quinta-feira, 20 de junho de 2019

563 - Terras de Capelins 
História, lendas e tradições das terras de Capelins 
A Fábula da comadre raposa e do compadre lobo nas terras de Capelins 
No tempo em que os animais falavam, numa noite de luar entremeada com algumas nuvens escuras, no mês de Março de um ano que já lá vai, depois da meia noite, ia uma raposa pela estrada do Monte de Ferreira para o Bufo a caminho da sua raposeira, ouvia-se o coaxar de rãs e o piar de uma ou outra ave noturna entre elas, corujas e noitibós, estes, teimavam em acompanhar a comadre raposa, denunciando a sua presença por aquele caminho, causando-lhe grande irritação, mas quanto mais ela lhe pedia para a deixarem em paz, mais eles a chateavam, chamando-lhe vaidosa, ladra, mentirosa, falsa e outras coisas semelhantes! 
Já perto da Ribeira de Lucefécit, antes de chegar ao Bufo, quando uma nuvem muito negra cobriu a lua deixando a Terra em penumbra, a comadre raposa apanhou o maior susto da sua vida, foi repentinamente barrada por umas grandes patas, uma à frente e outra atrás, sem hipótese de fuga e, ao mesmo tempo ouviu uma gargalhada que parecia sair das profundezas! 
A comadre raposa, ficou com o pelo em pé, toda arrepiada e exclamou em voz alta: "Meu Deus, é o Diabo"! Ouviu logo outra gargalhada igual e a mesma voz: "Qual Diabo, nem Diabo", sou eu, comadre raposa! Ah! És tu compadre lobo? Que susto me pregaste, estás bêbedo ou andas engripado? 
Lobo: Que conversa é essa comadre raposa? Eu sou lá lobo de me meter nos copos? E engripado, parece-me que também não ando! 
Raposa: Oh compadre lobo, não te pareça lá mal, mas essa tua voz não é a que eu conheço! 
Lobo: Pois não! Não é, nem podia ser, mas é a voz de zangado e bem zangado contigo, sabes bem a partida que me pregaste ontem ali em cima, ao pé do Monte do Escrivão! É por isso que, hoje vamos ajustar contas, sua malandra, grande malandra! 
Raposa: Calma lá compadre lobo, tu não tens vergonha de falar assim com uma raposa como eu? Tão séria, tão honesta! Se te fiz alguma partida, não foi por mal, isso não passou de uma brincadeira, nunca pensei que ficasses tão zangado, senão, nunca te fazia isso, compadre lobo! 
Lobo: Oh comadre raposa, o que tu me fizeste não se faz a um lobo como eu e ainda por cima, não foi a primeira vez, têm sido umas atrás de outras! Isto não pode continuar, tens que levar uma lição e vai ser hoje, porque os animais daqui, andam já todos a fazer pouco de mim, por causa de ti! 
Raposa: Oh compadre lobo, deixa-te lá disso, não te esqueças que já te livrei de muitos sarilhos, disso não te lembras? Pois, era bom que te lembrasses, porque não podes contar com os animais que andam por aí a fazer pouco de ti! Olha, se quiseres, podes dizer que me deste uma boa lição, eu estou uns dias sem aparecer aqui, vou dar umas voltas por Santa Luzia e depois, quando voltar, confirmo que foi verdade! 
Lobo: Não sei, comadre raposa, não sei! Eu tinha jurado que hoje te pregava uma grande sova, como é que vou faltar ao meu juramento? E o que ganho com isso? 
Raposa: Então, ganhas uma aliada, mas se me deres a sova, os animais não ficam a saber e continuam a fazer pouco de ti, porque eu vou dizer que foi mentira, depois já sabes que nunca mais contas comigo para nada, ficas sempre a perder! 
Lobo: Pensando bem, tens razão comadre raposa, mas toma atenção ao que vais fazer, porque, se me pregas mais alguma partida, já não te escapas! 
Raposa: Oh compadre lobo, eu sou uma raposa muito honesta, fica descansado que a partir de agora, entre nós é só o bem pelo bem e podes contar comigo para te ajudar em tudo o que precisares! Vá, tira lá as patas de cima de mim e deixa-me ir até à minha raposeira! 
Lobo: Está bem, ficamos assim, mas espera lá, enquanto estiveste aqui apernada cheirava-me tanto a queijo e, que bom queijo, passa-o para cá que estou cheio de fome! 
Raposa: É verdade, compadre lobo, tenho aqui um queijinho, só um, até podes ficar com ele, mas é tão pequeno que, nem te enche a cova de um dente, por isso, em vez deste, podes ter dez ou vinte ou até trinta, porque, de onde eu tirei este, há lá muitos, grande fartura e é aqui perto! 
Lobo: Olha lá, comadre raposa, tu não te esqueças que se me fizeres mais alguma partida já não te safas de levar uma grande sova! 
Raposa: Ora essa compadre lobo, até me ofendes, eu cumpro sempre as minhas promessas! 
Lobo: Bem! Sendo assim, se há lá muitos queijos, vamos lá, dizes-me onde é, e depois podes ir andando para a tua raposeira! 
Raposa: Então, anda lá compadre lobo, é aqui perto, ali na Ribeira de Lucefécit! Não sei como foram lá parar, mas deve ter sido algum almocreve que os perdeu ao passar a Ribeira! 
As nuvens tinham libertado a lua que, iluminava a Terra sem sombras, estava redondinha e bem refletida na água de um pego da Ribeira,  parecia mesmo um queijo! 
A comadre raposa chegou com o compadre lobo e, indicou-lhe o reflexo da lua dizendo: 
Raposa: Compadre lobo, tu estás a ver aquele queijo? Então, tiras um, fica outro, tiras outro, fica outro e sempre assim, até que queiras! 
Lobo: Mau, mau, mas os queijos estão dentro de água? Então, como é que eu lhe chego? 
Raposa: Oh compadre lobo, chegas-lhe bem, tens é que fazer o mesmo que eu fiz! Tu não me digas que és mais fraco do que eu? 
Lobo: Eu,  comadre raposa, mais fraco do que tu? Mas que conversa é essa? Já vais ver! 
O compadre lobo aproximou-se do pego e começou a beber a beber, água e mais água e a comadre raposa sempre a incentivá-lo, está quase compadre lobo, mas eu bebi muito mais! Estás muito fraquinho, muito fraquinho! O compadre lobo já estava rebentando, mas a comadre raposa dizia-lhe que, já estava mesmo a chegar aos queijos com a mão, era só mais uma pinga e ficava dono dos queijos todos! 
O compadre lobo continuou a beber água até cair desmaiado! A comadre raposa alçou o rabo e seguiu toda vaidosa para a sua raposeira, onde comeu o saboroso queijo que, tinha roubado no Monte de Ferreira, troçando do compadre lobo! 
Como os noitibós assistiram a tudo, foram chamar os animais da região, desde o Escrivão, Torre, Bufo, Chaparral e Monte de Ferreira, para verem o estado em que estava o compadre lobo, quando de madrugada, ele acordou do desmaio, estava cercado de animais a fazer pouco dele por, mais uma vez, ter sido enganado pela comadre raposa! 
O compadre lobo, ficou tão envergonhado, levantou-se, meteu o rabinho entre as pernas, passou a Ribeira do Lucefécit e, emigrou para Santa Luzia, nunca mais foi visto pelas terras de Capelins! 
A comadre raposa ficou por aqui, continuando a enganar os animais que nela acreditavam. 

Fim  



terça-feira, 18 de junho de 2019

562 - Terras de Capelins 
História, lendas e tradições das terras de Capelins
A Fábula do compadre mocho e da comadre raposa, no Baldio de Capelins 
O Baldio de Capelins, fica situado no espaço geográfico entre as Aldeias de Ferreira de Capelins e Cabeça de Carneiro, numa área de muito montado de azinheiras e alguns matos de estevas e outros arbustos, propício a esconderijos de animais selvagens, entre os quais, raposas e, como tem muito arvoredo também dá abrigo a muitas aves! 
No tempo em que os animais falavam, andava uma raposa a caçar, cheia de fome, nas margens do ribeiro do peral, quando ouviu o piar do compadre mocho, ficou muito animada, porque sabia que ele não conseguia ver com a luz do dia, então, era só descobrir onde ele estava pousado e ferrar-lhe os dentes! Procurou, procurou, debaixo de uma azinheira até que o descobriu, mas não estava ao seu alcance, porque estava a cerca de um metro de altura, mas estava tão apetitoso que ela começou a dar voltas à cabeça para encontrar a maneira de o apanhar! Pensou, pensou, até que se lembrou que bastava encontrar alguma coisa com a altura de pouco mais de meio metro, logo com o salto que daria, decerto o ferrava! Começou a olhar em volta e viu alguma lenha debaixo da azinheira ao lado, foi logo a correr e começou a arrastar ramalhos (ramos secos) e a deixá-los mesmo por baixo de onde o compadre mocho estava instalado! Não foram precisos muitos, porque colocados uns em cima de outros, além de fazer altura, serviam de amortecedor para a ajudar a saltar mais facilmente! Em poucos minutos, a comadre raposa já tinha ferrado o compadre mocho, mas pensou em não o comeu ali, porque, o lugar era muito exposto, então, começou a correr para o ribeiro do terraço por ser um lugar mais seguro onde o podia saborear melhor e descansada! 
O compadre mocho quando se apercebeu que estava metido num grande sarilho, tentou tudo para a comadre raposa não o comer e disse-lhe: 
Mocho: Oh comadre raposa, tu não me digas que me vais comer? 
Raposa: Vou, vou, compadre mocho! Tu nem imaginas a fome que tenho! 
Mocho: Oh comadre raposa, mas os animais aqui do Baldio, fizemos um acordo de entreajuda e nenhum comia o outro! 
Raposa: É verdade compadre mocho, mas nesse acordo não ficou dito o prazo, por isso, para mim já acabou!
O mocho estava a ver a sua vida em grande perigo e lembrou-se de tentar demover a raposa de o comer usando outras artimanhas, sabia que ela era muito vaidosa, então disse-lhe! 
Mocho: Pois é verdade comadre raposa, tens toda a razão, o nosso acordo não tinha prazo, por isso, tens todo o direito de me comer, mas é pena uma caçadora como tu, que não há igual aqui no Baldio, agora comeres-me e nenhum animal saber! É mesmo uma penas, uma coisa destas e ninguém saber! 
Raposa: Oh compadre mocho, deixa lá isso que, eu depois de te comer logo digo a todos os animais! 
Mocho: Oh comadre raposa, não está mal pensado, não está, não, só que, pelo que eu conheço destes animais aqui do Baldio, não há nenhum que acredite em ti, ainda vão é zombar de ti, agora se assistirem a isto, não te podem desmentir! Tu  já pensaste no respeito que podias ganhar aqui no Baldio? Não pensaste não! 
A raposa começou a pensar que o compadre mocho tinha razão, aqueles animais, já não eram como noutros tempos, o mais certo era ver-se envergonhada, mas se lhe mostrasse o compadre mocho ferrado nos dentes, não a podiam desmentir, e era verdade o respeito que ia ganhar, por todos os animais, decerto ia ser a rainha do Baldio! 
Raposa: Pensando bem, compadre mocho, és capaz de ter razão, mas eles não andam por aqui, como é que eu os chamo? 
Mocho: É muito fácil comadre raposa, basta dares por aqui umas voltas e gritares bem alto, para todos ouvirem: "Mocho comi"! 
Raposa: Boa ideia, mas tem de ser depressa, porque estou cheia de fome! 
O compadre mocho relembrou a comadre raposa que tinha de gritar o mais alto possível, porque os animais andavam muito afastados dali! A comadre raposa concordou e agradeceu o conselho ao compadre mocho! 
Quando estavam um pouco abaixo da malhada das Areias, o compadre mocho sentiu a comadre raposa a encher o peito de ar e, logo a seguir abriu muito a boca e gritou. "Mocho comi", naquele momento,  o compadre mocho que já estava preparado, bateu as asas e voou dizendo: "Comes outro, mas não a mim"! 
A comadre raposa, apercebeu-se que tinha sido enganada pelo compadre mocho, mas já era tarde, a sua vaidade custou-lhe a ceia que já tinha certa. 

Fim 

Mocho  












segunda-feira, 17 de junho de 2019

561 - Terras de Capelins
História, lendas e tradições das terras de Capelins
A lenda do apelido dos Alacrau das terras de Capelins
O ti Miguel Gomes, chegou às terras de Capelins, nos finais do decénio de mil oitocentos e sessenta, vindo da vizinha Villa Medieval de Terena, já era viúvo e tinha três filhos!
A situação que levou o ti Miguel Gomes às terras de Capelins, foi o seu casamento com a Maria da Graça, na Igreja de Santo António, no Domingo, dia 20 de Setembro de mil oitocentos e sessenta e oito, uma rapariga solteira, natural de Capelins!
O ti Miguel, era seareiro, tinha uma courela no Monte Branco e, comprou duas courelas e umas casas quando chegou a Capelins com os seus filhos!
Passado um ano, após o casamento, a Maria da Graça teve um filho legítimo do ti Miguel Gomes, a quem foi dado o nome de Francisco da Graça Gomes!
O Francisco, conhecido pelo Xiquinho da Graça, foi crescendo sempre atrás do pai e da mãe pelas courelas, fosse na monda, na ceifa ou outros trabalhos agrícolas lá ia o Xiquinho na carroça acompanhando os pais, depois, a mãe estendia uma manta no chão o mais perto possível dos lugares onde andava a trabalhar para o poder ter debaixo de olho!
Decorria o mês de Junho de mil oitocentos e setenta e quatro, o Xiquinho já tinha cinco anos, os pais faziam a ceifa da aveia numa courela, semeada ao quarto na herdade do Terraço, começavam a ceifar de madrugada, ainda mal se via, para depois na hora de mais calor dormirem a cesta debaixo de um chaparro, o menino, ia embrulhado numa manta e continuava a dormir até mais tarde, depois, quando acordava a mãe dava-lhe umas sopinhas de leite, estendia a manta no chão e ele ficava a brincar com umas pedrinhas, fazendo currais, uns pauzinhos e umas ferraduras que, eram as mulas dele, mas levava o tempo a chamar pela mãe:
Xiquinho: Mãe, oh mãe, quero água!
Mãe: Já aí vou, espera lá só um bocadinho Xiquinho! Mesmo agora daí vim e já queres água? Vá, bebe lá e deixa-te estar aqui sentado!
Xiquinho: Mãe, oh mãe, tenho fome!
Mãe: Oh Xiquinho, espera lá um bocadinho, mesmo agora daí vim! Agora não posso, senão, não faço nada!
Xiquinho: Mãe, oh mãe, eu estou cheio de fome!
Mãe: Espera lá Xiquinho, isto assim não pode ser! Vá, toma lá um bocadinho de pão com queijo, come aqui sentadinho e não abales daqui, porque há aí muitas cobras!
Xiquinho: Mãe, oh mãe, dói-me a barriga!
Mãe: Espera lá Xiquinho, mesmo agora daí vim! Assim não faço mais nada!
Era sempre assim o comportamento do Xiquinho, a todo o momento estava a chamar pela ti Maria da Graça!
No dia seguinte, continuavam na ceifa na herdade do Terraço, depois da ti Maria da Graça tratar do Xiquinho, estendeu a manta no chão para ele ficar a brincar e foi continuara a ceifar, passou-se meia hora, uma hora e o Xiquinho sem chamar a mãe, a situação começou a preocupar a ti Maria e sempre que se dirigia a ele, eram estas as respostas:
Mãe: Então Xiquinho, não queres água?
Xiquinho: Agora não tenho vagar, estou a guardar as minhas ovelhas!
Mãe: Então Xiquinho, não queres pão?
Xiquinho: Agora não tenho vagar, vou dar água às minhas ovelhas!
Mãe: Então Xiquinho, não queres nada?
Xiquinho: Agora não tenho vagar, estou a tosquiar as minhas ovelhas!
A mãe começou a desconfiar que alguma coisa de estranho se estava a passar e decidiu ir ver o que ele estava fazendo, foi pé ante pé por trás dele e ele continuava falando como se estivesse a tratar de ovelhas, tinha um curral feito com pedras para onde estava debruçado e dizia: "Agora, vão comer para ali", vá, vá andando, senão levam com o pau, tinha na mão um pauzinho de um palmo com o qual guiava as supostas ovelhas dele!
Como as "ovelhas" não estavam a obedecer, atirou com o pau para o lado e dirigiu a mão para apanhar as ovelhas e obrigá-las a mudar para o lugar que ele queria! Foi nesse momento que, a mãe viu dois alacraus (lacraus, escorpiões), de ferrão alçado já dentro da mão do Xiquinho, deu um grito que se ouviu por toda a herdade do Terraço e que o assustou, ao mesmo tempo recuou a mão!
A mãe toda frenética pegou numa grande pedra e matou os lacraus, foi quando o Xiquinho começou a chorar, desalmadamente, levando a mãe a pensar que tinha sido ferrado pelos lacraus, começou a gritar a pedir socorro, o pai atirou com a foice foi a correr acudir ao filho, assim como os vizinhos e vizinhas que andavam a ceifar nas courelas em redor, toda a gente foi a tentar ajudar e saber o que se tinha passado! Quando perguntavam, os pais diziam que o Xiquinho tinha sido picado por uma alacrau, mas percorriam a mão e não conseguiam ver nenhum sinal! Por fim, chegou junto deles o ti Fernando Melro, homem com muita experiência nessa matéria e sabedoria em mezinhas, perguntou qual era a mão picada, pegou nela, observou, observou e disse: Nesta mão não lhe picou nenhum alacrau, mostra lá a outra, observou e disse: Nesta, também não lhe picou nenhum bicho, vejam lá noutro lado! Percorreram o corpo do Xiquinho de lés a lés e não encontraram qualquer sinal de picada de alacrau, mas ele continuava em grande pranto!
Como o pai e a mãe continuavam aflitos e a perguntar-lhe onde doía, quando ele conseguiu falar disse: Não dói nada, não dói nada!
Então o pai perguntou-lhe: Xiquinho, se não te dói nada, porque choras tanto?
E o Xiquinho respondeu: Porque a mãe matou as minhas ovelhas!
A causa de tanto choro, estava desvendada e os ceifeiros e ceifeiras voltaram às suas courelas, comentando e rindo do sucedido!
Afinal, o Xiquinho tinha andado a brincar com os alacraus no curral e com eles na mão e não o tinham ferrado, ou porque não os apertou, ou porque estavam cansados de dar tantas ferruadas no pauzinho com o qual ele os picava ou porque, como diz o ditado: "Ao menino e ao borracho, mete Deus a mão por baixo"!
Esta situação deu muito falatório pelas terras de Capelins, a partir daquele dia, o Xiquinho ficou a ser conhecido pelo Xico dos alacraus, mais tarde, o ti Xico Alacrau, assim como, os seus descendentes, entre os quais, o seu filho, o ti João Alacrau, um grande jogador de xito!
Assim, concluímos que, os apelidos nas terras de Capelins, todos tinham uma razão de ser.

Fim 



domingo, 16 de junho de 2019

560 - Terras de Capelins História, lendas e tradições das terras de Capelins A lenda do Torra Migas das terras de Capelins Nas últimas décadas de mil e oitocentos, chegou às terras de Capelins uma Família originária da Freguesia de Corval, com passagem temporária pela vizinha Freguesia de Santiago Maior, onde nasceram três dos seus seis filhos! Como outras Famílias, também esta, se deu muito bem nas terras de Capelins, fixou-se em Montes Juntos e, aqui ficou, embora a sua descendência, naturalmente disseminou-se pelas terras de Capelins e arredores, os filhos foram casando e dando continuidade ao seu ramo familiar, assim como, a outros! Um dos descendentes desta Família, era o ti Manoel António da Rosa, morava em Montes Juntos, era casado com a ti Gertrudes Loureta e, pai de três filhos, trabalhava como jornaleiro no Monte da Talaveira, ia dormir a casa, mas tinha de sair de madrugadas para a herdade da Talaveira, quando lá chegava, antes de saírem para a lavoura, faziam umas migas na casa dos ganhões! Como não era possível cada um fazer as suas, combinaram que, diariamente cada um levava um pão e enquanto os outros emparelhavam as mulas e os bois, o que estava escalado fazia as migas para todos que, eram o seu almoço (pequeno almoço)! Os jornaleiros, andavam no alqueve, primeira lavoura do pousio e, nessa madrugada, calhou ao ti Manoel António a levar o pão e a fazer as migas, os outros trabalhadores estavam muito animados, porque, quando as migas eram feitas por ele, ficavam sempre muito boas, por isso, enquanto emparelhavam o gado da lavoura, iam comentando que era dia de boas migas! O ti Manoel António, colocou a tigela de fogo ao lume em cima da trempe de ferro, deitou duas colheres de banha de porco, foi mexendo para derreter e quando já estava bem quente deitou-lhe alguns bocadinhos de toucinho a fritar, depois tirou-os adicionou dois dentes de alho que foram fritando, sempre mexendo com uma colher de pau, quando os dentes de alho já estavam a ficar alourados, começou a pôr as fatias do pão, uma em cima de outras, sal e uma folha de louro, logo a seguir tirou um quartilho de água quente da panela de ferro e foi deitando por cima das fatias de pão, até ficarem cobertas! As fatias de pão estavam a amolecer, então com grande energia, usando a colher de pau, começou a triturar as fatias de pão, porém, talvez devido ao esforço instantâneo, deu-lhe tão grande dor de barriga que o ti Manoel quase fazia ali, tinha de correr para a casa de banho, no campo, mas as migas estavam num ponto que não as podia abandonar sobre o lume e ainda não estavam em condições de as arredar, tinham de ferver um pouco, então, lembrou-se de chamar alguém para tomar conta das migas, mas os jornaleiros andavam tão entusiasmados nas suas tarefas que não o ouviam, tirou alguns tições para enfraquecer o lume e correu para trás de um cabanão, mas a dor era tão forte que demorou muito mais tempo do que ele esperava! Quando se conseguiu desembaraçar da situação, foi a correr para a casa dos ganhões, mas já era tarde, cheirava a migas queimadas, porque, estava um madeiro na cabeceira do lume que tomou muita força e as migas desse lado e do fundo da tigela de fogo, já estavam queimadas! O ti Manoel da Rosa ficou numa grande aflição, sem saber o que fazer, não tinha pão, nem tempo, nem tigela de fogo para fazer outras migas e os trabalhadores estavam mesmo a chegar e, chegaram naquele momento, entraram fazendo grande alarido, mas deram um passo atrás e disseram: "Ai valha-me Deus, as nossas migas arderam"! Foram entrando e estava o ti Manoel com a cabeça entre as mãos, sem conseguir falar! Os homens, começaram a fazer perguntas todos ao mesmo tempo, queriam explicações sobre o que se tinha passado com as suas miguinhas! O ganhão, estava em frente ao Monte da Talaveira, mas ao ouvir tanta gritaria, correu para a casa dos ganhões, mas não foi preciso perguntar nada, o cheiro a migas torradas explicava tudo! O ganhão acalmou os homens e pediu ao ti Manoel para contar o que tinha acontecido! O ti Manoel contou tudo com muita calma e tristeza que, os homens compreenderam a situação, mas continuaram inquietos, porque, não tinham mais nada para comer! O ganhão contou-lhe que já tinha assistido várias vezes a casos iguais e as migas comeram-se bem, porque a parte queimada era só no fundo da tigela de fogo, então pediu ao ti Manoel para distribuir as migas pelos pratos sem afundar a colher, para não apanhar a parte queimada! O ti Manoel foi tirando as migas com muito cuidado e os homens começaram a comer, um pouco desconfiados, mas não demoraram em confirmar que, estavam boas, quase não sabiam a queimado! A parte queimada ficou agarrada ao fundo da tigela de fogo, mas alguns homens não resistiram em a raspar com a colher, começaram a comer e a dizer que sabia muito bem, era melhor que pão torrado, comeram todos, até ficar tudo limpo e o ti Manoel ficou muito aliviado! A seguir, foram para o trabalho e o tema da conversa do dia, foram as migas do ti Manoel! Alguns, por brincadeira começaram a chamar-lhe o ti Mnoel Torra Migas, como ele achou graça, também por se sentir aliviado por a situação se ter resolvido, então, não nunca mais se livrou desse apelido, assim como, os seus filhos, entre eles, o ti António Torra Migas, o grande jogador de xito e, ainda há poucos anos, existia esse apelido, os "Torra Migas", nas terras de Capelins.
Fim

Talaveira


sábado, 15 de junho de 2019

559 - Terras de Capelins
História, lendas e tradições das terras de Capelins
A lenda do torneio dos empatados, do xito, nas terras de Capelins
O jogo do xito, era o mais popular dos jogos nas terras de Capelins e, tal como todos os outros, também viciava, por isso, muitos jogadores, passavam tardes e noites sem arredar pé das tabernas, onde o mesmo era jogado, rematado com um copo de três!
Era frequente haver picardias entre jogadores e seus adeptos que defendiam os que eles achavam ser os melhores jogadores de xito das terras de Capelins, assim, quando os afamados jogadores se encontravam, ou faziam por se encontrar nas tabernas, era jogar, jogar, até o taberneiro fechar a porta e os mandar embora!
No dia 13 de Abril de mil novecentos e dezanove, há cem anos, era Domingo de Ramos, pelas quatro horas da tarde, juntaram-se na taberna do ti Xico Borralho em Capelins de Baixo, alguns dos melhores jogadores de xito das terras de Capelins, entre eles, o ti António Torra Migas, o ti Zé Borralho, o ti João Alacrau o ti Miguel da Rosa e, dois bons jogadores de Montes Juntos, o ti Zé Caeiro e o ti Manoel Jorge, também esperavam uma das melhores equipa da Aldeia de Cabeça de Carneiro, mas acabaram por não aparecer!
Naquele momento, estavam outros jogadores a jogar ao xito, os jogadores antes nomeados, foram-se aproximando para ganhar lugar, não pediram licença, mas à sua maneira, começaram a pressionar para os pôr dali a mexer e, assim que uma equipa ganhou a partida, deixaram o campo livre aos mestres!
As três equipas já formadas, podiam jogar em simultâneo, mas combinaram jogar duas a duas, depois, a que perdesse a partida, saía e entrava a outra!
Antes do início do torneio, já estavam rodeados de adeptos do jogo do xito que, não queriam perder a oportunidade de assistir aos bons jogos que se adivinhavam! De entre os espetadores, instalaram-se em lugar privilegiado, alguns jogadores do jogo do xito mais idosos que, decerto seriam chamados a intervir nas decisões polémicas sobre, de quem seria o ponto, os quais, eram árbitros de muito respeito!
Os jogadores prepararam-se, fizeram os seus rituais, uns benzeram-se, outros esfregaram as mãos e os dedos em aquecimento, outros mediram várias vezes a distância entre a calha e a pedra de xisto e, por fim, despiram a manga da maruja do braço que iam usar para atirar o vintém ao xito e ficaram prontos a começar!
Três jogadores, um de cada equipa, atiraram o vintém ao xito para tentar que ele ficasse o mais próximo possível da cama, porque, seria dessa forma que se iam encontrar as duas equipas iniciais, assim como, o jogador que começava o jogo!
O ponto tirado por cada jogador, ditou que, a equipa nº 1 era a do ti António Torra Migas e do ti Zé Borralho, a equipa nº 2 era a do ti João Alacrau e do ti Miguel da Rosa e a equipa nº 3 era a do ti Zé Caeiro e do ti Manoel Jorge de Montes Juntos!
Com a ajuda dos jogadores anciãos, lembraram-se algumas regras a ter em conta, combinaram jogar seis partidas, depois, se estivessem todos de acordo, mais seis, jogando as equipas duas a duas, a que perdesse, daria sempre o seu lugar à outra que, estava de fora!
Começaram a jogar a equipa do ti Torra Migas com a do ti Alacrau, ficando de fora a equipa de Montes Juntos, do ti Zé Caeiro!
Os olhos dos assistentes pareciam guiar os vinténs, numa fração de segundo, percorriam a distância entre a mão do jogador de onde partia o vintém até ao xito, alguns, estavam tão concentrados que, pareciam ser eles o jogador, fazendo o gesto de atirar o vintém!
Durante a primeira partida, não houve uma jogada que não fosse envidada, revidada e datas, não se notou nenhuma diferença entre as duas equipas, mas a partida foi ganha pela equipa do ti Torra Migas! Assim, esta equipa, continuou a jogar, com a equipa de Montes Juntos, do ti Zé Caeiro! Os jogos, continuaram sem alteração em relação aos anteriores, sendo esta partida novamente ganha pela equipa do ti Torra Migas!
Aqui, fizeram um intervalo, foram ajustar contas ao balcão, beberam um copo de três cada um, acompanhados com petisco, metade de uma batata frita para cada um e uma migalhinha de pão!
A seguir, continuou a jogar a equipa do ti Torra Migas com a do ti Alacrau que jogaram de igual para igual, mas a partida foi ganha pela equipa do ti Alacrau que, continuou a jogar com a equipa de Montes Juntos do ti Zé Caeiro, ganhando esta partida a equipa do ti Zé Caeiro!
Os jogadores fizeram mais um intervalo, foram, novamente encostar a barriga ao balcão, acertaram as contas, beberam mais um copo de três com metade de uma batata frita de petisco, aproveitando para discutir sobre as boas e menos boas jogadas das partidas já ganhas e perdidas!
O torneio continuou, quando chegaram ao fim das seis partidas, as equipas estavam empatadas, tinham ganho duas partidas cada uma, logo, estavam num dilema, ou ficavam assim, sem chegar à conclusão sobre quem eram os melhores jogadores ou, continuavam a jogar mais seis partidas! Foram todos de opinião que, deviam continuar a jogar mais seis partidas, seria a única forma de desempatar, embora, a equipa de Montes Juntos estivesse com pouca vontade, porque, estava a fazer-se tarde e ainda estavam muito longe da ceia (jantar), mas acabaram por aceitar!
Começaram de novo, um jogador de cada equipa jogou para o ponto, para definir as duas equipas que começavam a primeira partida, desta vez, ficaram apuradas para iniciar, as equipas do ti Alacrau e do ti Zé Caeiro! As jogadas continuaram iguais às anteriores, se uma equipa envidava, a outra revidava, sendo, neste caso, a partida ganha pela equipa do ti Alacrau!
A seguir, entrou em jogo a equipa do ti Torra Migas a jogar com a do ti Alacrau, sendo mais uma vez a equipa do ti Alacrau a vencedora, somando duas partidas, das seis que estavam em jogo!
Deu entrada no jogo a equipa do ti Zé Caeiro, já por ali se dizia que a equipa do ti Alacrau decerto ia ganhar o torneio, mas ainda estavam muitas partidas em disputa, era muito cedo para aclamar vencedores e, na verdade, nesta partida o ti Manoel Jorge, numa jogada envidada e revidada, conseguiu tirar o vintém ao ti Miguel Rosa que, estava tapando a cama do xito, mandando a equipa do ti Alacrau para fora!
Fizeram mais uma pausa, foram beber mais um copo de três, com meia batata frita e discutir como tinham sido as jogadas e como podiam ter sido, não demoraram em continuar, porque, estava chegando a hora da ceia!
Entrou em jogo a equipa do ti Torra Migas para jogar com a equipa do ti Zé Caeiro, notava-se cada vez mais concentração, todos jogavam muito bem, mas só uma equipa podia ganhar a partida e, ganhou a equipa do ti Torra Migas!
A situação estava a ficar muito difícil para as equipas do ti Torra Migas e do ti Zé Caeiro, bastava a equipa do ti Alacrau ganhar esta partida e estavam encontrados os campeões do torneio!
Cada vez assistiam a melhores jogadas de parte a parte, mas a equipa do ti Torra Migas acabou por ganhar a partida, eliminando a hipótese da equipa do ti Alacrau ser a vencedora do torneio, agora só a equipa do ti Torra Migas podia ser a vencedora ou, ficariam novamente todas empatadas!
A maioria dos espetadores já tinham debandado à procura da ceia (jantar), só ficaram cinco ou seis, porque eram seareiros e, um ou outro que andava de "boa vida", (desempregado)!
A equipa do ti Torra Migas e do ti Zé Caeiro, deram tudo o que podiam, mas numa jogada de grande mestria, o ti Zé Caeiro ganhou o jogo que lhe deu a partida, ficando cada equipa com duas partidas e, novamente empatadas!
Dirigiram-se ao balcão e o ti Zé Caeiro e o ti Manoel Jorge, beberam mais um copo de três, fizeram contas com o ti Xico Borralho, despediram-se, agradeceram aos companheiros e, foram em passo de corrida, por Calados, Monte da Capeleira, até suas casas no Salgueiro!
Os jogadores das duas equipas de Ferreira de Capelins, ficaram encostados ao balcão a discutir as jogadas que podiam ter sido diferentes e podiam ter ganho e não ganharam!
Depois de beberem mais um copo, decidiram continuar o torneio entre as duas equipas, mais seis partidas, concluíram que, como eram só duas equipas depressa resolviam a questão e ficava decidido quem eram os campeões do torneio! O ti Xico Borralho, ainda abanou a cabeça em sinal negativo, estava muito cansado e cheio de sono, mas como o irmão, o ti Zé Borralho decidiu que, continuavam a jogar, não se atreveu a negar!
As duas equipas, tiraram o ponto para decidir qual jogava em primeiro lugar e, saíu a jogar a equipa do ti Alacrau! As equipas jogaram, jogaram, jogaram e as partidas acabavam sempre empatadas!
Já eram mais de 10 horas da noite e, o ti Xico Borralho já dormia em pé, quando se sentava, ficava logo a ressonar, incomodando os jogadores que, levavam o tempo a chamá-lo para o acordar, entre eles, o irmão, o ti Zé Borralho, que o chamava:
Ti Zé: Oh Xico, Xico, vai lá encher os copos, homem!
Ti Xico: O que foi, o que foi? Deiixa-me lá tratar do bacro!
Ti Zé. Qual bacro, nem bacro, aqui não há bacros, só se fores tu! Enche lá os copos e cala-te!
Ti Xico: Já encho, já encho irmão, já encho! Estava a sonhar que estava a fazer a travia do meu bacro! Como é que está o jogo? Ainda demoram muito?
Ti Zé: Está tudo empatado! Já não demoramos nada! Vá, enche lá os copos!
Ti Xico: Já estou enchendo! Vejam lá se acabam com isso! Já é de mais! Quase um dia e uma noite a jogar ao xito e ninguém ganha! Nunca vi uma coisa destas!
O ti Xico encheu os copos e correu para o banco, sentou-se e ficou logo a ressonar, fazendo tremer a taberna toda!
Assim, é impossível jogar, diziam alguns jogadores, até o xito treme com o ressonar dele, acorda-o lá Zé, despeja-lhe um copo de água pela cabeça abaixo e manda-o dar uma volta à rua!
Ti Zé: Oh Xico, Xico, Oh Xico, acorda lá, homem!
Ti Xico. Espera lá irmão, deixa-me lá acabar de esgalhar a lenha!
Ti Zé: Qual lenha, nem lenha, acorda lá Xico! Não vês que assim não conseguimos jogar!
Ti Xico: Pronto, já acordei! Estava a sonhar que andava a esgalhar a minha lenha nas Areias! Quem está a ganhar? Ainda falta muito? Ai meu Deus, tanto sono que eu tenho!
Ti Zé: Está tudo empatado! Já não demoramos, Xico!
O ti Xico já não ouviu as últimas palavras do irmão, porque, já estava novamente a ressonar!
Os jogadores acabaram a partida empatados e, concordaram todos em acabar o torneio, era impossível continuar a jogar, porque, os roncos do ti Xico, até abanavam o xito!
Assim, terminou o torneio, todos empatados, depois de uma tarde e uma noite a jogar ao xito, não houve vencedores, nem vencidos! Nunca tinha acontecido uma coisa destas, nem aconteceu mais, um torneio com este resultado!
No dia seguinte, nas terras de Capelins, a palavra mais ouvida era: "empatados", alguns, nem tinham tempo de perguntar qual tinha sido o resultado do torneio, ouviam logo, antecipadamente: "Empatados". Ficando na lenda, como o torneio dos empatados.
Fim  


domingo, 9 de junho de 2019

558 - Terras de Capelins
História, lendas e tradições das terras de Capelins
A lenda da cozinheira da herdade do Seixo e, os cães lava loiça
A herdade do Seixo situa-se na Freguesia de Capelins, tinha o seu Monte que, já consta nos Registos Paroquiais desta Freguesia, nos finais do ano de 1600, sempre conhecida na posse da mesma Família, até aos fins do século XIX, com o apelido de "Jorge"!
Em Outubro de 1900, durante as sementeiras, trabalhavam na herdade do Seixo, mais de trinta homens e mulheres, na agricultura, guardadores de gado, nos trabalhos do Monte, criadas de casa, cozinheiras, lavadeiras e outras! Muitos trabalhadores e trabalhadoras eram afilhados e afilhadas da casa, dos lavradores ou dos seus filhos, entre elas, uma cozinheira chamada Maria Joana, filha de um casal de Cabeça de Carneiro que, ali tinham sido criados, a qual, era afilhada do Manoel Jorge, o filho mais velho dos lavradores!
A Maria Joana, era uma rapariga muito arisca, de nariz empinado, tinha metido na cabeça que também era lavradora, devido à proteção que tinha por parte do padrinho, por isso, já tinha vinte e oito anos e, ainda estava solteira, porque, quem ela queria para casar, não a queria e, aqueles que a queriam, ela não os queria, porque eram pobres, era muito difícil de aturar, queria mandar nas outras criadas e criados e, de verdade, fazia só o que queria!
A Maria Joana, era cozinheira por gosto, não queria outros trabalhos e, tinha muito jeito para a cozinha, sendo ela a cozinheira da casa, mas metia-se em todos os assuntos, relacionados com os trabalhos internos do Monte, só não se metia com a lavradora velha que, impunha muito respeito!
Nos trabalhos da sementeira andavam cerca de doze homens que, nessa altura trabalhavam nas terras perto do Monte, então, de madrugada deixavam as panelas de barro com as sopas de grão, feijão, ou couve para a Maria Joana cozinhar ao lume, tinha de olhar por elas, se ferviam, se tinham caldo para não secar ou queimar e, temperar de sal e de azeite se fosse o caso e, arredar do lume quando estivessem cozidas!
Ao meio dia, os homens chegavam à casa dos ganhões, uns andavam a de comer, outros não, migavam pão para uma tigela de barro, deitavam as sopas por cima do pão, comiam tudo e deixavam a tigela e as panelas para a Maria Joana lavar, para servirem à noite ou no dia seguinte, era sempre a mesma rotina!
Quando a sementeira estava a meio, a Maria Joana desapareceu do Monte do Seixo, mas depressa se soube do seu paradeiro, tinha ido à Aldeia de Cabeça de Carneiro, visitar a mãe, já idosa, porque tinham vindo dizer-lhe que, ela estava nas abaladas! Era verdade que, a ti Maria Rosa estava muito doente mas, longe das abaladas, no entanto, a Maria Joana ficou com a mãe mais tempo do que esperava!
Os jornaleiros da herdade do Seixo continuaram a ir jantar (almoçar) e alguns a cear (jantar) ao Monte, as sopas que, na ausência da Maria Joana, eram cozinhadas pela ti Apolónia, uma mulher de Montes Juntos que, também cozinhava bem, mas não tão bem como a Maria Joana com a mão mais pesada para o sal, dando mais sabor às sopinhas! Alguns homens, enquanto comiam, iam fazendo os seus comentários, diziam que, as sopas faziam diferença e desejavam que a Maria Joana voltasse depressa, porque tudo estava pior, até a lavagem da loiça fazia diferença, oh se fazia, alguns estavam desconfiados que a tigela deles, não era lavada por esta cozinheira!
Um dia, a conversa ficou acesa até que, o escamel do Monte, não se conteve e saiu em defesa da ti Apolónia, dizendo que, a loiça agora era bem lavada, a Maria Joana é que nunca a lavava! Alguns jornaleiros não gostaram do que ouviam, troçaram dele e comentaram: Então não se vê a loiça bem lavadinha, pela Maria Joana, até brilha! Porém, o escamel continuou: É como lhe digo, a Maria Joana não lava a loiça, assim que vocês viram as costas põe as tigelas todas no chão, dá um assobio dobrado, chama os cães e são eles que lambem as tigelas, ficam tão bem lambidas que até brilham, deve ser da baba deles, do piloto é de certeza! Depois, é só guardá-las e vocês comem nelas, não avistam a água!
Não sejas mentiroso Miguel! Gaiato dum cabresto, olha do que havia de se lembrar, para meter nojo à gente! Deixa que, quando ela voltar de Cabeça de Carneiro e souber disso, arranca-te as orelhas e põe-te na rua! Oh se põe!
Ah não acreditam em mim? Então, quando ela voltar, depois do jantar (almoço) fingem que se vão embora para o trabalho, mas ficam aí atrás do cabanão, assim que ela assobiar aos cães, vocês vão ver com o seus olhos os cães a lavar a loiça!
Os homens voltaram ao trabalho e, o tema da conversa nessa tarde foi a lavagem da loiça pela Maria Joana, não acreditavam no Miguel, mas ao mesmo tempo tinham dúvidas, assim, pelo sim pelo não, combinaram que iam tirar isso a limpo!
Passados dois dias, a Maria Joana já estava no seu posto de trabalho, os jornaleiros, ao meio dia, lá estavam a jantar (almoçar), quando acabaram, fingiram que iam embora, mas ficaram atrás de um cabanão de onde viam a porta da casa dos ganhões e, viram logo a Maria Joana a colocar as tigelas na rua, em fila, quando acabou, meteu dois dedos na boca e deu um assobio dobrado! Apareceram logo os cães do Monte que, começaram a lamber as tigelas com sofreguidão até ficarem a brilhar! A Maria Joana, veio apanhá-las, para as guardar, mas já o ganhão, o ti Bento estava na sua frente a questioná-la:
Ti Bento: Olha lá, Maria Joana, tu não tens vergonha? Isto é coisa que se faça?
Maria Joana: Oh ti Bento, que conversa é essa? Veja lá como fala comigo! O que é que eu fiz de mal?
Ti Bento: Ainda perguntas? Assistimos todos à lambedura dos cães e sabemos que fazes sempre isto! Ou não te lembras que nunca lavas a loiça, são os cães que a lavam!
Maria Joana: Ah é isso? Então e qual é o mal? Quantas vezes eu já comi em tigelas lambidas por cães e gatos, nunca me fez mal nenhum! Olha se estão finos!
Ti Bento: Pois olha, se tu comes nas tigelas lambidas pelos cães e gatos, a gente não! Ficas a saber que vou fazer queixa ao lavrador!
Maria Joana: Oh ti Bento, vá, vá, mas já vai tarde, ele já sabe há muito tempo! Deixe-se disso e vão mas é trabalhar, senão, eu é que vou contar ao meu padrinho que me ofendeu e, me faltou ao respeito!
Ti Bento: Quem nos faltou ao respeito foste tu, mas deixa lá, Deus não se vai esquecer disto!
A Maria Joana já não respondeu, deu uma gargalhada e seguiu para casa!
O ti Bento e os outros jornaleiros foram para o trabalho, comentando o sucedido e jurando que faziam uma pirraça (partida), para lhe servir de lição!
Uns diziam: Oh ti Bento e se lhe pusermos um lacrau na cama?
Ti Bento: Não, isso é de mais, mas merecia e que ele lhe picasse no tal sítio!
Oh ti Bento, e se lhe enchermos a cama de formigas rabitas?
Ti Bento: Não, mas era isso que ela merecia e que lhe picassem no tal sítio!
Oh ti Bento, e se lhe enchermos a cama de escravelhos mal cheirosos, ou de gafanhotos, ou então um rato, um rato é que era bom! Diziam outros!
Ti Bento: Não, mas ela merecia e que o rato lhe roesse no tal sítio!
Deixem lá isso comigo, a parir de agora, bico calado!
Então, o que lhe fazemos ti Bento? Diga lá! Perguntaram todos!
Já lhe disse que acabou a conversa, bico calado, um dia vão saber! Disse o ti Bento!
A partir dali, mais ninguém falou no assunto!
A pirraça à Maria Joana, parecia estar esquecida, porque, devido às circunstâncias só no ano seguinte se concretizou!
Como o ti Bento, tinha uma irmã, a ti Antónia do Seixo que, era criada lá no Monte e conhecia o caso da lavagem da loiça pelos cães, ele pediu-lhe para o ajudar a fazer a pirraça à Maria Joana , mas tinha de ser em grande segredo, porque se os lavradores soubessem, podiam ser despedidos!
A irmã do ti Bento fazia tudo pelo irmão e, prontificou-se a ajudá-lo, combinaram que ela ia pôr na cama da Maria Joana, debaixo da roupa, um saco da ração cheio de favas secas, quando elas tivessem na maior força de brotoeja (alergia), ela abafava o saco e ia batendo a roupa da cama para sair o pó que causava a brotoeja e deixava-o estar lá o máximo de tempo possível, sem ninguém desconfiar de nada, muito menos a Maria Joana e os lavradores!
A ti Antónia do Seixo, nem hesitou, disse-lhe logo que fazia isso, era só saber o dia que a Maria Joana estivesse algumas horas fora do Monte e, assim foi!
Na dia em que as favas estiveram abafadas na cama da Maria Joana, à noite mal se deitou e começou logo a sentir uma comichão infernal, não demorou e teve de se levantar, começou a coçar, coçar, coçar, até arranhar a barriga e ficar em sangue! Ainda pensou ser brotoeja, mas tinha a certeza que nesse dia, não tinha estado em nenhum lugar onde havia favas ou cevada, por isso, veio-lhe à ideia que seria alguma moléstia não identificada que se tinha pregado no sangue! Passou a noite em pé a coçar a barriga e, de manhã, não estava melhor, já tinha a barriga inchada! Uma criada foi dizer à lavradora velha o que se passava com a Maria Joana! A lavradora deu ordens para a levarem até ela, olhou as manchas vermelhas, os arranhões da coçadeira e disse: É brotoeja, podes ir!
A Maria Joana, foi tratada com vinagre e outras mesinhas e, começou logo a melhorar, deu voltas e mais voltas à cabeça a tentar lembrar-se onde tinha estado para apanhar a brotoeja, mas não conseguiu encontrar nenhuma explicação, nem desconfiou de nada!
Passaram uns dias e, na noite do baile em Montes Juntos, como sempre, o casão estava cheio e, também lá estavam os criados e criadas do Monte do Seixo, incluindo a Maria Joana! Nesse tempo, nos intervalos das danças quem tinha jeito ia ao centro do casão a cantar ou declamar poemas, geralmente quadras, era um momento muito apreciado e aguardado por toda a gente!
O ti Bento, era um dos poetas populares cujos versos eram muito apreciados, cantava e declamava quadras em todos os bailes, também, nessa noite, lá estava ele a declamar e a cantar várias quadras, por fim, fixou os olhos na Maria Joana que, estava sentada na fila da frente e cantou a seguinte quadra:
Viva a nossa cozinheira!
Pela loiça bem lavada!
Apanhou uma coçadeira!
Que ficou de barriga inchada.
Quando o ti Bento terminou, ouviu-se, imediatamente, uma gargalhada geral e, um grande burburinho no casão do baile, eram as pessoas que, ainda não sabiam o caso da loiça da Maria Joana lambida pelos cães a inteirarem-se da situação, toda a gente ficou a saber e, começaram a surgir tantos comentários que, as Maria Joana teve de se ir embora mais cedo do baile, sobre grande chacota!
O ti Bento fez justiça, a Maria Joana, sofreu grande humilhação, deixou de frequentar os bailes durante algum tempo, perdendo a oportunidade de se mostrar a eventuais pretendentes! Ainda foi fazer queixas do ti Bento ao padrinho, mas este, sabendo como ela era, não lhe deu ouvidos!
A Maria Joana, nunca soube como apanhou a brotoeja e acabou por casar dois anos mais tarde, já com trinta anos, mas com um homem viúvo, pai de dois filhos e, não era rico, aconteceu tudo ao contrário do que ela tanto procurava,mas de forma errada! Depois, ainda foi mãe de dois filhos, mas parece que, nunca foi muito feliz devido à sua maneira de ser que, nunca mudou, até ao fim dos seus dias.
Fim
Era aqui o Monte do Seixo - Capelins  



segunda-feira, 3 de junho de 2019


557 - Terras de Capelins 
A lenda da reconquista da vizinha Villa Medieval de Monsaraz em 1384
A lenda da Reconquista do Castelo de Monsaraz com a Ajuda de Seis Vacas 
Após o falecimento do rei D. Fernando, em 22 de Outubro de 1383, a herdeira direta do trono de portugal era a sua legítima filha Dª Beatriz que, estava casada com D. João I de Castela, logo a Nobreza portuguesa ficou alarmada com o perigo do Reino de Portugal ser anexado ao reino de Castela, surgindo a chamada crise política de 1383-1385! 
Algumas Praças portuguesas apressaram-se a aclamar Dª Beatriz, colocando-se a seu lado, entre essas Praças foi a de Monsaraz, cujo Alcaide era D. Gonçalo Rodrigues de Sousa! 
Como sabemos, a situação política levou outro rumo, com a aclamação do Mestre de Avis que, veio ser o rei D. João I, assim, as Praças que estavam ao lado de Dª Beatriz desistiram e aclamaram, imediatamente D. João I, mas D. Gonçalo Rodrigues de Sousa, sabia que, os castelhanos mais cedo ou mais tarde, entrariam em Portugal e, pensou que, facilmente tomavam este Reino, por isso, tentou resistir e, não entregou o Castelo de Monsaraz ao nosso rei D. João I! 
O rei de Portugal, em 1384, chamou D. Nuno Álvares Pereira à sua presença, em Évora e, disse-lhe que fosse reconquistar Monsaraz e passar um corretivo ao seu Alcaide, pelo seu desrespeito ao Reino de Portugal. 
D. Nuno Alvares Pereira, saiu de Évora com um pequeno exército e dirigiu-se a Monsaraz, pediu para o Alcaide lhe abrir as portas do Castelo e entregar a Praça, a qual, era do Reino de Portugal! O Alcaide negou-se a cumprir a ordem, mandando fazer algumas manobras de intimidação que, fizeram arredar o exército do futuro Condestável até ao Telheiro, onde se instalaram para organizar uma estratégia de ataque ao Castelo de Monsaraz, mas a primeira medida foi cercá-lo, para não deixar entrar água, comida, armas, nem ninguém! 
D. Nuno Álvares Pereira, reuniu-se com os mestres de guerra para ouvir as suas ideias, mas nenhuma tinha lógica na conquista de uma das Praças mais difíceis de conquistar, só encontravam uma maneira, era cercar Monsaraz até à sua rendição, mas isso, podia levar muitos meses e não existia exército disponível para isso, porque sabiam que a invasão das tropas castelhanas estava para muito breve, mas não podiam deixar Monsaraz entregue ao Alcaide, porque esta Praça podia tornar-se uma base operacional dos castelhanos! 
D. Nuno Álvares Pereira, tinha a sua tenda instalada no Telheiro, onde fazia as reuniões, comia e dormia, era aqui, que dava voltas à cabeça sobre a maneira de entrar o mais rapidamente possível no Castelo de Monsaraz, mas não conseguia encontrar uma solução! 
A população e lavradores das redondezas, davam apoio incondicional às tropas de D. Nuno Álvares Pereira, empenharam-se a fornecer informações sobre os mantimentos que podiam existir dentro do Castelo, sendo opinião geral que, teriam água e comida para cerca de um mês, mas para D. Nuno Alvares Pereira era tempo de mais para o exército ali permanecer! 
Os dias iam passando, D. Nuno Álvares Pereira estava cada vez mais impaciente, todos os dias mandava mensageiros ao Alcaide com promessas que, no caso de se render, não seria molestado, ainda seria recompensado, porque prestaria um bom serviço ao rei, mas a resposta era sempre a mesma, não se rendia, porque a Praça era de Dª Beatriz! 
Numa noite, estava D. Nuno Alvares Pereira, na sua tenda, depois de passar pelas brasas, surgiu-lhe uma ideia que, correndo bem, podia ser a solução para tomar o Castelo de Monsaraz! De madrugada mandou chamar um lavrador do Termo de Monsaraz que, tinha grande manada de vacas, contou-lhe o que estava a pensar fazer, pedindo-lhe a sua ajuda, disse-lhe que bastava emprestar-lhe seis vacas, com aparência de mansinhas, mas na realidade, tinham de ser loucas, que não se deixassem apanhar de maneira nenhuma, depois, durante uma noite bem escura, levariam-nas, esfaimadas, a pastar para as portas do Castelo, onde havia muito boa pastagem, como o Alcaide, decerto, já tinha poucos mantimentos, ambicioso como era, para resistir, até à chegada dos castelhanos, não hesitaria em as tentar recolher, mas para isso, tinha de mandar abrir as portas do Castelo, seria nesse momento que, um grupo dos melhores homens de D. Nuno, antes bem escondidos no meio das ervas e mato, entravam, não deixando fechar as portas, até à chegada do exército que, já teria preparados os melhores ginetes e cavaleiros que voavam do Telheiro a Monsaraz! 
O lavrador, achou a ideia muito boa e, foi logo escolher as vacas malucas da sua manada, depois, estudaram as fases da lua, para escolher a noite mais escura em que deviam levar as vacas sem serem vistos, fizeram passar muita fome às vacas, para as mesmas, se deitarem à erva sem abalar das portas do Castelo! 
Os homens bem armados e bem escondidos, ficaram à espera do que podia acontecer, quando de manhã, o Alcaide descobrisse as vacas! Não foi necessário esperar muito, ao raiar da aurora já havia burburinho, os homens do Alcaide andavam em volta do Castelo a observar se existiam movimentos estranhos, sendo o aparecimento das vacas, logo transmitido ao Alcaide, o qual, tal como, D. Nuno Alvares Pereira pensou, reuniu-se com os seus homens e decidiram consultar os seus cúmplices avistados no lado de Castela, no Castelo de Cuncos, os quais, recolhiam informações na retaguarda das tropas portuguesas e, transmitiam para Monsaraz, através de sinais de bandeiras! 
Quando a visibilidade o permitiu, os homens do Alcaide, pediram informações através das bandeiras, perguntaram como estava a situação, quanto ao cerco? Os cúmplices, responderam logo, que tinha havido mudança, quase não havia homens no cerco, tinham recolhido ao Telheiro, estavam a levantar as tendas, dando sinais que, pelo menos parte do exército devia abandonar aquele lugar, porque, os exércitos castelhanos já estavam perto do reino de Portugal! 
Esta informação, foi logo transmitida ao Alcaide, o qual, mandou que perguntassem, quanto tempo levaria o exército castelhano a entrar no reino de Portugal! 
A resposta foi rápida, mas não agradou ao Alcaide, os cúmplices, responderam que, nunca menos de um a dois meses, porque, ainda havia muita logística a preparar! O homem ficou aterrado, mandou reunir os seus homens e disse-lhe que abrissem bem os olhos, porque estava muito desconfiado que, as vacas era um isco do inimigo, para lhe abrir as portas do Castelo, mas se de verdade, o exército estava no Telheiro e uma parte em marcha para norte, se alguma coisa corresse mal, nunca chegariam a tempo de impedir o fecho das portas, mas continuava desconfiado e a dizer para abrirem bem os olhos não estivessem alguns homens mais próximos! 
Os homens do Alcaide, passaram toda a manhã a observar metro a metro, as imediações do Castelo! As vacas encheram bem a barriga de boa erva e, nem a propósito, deitaram-se mesmo encostadas à porta do Castelo, os homens do Alcaide não queriam acreditar, até pulavam de contentes, alguns já estavam a comer bifes e outros a molhar sopinhas no petisco, diziam ao Alcaide que era só abrir a porta e elas caiam lá dentro, não havia nenhum perigo, não podia desperdiçar aquela dádiva, era a única forma de aguentar a Praça até à chegada das tropas castelhanas! Tanto insistiram que, o Alcaide convencido que não havia perigo, mandou abrir as portas do Castelo de par em par para a entrada triunfal das vaquinhas, as quais, como sabemos, não batiam bem, pareceu-lhe tão mal, serem incomodadas na ruminação que, quando as mandaram levantar, começaram a soprar e a esgravatar, levantaram o rabo e pareciam que tinham asas, correndo pelo outeiro de Monsaraz abaixo! Os homens do Alcaide, desiludidos por ver o petisco, já certo, a fugir-lhe, começaram todos a correr atrás delas e, nem quiseram mais saber das portas do Castelo! Quando se aperceberam do engano, já era tarde, tinham os cavaleiros do exército de D. Nuno Alvares Pereira, junto deles, nem reagiram e, os homens que estavam escondidos, entraram sem pressa, prenderam o Alcaide D. Gonçalo Rodrigues de Sousa e, estavam a ser aplaudidos pela população de Monsaraz. 
As vacas do lavrador Manoel Souto que, ajudaram a libertar Monsaraz, foram direitinhas à manada, de barriga cheia e com a sua missão cumprida. 
O Alcaide Gonçalo Rodrigues de Sousa é, exatamente do mesmo tempo do Alcaide Pêro Rodrigues (O encerra bodes) do Alandroal e, do Alcaide Álvaro Gonçalves (O coitado) de Vila Viçosa que, ao contrário do citado na lenda, prestaram bons serviços ao Reino de Portugal. 

Fim 


584 - Amigos de Capelins História, lendas e tradições da Villa de Monsaraz A lenda do Fernando, filho do Padre de Monsaraz No an...