563 - Terras de Capelins
História, lendas e tradições das terras de Capelins
A Fábula da comadre raposa e do compadre lobo nas terras de Capelins
No tempo em que os animais falavam, numa noite de luar entremeada com algumas nuvens escuras, no mês de Março de um ano que já lá vai, depois da meia noite, ia uma raposa pela estrada do Monte de Ferreira para o Bufo a caminho da sua raposeira, ouvia-se o coaxar de rãs e o piar de uma ou outra ave noturna entre elas, corujas e noitibós, estes, teimavam em acompanhar a comadre raposa, denunciando a sua presença por aquele caminho, causando-lhe grande irritação, mas quanto mais ela lhe pedia para a deixarem em paz, mais eles a chateavam, chamando-lhe vaidosa, ladra, mentirosa, falsa e outras coisas semelhantes!
Já perto da Ribeira de Lucefécit, antes de chegar ao Bufo, quando uma nuvem muito negra cobriu a lua deixando a Terra em penumbra, a comadre raposa apanhou o maior susto da sua vida, foi repentinamente barrada por umas grandes patas, uma à frente e outra atrás, sem hipótese de fuga e, ao mesmo tempo ouviu uma gargalhada que parecia sair das profundezas!
A comadre raposa, ficou com o pelo em pé, toda arrepiada e exclamou em voz alta: "Meu Deus, é o Diabo"! Ouviu logo outra gargalhada igual e a mesma voz: "Qual Diabo, nem Diabo", sou eu, comadre raposa! Ah! És tu compadre lobo? Que susto me pregaste, estás bêbedo ou andas engripado?
Lobo: Que conversa é essa comadre raposa? Eu sou lá lobo de me meter nos copos? E engripado, parece-me que também não ando!
Raposa: Oh compadre lobo, não te pareça lá mal, mas essa tua voz não é a que eu conheço!
Lobo: Pois não! Não é, nem podia ser, mas é a voz de zangado e bem zangado contigo, sabes bem a partida que me pregaste ontem ali em cima, ao pé do Monte do Escrivão! É por isso que, hoje vamos ajustar contas, sua malandra, grande malandra!
Raposa: Calma lá compadre lobo, tu não tens vergonha de falar assim com uma raposa como eu? Tão séria, tão honesta! Se te fiz alguma partida, não foi por mal, isso não passou de uma brincadeira, nunca pensei que ficasses tão zangado, senão, nunca te fazia isso, compadre lobo!
Lobo: Oh comadre raposa, o que tu me fizeste não se faz a um lobo como eu e ainda por cima, não foi a primeira vez, têm sido umas atrás de outras! Isto não pode continuar, tens que levar uma lição e vai ser hoje, porque os animais daqui, andam já todos a fazer pouco de mim, por causa de ti!
Raposa: Oh compadre lobo, deixa-te lá disso, não te esqueças que já te livrei de muitos sarilhos, disso não te lembras? Pois, era bom que te lembrasses, porque não podes contar com os animais que andam por aí a fazer pouco de ti! Olha, se quiseres, podes dizer que me deste uma boa lição, eu estou uns dias sem aparecer aqui, vou dar umas voltas por Santa Luzia e depois, quando voltar, confirmo que foi verdade!
Lobo: Não sei, comadre raposa, não sei! Eu tinha jurado que hoje te pregava uma grande sova, como é que vou faltar ao meu juramento? E o que ganho com isso?
Raposa: Então, ganhas uma aliada, mas se me deres a sova, os animais não ficam a saber e continuam a fazer pouco de ti, porque eu vou dizer que foi mentira, depois já sabes que nunca mais contas comigo para nada, ficas sempre a perder!
Lobo: Pensando bem, tens razão comadre raposa, mas toma atenção ao que vais fazer, porque, se me pregas mais alguma partida, já não te escapas!
Raposa: Oh compadre lobo, eu sou uma raposa muito honesta, fica descansado que a partir de agora, entre nós é só o bem pelo bem e podes contar comigo para te ajudar em tudo o que precisares! Vá, tira lá as patas de cima de mim e deixa-me ir até à minha raposeira!
Lobo: Está bem, ficamos assim, mas espera lá, enquanto estiveste aqui apernada cheirava-me tanto a queijo e, que bom queijo, passa-o para cá que estou cheio de fome!
Raposa: É verdade, compadre lobo, tenho aqui um queijinho, só um, até podes ficar com ele, mas é tão pequeno que, nem te enche a cova de um dente, por isso, em vez deste, podes ter dez ou vinte ou até trinta, porque, de onde eu tirei este, há lá muitos, grande fartura e é aqui perto!
Lobo: Olha lá, comadre raposa, tu não te esqueças que se me fizeres mais alguma partida já não te safas de levar uma grande sova!
Raposa: Ora essa compadre lobo, até me ofendes, eu cumpro sempre as minhas promessas!
Lobo: Bem! Sendo assim, se há lá muitos queijos, vamos lá, dizes-me onde é, e depois podes ir andando para a tua raposeira!
Raposa: Então, anda lá compadre lobo, é aqui perto, ali na Ribeira de Lucefécit! Não sei como foram lá parar, mas deve ter sido algum almocreve que os perdeu ao passar a Ribeira!
As nuvens tinham libertado a lua que, iluminava a Terra sem sombras, estava redondinha e bem refletida na água de um pego da Ribeira, parecia mesmo um queijo!
A comadre raposa chegou com o compadre lobo e, indicou-lhe o reflexo da lua dizendo:
Raposa: Compadre lobo, tu estás a ver aquele queijo? Então, tiras um, fica outro, tiras outro, fica outro e sempre assim, até que queiras!
Lobo: Mau, mau, mas os queijos estão dentro de água? Então, como é que eu lhe chego?
Raposa: Oh compadre lobo, chegas-lhe bem, tens é que fazer o mesmo que eu fiz! Tu não me digas que és mais fraco do que eu?
Lobo: Eu, comadre raposa, mais fraco do que tu? Mas que conversa é essa? Já vais ver!
O compadre lobo aproximou-se do pego e começou a beber a beber, água e mais água e a comadre raposa sempre a incentivá-lo, está quase compadre lobo, mas eu bebi muito mais! Estás muito fraquinho, muito fraquinho! O compadre lobo já estava rebentando, mas a comadre raposa dizia-lhe que, já estava mesmo a chegar aos queijos com a mão, era só mais uma pinga e ficava dono dos queijos todos!
O compadre lobo continuou a beber água até cair desmaiado! A comadre raposa alçou o rabo e seguiu toda vaidosa para a sua raposeira, onde comeu o saboroso queijo que, tinha roubado no Monte de Ferreira, troçando do compadre lobo!
Como os noitibós assistiram a tudo, foram chamar os animais da região, desde o Escrivão, Torre, Bufo, Chaparral e Monte de Ferreira, para verem o estado em que estava o compadre lobo, quando de madrugada, ele acordou do desmaio, estava cercado de animais a fazer pouco dele por, mais uma vez, ter sido enganado pela comadre raposa!
O compadre lobo, ficou tão envergonhado, levantou-se, meteu o rabinho entre as pernas, passou a Ribeira do Lucefécit e, emigrou para Santa Luzia, nunca mais foi visto pelas terras de Capelins!
A comadre raposa ficou por aqui, continuando a enganar os animais que nela acreditavam.
Fim




