sábado, 22 de junho de 2019

565 - Terras de Capelins 
História, lendas e tradições das terras de Capelins 
A Fábula da comadre raposa e do compadre galo das terras de Capelins 
Desde sempre, existiram muitas raposas nas terras de Capelins, devido às características do terrreno, existência de muitos cursos de água, silvados e matos de estevas e outros arbustos, onde as mesmas constroem as raposeiras, ou seja, tocas para criação e esconderijo! 
No tempo em que os animais falavam, habitava uma raposa na sua raposeira na herdade do Roncão, perto da Ribeira de Lucefécit, era conhecida por todos os animais da região, tinha o seu território demarcado dentro do qual ficava o Monte do Roncão, onde ela de quando em quando fazia algumas investidas, mas era sempre mal sucedida, porque o lavrador tinha uma espingarda e, sempre que ela se aventurava a aproximar-se do dito Monte era recebida com chumbo que, já por várias vezes o tinha ouvido zumbir muito perto das orelhas, mas a comadre raposa tinha a memória curta e sempre que andava enjoada dos coelhinhos, ou que havia mais escassez, lá ia ela tentar a sua sorte! Um dia a comadre raposa aproximou-se do Monte e viu um galo muito pomposo com uma linda plumagem e muito gordinho, ficou extasiada com aquela visão e exclamou: "Dê por onde der, este galo tem de ser meu, isto é o banquete da minha vida", mas como avistou o lavrador em frente ao Monte, baixou as orelhas, amagou-se e foi deslizando pelo Ribeiro do Carrão abaixo, dando voltas à cabeça a pensar a maneira de apanhar o galo! 
A comadre raposa, entrou na raposeira, adormeceu e começou a sonhar com o galo do Monte do Roncão, com  um grande banquete, mas de repente, o sonho passou a pesadelo, naquele momento, viu o lavrador com a espingarda apontada a pouco mais de um metro, era impossível escapar, quando ele puxou o gatilho ela acordou aterrorizada! Ainda disse: "Que se lixe o galo, primeiro está a minha vida", já não vou ao Monte do Roncão, está lá um grande perigo! Não vou, não! 
A partir daquele dia, sempre que a comadre raposa fechava os olhos para descansar começava logo a sonhar com o lindo galo do Monte do Roncão e tornou-se uma obsessão, até que, teve de lá ir vê-lo! Foi um dia, foi dois, foi três, já não saia do lugar de onde avistava o galo, estavam lá os cães, mas já pouco ligavam à comadre raposa, o maior perigo estava no lavrador e pensava: "Se um dia, eles se afastassem algumas horas do Monte, decerto, o galo não escapava! 
A comadre raposa não fazia mais nada, senão admirar o galo e espreitar o lavrador com esperança, ou que o galo se descuidasse e se afastasse do Monte, ou que fosse o lavrador a fazer isso! 
Um dia, quando a comadre raposa se dirigia para o lugar de onde espreitava o galo, viu o lavrador e a Família muito bem vestidos, de saída na charrete,  pensou logo que, iam para algum casamento, mas para ter certeza que ficava livre de perigo, correu até ao outeiro do Carrão para ver o caminho que levavam, concluindo que, não havia perigo nenhum, mas teve azar, o galo sabia que ela andava por ali todos os dias, porque ao espreitar, as orelha traíam-na, antes de ela poder observar as voltas do galo, já ele lhe tinha visto as orelhas espetadas atrás de uma rocha e nesse dia quando ela subiu ao outeiro do Carrão, o galo viu-a e adivinhou o que se ia passar, escarapantou-se e mandou recolher as galinhas e os pintos todos ao galinheiro e ele subiu para a parreira que estava à porta do Monte do Romcão! 
A comadre raposa chegou ao Monte já a lamber-se, a saborear o galo, mas estava tudo deserto de galináceos, ficou admirada e começou a olhar para todos os lados a tentar perceber o que se passava, mas não, não percebia, procurou, procurou e por fim pensou que os lavradores antes de partir tinham encerrado os galinácios no galinheiro, só podia ser isso! Estava aborrecida e de cabeça caída, quando ouviu o galo, até deu um salto: 
Galo: Boa tarde, comadre raposa! O que fazes por aqui? 
Raposa: Boa tarde compadre galo! Olha ia passando por aqui e lembrei-me de te vir cumprimentar! 
Galo: Oh comadre raposa, tu vieste aqui cumprimentar-me ou vieste para me comer? 
Raposa: Para te comer compadre galo? Que conversa é essa? Então, tu não sabes da lei que  saiu agora? 
Galo: Não sei cá de lei nenhuma, então o que diz essa lei? 
Raposa: Pois olha, só tu é que não sabes, ela é muito rigorosa, e diz que os animais são todos amigos, não podem fazer mal uns aos outros, por isso, desce daí que eu não te posso fazer mal! 
Galo: Não, não, eu não acredito em ti, tu és muito manhosa! 
O galo para ver o que ela fazia colheu uma parra e atirou-a lá de cima, a raposa pensando que era ele que tinha descido da parreira, atirou-se à parra com uma ferocidade que a esfarrapou toda! 
Galo: Então comadre raposa, não me fazias mal, mas quando pensaste que era eu, caíste logo em cima da parra, olha se fosse eu! 
Raposa: Oh compadre galo, não te vou mentir, pensei que fosses tu que tivesses caído da parreira e fui a correr a tentar apanhar-te para não te aleijares! 
Galo: Não acredito em ti comadre raposa, então se queres falar comigo, podes falar daí que, eu respondo aqui de cima! 
Raposa: Oh compadre galo, não é a mesma coisa, desce daí para falarmos e brincarmos, com esta lei, eu não te posso fazer mal! 
Galo: Nem penses nisso comadre raposa! Olha, não estás a ouvir tiros e cães a ladrar? Estou a ver daqui uma linha de caçadores e uma matilha de cães que vêm seguindo o teu rasto e direitinhos aqui! 
Raposa: Deixas-os vir compadre galo, com esta lei não me podem fazer mal! Desce daí e vamos brincar! 
Galo: Comadre raposa, os cães estão a chegar aqui ao Monte e os caçadores vêm logo atrás! Vai-te embora!  
Raposa: Deixa-os vir, já te disse que com esta lei, os animais não fazem mal uns aos outros! 
A raposa já nem teve tempo de acabar a frase, os cães já estavam a poucos metros, ficou aflita e começou a correr, o galo ainda lhe gritou: Não fujas comadre raposa! Mostra-lhe a lei! A raposa, já à distância, ainda respondeu: A lei já acabou compadre galo! Naquele momento, dois caçadores dispararam as espingardas, mas por sorte dela, nesse momento desapareceu atrás da rocha onde se escondia para espreitar o galo e foi aí que os tiros acertaram, ainda lhe caíram alguns bagos de chumbo em cima, mas não a feriram! Os cães não desistiram e quase a apanharam, meteu-se por dentro dos silvados do Ribeiro do Carrão e foi furando até chegar à raposeira! Quando chegou, as pernas tremiam-lhe que não se segurava nelas e o coração batia tanto que quase estourava! Os cães só desistiram quando os caçadores os chamaram, ficando, então, a comadre raposa livre de perigo! 
Depois do perigo passar, a comadre raposa nem acreditava que estava viva, então, bateu três vezes com a pata no chão e jurou que, nunca mais se aproximava do Monte do Roncão, porque, aquele galo, não estava ao seu alcance e, nunca mais daria o salto maior do que as pernas.

Fim  



564 - Terras de Capelins 
História, lendas e tradições das terras de Capelins
A Fábula da comadre raposa e da comadre cegonha das terras de Capelins 
Após a saída do compadre lobo, para as terras de Santa Luzia, do lado de lá da Ribeira de Lucefécit, a comadre raposa ficou na sua raposeira, perto do Bufo, pregando pirraças aos animais da vizinhança! 
Um dia, à tardinha, depois de se certificar que, havia segurança, a comadre raposa estava descendo a Ribeira de Lucefécit na direção das terras do Roncão, quando encontrou a comadre cegonha que andava pelas margens da Ribeira à procura da ceia! A comadre raposa, sempre manhosa, como ainda não tinha enganado nenhum animal nesse dia, pensou logo que, seria a comadre cegonha a cair nas suas patranhas e disse-lhe:
Raposa: Boa tarde comadre cegonha! Também anda à procura da ceia? 
Cegonha: Boa tarde comadre raposa! De verdade ando à procura da ceia, mas não está fácil, andam muitos animais por aqui à procura do mesmo! 
Raposa: Oh comadre cegonha, não se aflija lá com isso, se estiver de acordo, eu amanhã faço lá um banquete para a gente as duas na minha raposeira, fica convidada para ir lá encher a barriguinha! 
A cegonha, como já há uns dias que andava a passar mal, nem pensou duas vezes e respondeu à raposa: 
Cegonha: Pois olhe comadre raposa, não lhe vou dizer que não! Por aqui, isto não está fácil, não posso recusar o seu convite! Diga lá, a que horas lá me quer? 
Raposa: Esteja lá na minha raposeira ao meio dia em ponto, comadre cegonha! Ao meio dia em ponto, estará tudo pronto para o banquete! 
Cegonha: Está combinado, comadre raposa, ao meio dia em ponto lá estarei! 
A comadre raposa seguiu o seu caminho e, a comadre cegonha ficou a pensar no banquete preparado pela comadre raposa, estava desconfiada, mas não tinha nada a perder, com o banquete certo, já não se esforçou muito para apanhar alguma coisa mais consistente para a ceia, no dia seguinte logo tirava a barriga de miséria lá na raposeira! 
Alguns animais que andavam por ali, ouviram a conversa entre as duas, prontificaram-se a alertar a cegonha para abrir bem os olhos e ver onde se ia meter, mas a comadre cegonha, mesmo sabendo que, a comadre raposa não era de confiança, achou que, não podia correr mal! 
Não dormiu muito bem, toda a noite a sonhar com o grande banquete na raposeira e, no dia seguinte ao meio dia em ponto, a comadre cegonha depois de fazer alguns voos rasantes para observar se estava tudo normal, pousou à porta da raposeira, onde a mesa já estava posta com requinte e cheirava a boa comida! A comadre raposa veio logo recebê-la com grande simpatia, deu-lhe as boas vindas, agradeceu a pontualidade e disse-lhe: 
Raposa: Obrigado comadre cegonha, por aceitar o meu convite, como vê, está tudo pronto para o nosso banquete! Por acaso, já está com fome? 
Cegonha: Obrigado, comadre raposa, por esta receção, vejo que há aqui grande requinte da sua parte! Olhe, por acaso já jantava (almoçava), há dois dias que pouco tenho comido! 
Raposa: Então, hoje tira a barriguinha de miséria, o que não me falta aqui é comida, nunca a acabo! Vamos a ela! 
A comadre raposa, feita manhosa,  começou a trazer a comida para a mesa, mas toda muito líquida em pratos rasos, sobre os quais, passava a lingua, limpava tudo! A comadre cegonha batia com o grande bico no prato, mas não apanhava nada e a comadre raposa para zombar com ela, dizia-lhe: 
Raposa: Então comadre cegonha, a comidinha não está a seu gosto? Ou tem pouca vontade? 
Cegonha: Vai-se comendo, comadre raposa, vai-se comendo! 
Mas a verdade é que, a comadre cegonha não conseguia apanhar nada e estava com muita fome! 
A comadre raposa, lambeu os pratos todos e começou a levantar a mesa! A comadre cegonha, muito aflita dava bicadas no prato, mas quanto mais debicava menos comia, já envergonhada, teve de desistir, porque a comadre raposa já tinha a mesa limpa e passava a pata pela barriga dizendo: 
Raposa: Que belo jantar (almoço)! Há muito tempo que não comia um banquete destes! E você comadre cegonha, o que me diz? Gostou do banquete? Encheu bem a barriguinha? Está satisfeita? 
Cegonha: Estou bem, estou, comadre raposa! Estava tudo muito bom! 
Raposa: Então, sendo assim, se comeu bem e não quer comer nem beber mais nada, vou bater uma soneca aqui dentro da minha raposeira, porque comi tanto que, agora preciso de descansar! 
A comadre cegonha estava quase a estourar de raiva, mas aguentou-se sem armar espalhafato e, antes da comadre raposa entrar para a raposeira agradeceu o banquete e disse: 
Cegonha: Muito  obrigada comadre raposa, nunca tinha assistido a um banquete como este, estava tudo muito bom, agora é minha obrigação retribuir este banquete, por isso, se estiver de acordo, amanhã vai jantar (almoçar) ao meu cegonheiro que, é a minha vez de fazer lá um banquete para nós! 
A comadre raposa como era manhosa e estava de barriga bem cheia, pensou que, se fosse no dia seguinte comia pouco, mas se fosse no outro dia, já era diferente, porque no dia anterior não comia nada e depois, comia tudo à comadre cegonha, então respondeu: 
Raposa: Oh comadre cegonha, agradeço muito o seu convite, mas amanhã já tenho compromisso, por acaso, é outro banquete de arromba, por isso, se não lhe causar incómodo, eu vou no outro dia! 
Cegonha: Está bem, comadre raposa, fica para sexta feira, ao meio dia em ponto, esteja lá no meu cegonheiro! 
A comadre cegonha, bateu as asas e foi procurar alguma coisa para comer, porque, ia cheia de fome! A comadre raposa ficou a cantar e a dançar de contente, tinha enganado a comadre cegonha e ainda por cima, a ia enganar outra vez! 
Na sexta-feira ao meio dia lá estava a comadre raposa à porta do cegonheiro da comadre cegonha, já estava a mesa posta com o mesmo requinte como tinha sido presenteada pela comadre raposa, a qual estava com uma fome que já via mal, foi muito bem recebida pela comadre cegonha que lhe disse: 
Cegonha: Obrigada comadre raposa pela sua pontualidade! O nosso banquete está pronto a servir, não sei se já tem apetite? Eu por acaso ainda não, por isso, se quiser podemos esperar mais um pouco até chegar-nos fome? 
Raposa: Oh comadre cegonha, eu de verdade ainda nem tenho fome, tenho comido muito bem nos últimos tempos, mas estou metida num compromisso ao qual não posso faltar de maneira nenhuma, tudo pela minha honra, então, se não se importasse vamos já ao banquete, mesmo que coma menos! 
Cegonha: Oh comadre raposa, primeiro que tudo a nossa honra, vou já buscar as comidas! 
A comadre cegonha entrou no cegonheiro e começou a trazer a comida para a mesa, era quase líquida e servida dentro de jarros com o gargalo alto e estreito! A comadre cegonha metia o bico e limpava tudo, a comadre raposa estava cheia de fome, mas apenas lambia algumas gotas que caiam do bico da cegonha! 
A comadre cegonha fez extamente à comadre raposa o que ela lhe tinha feito, acabaram o banquete e a comadre raposa ficou cheia de fome! Despediram-se, a comadre raposa agradeceu e seguiu para os lados da sua raposeira, cheia de fraqueza, de rabo caído pelo chão! 
Os outros animais ali residentes que, tinham assistido à situação, saíram-lhe ao caminho a zombar dela e disseram-lhe: "Nunca aprendes, raposa manhosa, nunca te esqueças: "Não faças aos outros, o que não queres que te façam a ti", mas ela ia com tanta fome que, nem lhe ligava, foi dali procurar alguma coisa para comer! 
A comadre cegonha, nunca mais aceitou convites da parte da comadre raposa e, continuou a sua vida muito pacata, pelo vale da Ribeira de Lucefécit. 

Fim 


quinta-feira, 20 de junho de 2019

563 - Terras de Capelins 
História, lendas e tradições das terras de Capelins 
A Fábula da comadre raposa e do compadre lobo nas terras de Capelins 
No tempo em que os animais falavam, numa noite de luar entremeada com algumas nuvens escuras, no mês de Março de um ano que já lá vai, depois da meia noite, ia uma raposa pela estrada do Monte de Ferreira para o Bufo a caminho da sua raposeira, ouvia-se o coaxar de rãs e o piar de uma ou outra ave noturna entre elas, corujas e noitibós, estes, teimavam em acompanhar a comadre raposa, denunciando a sua presença por aquele caminho, causando-lhe grande irritação, mas quanto mais ela lhe pedia para a deixarem em paz, mais eles a chateavam, chamando-lhe vaidosa, ladra, mentirosa, falsa e outras coisas semelhantes! 
Já perto da Ribeira de Lucefécit, antes de chegar ao Bufo, quando uma nuvem muito negra cobriu a lua deixando a Terra em penumbra, a comadre raposa apanhou o maior susto da sua vida, foi repentinamente barrada por umas grandes patas, uma à frente e outra atrás, sem hipótese de fuga e, ao mesmo tempo ouviu uma gargalhada que parecia sair das profundezas! 
A comadre raposa, ficou com o pelo em pé, toda arrepiada e exclamou em voz alta: "Meu Deus, é o Diabo"! Ouviu logo outra gargalhada igual e a mesma voz: "Qual Diabo, nem Diabo", sou eu, comadre raposa! Ah! És tu compadre lobo? Que susto me pregaste, estás bêbedo ou andas engripado? 
Lobo: Que conversa é essa comadre raposa? Eu sou lá lobo de me meter nos copos? E engripado, parece-me que também não ando! 
Raposa: Oh compadre lobo, não te pareça lá mal, mas essa tua voz não é a que eu conheço! 
Lobo: Pois não! Não é, nem podia ser, mas é a voz de zangado e bem zangado contigo, sabes bem a partida que me pregaste ontem ali em cima, ao pé do Monte do Escrivão! É por isso que, hoje vamos ajustar contas, sua malandra, grande malandra! 
Raposa: Calma lá compadre lobo, tu não tens vergonha de falar assim com uma raposa como eu? Tão séria, tão honesta! Se te fiz alguma partida, não foi por mal, isso não passou de uma brincadeira, nunca pensei que ficasses tão zangado, senão, nunca te fazia isso, compadre lobo! 
Lobo: Oh comadre raposa, o que tu me fizeste não se faz a um lobo como eu e ainda por cima, não foi a primeira vez, têm sido umas atrás de outras! Isto não pode continuar, tens que levar uma lição e vai ser hoje, porque os animais daqui, andam já todos a fazer pouco de mim, por causa de ti! 
Raposa: Oh compadre lobo, deixa-te lá disso, não te esqueças que já te livrei de muitos sarilhos, disso não te lembras? Pois, era bom que te lembrasses, porque não podes contar com os animais que andam por aí a fazer pouco de ti! Olha, se quiseres, podes dizer que me deste uma boa lição, eu estou uns dias sem aparecer aqui, vou dar umas voltas por Santa Luzia e depois, quando voltar, confirmo que foi verdade! 
Lobo: Não sei, comadre raposa, não sei! Eu tinha jurado que hoje te pregava uma grande sova, como é que vou faltar ao meu juramento? E o que ganho com isso? 
Raposa: Então, ganhas uma aliada, mas se me deres a sova, os animais não ficam a saber e continuam a fazer pouco de ti, porque eu vou dizer que foi mentira, depois já sabes que nunca mais contas comigo para nada, ficas sempre a perder! 
Lobo: Pensando bem, tens razão comadre raposa, mas toma atenção ao que vais fazer, porque, se me pregas mais alguma partida, já não te escapas! 
Raposa: Oh compadre lobo, eu sou uma raposa muito honesta, fica descansado que a partir de agora, entre nós é só o bem pelo bem e podes contar comigo para te ajudar em tudo o que precisares! Vá, tira lá as patas de cima de mim e deixa-me ir até à minha raposeira! 
Lobo: Está bem, ficamos assim, mas espera lá, enquanto estiveste aqui apernada cheirava-me tanto a queijo e, que bom queijo, passa-o para cá que estou cheio de fome! 
Raposa: É verdade, compadre lobo, tenho aqui um queijinho, só um, até podes ficar com ele, mas é tão pequeno que, nem te enche a cova de um dente, por isso, em vez deste, podes ter dez ou vinte ou até trinta, porque, de onde eu tirei este, há lá muitos, grande fartura e é aqui perto! 
Lobo: Olha lá, comadre raposa, tu não te esqueças que se me fizeres mais alguma partida já não te safas de levar uma grande sova! 
Raposa: Ora essa compadre lobo, até me ofendes, eu cumpro sempre as minhas promessas! 
Lobo: Bem! Sendo assim, se há lá muitos queijos, vamos lá, dizes-me onde é, e depois podes ir andando para a tua raposeira! 
Raposa: Então, anda lá compadre lobo, é aqui perto, ali na Ribeira de Lucefécit! Não sei como foram lá parar, mas deve ter sido algum almocreve que os perdeu ao passar a Ribeira! 
As nuvens tinham libertado a lua que, iluminava a Terra sem sombras, estava redondinha e bem refletida na água de um pego da Ribeira,  parecia mesmo um queijo! 
A comadre raposa chegou com o compadre lobo e, indicou-lhe o reflexo da lua dizendo: 
Raposa: Compadre lobo, tu estás a ver aquele queijo? Então, tiras um, fica outro, tiras outro, fica outro e sempre assim, até que queiras! 
Lobo: Mau, mau, mas os queijos estão dentro de água? Então, como é que eu lhe chego? 
Raposa: Oh compadre lobo, chegas-lhe bem, tens é que fazer o mesmo que eu fiz! Tu não me digas que és mais fraco do que eu? 
Lobo: Eu,  comadre raposa, mais fraco do que tu? Mas que conversa é essa? Já vais ver! 
O compadre lobo aproximou-se do pego e começou a beber a beber, água e mais água e a comadre raposa sempre a incentivá-lo, está quase compadre lobo, mas eu bebi muito mais! Estás muito fraquinho, muito fraquinho! O compadre lobo já estava rebentando, mas a comadre raposa dizia-lhe que, já estava mesmo a chegar aos queijos com a mão, era só mais uma pinga e ficava dono dos queijos todos! 
O compadre lobo continuou a beber água até cair desmaiado! A comadre raposa alçou o rabo e seguiu toda vaidosa para a sua raposeira, onde comeu o saboroso queijo que, tinha roubado no Monte de Ferreira, troçando do compadre lobo! 
Como os noitibós assistiram a tudo, foram chamar os animais da região, desde o Escrivão, Torre, Bufo, Chaparral e Monte de Ferreira, para verem o estado em que estava o compadre lobo, quando de madrugada, ele acordou do desmaio, estava cercado de animais a fazer pouco dele por, mais uma vez, ter sido enganado pela comadre raposa! 
O compadre lobo, ficou tão envergonhado, levantou-se, meteu o rabinho entre as pernas, passou a Ribeira do Lucefécit e, emigrou para Santa Luzia, nunca mais foi visto pelas terras de Capelins! 
A comadre raposa ficou por aqui, continuando a enganar os animais que nela acreditavam. 

Fim  



terça-feira, 18 de junho de 2019

562 - Terras de Capelins 
História, lendas e tradições das terras de Capelins
A Fábula do compadre mocho e da comadre raposa, no Baldio de Capelins 
O Baldio de Capelins, fica situado no espaço geográfico entre as Aldeias de Ferreira de Capelins e Cabeça de Carneiro, numa área de muito montado de azinheiras e alguns matos de estevas e outros arbustos, propício a esconderijos de animais selvagens, entre os quais, raposas e, como tem muito arvoredo também dá abrigo a muitas aves! 
No tempo em que os animais falavam, andava uma raposa a caçar, cheia de fome, nas margens do ribeiro do peral, quando ouviu o piar do compadre mocho, ficou muito animada, porque sabia que ele não conseguia ver com a luz do dia, então, era só descobrir onde ele estava pousado e ferrar-lhe os dentes! Procurou, procurou, debaixo de uma azinheira até que o descobriu, mas não estava ao seu alcance, porque estava a cerca de um metro de altura, mas estava tão apetitoso que ela começou a dar voltas à cabeça para encontrar a maneira de o apanhar! Pensou, pensou, até que se lembrou que bastava encontrar alguma coisa com a altura de pouco mais de meio metro, logo com o salto que daria, decerto o ferrava! Começou a olhar em volta e viu alguma lenha debaixo da azinheira ao lado, foi logo a correr e começou a arrastar ramalhos (ramos secos) e a deixá-los mesmo por baixo de onde o compadre mocho estava instalado! Não foram precisos muitos, porque colocados uns em cima de outros, além de fazer altura, serviam de amortecedor para a ajudar a saltar mais facilmente! Em poucos minutos, a comadre raposa já tinha ferrado o compadre mocho, mas pensou em não o comeu ali, porque, o lugar era muito exposto, então, começou a correr para o ribeiro do terraço por ser um lugar mais seguro onde o podia saborear melhor e descansada! 
O compadre mocho quando se apercebeu que estava metido num grande sarilho, tentou tudo para a comadre raposa não o comer e disse-lhe: 
Mocho: Oh comadre raposa, tu não me digas que me vais comer? 
Raposa: Vou, vou, compadre mocho! Tu nem imaginas a fome que tenho! 
Mocho: Oh comadre raposa, mas os animais aqui do Baldio, fizemos um acordo de entreajuda e nenhum comia o outro! 
Raposa: É verdade compadre mocho, mas nesse acordo não ficou dito o prazo, por isso, para mim já acabou!
O mocho estava a ver a sua vida em grande perigo e lembrou-se de tentar demover a raposa de o comer usando outras artimanhas, sabia que ela era muito vaidosa, então disse-lhe! 
Mocho: Pois é verdade comadre raposa, tens toda a razão, o nosso acordo não tinha prazo, por isso, tens todo o direito de me comer, mas é pena uma caçadora como tu, que não há igual aqui no Baldio, agora comeres-me e nenhum animal saber! É mesmo uma penas, uma coisa destas e ninguém saber! 
Raposa: Oh compadre mocho, deixa lá isso que, eu depois de te comer logo digo a todos os animais! 
Mocho: Oh comadre raposa, não está mal pensado, não está, não, só que, pelo que eu conheço destes animais aqui do Baldio, não há nenhum que acredite em ti, ainda vão é zombar de ti, agora se assistirem a isto, não te podem desmentir! Tu  já pensaste no respeito que podias ganhar aqui no Baldio? Não pensaste não! 
A raposa começou a pensar que o compadre mocho tinha razão, aqueles animais, já não eram como noutros tempos, o mais certo era ver-se envergonhada, mas se lhe mostrasse o compadre mocho ferrado nos dentes, não a podiam desmentir, e era verdade o respeito que ia ganhar, por todos os animais, decerto ia ser a rainha do Baldio! 
Raposa: Pensando bem, compadre mocho, és capaz de ter razão, mas eles não andam por aqui, como é que eu os chamo? 
Mocho: É muito fácil comadre raposa, basta dares por aqui umas voltas e gritares bem alto, para todos ouvirem: "Mocho comi"! 
Raposa: Boa ideia, mas tem de ser depressa, porque estou cheia de fome! 
O compadre mocho relembrou a comadre raposa que tinha de gritar o mais alto possível, porque os animais andavam muito afastados dali! A comadre raposa concordou e agradeceu o conselho ao compadre mocho! 
Quando estavam um pouco abaixo da malhada das Areias, o compadre mocho sentiu a comadre raposa a encher o peito de ar e, logo a seguir abriu muito a boca e gritou. "Mocho comi", naquele momento,  o compadre mocho que já estava preparado, bateu as asas e voou dizendo: "Comes outro, mas não a mim"! 
A comadre raposa, apercebeu-se que tinha sido enganada pelo compadre mocho, mas já era tarde, a sua vaidade custou-lhe a ceia que já tinha certa. 

Fim 

Mocho  












segunda-feira, 17 de junho de 2019

561 - Terras de Capelins
História, lendas e tradições das terras de Capelins
A lenda do apelido dos Alacrau das terras de Capelins
O ti Miguel Gomes, chegou às terras de Capelins, nos finais do decénio de mil oitocentos e sessenta, vindo da vizinha Villa Medieval de Terena, já era viúvo e tinha três filhos!
A situação que levou o ti Miguel Gomes às terras de Capelins, foi o seu casamento com a Maria da Graça, na Igreja de Santo António, no Domingo, dia 20 de Setembro de mil oitocentos e sessenta e oito, uma rapariga solteira, natural de Capelins!
O ti Miguel, era seareiro, tinha uma courela no Monte Branco e, comprou duas courelas e umas casas quando chegou a Capelins com os seus filhos!
Passado um ano, após o casamento, a Maria da Graça teve um filho legítimo do ti Miguel Gomes, a quem foi dado o nome de Francisco da Graça Gomes!
O Francisco, conhecido pelo Xiquinho da Graça, foi crescendo sempre atrás do pai e da mãe pelas courelas, fosse na monda, na ceifa ou outros trabalhos agrícolas lá ia o Xiquinho na carroça acompanhando os pais, depois, a mãe estendia uma manta no chão o mais perto possível dos lugares onde andava a trabalhar para o poder ter debaixo de olho!
Decorria o mês de Junho de mil oitocentos e setenta e quatro, o Xiquinho já tinha cinco anos, os pais faziam a ceifa da aveia numa courela, semeada ao quarto na herdade do Terraço, começavam a ceifar de madrugada, ainda mal se via, para depois na hora de mais calor dormirem a cesta debaixo de um chaparro, o menino, ia embrulhado numa manta e continuava a dormir até mais tarde, depois, quando acordava a mãe dava-lhe umas sopinhas de leite, estendia a manta no chão e ele ficava a brincar com umas pedrinhas, fazendo currais, uns pauzinhos e umas ferraduras que, eram as mulas dele, mas levava o tempo a chamar pela mãe:
Xiquinho: Mãe, oh mãe, quero água!
Mãe: Já aí vou, espera lá só um bocadinho Xiquinho! Mesmo agora daí vim e já queres água? Vá, bebe lá e deixa-te estar aqui sentado!
Xiquinho: Mãe, oh mãe, tenho fome!
Mãe: Oh Xiquinho, espera lá um bocadinho, mesmo agora daí vim! Agora não posso, senão, não faço nada!
Xiquinho: Mãe, oh mãe, eu estou cheio de fome!
Mãe: Espera lá Xiquinho, isto assim não pode ser! Vá, toma lá um bocadinho de pão com queijo, come aqui sentadinho e não abales daqui, porque há aí muitas cobras!
Xiquinho: Mãe, oh mãe, dói-me a barriga!
Mãe: Espera lá Xiquinho, mesmo agora daí vim! Assim não faço mais nada!
Era sempre assim o comportamento do Xiquinho, a todo o momento estava a chamar pela ti Maria da Graça!
No dia seguinte, continuavam na ceifa na herdade do Terraço, depois da ti Maria da Graça tratar do Xiquinho, estendeu a manta no chão para ele ficar a brincar e foi continuara a ceifar, passou-se meia hora, uma hora e o Xiquinho sem chamar a mãe, a situação começou a preocupar a ti Maria e sempre que se dirigia a ele, eram estas as respostas:
Mãe: Então Xiquinho, não queres água?
Xiquinho: Agora não tenho vagar, estou a guardar as minhas ovelhas!
Mãe: Então Xiquinho, não queres pão?
Xiquinho: Agora não tenho vagar, vou dar água às minhas ovelhas!
Mãe: Então Xiquinho, não queres nada?
Xiquinho: Agora não tenho vagar, estou a tosquiar as minhas ovelhas!
A mãe começou a desconfiar que alguma coisa de estranho se estava a passar e decidiu ir ver o que ele estava fazendo, foi pé ante pé por trás dele e ele continuava falando como se estivesse a tratar de ovelhas, tinha um curral feito com pedras para onde estava debruçado e dizia: "Agora, vão comer para ali", vá, vá andando, senão levam com o pau, tinha na mão um pauzinho de um palmo com o qual guiava as supostas ovelhas dele!
Como as "ovelhas" não estavam a obedecer, atirou com o pau para o lado e dirigiu a mão para apanhar as ovelhas e obrigá-las a mudar para o lugar que ele queria! Foi nesse momento que, a mãe viu dois alacraus (lacraus, escorpiões), de ferrão alçado já dentro da mão do Xiquinho, deu um grito que se ouviu por toda a herdade do Terraço e que o assustou, ao mesmo tempo recuou a mão!
A mãe toda frenética pegou numa grande pedra e matou os lacraus, foi quando o Xiquinho começou a chorar, desalmadamente, levando a mãe a pensar que tinha sido ferrado pelos lacraus, começou a gritar a pedir socorro, o pai atirou com a foice foi a correr acudir ao filho, assim como os vizinhos e vizinhas que andavam a ceifar nas courelas em redor, toda a gente foi a tentar ajudar e saber o que se tinha passado! Quando perguntavam, os pais diziam que o Xiquinho tinha sido picado por uma alacrau, mas percorriam a mão e não conseguiam ver nenhum sinal! Por fim, chegou junto deles o ti Fernando Melro, homem com muita experiência nessa matéria e sabedoria em mezinhas, perguntou qual era a mão picada, pegou nela, observou, observou e disse: Nesta mão não lhe picou nenhum alacrau, mostra lá a outra, observou e disse: Nesta, também não lhe picou nenhum bicho, vejam lá noutro lado! Percorreram o corpo do Xiquinho de lés a lés e não encontraram qualquer sinal de picada de alacrau, mas ele continuava em grande pranto!
Como o pai e a mãe continuavam aflitos e a perguntar-lhe onde doía, quando ele conseguiu falar disse: Não dói nada, não dói nada!
Então o pai perguntou-lhe: Xiquinho, se não te dói nada, porque choras tanto?
E o Xiquinho respondeu: Porque a mãe matou as minhas ovelhas!
A causa de tanto choro, estava desvendada e os ceifeiros e ceifeiras voltaram às suas courelas, comentando e rindo do sucedido!
Afinal, o Xiquinho tinha andado a brincar com os alacraus no curral e com eles na mão e não o tinham ferrado, ou porque não os apertou, ou porque estavam cansados de dar tantas ferruadas no pauzinho com o qual ele os picava ou porque, como diz o ditado: "Ao menino e ao borracho, mete Deus a mão por baixo"!
Esta situação deu muito falatório pelas terras de Capelins, a partir daquele dia, o Xiquinho ficou a ser conhecido pelo Xico dos alacraus, mais tarde, o ti Xico Alacrau, assim como, os seus descendentes, entre os quais, o seu filho, o ti João Alacrau, um grande jogador de xito!
Assim, concluímos que, os apelidos nas terras de Capelins, todos tinham uma razão de ser.

Fim 



domingo, 16 de junho de 2019

560 - Terras de Capelins História, lendas e tradições das terras de Capelins A lenda do Torra Migas das terras de Capelins Nas últimas décadas de mil e oitocentos, chegou às terras de Capelins uma Família originária da Freguesia de Corval, com passagem temporária pela vizinha Freguesia de Santiago Maior, onde nasceram três dos seus seis filhos! Como outras Famílias, também esta, se deu muito bem nas terras de Capelins, fixou-se em Montes Juntos e, aqui ficou, embora a sua descendência, naturalmente disseminou-se pelas terras de Capelins e arredores, os filhos foram casando e dando continuidade ao seu ramo familiar, assim como, a outros! Um dos descendentes desta Família, era o ti Manoel António da Rosa, morava em Montes Juntos, era casado com a ti Gertrudes Loureta e, pai de três filhos, trabalhava como jornaleiro no Monte da Talaveira, ia dormir a casa, mas tinha de sair de madrugadas para a herdade da Talaveira, quando lá chegava, antes de saírem para a lavoura, faziam umas migas na casa dos ganhões! Como não era possível cada um fazer as suas, combinaram que, diariamente cada um levava um pão e enquanto os outros emparelhavam as mulas e os bois, o que estava escalado fazia as migas para todos que, eram o seu almoço (pequeno almoço)! Os jornaleiros, andavam no alqueve, primeira lavoura do pousio e, nessa madrugada, calhou ao ti Manoel António a levar o pão e a fazer as migas, os outros trabalhadores estavam muito animados, porque, quando as migas eram feitas por ele, ficavam sempre muito boas, por isso, enquanto emparelhavam o gado da lavoura, iam comentando que era dia de boas migas! O ti Manoel António, colocou a tigela de fogo ao lume em cima da trempe de ferro, deitou duas colheres de banha de porco, foi mexendo para derreter e quando já estava bem quente deitou-lhe alguns bocadinhos de toucinho a fritar, depois tirou-os adicionou dois dentes de alho que foram fritando, sempre mexendo com uma colher de pau, quando os dentes de alho já estavam a ficar alourados, começou a pôr as fatias do pão, uma em cima de outras, sal e uma folha de louro, logo a seguir tirou um quartilho de água quente da panela de ferro e foi deitando por cima das fatias de pão, até ficarem cobertas! As fatias de pão estavam a amolecer, então com grande energia, usando a colher de pau, começou a triturar as fatias de pão, porém, talvez devido ao esforço instantâneo, deu-lhe tão grande dor de barriga que o ti Manoel quase fazia ali, tinha de correr para a casa de banho, no campo, mas as migas estavam num ponto que não as podia abandonar sobre o lume e ainda não estavam em condições de as arredar, tinham de ferver um pouco, então, lembrou-se de chamar alguém para tomar conta das migas, mas os jornaleiros andavam tão entusiasmados nas suas tarefas que não o ouviam, tirou alguns tições para enfraquecer o lume e correu para trás de um cabanão, mas a dor era tão forte que demorou muito mais tempo do que ele esperava! Quando se conseguiu desembaraçar da situação, foi a correr para a casa dos ganhões, mas já era tarde, cheirava a migas queimadas, porque, estava um madeiro na cabeceira do lume que tomou muita força e as migas desse lado e do fundo da tigela de fogo, já estavam queimadas! O ti Manoel da Rosa ficou numa grande aflição, sem saber o que fazer, não tinha pão, nem tempo, nem tigela de fogo para fazer outras migas e os trabalhadores estavam mesmo a chegar e, chegaram naquele momento, entraram fazendo grande alarido, mas deram um passo atrás e disseram: "Ai valha-me Deus, as nossas migas arderam"! Foram entrando e estava o ti Manoel com a cabeça entre as mãos, sem conseguir falar! Os homens, começaram a fazer perguntas todos ao mesmo tempo, queriam explicações sobre o que se tinha passado com as suas miguinhas! O ganhão, estava em frente ao Monte da Talaveira, mas ao ouvir tanta gritaria, correu para a casa dos ganhões, mas não foi preciso perguntar nada, o cheiro a migas torradas explicava tudo! O ganhão acalmou os homens e pediu ao ti Manoel para contar o que tinha acontecido! O ti Manoel contou tudo com muita calma e tristeza que, os homens compreenderam a situação, mas continuaram inquietos, porque, não tinham mais nada para comer! O ganhão contou-lhe que já tinha assistido várias vezes a casos iguais e as migas comeram-se bem, porque a parte queimada era só no fundo da tigela de fogo, então pediu ao ti Manoel para distribuir as migas pelos pratos sem afundar a colher, para não apanhar a parte queimada! O ti Manoel foi tirando as migas com muito cuidado e os homens começaram a comer, um pouco desconfiados, mas não demoraram em confirmar que, estavam boas, quase não sabiam a queimado! A parte queimada ficou agarrada ao fundo da tigela de fogo, mas alguns homens não resistiram em a raspar com a colher, começaram a comer e a dizer que sabia muito bem, era melhor que pão torrado, comeram todos, até ficar tudo limpo e o ti Manoel ficou muito aliviado! A seguir, foram para o trabalho e o tema da conversa do dia, foram as migas do ti Manoel! Alguns, por brincadeira começaram a chamar-lhe o ti Mnoel Torra Migas, como ele achou graça, também por se sentir aliviado por a situação se ter resolvido, então, não nunca mais se livrou desse apelido, assim como, os seus filhos, entre eles, o ti António Torra Migas, o grande jogador de xito e, ainda há poucos anos, existia esse apelido, os "Torra Migas", nas terras de Capelins.
Fim

Talaveira


sábado, 15 de junho de 2019

559 - Terras de Capelins
História, lendas e tradições das terras de Capelins
A lenda do torneio dos empatados, do xito, nas terras de Capelins
O jogo do xito, era o mais popular dos jogos nas terras de Capelins e, tal como todos os outros, também viciava, por isso, muitos jogadores, passavam tardes e noites sem arredar pé das tabernas, onde o mesmo era jogado, rematado com um copo de três!
Era frequente haver picardias entre jogadores e seus adeptos que defendiam os que eles achavam ser os melhores jogadores de xito das terras de Capelins, assim, quando os afamados jogadores se encontravam, ou faziam por se encontrar nas tabernas, era jogar, jogar, até o taberneiro fechar a porta e os mandar embora!
No dia 13 de Abril de mil novecentos e dezanove, há cem anos, era Domingo de Ramos, pelas quatro horas da tarde, juntaram-se na taberna do ti Xico Borralho em Capelins de Baixo, alguns dos melhores jogadores de xito das terras de Capelins, entre eles, o ti António Torra Migas, o ti Zé Borralho, o ti João Alacrau o ti Miguel da Rosa e, dois bons jogadores de Montes Juntos, o ti Zé Caeiro e o ti Manoel Jorge, também esperavam uma das melhores equipa da Aldeia de Cabeça de Carneiro, mas acabaram por não aparecer!
Naquele momento, estavam outros jogadores a jogar ao xito, os jogadores antes nomeados, foram-se aproximando para ganhar lugar, não pediram licença, mas à sua maneira, começaram a pressionar para os pôr dali a mexer e, assim que uma equipa ganhou a partida, deixaram o campo livre aos mestres!
As três equipas já formadas, podiam jogar em simultâneo, mas combinaram jogar duas a duas, depois, a que perdesse a partida, saía e entrava a outra!
Antes do início do torneio, já estavam rodeados de adeptos do jogo do xito que, não queriam perder a oportunidade de assistir aos bons jogos que se adivinhavam! De entre os espetadores, instalaram-se em lugar privilegiado, alguns jogadores do jogo do xito mais idosos que, decerto seriam chamados a intervir nas decisões polémicas sobre, de quem seria o ponto, os quais, eram árbitros de muito respeito!
Os jogadores prepararam-se, fizeram os seus rituais, uns benzeram-se, outros esfregaram as mãos e os dedos em aquecimento, outros mediram várias vezes a distância entre a calha e a pedra de xisto e, por fim, despiram a manga da maruja do braço que iam usar para atirar o vintém ao xito e ficaram prontos a começar!
Três jogadores, um de cada equipa, atiraram o vintém ao xito para tentar que ele ficasse o mais próximo possível da cama, porque, seria dessa forma que se iam encontrar as duas equipas iniciais, assim como, o jogador que começava o jogo!
O ponto tirado por cada jogador, ditou que, a equipa nº 1 era a do ti António Torra Migas e do ti Zé Borralho, a equipa nº 2 era a do ti João Alacrau e do ti Miguel da Rosa e a equipa nº 3 era a do ti Zé Caeiro e do ti Manoel Jorge de Montes Juntos!
Com a ajuda dos jogadores anciãos, lembraram-se algumas regras a ter em conta, combinaram jogar seis partidas, depois, se estivessem todos de acordo, mais seis, jogando as equipas duas a duas, a que perdesse, daria sempre o seu lugar à outra que, estava de fora!
Começaram a jogar a equipa do ti Torra Migas com a do ti Alacrau, ficando de fora a equipa de Montes Juntos, do ti Zé Caeiro!
Os olhos dos assistentes pareciam guiar os vinténs, numa fração de segundo, percorriam a distância entre a mão do jogador de onde partia o vintém até ao xito, alguns, estavam tão concentrados que, pareciam ser eles o jogador, fazendo o gesto de atirar o vintém!
Durante a primeira partida, não houve uma jogada que não fosse envidada, revidada e datas, não se notou nenhuma diferença entre as duas equipas, mas a partida foi ganha pela equipa do ti Torra Migas! Assim, esta equipa, continuou a jogar, com a equipa de Montes Juntos, do ti Zé Caeiro! Os jogos, continuaram sem alteração em relação aos anteriores, sendo esta partida novamente ganha pela equipa do ti Torra Migas!
Aqui, fizeram um intervalo, foram ajustar contas ao balcão, beberam um copo de três cada um, acompanhados com petisco, metade de uma batata frita para cada um e uma migalhinha de pão!
A seguir, continuou a jogar a equipa do ti Torra Migas com a do ti Alacrau que jogaram de igual para igual, mas a partida foi ganha pela equipa do ti Alacrau que, continuou a jogar com a equipa de Montes Juntos do ti Zé Caeiro, ganhando esta partida a equipa do ti Zé Caeiro!
Os jogadores fizeram mais um intervalo, foram, novamente encostar a barriga ao balcão, acertaram as contas, beberam mais um copo de três com metade de uma batata frita de petisco, aproveitando para discutir sobre as boas e menos boas jogadas das partidas já ganhas e perdidas!
O torneio continuou, quando chegaram ao fim das seis partidas, as equipas estavam empatadas, tinham ganho duas partidas cada uma, logo, estavam num dilema, ou ficavam assim, sem chegar à conclusão sobre quem eram os melhores jogadores ou, continuavam a jogar mais seis partidas! Foram todos de opinião que, deviam continuar a jogar mais seis partidas, seria a única forma de desempatar, embora, a equipa de Montes Juntos estivesse com pouca vontade, porque, estava a fazer-se tarde e ainda estavam muito longe da ceia (jantar), mas acabaram por aceitar!
Começaram de novo, um jogador de cada equipa jogou para o ponto, para definir as duas equipas que começavam a primeira partida, desta vez, ficaram apuradas para iniciar, as equipas do ti Alacrau e do ti Zé Caeiro! As jogadas continuaram iguais às anteriores, se uma equipa envidava, a outra revidava, sendo, neste caso, a partida ganha pela equipa do ti Alacrau!
A seguir, entrou em jogo a equipa do ti Torra Migas a jogar com a do ti Alacrau, sendo mais uma vez a equipa do ti Alacrau a vencedora, somando duas partidas, das seis que estavam em jogo!
Deu entrada no jogo a equipa do ti Zé Caeiro, já por ali se dizia que a equipa do ti Alacrau decerto ia ganhar o torneio, mas ainda estavam muitas partidas em disputa, era muito cedo para aclamar vencedores e, na verdade, nesta partida o ti Manoel Jorge, numa jogada envidada e revidada, conseguiu tirar o vintém ao ti Miguel Rosa que, estava tapando a cama do xito, mandando a equipa do ti Alacrau para fora!
Fizeram mais uma pausa, foram beber mais um copo de três, com meia batata frita e discutir como tinham sido as jogadas e como podiam ter sido, não demoraram em continuar, porque, estava chegando a hora da ceia!
Entrou em jogo a equipa do ti Torra Migas para jogar com a equipa do ti Zé Caeiro, notava-se cada vez mais concentração, todos jogavam muito bem, mas só uma equipa podia ganhar a partida e, ganhou a equipa do ti Torra Migas!
A situação estava a ficar muito difícil para as equipas do ti Torra Migas e do ti Zé Caeiro, bastava a equipa do ti Alacrau ganhar esta partida e estavam encontrados os campeões do torneio!
Cada vez assistiam a melhores jogadas de parte a parte, mas a equipa do ti Torra Migas acabou por ganhar a partida, eliminando a hipótese da equipa do ti Alacrau ser a vencedora do torneio, agora só a equipa do ti Torra Migas podia ser a vencedora ou, ficariam novamente todas empatadas!
A maioria dos espetadores já tinham debandado à procura da ceia (jantar), só ficaram cinco ou seis, porque eram seareiros e, um ou outro que andava de "boa vida", (desempregado)!
A equipa do ti Torra Migas e do ti Zé Caeiro, deram tudo o que podiam, mas numa jogada de grande mestria, o ti Zé Caeiro ganhou o jogo que lhe deu a partida, ficando cada equipa com duas partidas e, novamente empatadas!
Dirigiram-se ao balcão e o ti Zé Caeiro e o ti Manoel Jorge, beberam mais um copo de três, fizeram contas com o ti Xico Borralho, despediram-se, agradeceram aos companheiros e, foram em passo de corrida, por Calados, Monte da Capeleira, até suas casas no Salgueiro!
Os jogadores das duas equipas de Ferreira de Capelins, ficaram encostados ao balcão a discutir as jogadas que podiam ter sido diferentes e podiam ter ganho e não ganharam!
Depois de beberem mais um copo, decidiram continuar o torneio entre as duas equipas, mais seis partidas, concluíram que, como eram só duas equipas depressa resolviam a questão e ficava decidido quem eram os campeões do torneio! O ti Xico Borralho, ainda abanou a cabeça em sinal negativo, estava muito cansado e cheio de sono, mas como o irmão, o ti Zé Borralho decidiu que, continuavam a jogar, não se atreveu a negar!
As duas equipas, tiraram o ponto para decidir qual jogava em primeiro lugar e, saíu a jogar a equipa do ti Alacrau! As equipas jogaram, jogaram, jogaram e as partidas acabavam sempre empatadas!
Já eram mais de 10 horas da noite e, o ti Xico Borralho já dormia em pé, quando se sentava, ficava logo a ressonar, incomodando os jogadores que, levavam o tempo a chamá-lo para o acordar, entre eles, o irmão, o ti Zé Borralho, que o chamava:
Ti Zé: Oh Xico, Xico, vai lá encher os copos, homem!
Ti Xico: O que foi, o que foi? Deiixa-me lá tratar do bacro!
Ti Zé. Qual bacro, nem bacro, aqui não há bacros, só se fores tu! Enche lá os copos e cala-te!
Ti Xico: Já encho, já encho irmão, já encho! Estava a sonhar que estava a fazer a travia do meu bacro! Como é que está o jogo? Ainda demoram muito?
Ti Zé: Está tudo empatado! Já não demoramos nada! Vá, enche lá os copos!
Ti Xico: Já estou enchendo! Vejam lá se acabam com isso! Já é de mais! Quase um dia e uma noite a jogar ao xito e ninguém ganha! Nunca vi uma coisa destas!
O ti Xico encheu os copos e correu para o banco, sentou-se e ficou logo a ressonar, fazendo tremer a taberna toda!
Assim, é impossível jogar, diziam alguns jogadores, até o xito treme com o ressonar dele, acorda-o lá Zé, despeja-lhe um copo de água pela cabeça abaixo e manda-o dar uma volta à rua!
Ti Zé: Oh Xico, Xico, Oh Xico, acorda lá, homem!
Ti Xico. Espera lá irmão, deixa-me lá acabar de esgalhar a lenha!
Ti Zé: Qual lenha, nem lenha, acorda lá Xico! Não vês que assim não conseguimos jogar!
Ti Xico: Pronto, já acordei! Estava a sonhar que andava a esgalhar a minha lenha nas Areias! Quem está a ganhar? Ainda falta muito? Ai meu Deus, tanto sono que eu tenho!
Ti Zé: Está tudo empatado! Já não demoramos, Xico!
O ti Xico já não ouviu as últimas palavras do irmão, porque, já estava novamente a ressonar!
Os jogadores acabaram a partida empatados e, concordaram todos em acabar o torneio, era impossível continuar a jogar, porque, os roncos do ti Xico, até abanavam o xito!
Assim, terminou o torneio, todos empatados, depois de uma tarde e uma noite a jogar ao xito, não houve vencedores, nem vencidos! Nunca tinha acontecido uma coisa destas, nem aconteceu mais, um torneio com este resultado!
No dia seguinte, nas terras de Capelins, a palavra mais ouvida era: "empatados", alguns, nem tinham tempo de perguntar qual tinha sido o resultado do torneio, ouviam logo, antecipadamente: "Empatados". Ficando na lenda, como o torneio dos empatados.
Fim  


584 - Amigos de Capelins História, lendas e tradições da Villa de Monsaraz A lenda do Fernando, filho do Padre de Monsaraz No an...