: Sim, acredito que seja verdade, os malandros precisam de mais descanso do que os aguçosos! Bem, agora que já te li o responso tenho de me ir embora, porque eu não tenho vagar!
Maria: Espera lá mais um bocadinho Miguel, mesmo agora chegaste, já te queres ir embora, o que vão as pessoas dizer do nosso namoro? 
Miguel: Olha, o que tinha para te dizer, está tudo dito, por isso, vou-me já embora, porque não tenho vagar!
O Miguel e a Maria despediram-se com um "adeus" e ele foi emparelhar as mulas para ir lavrar, fazer o alqueve! O namoro durou quase um ano e, foi todo assim, sempre à pressa! 
Como o Miguel não tinha vagar para namorar, combinaram o casamento e foram falar com o Pároco de Santo António, o Padre Isidoro José Ribeiro que, tratou dos papéis de estilo, realizando-se o matrimónio na Igreja de Santo António, no Domingo dia 25 de Setembro de 1910!  
O casamento foi à pressa e, a sua vida continuou igual, sempre sem vagar, era só trabalhar, não dava muita atenção aos filhos porque, achava que isso era tarefa da Maria! 
Já no fim da sua vida, ainda ia diariamente para as suas courelas na carroça puxada pela sua parelha de mulas, tinha grande dificuldade em subir para ela, era de gatas, mas lá partia em cima da carroça, parecia uma foice todo dobrado, mas sempre em pé, quando lhe pediam para se sentar, respondia sempre: "Não tenho vagar"! 
Quando chegou o momento de ir prestar contas ao Criador, teve muito vagar, ficou-se que nem um passarinho! 
Foi assim a vida do ti Miguel Sem Vagar, como a de muitos outros residentes, nas terras de Capelins! 
Bem Hajam! 
Fim 



sábado, 22 de junho de 2019

565 - Terras de Capelins 
História, lendas e tradições das terras de Capelins 
A Fábula da comadre raposa e do compadre galo das terras de Capelins 
Desde sempre, existiram muitas raposas nas terras de Capelins, devido às características do terrreno, existência de muitos cursos de água, silvados e matos de estevas e outros arbustos, onde as mesmas constroem as raposeiras, ou seja, tocas para criação e esconderijo! 
No tempo em que os animais falavam, habitava uma raposa na sua raposeira na herdade do Roncão, perto da Ribeira de Lucefécit, era conhecida por todos os animais da região, tinha o seu território demarcado dentro do qual ficava o Monte do Roncão, onde ela de quando em quando fazia algumas investidas, mas era sempre mal sucedida, porque o lavrador tinha uma espingarda e, sempre que ela se aventurava a aproximar-se do dito Monte era recebida com chumbo que, já por várias vezes o tinha ouvido zumbir muito perto das orelhas, mas a comadre raposa tinha a memória curta e sempre que andava enjoada dos coelhinhos, ou que havia mais escassez, lá ia ela tentar a sua sorte! Um dia a comadre raposa aproximou-se do Monte e viu um galo muito pomposo com uma linda plumagem e muito gordinho, ficou extasiada com aquela visão e exclamou: "Dê por onde der, este galo tem de ser meu, isto é o banquete da minha vida", mas como avistou o lavrador em frente ao Monte, baixou as orelhas, amagou-se e foi deslizando pelo Ribeiro do Carrão abaixo, dando voltas à cabeça a pensar a maneira de apanhar o galo! 
A comadre raposa, entrou na raposeira, adormeceu e começou a sonhar com o galo do Monte do Roncão, com  um grande banquete, mas de repente, o sonho passou a pesadelo, naquele momento, viu o lavrador com a espingarda apontada a pouco mais de um metro, era impossível escapar, quando ele puxou o gatilho ela acordou aterrorizada! Ainda disse: "Que se lixe o galo, primeiro está a minha vida", já não vou ao Monte do Roncão, está lá um grande perigo! Não vou, não! 
A partir daquele dia, sempre que a comadre raposa fechava os olhos para descansar começava logo a sonhar com o lindo galo do Monte do Roncão e tornou-se uma obsessão, até que, teve de lá ir vê-lo! Foi um dia, foi dois, foi três, já não saia do lugar de onde avistava o galo, estavam lá os cães, mas já pouco ligavam à comadre raposa, o maior perigo estava no lavrador e pensava: "Se um dia, eles se afastassem algumas horas do Monte, decerto, o galo não escapava! 
A comadre raposa não fazia mais nada, senão admirar o galo e espreitar o lavrador com esperança, ou que o galo se descuidasse e se afastasse do Monte, ou que fosse o lavrador a fazer isso! 
Um dia, quando a comadre raposa se dirigia para o lugar de onde espreitava o galo, viu o lavrador e a Família muito bem vestidos, de saída na charrete,  pensou logo que, iam para algum casamento, mas para ter certeza que ficava livre de perigo, correu até ao outeiro do Carrão para ver o caminho que levavam, concluindo que, não havia perigo nenhum, mas teve azar, o galo sabia que ela andava por ali todos os dias, porque ao espreitar, as orelha traíam-na, antes de ela poder observar as voltas do galo, já ele lhe tinha visto as orelhas espetadas atrás de uma rocha e nesse dia quando ela subiu ao outeiro do Carrão, o galo viu-a e adivinhou o que se ia passar, escarapantou-se e mandou recolher as galinhas e os pintos todos ao galinheiro e ele subiu para a parreira que estava à porta do Monte do Romcão! 
A comadre raposa chegou ao Monte já a lamber-se, a saborear o galo, mas estava tudo deserto de galináceos, ficou admirada e começou a olhar para todos os lados a tentar perceber o que se passava, mas não, não percebia, procurou, procurou e por fim pensou que os lavradores antes de partir tinham encerrado os galinácios no galinheiro, só podia ser isso! Estava aborrecida e de cabeça caída, quando ouviu o galo, até deu um salto: 
Galo: Boa tarde, comadre raposa! O que fazes por aqui? 
Raposa: Boa tarde compadre galo! Olha ia passando por aqui e lembrei-me de te vir cumprimentar! 
Galo: Oh comadre raposa, tu vieste aqui cumprimentar-me ou vieste para me comer? 
Raposa: Para te comer compadre galo? Que conversa é essa? Então, tu não sabes da lei que  saiu agora? 
Galo: Não sei cá de lei nenhuma, então o que diz essa lei? 
Raposa: Pois olha, só tu é que não sabes, ela é muito rigorosa, e diz que os animais são todos amigos, não podem fazer mal uns aos outros, por isso, desce daí que eu não te posso fazer mal! 
Galo: Não, não, eu não acredito em ti, tu és muito manhosa! 
O galo para ver o que ela fazia colheu uma parra e atirou-a lá de cima, a raposa pensando que era ele que tinha descido da parreira, atirou-se à parra com uma ferocidade que a esfarrapou toda! 
Galo: Então comadre raposa, não me fazias mal, mas quando pensaste que era eu, caíste logo em cima da parra, olha se fosse eu! 
Raposa: Oh compadre galo, não te vou mentir, pensei que fosses tu que tivesses caído da parreira e fui a correr a tentar apanhar-te para não te aleijares! 
Galo: Não acredito em ti comadre raposa, então se queres falar comigo, podes falar daí que, eu respondo aqui de cima! 
Raposa: Oh compadre galo, não é a mesma coisa, desce daí para falarmos e brincarmos, com esta lei, eu não te posso fazer mal! 
Galo: Nem penses nisso comadre raposa! Olha, não estás a ouvir tiros e cães a ladrar? Estou a ver daqui uma linha de caçadores e uma matilha de cães que vêm seguindo o teu rasto e direitinhos aqui! 
Raposa: Deixas-os vir compadre galo, com esta lei não me podem fazer mal! Desce daí e vamos brincar! 
Galo: Comadre raposa, os cães estão a chegar aqui ao Monte e os caçadores vêm logo atrás! Vai-te embora!  
Raposa: Deixa-os vir, já te disse que com esta lei, os animais não fazem mal uns aos outros! 
A raposa já nem teve tempo de acabar a frase, os cães já estavam a poucos metros, ficou aflita e começou a correr, o galo ainda lhe gritou: Não fujas comadre raposa! Mostra-lhe a lei! A raposa, já à distância, ainda respondeu: A lei já acabou compadre galo! Naquele momento, dois caçadores dispararam as espingardas, mas por sorte dela, nesse momento desapareceu atrás da rocha onde se escondia para espreitar o galo e foi aí que os tiros acertaram, ainda lhe caíram alguns bagos de chumbo em cima, mas não a feriram! Os cães não desistiram e quase a apanharam, meteu-se por dentro dos silvados do Ribeiro do Carrão e foi furando até chegar à raposeira! Quando chegou, as pernas tremiam-lhe que não se segurava nelas e o coração batia tanto que quase estourava! Os cães só desistiram quando os caçadores os chamaram, ficando, então, a comadre raposa livre de perigo! 
Depois do perigo passar, a comadre raposa nem acreditava que estava viva, então, bateu três vezes com a pata no chão e jurou que, nunca mais se aproximava do Monte do Roncão, porque, aquele galo, não estava ao seu alcance e, nunca mais daria o salto maior do que as pernas.

Fim  



564 - Terras de Capelins 
História, lendas e tradições das terras de Capelins
A Fábula da comadre raposa e da comadre cegonha das terras de Capelins 
Após a saída do compadre lobo, para as terras de Santa Luzia, do lado de lá da Ribeira de Lucefécit, a comadre raposa ficou na sua raposeira, perto do Bufo, pregando pirraças aos animais da vizinhança! 
Um dia, à tardinha, depois de se certificar que, havia segurança, a comadre raposa estava descendo a Ribeira de Lucefécit na direção das terras do Roncão, quando encontrou a comadre cegonha que andava pelas margens da Ribeira à procura da ceia! A comadre raposa, sempre manhosa, como ainda não tinha enganado nenhum animal nesse dia, pensou logo que, seria a comadre cegonha a cair nas suas patranhas e disse-lhe:
Raposa: Boa tarde comadre cegonha! Também anda à procura da ceia? 
Cegonha: Boa tarde comadre raposa! De verdade ando à procura da ceia, mas não está fácil, andam muitos animais por aqui à procura do mesmo! 
Raposa: Oh comadre cegonha, não se aflija lá com isso, se estiver de acordo, eu amanhã faço lá um banquete para a gente as duas na minha raposeira, fica convidada para ir lá encher a barriguinha! 
A cegonha, como já há uns dias que andava a passar mal, nem pensou duas vezes e respondeu à raposa: 
Cegonha: Pois olhe comadre raposa, não lhe vou dizer que não! Por aqui, isto não está fácil, não posso recusar o seu convite! Diga lá, a que horas lá me quer? 
Raposa: Esteja lá na minha raposeira ao meio dia em ponto, comadre cegonha! Ao meio dia em ponto, estará tudo pronto para o banquete! 
Cegonha: Está combinado, comadre raposa, ao meio dia em ponto lá estarei! 
A comadre raposa seguiu o seu caminho e, a comadre cegonha ficou a pensar no banquete preparado pela comadre raposa, estava desconfiada, mas não tinha nada a perder, com o banquete certo, já não se esforçou muito para apanhar alguma coisa mais consistente para a ceia, no dia seguinte logo tirava a barriga de miséria lá na raposeira! 
Alguns animais que andavam por ali, ouviram a conversa entre as duas, prontificaram-se a alertar a cegonha para abrir bem os olhos e ver onde se ia meter, mas a comadre cegonha, mesmo sabendo que, a comadre raposa não era de confiança, achou que, não podia correr mal! 
Não dormiu muito bem, toda a noite a sonhar com o grande banquete na raposeira e, no dia seguinte ao meio dia em ponto, a comadre cegonha depois de fazer alguns voos rasantes para observar se estava tudo normal, pousou à porta da raposeira, onde a mesa já estava posta com requinte e cheirava a boa comida! A comadre raposa veio logo recebê-la com grande simpatia, deu-lhe as boas vindas, agradeceu a pontualidade e disse-lhe: 
Raposa: Obrigado comadre cegonha, por aceitar o meu convite, como vê, está tudo pronto para o nosso banquete! Por acaso, já está com fome? 
Cegonha: Obrigado, comadre raposa, por esta receção, vejo que há aqui grande requinte da sua parte! Olhe, por acaso já jantava (almoçava), há dois dias que pouco tenho comido! 
Raposa: Então, hoje tira a barriguinha de miséria, o que não me falta aqui é comida, nunca a acabo! Vamos a ela! 
A comadre raposa, feita manhosa,  começou a trazer a comida para a mesa, mas toda muito líquida em pratos rasos, sobre os quais, passava a lingua, limpava tudo! A comadre cegonha batia com o grande bico no prato, mas não apanhava nada e a comadre raposa para zombar com ela, dizia-lhe: 
Raposa: Então comadre cegonha, a comidinha não está a seu gosto? Ou tem pouca vontade? 
Cegonha: Vai-se comendo, comadre raposa, vai-se comendo! 
Mas a verdade é que, a comadre cegonha não conseguia apanhar nada e estava com muita fome! 
A comadre raposa, lambeu os pratos todos e começou a levantar a mesa! A comadre cegonha, muito aflita dava bicadas no prato, mas quanto mais debicava menos comia, já envergonhada, teve de desistir, porque a comadre raposa já tinha a mesa limpa e passava a pata pela barriga dizendo: 
Raposa: Que belo jantar (almoço)! Há muito tempo que não comia um banquete destes! E você comadre cegonha, o que me diz? Gostou do banquete? Encheu bem a barriguinha? Está satisfeita? 
Cegonha: Estou bem, estou, comadre raposa! Estava tudo muito bom! 
Raposa: Então, sendo assim, se comeu bem e não quer comer nem beber mais nada, vou bater uma soneca aqui dentro da minha raposeira, porque comi tanto que, agora preciso de descansar! 
A comadre cegonha estava quase a estourar de raiva, mas aguentou-se sem armar espalhafato e, antes da comadre raposa entrar para a raposeira agradeceu o banquete e disse: 
Cegonha: Muito  obrigada comadre raposa, nunca tinha assistido a um banquete como este, estava tudo muito bom, agora é minha obrigação retribuir este banquete, por isso, se estiver de acordo, amanhã vai jantar (almoçar) ao meu cegonheiro que, é a minha vez de fazer lá um banquete para nós! 
A comadre raposa como era manhosa e estava de barriga bem cheia, pensou que, se fosse no dia seguinte comia pouco, mas se fosse no outro dia, já era diferente, porque no dia anterior não comia nada e depois, comia tudo à comadre cegonha, então respondeu: 
Raposa: Oh comadre cegonha, agradeço muito o seu convite, mas amanhã já tenho compromisso, por acaso, é outro banquete de arromba, por isso, se não lhe causar incómodo, eu vou no outro dia! 
Cegonha: Está bem, comadre raposa, fica para sexta feira, ao meio dia em ponto, esteja lá no meu cegonheiro! 
A comadre cegonha, bateu as asas e foi procurar alguma coisa para comer, porque, ia cheia de fome! A comadre raposa ficou a cantar e a dançar de contente, tinha enganado a comadre cegonha e ainda por cima, a ia enganar outra vez! 
Na sexta-feira ao meio dia lá estava a comadre raposa à porta do cegonheiro da comadre cegonha, já estava a mesa posta com o mesmo requinte como tinha sido presenteada pela comadre raposa, a qual estava com uma fome que já via mal, foi muito bem recebida pela comadre cegonha que lhe disse: 
Cegonha: Obrigada comadre raposa pela sua pontualidade! O nosso banquete está pronto a servir, não sei se já tem apetite? Eu por acaso ainda não, por isso, se quiser podemos esperar mais um pouco até chegar-nos fome? 
Raposa: Oh comadre cegonha, eu de verdade ainda nem tenho fome, tenho comido muito bem nos últimos tempos, mas estou metida num compromisso ao qual não posso faltar de maneira nenhuma, tudo pela minha honra, então, se não se importasse vamos já ao banquete, mesmo que coma menos! 
Cegonha: Oh comadre raposa, primeiro que tudo a nossa honra, vou já buscar as comidas! 
A comadre cegonha entrou no cegonheiro e começou a trazer a comida para a mesa, era quase líquida e servida dentro de jarros com o gargalo alto e estreito! A comadre cegonha metia o bico e limpava tudo, a comadre raposa estava cheia de fome, mas apenas lambia algumas gotas que caiam do bico da cegonha! 
A comadre cegonha fez extamente à comadre raposa o que ela lhe tinha feito, acabaram o banquete e a comadre raposa ficou cheia de fome! Despediram-se, a comadre raposa agradeceu e seguiu para os lados da sua raposeira, cheia de fraqueza, de rabo caído pelo chão! 
Os outros animais ali residentes que, tinham assistido à situação, saíram-lhe ao caminho a zombar dela e disseram-lhe: "Nunca aprendes, raposa manhosa, nunca te esqueças: "Não faças aos outros, o que não queres que te façam a ti", mas ela ia com tanta fome que, nem lhe ligava, foi dali procurar alguma coisa para comer! 
A comadre cegonha, nunca mais aceitou convites da parte da comadre raposa e, continuou a sua vida muito pacata, pelo vale da Ribeira de Lucefécit. 

Fim 


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