567 - Terras de Capelins
História, lendas e tradições das terras de Capelins
A lenda do ti Francisco António, do ti António Francisco e do Mestre Batista
O ti Francisco António e o seu irmão, o ti António Francisco, eram ambos seareiros, o ti Francisco residia em Capelins de Baixo e o ti António residia em Montejuntos!
O ti Francisco António, além de seareiro tinha um pequeno rebanho de ovelhas que, ajudavam muito na economia familiar, davam lã, borregos e leite, com o qual e com mais algum que comprava fazia "alavão", fabricando queijos e almeice!
O seu irmão, o ti António Francisco, tinha uma vida económica mais difícil, não tinha gado, semeava trigo, aveia, cevada, centeio, tremoços, favas e grão de bico, mas quando vinham maus anos agrícolas as colheitas eram tão fracas que não davam para pagar as despesas! Tinha umas oliveiras que lhe davam azeitona para trocar por azeite e, em alguns anos de melhor colheita, vendia alguns quilos de azeitona que ajudavam a equilibrar as contas, mas era o irmão, o ti Francisco António que lhe valia, estava sempre a emprestar-lhe dinheiro!
Decorria o ano de mil novecentos e sessenta e oito, um ano muito seco, logo, muito mau para os cereais, fizeram a ceifa, as eiras e venderam os cereais, os que podiam vender, porque tinham de guardar algum trigo para mandar fazer farinha e o pão que alimentava a família o ano todo e ainda algum trigo para voltar a semear em finais de Outubro!
O ti António Francisco, de Montejuntos, vendeu os cereais que podia vender e, o dinheiro mal deu para pagar as dívidas ao irmão, na mercearia e outras, como acontecia com a maior parte dos seareiros das terras de Capelins!
O ti António era muito aficionado e soube a composição do cartel da "corrida" de 15 de Agosto em Reguengos de Monsaraz, concluindo que não podia faltar! Uns dias antes da feira de Santa Maria, começou a dar voltas à cabeça como seria a maneira de pedir dinheiro emprestado ao irmão para poder ir à "corrida", lá pensou, foi ter com ele,cumprimentou-o e disse-lhe:
Ti António: Boa tarde irmão! Deus te abençoe!
Ti Francisco: Boa tarde irmão! A ti também! Então, o que andas fazendo?
Ti António: Olha, irmão, vinha falar contigo! Sabes, a minha Gertrudes não se anda a sentir bem e quero ir mostrá-la ao Dr. Jeremias lá a Vila Viçosa!
Ti Francisco: Oh diacho! Então, e do que é que ela se queixa?
Ti António: De dores, irmão, de muitas dores no corpo todo, mais nas cruzes, nem se consegue endireitar!
Ti Francisco: Olha lá, irmão, telefona lá para Vila Viçosa que ele vem cá a casa no carrinho dele!
Ti António: Não, irmão, isso não pode ser, não pode ser, porque ele não pode trazer o aparelho que tem lá na consulta, aquele que mete as pessoas lá dentro e vê logo o que elas têm!
Ti Francisco; Ah sim, irmão, tens toda a razão! Então e o que precisavas de mim?
Ti António: Oh irmão, tu sabes que o ano correu-me muito mal! Vá lá, ainda paguei as dívidas todas, mas fiquei limpinho, então precisava que me emprestasses quinhentos mil réis! Eu tenho os tremoços e alguns grãos para vender, assim que os vender pago-te logo!
Ti Francisco: Eh irmão, eu tenho algum dinheiro, mas tenho muitas despesas com as ovelhas, ainda mais com este ano tão seco, vê lá se te remedeias com duzentos ou trezentos mil réis!
Ti António: Não sei irmão, não sei, tenho de pagar o carro de praça do Alandroal, a consulta, as mezinhas e quem sabe o quê mais, tens de me emprestar os quinhentos mil réis!
Ti Francisco: Pronto irmão, se é isso que precisas, vamos lá a casa e já os levas!
Entraram em casa do ti Francisco, ele foi ao quarto buscar os quinhentos mil réis, entregou-os ao ti António, falaram mais um pouco e voltou para Montejuntos!
Antes da feira, alguns vizinhos do ti Francisco, também seareiros, começaram a dizer-lhe que tinha de ir com eles à feira de Santa Maria que, era na quinta feira dia 15 de Agosto, não podia faltar à "Corrida" (tourada), porque os toureiros eram o Mestre Batista e o seu "rival" Luís Miguel da Veiga! O ti Francisco dizia que não, porque já tinha ideia de ir à feira de Vila Viçosa, no dia 29 desse mês, mas de verdade era uma pena perder aquela "corrida", por isso, no dia anterior chamou o neto Francisco, com cerca de 15 anos, que já era grande aficionado e disse-lhe para se preparar que no dia seguinte, logo de madrugada, por causa do calor, iam até Reguengos de Monsaraz, à feira mas, principalmente à "corrida" que, começava às cinco da tarde! O neto Francisco, ficou doido de contente, já conhecia o cartel da corrida e, até já tinha sonhado com a mesma! Pensou, não havia um outro avô como aquele!
Às cinco da manhã do dia 15 de Agosto, conforme estava combinado com alguns vizinhos, seguiram pela estrada de Ferreira-Terena, mas logo a seguir ao Monte de Igreja, viraram para o lado do Monte da Sina, foram entrar na estrada de Reguengos ao cruzamento de Santa Clara para Cabeça de Carneiro! O neto Francisco, ainda passou pelas brasas e, já estavam passando Santiago Maior, quando se fez dia! Pelas oito horas da manhã estavam a entrar na Estalagem, onde deixaram a mula e a charrete!
Assim que arrumaram tudo, foram logo comprar os bilhetes para a "corrida", havia de vários preços, para a sombra, para o sol e sombra e, para o sol, estes eram os mais baratos! O ti Francisco, trocou impressões com o neto, se compravam bilhetes para o sol e sombra ou para o sol? A diferença dos preços ainda era grande, então, decidiram comprar bilhetes para o sol, se andavam sempre ao sol e a trabalhar, agora para um divertimento iam comprar bilhetes para a sombra? Estava decidido, como sempre, eram bilhetes para o sol! O neto, até gostava de ir para a sombra, mas não queria abusar, porque iam a quase todas as corridas das redondezas!
Pelas dezasseis horas, foram-se aproximando da Praça de touros, para ver os cavalos de toureio e todo aquele mundo, mas assim que as pessoas começaram a fazer ajuntamento às portas de entrada, lá foram eles, para arranjar um bom lugar e, acabaram por entrar mais cedo do que esperavam! Foram escolher o lugar, mas assim que se sentaram tiveram de se levantar imediatamente, porque, o assento estava em brasa, queimando-lhe as nádegas, era impossível estar ali debaixo daquele sol, deviam estar mais de 40 graus C, mas mesmo assim, não podiam deixar os lugares! O ti Francisco dizia ao neto:
Ti Francisco: Eh neto, onde nós nos viemos meter! A gente morremos aqui queimados!
Neto: Oh avô, temos andado sempre debaixo deste sol e aguentamos sempre! Daqui a pouco chega cá a sombra!
Ti Francisco: Chega, chega, neto, lá para as oito horas, quando acabar a "corrida" ! Olha, agora temos de aguentar, assim em pé estamos melhor e guardamos o lugar!
Neto: Eu aguento, avô, o que a gente aqui vai ver, compensa isto, nem vamos sentir o calor!
Ti Francisco: Não sentimos, não! Olha que se apanhamos alguma insolação acaba-nos com a cabeça, podemos ficar maluquinhos para sempre!
Neto: Veja lá avô, a gente temos chapéu, por isso, o sol não nos assenta na moleirinha!
Ti Francisco: Então, se não fosse o chapéu, decerto apanhavamos uma insolação e assim, deixa lá ver! Eh lá, eh lá, olha o que eu estou a vendo neto! Olha além o meu dinheirinho! Olha lá onde está o meu dinheirinho!
Neto: Oh avô da minha alma, esteja calado, olhe as pessoas a olhar, tem o chapéu bem posto na cabeça? Ou deu-lhe o sol na moleirinha?
Ti Francisco: Não me deu sol na moleirinha, não, neto! Mas olha lá onde está o meu dinheiro, não o vês, neto?
Neto: Oh valha-me Deus, avô! Está com insolação? Não vejo dinheiro nenhum, vejo os preparativos para a "Corrida" os forcados e os bandarilheiros a observar se está tudo em ordem na Praça!
Ti Francisco. Oh neto, não é dentro do redondel, olha lá em frente, além à sombra, no meio dos lavradores e dos endinheirados, não vês lá ninguém conhecido?
Neto: Ah, além em frente! Só vejo lavradores com os seus grandes chapéus à lavrador! Espere lá avô, espere lá! Parece-me que vejo lá o seu irmão António armado em lavrador! Pois é, é mesmo ele! Oh avô e o que tem isso a ver com o seu dinheinho?
Ti Francisco: Oh neto, é que ele foi pedir-me quinhentos mil réis emprestados para ir mostrar a ti Gertrudes ao Dr. Jeremias e foi tudo uma mentira! Vê tu bem aquele displante!
Neto: Deixe lá avô, ele paga-lhe! Se o gasta mal, é lá com ele! Vamos ver a corrida com atenção e não pense mais nisso!
Ti Francisco: Ah penso, penso! Caramba, uma pessoa ainda tem honra! Mesmo pagando, não deixa de ser um aldrabão! Quando a "corrida" acabar, logo o encosto à parede!
A tourada foi um espetáculo memorável, Mestre Batista, ou por estar na sua terra (Campo) ou por estar perante o seu "rival" ou as duas situações, toureou como nunca e, Luís Miguel da Veiga, não ficou atrás!
Assim que a tourada terminou, o ti Francisco e o neto sairam da Praça de touros e foram a correr para a porta da "Sombra", tiveram de contornar quase todo o movimentado redondel e, quando chegaram não viram sinais do ti António, perderam algum tempo a procurá-lo por ali, mas não o encontraram, desistiram e foram andando pela feira, encontraram pessoas conhecidas e procuraram se tinham visto o ti António, mas as respostas eram todas negativas! Encontraram uns vizinhos dele e fizeram a mesma pergunta, mas eles responderam que não o tinham visto por ali e nem o podiam ver, porque ele não tinha vindo à feira! Quando o ti Francisco comentou: " Ah pois, a minha cunhada está muito mal, tinha de ir ao Dr. Jeremias"! Os vizinhos, comentaram que devia haver algum engano, porque tinham falado com ela no dia anterior e ela andava muito bem!
O ti Francisco e o neto que, já estavam desconfiados se teriam apanhado alguma insolação e ambos tinham tido uma visão, a de ter visto o ti António na Praça de touros, armado em lavrador, mais desconfiados ficaram! Parecia impossível, como é que só eles o tinham visto? Despediram-se e continuaram apreciando a feira, mas deixaram de perguntar pelo ti António! Foram dali, para uma "Barraca de comes e bebes", mandaram vir um petisco, meio litro de vinho e uma gasosa, quando estavam na petisqueira chegaram umas pessoas conhecidas que os cumprimentaram e disseram-lhe que tinham estado a falar com o seu irmão o ti António! O ti Francisco, quase se engasgou e insistiu a perguntar, se seria mesmo o seu irmão António? Os outros, ficaram admirados com a pergunta e responderam: Caramba, ti Francisco, está a duvidar de nós? E continuaram: Ele veio já à última hora, sozinho, montado na mula, veja lá coitado, como veio tarde, já não havia bilhetes para o "sol" teve de comprar um bilhete de "Sombra" e ir para o meio dos lavradores e dos endinheirados, mas teve de ser, teve de ser! Assim que acabou a corrida, abalou logo para Montejuntos aí direito à Aldeia de Mato! O ti Francisco disfarçou dizendo: Ah, por isso é que não o vi!
O ti Francisco comentou com o neto: "Estás a ver neto, tivemos pressa em o julgar, afinal ele veio de tão longe, como não havia bilhetes para o sol, foi obrigado a ir para a sombra!
O neto, ainda comentou: "Pois é avô e nós que viemos de tão longe e tão cedo, fomos obrigados a ir para o sol! Este Mundo não se entende!
Mesmo assim, o ti Francisco não gostou de ter sido enganado pelo irmão e, quando ele lhe foi pagar a dívida, não conseguiu passar sem o admoestar! Ele, apenas lhe respondeu: "Tive vergonha de te pedir o dinheiro emprestado para ir ver o Mestre Batista"!
A mentira ficou esquecida e, a ti Gertrudes de boa saúde.
Fim




