565 - Terras de Capelins
História, lendas e tradições das terras de Capelins
A Fábula da comadre raposa e do compadre galo das terras de Capelins
Desde sempre, existiram muitas raposas nas terras de Capelins, devido às características do terrreno, existência de muitos cursos de água, silvados e matos de estevas e outros arbustos, onde as mesmas constroem as raposeiras, ou seja, tocas para criação e esconderijo!
No tempo em que os animais falavam, habitava uma raposa na sua raposeira na herdade do Roncão, perto da Ribeira de Lucefécit, era conhecida por todos os animais da região, tinha o seu território demarcado dentro do qual ficava o Monte do Roncão, onde ela de quando em quando fazia algumas investidas, mas era sempre mal sucedida, porque o lavrador tinha uma espingarda e, sempre que ela se aventurava a aproximar-se do dito Monte era recebida com chumbo que, já por várias vezes o tinha ouvido zumbir muito perto das orelhas, mas a comadre raposa tinha a memória curta e sempre que andava enjoada dos coelhinhos, ou que havia mais escassez, lá ia ela tentar a sua sorte! Um dia a comadre raposa aproximou-se do Monte e viu um galo muito pomposo com uma linda plumagem e muito gordinho, ficou extasiada com aquela visão e exclamou: "Dê por onde der, este galo tem de ser meu, isto é o banquete da minha vida", mas como avistou o lavrador em frente ao Monte, baixou as orelhas, amagou-se e foi deslizando pelo Ribeiro do Carrão abaixo, dando voltas à cabeça a pensar a maneira de apanhar o galo!
A comadre raposa, entrou na raposeira, adormeceu e começou a sonhar com o galo do Monte do Roncão, com um grande banquete, mas de repente, o sonho passou a pesadelo, naquele momento, viu o lavrador com a espingarda apontada a pouco mais de um metro, era impossível escapar, quando ele puxou o gatilho ela acordou aterrorizada! Ainda disse: "Que se lixe o galo, primeiro está a minha vida", já não vou ao Monte do Roncão, está lá um grande perigo! Não vou, não!
A partir daquele dia, sempre que a comadre raposa fechava os olhos para descansar começava logo a sonhar com o lindo galo do Monte do Roncão e tornou-se uma obsessão, até que, teve de lá ir vê-lo! Foi um dia, foi dois, foi três, já não saia do lugar de onde avistava o galo, estavam lá os cães, mas já pouco ligavam à comadre raposa, o maior perigo estava no lavrador e pensava: "Se um dia, eles se afastassem algumas horas do Monte, decerto, o galo não escapava!
A comadre raposa não fazia mais nada, senão admirar o galo e espreitar o lavrador com esperança, ou que o galo se descuidasse e se afastasse do Monte, ou que fosse o lavrador a fazer isso!
Um dia, quando a comadre raposa se dirigia para o lugar de onde espreitava o galo, viu o lavrador e a Família muito bem vestidos, de saída na charrete, pensou logo que, iam para algum casamento, mas para ter certeza que ficava livre de perigo, correu até ao outeiro do Carrão para ver o caminho que levavam, concluindo que, não havia perigo nenhum, mas teve azar, o galo sabia que ela andava por ali todos os dias, porque ao espreitar, as orelha traíam-na, antes de ela poder observar as voltas do galo, já ele lhe tinha visto as orelhas espetadas atrás de uma rocha e nesse dia quando ela subiu ao outeiro do Carrão, o galo viu-a e adivinhou o que se ia passar, escarapantou-se e mandou recolher as galinhas e os pintos todos ao galinheiro e ele subiu para a parreira que estava à porta do Monte do Romcão!
A comadre raposa chegou ao Monte já a lamber-se, a saborear o galo, mas estava tudo deserto de galináceos, ficou admirada e começou a olhar para todos os lados a tentar perceber o que se passava, mas não, não percebia, procurou, procurou e por fim pensou que os lavradores antes de partir tinham encerrado os galinácios no galinheiro, só podia ser isso! Estava aborrecida e de cabeça caída, quando ouviu o galo, até deu um salto:
Galo: Boa tarde, comadre raposa! O que fazes por aqui?
Raposa: Boa tarde compadre galo! Olha ia passando por aqui e lembrei-me de te vir cumprimentar!
Galo: Oh comadre raposa, tu vieste aqui cumprimentar-me ou vieste para me comer?
Raposa: Para te comer compadre galo? Que conversa é essa? Então, tu não sabes da lei que saiu agora?
Galo: Não sei cá de lei nenhuma, então o que diz essa lei?
Raposa: Pois olha, só tu é que não sabes, ela é muito rigorosa, e diz que os animais são todos amigos, não podem fazer mal uns aos outros, por isso, desce daí que eu não te posso fazer mal!
Galo: Não, não, eu não acredito em ti, tu és muito manhosa!
O galo para ver o que ela fazia colheu uma parra e atirou-a lá de cima, a raposa pensando que era ele que tinha descido da parreira, atirou-se à parra com uma ferocidade que a esfarrapou toda!
Galo: Então comadre raposa, não me fazias mal, mas quando pensaste que era eu, caíste logo em cima da parra, olha se fosse eu!
Raposa: Oh compadre galo, não te vou mentir, pensei que fosses tu que tivesses caído da parreira e fui a correr a tentar apanhar-te para não te aleijares!
Galo: Não acredito em ti comadre raposa, então se queres falar comigo, podes falar daí que, eu respondo aqui de cima!
Raposa: Oh compadre galo, não é a mesma coisa, desce daí para falarmos e brincarmos, com esta lei, eu não te posso fazer mal!
Galo: Nem penses nisso comadre raposa! Olha, não estás a ouvir tiros e cães a ladrar? Estou a ver daqui uma linha de caçadores e uma matilha de cães que vêm seguindo o teu rasto e direitinhos aqui!
Raposa: Deixas-os vir compadre galo, com esta lei não me podem fazer mal! Desce daí e vamos brincar!
Galo: Comadre raposa, os cães estão a chegar aqui ao Monte e os caçadores vêm logo atrás! Vai-te embora!
Raposa: Deixa-os vir, já te disse que com esta lei, os animais não fazem mal uns aos outros!
A raposa já nem teve tempo de acabar a frase, os cães já estavam a poucos metros, ficou aflita e começou a correr, o galo ainda lhe gritou: Não fujas comadre raposa! Mostra-lhe a lei! A raposa, já à distância, ainda respondeu: A lei já acabou compadre galo! Naquele momento, dois caçadores dispararam as espingardas, mas por sorte dela, nesse momento desapareceu atrás da rocha onde se escondia para espreitar o galo e foi aí que os tiros acertaram, ainda lhe caíram alguns bagos de chumbo em cima, mas não a feriram! Os cães não desistiram e quase a apanharam, meteu-se por dentro dos silvados do Ribeiro do Carrão e foi furando até chegar à raposeira! Quando chegou, as pernas tremiam-lhe que não se segurava nelas e o coração batia tanto que quase estourava! Os cães só desistiram quando os caçadores os chamaram, ficando, então, a comadre raposa livre de perigo!
Depois do perigo passar, a comadre raposa nem acreditava que estava viva, então, bateu três vezes com a pata no chão e jurou que, nunca mais se aproximava do Monte do Roncão, porque, aquele galo, não estava ao seu alcance e, nunca mais daria o salto maior do que as pernas.
Fim





